A Terceira Margem – Parte CCCV

Expedição Centenária Roosevelt-Rondon  3ª Parte – XIII 

O Cruzeiro, n° 03, 19.01.1972.

Os Cinta-Larga II 

O Cruzeiro, n° 03 – Rio de Janeiro, RJ
Quarta-feira, 19.01.1972

Cinta-Larga ‒ A Pacificação Fracassada   

[Fotos Hélio Jorge Bucker] 

“Às vezes, é mais difícil pacificar um civilizado”.
João Américo Peret, autor desta reportagem, é um sertanista tarimbado, profundo conhecedor dos índios Cinta-Larga e das selvas, onde trabalhou 23 anos

“Os índios estão atacando na estrada perto de Marco Rondon” ‒ repetia Chico Torres, chefe dos garimpeiros no Rio Barão de Melgaço.

Ele chegara em companhia do Sargento Pinheiro, comandante da Base Aérea de Vilhena e que um ano antes, salvara de possível extermínio os moradores da velha estação telegráfica construída pelo Marechal Rondon, onde estávamos. O garimpeiro, que mudou completamente de atitude depois que conseguiu apaziguar os ânimos em Marco Rondon, falava de olhos abertos, contando estórias que mais pareciam fruto de sua imaginação:

Os selvagens, completamente nus, estavam saqueando um caminhão enguiçado perto da gleba Colambra, do sr. Elias Rachid; passei com meu carro a toda velocidade e eles ainda correram atrás, tentando me alcançar. Estão indo para Marco Rondon e a população está em pé do guerra… vai ser uma catástrofe!

Isso ocorria no dia 30 de julho de 1968, às 23 horas. Nesse dia, eu passara separando o material destinado às duas frentes do pacificação da “Operação Cinta-Larga”, programada pela FUNAI: uma, chefiada por mim, saindo de Vilhena [Mato Grosso] e a outra, chefiada por Francisco Meirelles, que sairia de Pimenta Bueno, em Rondônia. Nosso objetivo era a “Cidade de Palha”, composta de 21 aldeias dos Cinta-Larga, a qual havíamos localizado de um avião do Ministério do Interior, na região dos Rios Roosevelt o Capitão Cardoso. Com a notícia trazida por Chico Torres, a empreitada ficaria mais simples para mim. Assim pensava eu, por julgar que entraria em contato com os índios. Meu pessoal auxiliar chegaria somente no dia imediato, mas eu havia separado algum material destinado a brindes para os índios. Então, aceitei a carona oferecida pelo garimpeiro e, já alta madrugada, percorremos os 130 quilômetros que nos separava de Marco Rondon.

FRENTE A FRENTE COM OS ÍNDIOS 

O dia amanhecia, quando consegui convencer os moradores de Marco Rondon de que teria condições de resolver o problema, estabelecendo contatos amistosos com os índios. A tarefa não foi fácil, pois estavam todos assustados e dispostos a emboscar os Cinta-Larga. Nada conheciam de Índios e por isso poderiam provocar sério conflito, mesmo que os índios viessem em missão de paz. A serviço da FUNAI, a finalidade do meu trabalho era pacificar…

E como foi difícil abrandar os ânimos, daqueles “civilizados”!

Consegui uma carona num caminhão gradeado, destinado ao transporte de gado. O chofer, apavorado com a notícia que corria sobre os Cinta-Larga, não quis prolongar por mais tempo sua permanência ali: fechou-se na boleia o só parou quando lhe dei o sinal. O homem baixou um pouco o vidro e perguntou:

‒  Que devo fazer? Estou com um medo danado!

Parecia uma criança assustada. Pedi-lhe que esperasse que eu desembarcasse a minha carga, aconselhando-o, dado o seu visível pavor, a fechar o vidro e seguir em frente.

Foi então que ouvi um tiro de espingarda, vindo da gleba Colambra. Olhei e vi, contrastando com o verde do descampado ao lado da estrada, um grupo do pessoas de pele acobreada, composto de homens, mulheres, crianças e adolescentes. Eram os altivos Cinta-Larga e não traziam armas. Corriam em curto acelerado, tranquilos, sem muita pressa e sem medo. Passaram junto a uma cabana e um dos guerreiros, retirando o próprio cocar, atirou-o, num largo movimento, no interior da cabana, como brinde. O grupo não parou e pouco depois desaparecia na selva. Tudo multo rápido, mas profundamente marcante. Essa a minha Impressão.

Joguei no chão os instrumentos de trabalho que colocara na carroceria do caminhão e pulei… Não queria perder aquela oportunidade. O chofer acelerou a viatura e arrancou. Vi então um homem seminu que vinha correndo no encalço dos índios. Estava desarmado e brandia seu chapéu de palha, tentando atrair a atenção dos silvícolas.

Quando me viu, “Baiano” ‒ como o chamavam na região ‒ veio ao meu encontro. Não sabia que eu era funcionário do Governo encarregado de manter contato com aqueles índios. Propôs-me ele que saíssemos atrás do grupo para dialogar e travar amizade. Enquanto transportávamos o material para a sua cabana, a mesma onde o índio atirara seu cocar, expliquei-lhe o motivo de minha presença ali. E nós dois, carregando ferramentas e utensílios de cozinha, saímos na trilha dos Cinta-Larga.

ASTÚCIA NAS MATAS

Seguimos os vestígios bem visíveis dos índios: galhos o cipós quebrados e papéis cortados para fazer cigarros, talvez apanhados em alguma barraca de branco. A trilha estava fácil demais para um sertanista como eu, tarimbado, com 23 anos de trabalho nas selvas. Investiguei com mais atenção e vi que os rastros deixados eram apenas de dois guerreiros, feitos com o propósito de confundirmos.

Voltamos e encontramos o local exato onde começara aquela farsa. O grosso do grupo tinha seguido em outra direção. Seguindo as pegadas, agora verdadeiras, fomos encontrando objetos que haviam apanhado nos barracos por onde haviam passado e que, a princípio, julgaram ser alimentos: um latão de lubrificante, uma panela com feijão mal cozido, um pouco de café moído e um punhado de sal.

Aquele grupo não conhecia ainda ‒ e nem aceita agora ‒ sal e feijão. Tais iguarias não fazem parte da sua mesa.

A noite já se avizinhava, quando regressamos, sem ter logrado encontrá-los. No barracão de onde partira o tiro, eu soube depois o que acontecera.

Os índios haviam surgido na outra margem da estrada e, tranquilamente, se dirigiram para lá, os moradores eram duas mulheres, um homem e um menino, que buscaram logo refúgio seguro. Os Cinta-Larga “visitaram” a cabana e foram apanhando objetos, colocando em troca alguns adornos. Nem flechas tinham! Na cozinha, foram provando o que lhes parecia comida e recolhiam o que lhes agradava ao paladar. Num dado momento, um índio tentou entrar no quarto onde estavam as mulheres e uma delas, aterrorizada, fez um disparo de espingarda. O homem, escondido na boleia de um velho caminhão, buzinou com insistência. O disparo e o som rouco da buzina assustaram os índios, que saíram correndo.

Um lavrador, que estava na roça, veio correndo para tentar entrar em contato com eles. Foi assim que perdi a grande oportunidade de travar contato com os Cinta-Larga. Mandei uma mensagem para Marco Rondon e continuei na busca pelas imediações. Descobri um valão e ali estavam um arco, duas flechas e uma borduna, que recolhi para facilitar os estudos sobre esses grupos.

Quando, mais tarde, cheguei a Marco Rondon, encontrei novamente a população alvoroçada e preparada para lutar. Um chofer que por ali passara havia dito que os Cinta-Larga estavam atacando nas Imediações, que eu tinha sido assassinado e que os índios, em pé de guerra, haviam queimado as cabanas. Falavam até de um grupo de mais de 200.

O Cruzeiro, n° 03, 19.01.1972.

Tudo fiz para aquietar os ânimos, mas nem a minha presença ali conseguiu convencer os moradores de que nada de grave havia ocorrido. Tive que ir até Pimenta Bueno e trazer o delegado Ladislau Nunes, que, com seu pessoal, conseguiu desarmar homens e mulheres.

OS ÍNDIOS QUE EU VI

Os índios que eu vi eram bastante robustos: mediam aproximadamente 1,70 m de altura, eram espadaúdos, tinham quadris estreitos devido ao uso constante das cintas que lhes dão o nome, pernas finas e cabelos longos sobre os ombros. Aqui cabe uma observação: tais grupos isolados sempre trazem os cabelos compridos e só os cortam em sinal de luto. Isso é válido para homens, mulheres e crianças, com exceção dos jovens no período da puberdade. Os homens traziam no púbis uma proteção de palha nova de buriti, que se assemelha a um pequeno chapéu e desce em tira encurvada. Nos grupos Parintintin tal proteção é chamada de “caá”.

Alguns traziam cocares de penas curtas e braçadeiras estrangulando o bíceps: outros usavam tornozeleiras que pareciam trançada com fios de algodão. Em alguns, notei também que tanto homens como mulheres usavam pinturas de jenipapo, de cor azulada, formando malhas. Alguns traziam colares de sementes ou partículas de coco; outros substituíam a faixa larga da cintura por várias voltas de um cinto de fibras de coco. Algumas mulheres carregavam os filhos escarranchados nas ilhargas e apoiados em uma banda de trançado de fios de algodão, como se fora uma faixa de pano. Todos eram de cor bronzeada.

Naturalmente, esse grupo estava em missão de paz. Os índios de grupos isolados periodicamente abandonam suas aldeias e saem em busca de aventuras que incluem caçadas, contato com brancos, enfim “turismo” à moda deles. Dessas surtidas, a mais perigosa é a aproximação com o branco, que geralmente não compreende as intenções dos índios. O grupo que eu vi não trazia armas e, certamente, todos tinham fome, por se, encontrarem longe de suas aldeias e muito próximos das estradas.

Pela quantidade de aldeamentos que sobrevoamos, pelo tamanho das choças que comportam até 150 pessoas, os índios Cinta-Larga podem ser considera­dos uma nação de grande densidade populacional, não sendo absurdo admitir que sejam superiores a 5 mil, em toda a região onde habitam. Suas aldeias são construídas no meio de uma grande lavoura e gostam de viver em áreas de densas florestas e matas ciliares [vegetação marginal de rios, lagos e lagoas]. Localizam-se principalmente no município de Aripuanã [MT], estendendo seus domínios desde a margem esquerda do Rio Juruena, ultrapassando o Rio Aripuanã, até alcançar a margem esquerda do Rio Roosevelt, já no Território de Rondônia.

A maior densidade do seus aldeamentos está situada entre os Rios Roosevelt e Capitão Cardoso, que depois toma o nome de Tenente Marques, ao Norte de Vilhena. É uma região do boa caça, terra fértil para a lavoura, rica em madeira de lei e seringais, além de minérios, sobretudo cassiterita, ouro o diamante. Seus vizinhos são: os índios Erigpacisá, Arara, Nhambiquara dos vários grupos ‒ Nenê, Tauitê Anuzê, Tagnani e Mamaindê.

Constatamos que as características físicas e culturais dos índios com que os Meirelles conseguiram fazer um contato eventual, os Suruí, são semelhantes aos dos Nhambiquara, o que nos leva a acreditar que pertençam ao mesmo grupo étnico, muito embora o costume do cobrir o sexo seja também encontrado entre os Parintintin do baixo Madeira.

AGRESSIVIDADE VEM DO BRANCO

Possivelmente devido aos grandes desgastes provocados pelos sucessivos contatos com frentes pioneiras, os Cinta-Larga se mostram, às vezes, agressivos.

Tem-se notícia de que esses índios tiveram seu território invadido milhares de vezes. A ambição leva às áreas dos índios toda sorte de aventureiros: gateiros, coletores [borracha, castanha], garimpeiros e grileiros.

As invasões mais conhecidas são as dos Rios Juína-Mirim, Camararé, lkê, Aripuanã, este com três frentes: as do Campo 21, Serra Morena e Dardanelos, além de Pedra Bonita, no Juruena; Roosevelt, Riozinho, Igarapé de Lourdes, os três últimos em Rondônia. É bom relembrar que no passado mais remoto os Cinta-Larga visitarem algumas estações telegráficas instaladas pela Comissão Rondon. Salvo pequenos sustos, não houve atritos. Podem ser citadas as estações de José Bonifácio, Três Buritis, Campos Novos, Barão de Melgaço, Vilhena, todas montadas pelos idos de 1907 a 1910. Quando surgia atrito, este era sempre provocado por pessoas irresponsáveis ou intrujões, como é o caso que relataremos a seguir.

TRÊS BURITIS

Formada a equipe, composta de índios Nhambiquara, saímos de Vilhena em direção à antiga estação telegráfica de Três Buritis. Não foi preciso abrir picadas de penetração, pois seguimos as trilhas abertas, em 1910, pela Comissão Rondon, o que dispensou até mesmo o uso da bússola. Desde os primeiros dias da penetração, começamos a encontrar vestígios da presença, recente, dos Cinta-Larga na região.

Para evitar qualquer surpresa, eu viajava sempre duas horas na frente da expedição. Nos últimos dias de viagem, já perto de Três Buritis, sentimos que estávamos sendo seguidos.

Os índios, nunca se aproximaram, davam apenas sinais de que estavam ali nos vigiando… Finalmente chegamos ao ponto desejado e acampamos ali, nos escombros carbonizados da antiga estação telegrá­fica. Nosso companheiro Nhambiquara Nenê conhecia tudo aquilo, pois trabalhava na estação, que foi queimada, em 1955, pelos Cinta-Larga. Então ele contou:

Os índios costumavam visitar e estação, aonde chegavam de surpresa. Quando chegavam, os brancos já se tinham refugiado em suas casas. Os índios brincavam, carregavam galinhas, mas sem causar qualquer dano físico ao pessoal do Posto. Certa vez, sua chegada foi tão rápida que não deu tempo de fecharem a estação. Os Cinta-Larga entraram, confraternizaram com o telegrafista, visitaram as dependências da casa e apanharam alguma ferramenta. Quando já iam embora, um jovem índio viu um cachorro e gostou dele. O animal pertencia a um garimpeiro que andava por aquela região. O dono maltratava o cachorro, um vira-lata manso que já tinha o rabo e as orelhas cortados. O índio se faz amigo do cão e resolveu leva-lo para a sua aldeia. Aí começou a tragédia: o garimpeiro de maus bofes matou o índio com um tiro nas costas, desencadeando a guerra… Durante a noite os índios apanhavam seus mortos e feridos e os brancos e seus auxiliares Nhambiquaras aproveitavam para fugir. Mas três crianças não puderam escapar e ali permaneceram escondidas. Eram meninas Nhambiquara, que viram quando os Cinta-Larga queimaram totalmente a estação. Quando a estação não era mais que escombros fumegantes, os índios não mais voltaram. As meninas então saíram do seu esconderijo e, viajando sempre durante a noite, seguiram para Vilhena, onde só chegaram duas, pois uma delas morreu de fome pelo caminho.

E aqui o nosso companheiro Nhambiquara termina seu relato.

Prosseguindo em nossa expedição, chegamos à foz do Rio Festa da Bandeira, no Roosevelt. Ali instalamos o primeiro polo de atração. Quando saímos• depois de ter deixado o material para os índios, ateamos fogo ao capinzal para chamar atenção deles. Montamos um segundo polo em Três Buritis e o terceiro no Rio Tenente Marques, usando sempre o processo da queimada para informar aos índios de nossa retirada. Finalmente, chegamos à Vilhena, nosso Centro de Operações.

Estava assim encerrada a primeira etapa do processo do pacificação dos Cinta-Larga. A atração ou pacificação de índios só é completa quando o sertanista vai às suas aldeias, caso ainda não registrado com os Cinta-Larga, até a presente publicação.

O Cruzeiro, n° 03, 19.01.1972.

Possidônio Morreu por Amor aos Índios 

A Selva Ainda Guarda o Segredo do Massacre 

[Texto: Fernando Pinto / Fotos: Eme Nascimento] 

“Escreva dizendo que é mentira morte de maridinho. Loreta”. As mãos do sertanista Francisco Meirelles tremem, ao exibir o telegrama da mulher do repórter Possidônio Bastos, cujo corpo foi encontrado às margens do Rio Roosevelt, num subposto da FUNAI

Escreva dizendo que é mentira morte de maridinho porque agora vou partir para junto dele. Abraços. Loreta”.

As mãos do sertanista Francisco Meirelles tremem quando ele exibe o telegrama da mulher do repórter Possidônio Bastos, cujo corpo putrefato foi encontrado às margens do Rio Roosevelt no dia 22 de novembro, admitindo-se que tenha sido flechado pelos índios Cinta-Larga no dia 15 ou 16, justamente quando o subposto de atração do Roosevelt deixou de se comunicar pelo rádio com o “Posto 7 de Setembro”, da FUNAI, no Parque do Aripuanã, onde vivem cerca de 5 mil índios nas proximidades da divisa de Mato Grosso e Rondônia.

‒  Dona Loreta não quer acreditar, mas infelizmente Possidônio morreu.

Diz Meirelles, justamente ele que amava tanto os índios. Francisco Meirelles já deu mais da metade de sua vida aos índios. Ele tem 64 anos de idade, 36 dos quais dedicou ao serviço público na selva. Como tão longo sacrifício conta tempo dobrado para efeito de aposentadoria, Chico já podia estar descansando há muito tempo com vencimentos integrais, mas ainda continua teimosamente na ativa.

Hoje ocupa a importante função de delegado da 8ª Inspetoria Regional da Fundação Nacional do Índio, no Território Federal de Rondônia. O velho sertanista só não está totalmente feliz porque é obrigado a ficar a maior parte do tempo sentado diante de uma mesa na pequena sala do velho casarão amarelo da FUNAI, localizado numa rua central de Porto Velho.

‒  Preferia estar ao lado de Possidônio na ocasião em que ele foi atacado. Não sei se teria evitado a sua morte, mas eu teria feito qualquer coisa por ele, pois eu o amava tanto quanto amo meu filho Apoema, que também era muito seu amigo.

Os olhos cansados de Chico Meirelles se enchem de lágrimas ao relembrar a figura de Possidônio Bastos, o jovem que abandonou o jornalismo para se dedicar aos índios.

‒  Ele um dia veio fazer uma reportagem aqui e aí se apaixonou pela selva. Isso aconteceu há mais ou menos um ano. Depois ele veio para nunca mais voltar ao Sul e agora vinha também sua mulher Lorota, que mora no Rio.

POR QUE NÃO É FÁCIL SER SERTANISTA  

É preciso ressalvar que há uma ordem do presidente da FUNAI proibindo qualquer tipo de entrevista a jornalistas e o acesso de pessoas estranhas à área dos acontecimentos que culminaram com a morte de Possidônio, além do desaparecimento da índia Arara Maria Agamenon e do telegrafista Acrísio Camilo Lima, que também trabalhavam no subposto de atração do Roosevelt. Francisco Meirelles mostra o rádio de Brasília e justifica com delicadeza “por que não pode falar com repórter”. Mas seu coração é ingênuo como o de um índio, por isso ele continua conversando no melhor tom de entrevistado.

‒  O jovem Possidônio era muito querido por todos, particularmente pelos índios do Parque do Aripuanã. Seu corpo, mesmo putrefato, foi carregado com carinho nos braços dos que o encontraram, que tiveram de caminhar pela selva durante bastante tempo até enterrá-lo no campo de pouso do Rio Roosevelt. E não foram poucas as lágrimas que regaram a estranha morte de meu jovem amigo Possidônio Bastos.

Enquanto não forem recolhidas todas as provas, será prematuro tentar explicar por que, como e por quem Possidônio foi barbaramente trucidado. Sobre a versão de que o jornalista foi morto por civilizados, também é cedo para se fazer comentário, muito embora todos esses detalhes estejam sendo investigados pelas autoridades da 8ª Inspetoria Regional da FUNAI, já agindo com a devida cautela na área vizinha ao Rio Roosevelt.

Todo cuidado será pouco para evitar um possível atrito com os belicosos Cinta-Larga, pois o lema do pessoal da FUNAI é “Morrer se preciso for, matar, nunca!”, legado por Rondon.

MASSACRE É FATO COMUM NA SELVA

No relatório que enviou ao General Bandeira de Mello, Presidente da FUNAI, o sertanista Francisco Meirelles presta contas das providên­cias que estão sendo tomadas para apurar o massacre do subposto de atração do Rio Roosevelt, lembrando que esta não foi a primeira e não será a última demonstração da belicosidade dos índios, que às vezes matam inocentes por causa da ganância de seringalistas e garimpeiros, assassinos e invasores que dificultam ainda mais o já difícil trabalho dos homens da FUNAI.

‒  Em 1941, fui chamado para substituir o saudoso sertanista Pimenta Barbosa, trucidado juntamente com a sua comitiva pelos então ferozes Xavantes da serra do Roncador.

Quanto aos índios Ikorem, mais conhecidos como Cinta-Larga, constituem-se em vários grupos, num total aproximado de cinco mil silvícolas que habitam esparsamente os 32.000 km2 do Parque Aripuanã juntamente com outros cinco mil das tribos Suruí, Araras e Gaviões, num total aproximado de 10 mil índios e 21 aldeamentos. Há cerca de três anos trabalhando junto a esses grupamentos silvícolas, o pessoal da FUNAI conseguiu a façanha de trazer a Porto Velho dois guerreiros Cinta-Larga, que mantiveram encontro oficial com o governador do Território Federal de Rondônia. Posteriormente, foi instalado o subposto de atração do Rio Roosevelt, para onde foi destacado o ex-jornalista Possidônio Bastos, o telegrafista Acrísio Camilo Lima, a índia Arara Maria Agamenon, que funcionava como cozinheira, e mais quatro trabalhadores braçais.

MORTE CONTINUA EM MISTÉRIO 

Quase diariamente Possidônio Bastos se comunicava pelo rádio com seu amigo Apoema Meirelles, filho de Francisco Meirelles, chefe do “Posto 7 de Setembro”, sede da FUNAI no Parque do Aripuanã. Vocacionado para lidar com índios, tanto que trocou o jornal pelo sertão, Possidônio conseguiu conquistar a simpatia de inúmeros silvícolas do Aripuanã, inclusive dos temidos Cinta-Larga. Em setembro último, quando viajou de férias para o Rio, recebeu a honrosa escolta de 17 guerreiros índios, que o levaram pela selva até o campo de pouso de Roosevelt, onde hoje está enterrado. Mesmo admitindo a hipótese de que Possidônio tenha sido morto pelos Cinta-Larga, Francisco Meirelles diz que da última vez, em visita à área do Aripuanã, percebeu a hostilidade de alguns grupos.

‒  Eles também têm os seus partidos subversivos, e é possível que estes índios rebeldes tenham atacado o subposto do Rio Roosevelt. Por enquanto, porém, tudo é mistério.

Quem deverá trazer a resposta do quebra-cabeças é o sertanista Apoema Meirelles, que se embrenhou na mata para encontrar uma pista que explique a morte misteriosa de seu amigo Possidônio Bastos. Uma das chaves do quebra-cabeças se relaciona a dois fatos estranhos: os corpos da índia e do telegrafista ainda não foram encontrados, pôr isso não podem ser dados como mortos; e a “sorte” dos quatro trabalhadores braçais do subposto do Roosevelt, que escaparam pela “coincidência” de dois deles terem ficado doentes e os outros dois deixarem o Rio Roosevelt para transportar os companheiros atacados de malária.

O sertanista Francisco Meirelles, que está com a saúde bastante abalada com a morte de Possidônio, tem certeza de que seu filho Apoema vai trazer uma resposta da selva.

‒  De qualquer forma, Possidónio morreu por amor aos índios. (O CRUZEIRO, N° 03)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 20.09.2021 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia

O CRUZEIRO, N° 03. Cinta-Larga ‒ A Pacificação Fracassada ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ ‒ O Cruzeiro, n° 03, 19.01.1972.

Filmete 

https://www.youtube.com/watch?v=tYkH5YO38IQ&list=UU49F5L3_hKG3sQKok5SYEeA&index=40

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;  

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.  

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