Três indígenas Kanamari testam positivo para Covid-19 dentro do Vale do Javari, no Amazonas

Os casos aconteceram na aldeia São Luís após a remoção de profissionais da saúde apresentarem suspeitas da doença.

A imagem acima mostra vista do rio Javari, no Amazonas, fronteira com o Peru (Foto: Barbara Arisi)

Manaus (AM) – Um dia após a retirada de profissionais de saúde contaminados da aldeia São Luís, na Terra Indígena Vale do Javari, fronteira do Amazonas com o Peru, três indígenas Kanamari testaram positivo para a Covid-19. Segundo a liderança Korá Kanamari, que está na aldeia São Luís, 10 pessoas foram testadas entre sexta-feira (05) e sábado (06).

“Veio uma equipe do Dsei Vale do Javari [Distrito Sanitário Especial Indígena] aqui para fazer o teste. Fizeram em 10 pessoas e, em três, deu positivo: no cacique Mauro, na esposa e na filha dele. Outras cinco famílias são casos suspeitos de estarem com a doença”, disse Korá Kanamari, em entrevista à Amazônia Real neste domingo (07). Segundo ele, todos apresentaram sintomas como febre, dor de cabeça, dor no peito e no corpo, dificuldade de respiração, tosse seca e perda de paladar. Quinze pessoas estão sendo monitoradas.

Embora afirme que apresente sintomas da doença, Korá Kanamari disse que não foi um dos testados. Segundo a liderança, o cacique, que tem idade estimada em 45 anos, e sua família estão sendo tratados e permanecem com saúde estável.

“A família do cacique sentiu febre, dor de cabeça, ficou com corpo doído, inflamação na garganta. Eu mesmo estou assim: dor nas costas, uma dor lá dentro, no pulmão, dor de cabeça totalmente diferente. Coisa que nunca senti. Às vezes me dá frio e febre, mas pouca gripe”, descreveu Korá Kanamari à Amazônia Real.

Os Kanamari receberam a confirmação da chegada da covid-19 como uma “bomba”, segundo a liderança. “Ninguém esperava por isso. Foi um choque e ficamos no chão”, disse Korá.

“Como é uma coisa nova, os parentes não têm entendimento de como reagir. Famílias fugiram, foram se refugiar nas cabeceiras. Estão para lá. Não sabemos se eles pegaram a doença também. Outras ficaram na aldeia, em casa. Está tudo em silêncio aqui.”

Dois dias antes de a equipe de saúde do Dsei Vale do Javari ser retirada às pressas da aldeia São Luís, um enfermeiro que atendia os indígenas começou a sentir os sintomas mais graves do coronavírus. Tão logo houve a confirmação de que os quatro profissionais de saúde do Dsei testaram positivo, em 3 de junho, muitas famílias Kanamari decidiram ir para o meio da floresta. Eles construíram pequenas malocas para permanecerem por tempo indeterminado. “Foi um alvoroço aqui, muitos correram para o mato, com medo”, contou Korá.

Neste domingo, a Associação dos Kanamari do Vale do Javari (Akavaja) e a Associação Matsés do Alto Jaquirana (Amaja) enviaram uma carta-denúncia a várias autoridades, pedindo que seja investigada a proliferação do novo coronavírus na Terra Indígena Vale do Javari, especialmente na calha do Médio Rio Javari.

O coordenador da Akavaja, Higson Dias Kanamari, cobrou esclarecimento das autoridades sobre a situação da pandemia no Vale do Javari. “Precisamos ter certeza de como foi a infecção da comunidade. Temos que ter uma clareza. O Dsei está querendo culpar a gente, dando a entender que fomos nós que causamos a infecção. Mas ele [Dsei] não nos chama, as informações ficam só entre eles” , denunciou a liderança, em declaração à Amazônia Real. (Leia mais abaixo).

O povo Kanamari (autodenominados Tüküna) é um dos seis contatados da TI Vale do Javari. Eles falam uma língua do tronco Katukina e tem uma população estimada em 1.400 pessoas habitando no território. Os Kanamari sofrem com doenças crônicas como malária e hepatite. Também vivem o drama do suicídio em muitas aldeias (leia mais aqui)

O risco de a situação se agravar

A liderança Korá Kanamari, vice-coordenador da Akavaja (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

 

A Terra Indígena Vale do Javari está localizada no estado do Amazonas, fronteira com Peru e Colômbia, em uma área onde praticamente não existe estrutura hospitalar para casos graves de doenças. O território tem uma população estimada em 6 mil pessoas de povos contatados e pelo menos 16 referências de povos isolados. A demanda de doentes pelo coronavírus pode deixar a situação sanitária ainda mais crítica.

“Aqui, praticamente todos apresentaram sintomas. Mas como não há testes suficientes, não sabemos a situação dos outros”, disse Korá. “Essa equipe nova do Dsei que entrou agora [substituindo a que saiu no último dia 4] trouxe 60 testes, mas ainda não sabemos se serão usados na nossa aldeia ou se vão para outras do polo-base de saúde. A nossa maior preocupação é com os velhos e com as crianças.”

A Amazônia Real procurou a Assessoria de Imprensa da Sesai, bem como o coordenador do Dsei Vale do Javari, Jorge Marubo, para obter informações oficiais sobre a situação em São Luís e nas demais aldeias do território indígena, mas não houve respostas até a publicação desta reportagem. A Sesai também não se pronunciou sobre os casos confirmados de Covid-19 entre os Kanamari.

Segundo o boletim da Sesai, há apenas 4 casos da doença registrado pelo Dsei Vale do Javari. Já o boletim deste domingo da prefeitura de Atalaia do Norte, foram confirmados 162 casos de Covid-19 no município; 19 são de indígenas. A informação de lideranças do Vale do Javari é a de que são pessoas que moram na cidade ou estão de passagem, vindo de tratamentos médicos em Tabatinga e em Manaus.

A reportagem também aguarda uma resposta da Fundação Nacional do Índio (Funai) para questionamentos enviados em 4 de junho. Até o momento, o órgão não se pronunciou sobre os casos de covid-19 no Vale do Javari.

Assustadas, famílias Kanamari fugiram para o mato

Aldeia São Luís, do povo Kanamari, no Médio Javari (Foto: Thodá Kanamari)

 

No final de março, vários Kanamari que moravam na sede de Atalaia do Norte, onde fica a TI Vale do Javari, retornaram para as aldeias para se proteger da pandemia. As aldeias Kanamari estão localizadas em três calhas de rios: Itacoaí (onde está a maioria delas), Médio Javari e Jutaí.

No Médio Javari, estão as aldeias São Luiz, Caxias, Irari, Lago Tambaqui e Santo Eusébio, do povo Kanamari; as aldeias Flores, Fruta Pão e Lago Grande, do povo Matsés; e as aldeias Pedro Lopes e Campinas, do povo Kulina.

Segundo Korá, a prevenção para evitar a propagação da doença na aldeia São Luiz tem sido a reclusão nas casas e o uso de máscaras que foram distribuídas pelo Dsei. Mas não há máscara para todos, tampouco seu uso faz parte da cultura indígena.

“É difícil para muitos ter esse entendimento. A equipe de saúde não estava preparada para orientar devidamente sobre essa doença”, afirmou. “O que a gente quer agora é que não haja mais troca de equipes do Dsei nos polos-bases para que eles [profissionais de saúde] não contaminem mais aldeias, como aconteceu aqui e em outras aldeias dos parentes Matsés. Se acontecer, vai infectar mais gente.”

O início do plantio dos roçados, que começa em junho, foi suspenso porque muitos preferiram ficar repousando em casa ou se viram obrigados a se recolher para se recuperar dos sintomas. A alimentação tem sido basicamente pescado, frutos coletados e alguns alimentos que os próprios Kanamari dividem entre si.

“É uma situação totalmente diferente de semanas atrás, quando tudo era festa, brincadeira no terreiro, as crianças correndo e brincando no luar”, relatou Korá.

Organizações divulgam denúncia e cobram autoridades

Indígenas Kanamari, da TI Vale do Javari, no Amazonas (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

 

O coordenador da Amaja, Marcos Pepe, afirmou à Amazônia Real que uma enfermeira do Dsei Vale do Javari foi testada positivo para Covid-19. Ela havia se deslocado até a aldeia São Luís para tratar dos colegas doentes e retornou para a Aldeia Flores (do povo Matsés) com sintomas da doença. Na aldeia Lago Grande, outro funcionário do órgão também sentiu sintomas, segundo ele. “Há bastante pessoas gripadas em Flores, sentindo muitas dores. Não sei se vai ter testes lá.”

A disseminação da Covid-19 para outras aldeias do território indígena Vale do Javari assusta as lideranças e os indígenas. Segundo o coordenador da Amaja, os Matsés da aldeia Nova Esperança, na confluência do rio Curuçá com o rio Pardo, decidiram proibir a entrada da equipe nova do Dsei Vale do Javari na semana passada. “Eles não aceitaram. O enfermeiro que chegou ficou na praia para o barco do Dsei pegar ele. Muitos correram, se espalharam, outros foram para o mato. A aldeia Nova Esperança tem pouca gente agora.”

Na carta enviada para órgãos e organizações como 6ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal, Funai, Sesai, Conselho Nacional de Direitos Humanos, além da deputada federal Joênia Wapichana (Rede),  a Akavaja e a Amaja questionam a ação do Dsei Vale do Javari e a forma como as ações de prevenção têm sido realizadas.

“Segundo o Dsei, os profissionais da saúde e motoristas realizam quarentena na cidade antes de entrar nas aldeias. Porém, nós questionamos se a quarentena na cidade seja efetiva, devido que nenhum motorista cumpre com a quarentena. Durante o seu período de isolamento ficam transitando pelas cidades de Atalaia do Norte, e também pelos municípios próximos, onde o fluxo de contágio da pandemia já se tornou comunitário, e muitos deles acabam descumprindo os protocolos estabelecidos”, diz a carta.

As duas organizações cobram transparência da Sesai e esclarecimento sobre como se deu o contágio da doença. Também exigem que a quarentena dos profissionais de saúde seja feita dentro da Terra Indígena, mas distante das aldeias. Segundo as lideranças, havia entendimento entre os indígenas, a Funai e a Sesai que a quarentena deveria ocorrer na antiga sede da Base de Proteção Etnoambiental (BAPE) do Rio Quixito, o que acabou não acontecendo.

As organizações também pedem o cancelamento das trocas de equipe até início de agosto para evitar o contágio. Que haja testes suficientes e equipamentos adequados com o objetivo de evitar a remoção de indígenas para Tabatinga ou Manaus, “que sabemos que tem capacidade limitada de atendimento e alta probabilidade de contaminação”, diz trecho.

Outra demanda das associações é por Equipamento de Proteção Individual e itens de higienização. Preocupados com outra área onde há aldeias Kanamari, as organizações exigem da Sesai e Funai informações sobre ações na aldeia Jarinal, onde também vive o povo Tsohom Djapá, de recente contato.

Moradia de aldeia Kanamari, na Terra Indígena Vale do Javari (Foto: Bruno Kelly/Amazônia Real)

 

Em nota, a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) também denunciou o avanço da Covid-19 entre os povos do território e denunciou o governo brasileiro e a negligência da Sesai e da Funai para lidar com a pandemia. “As lideranças das aldeias já tinham informado o DSEI Vale do Javari sob a negativa da rotatividade de equipes de saúde em nosso território. Mesmo assim e com o perigo iminente, adentraram teimosamente nossas aldeias”, diz trecho da nota.

“Embora a Univaja tenha denunciado e alertado estas situações, os órgãos oficiais esperaram acontecer o avanço da Covid-19 nas aldeias, para tomar as providências necessárias. Por uma parte, a Funai alegava falta de equipe e de recurso para a vigilância e monitoramento do território e, a Sesai insistia no isolamento dos profissionais na cidade, que evidentemente não foi eficaz”, completa a Univaja.

Perícia da PGE relata risco de contaminação

Maloca do povo Korubo (Foto: Fabrício Amorim/Acervo CGIIRC Funai/2012)

Uma investigação da Secretaria de Pericia, Pesquisa e Análise da Procuradoria Geral da República (PRG), em um documento assinado pelo antropólogo Walter Coutinho no último dia 5 de junho, alerta para o risco das equipes de saúde do Dsei Vale do Javari ser uma fonte grave de disseminação da doença entre os indígenas em várias calhas do território, inclusive entre os grupos de recente contato.

O documento afirma que “os sete primeiros casos de contaminação admitidos pelo DSEI Vale do Javari ocorreram fora dos limites da TI Vale do Javari, processando-se em indígenas que se encontravam referenciados, sob a responsabilidade dos serviços de saúde da própria Sesai, em funcionários do próprio Distrito Sanitário ou em indígenas em trânsito”. Entre os casos notificados, segundo o autor, “destaca-se aquele ocorrido com uma criança Korubo, integrante de um povo indígena de recente contato”.

“Embora ainda não tenha sido constatado [até o dia 5] nenhum caso no interior da TI Vale do Javari, há fortes evidências de que a doença possa ser (ou já tenha sido) introduzida entre os povos indígenas do DSEI Vale do Javari – assim como ocorreu, de fato, no DSEI Alto Rio Solimões – pelos profissionais de saúde e/ou funcionários do próprio Distrito Sanitário”, alerta o documento enviado à 6ª Câmara da PGR..

Por: | 07/06/2020 às 18:15

PUBLICADO EM:               AMAZÔNIA REAL 

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