Hidrelétricas e o IPCC: 19 – A sociologia da ciência

17 de Maio de 2017  - Jaime de Agostinho

Tanto a pesquisa científica quanto a sua interpretação para políticas públicas são feitas por seres humanos que agem dentro do contexto de seus ambientes sociais e institucionais. A revista Climatic Change organizou um debate sobre as emissões hidrelétricas entre este autor [1, 2] e o então presidente da ELETROBRÁS [3, 4]. O debate foi arbitrado por Cullenward e Victor [5], que apontou que “uma grande proporção do trabalho publicado neste campo vem diretamente de pesquisadores ligados a empresas de hidroeletricidade, como a Eletrobrás ou Hydro-Québec”, e como resultado sugeriu que “um mecanismo é necessário para remover qualquer mancha de interesse para que projetos de MDL [mecanismo de desenvolvimento limpo] e inventários nacionais possam ganhar confiança.   Leia mais »

Hidrelétricas e o IPCC: 18 – A suposição de zerar emissões

10 de Maio de 2017  - Jaime de Agostinho

A ideia de que emissões hidrelétricas declinam inexoravelmente até zero é enganosa. Um forte declínio nas emissões de gases de efeito estufa nos primeiros anos de vida de um reservatório é um padrão bem conhecido, mas isso não significa que as emissões sempre continuam a declinar até que atinjam um nível praticamente zero. As emissões podem estabilizar em um nível bem acima de zero em casos onde existe uma fonte renovável de carbono, tal como a inundação anual de vegetação herbácea na zona de deplecionamento, quando o nível da água é elevado na estação chuvosa. 

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Hidrelétricas e o IPCC: 17 – A suposição de sedimentação

2 de Maio de 2017  - Jaime de Agostinho

A Associação Internacional de energia hidrelétrica tem argumentado que barragens podem ter um efeito positivo através da captura de carbono nos sedimentos depositados em reservatórios, impedindo assim que este carbono seja emitido para a atmosfera (e.g., [1]). Os sedimentos no reservatório contém carbono [2]. No entanto, o carbono em sedimentos é uma espada de dois gumes, pois esta também é a fonte de carbono para metanogênese nas condições anóxicas no fundo de um reservatório.

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Hidrelétricas e o IPCC: 16 – A suposição de zonas úmidas

2 de Maio de 2017  - Jaime de Agostinho

O efeito líquido de uma barragem é a emissão dela, menos o que teria sido emitido pelo ecossistema sem a barragem, incluindo a floresta na área inundada pelo reservatório. A Associação Nacional de Hidrelétricas dos EUA (US-NHA) reagiu à primeira publicação deste autor com resultados indicando emissões elevadas de barragens da Amazônia [1], declarando “é bobagem e é muito exagerado… O metano é produzido de forma substancial na floresta tropical e ninguém sugere derrubar a floresta tropical” (ver [2]).

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Hidrelétricas e o IPCC: 15 – “Catação de cerejas” de barragens

19 de Abril de 2017  - Jaime de Agostinho

O “cherry picking” [“catação de cerejas”], ou seja, selecionar apenas os casos que confirmam a conclusão, é uma forma que as estimativas das emissões de hidrelétricas podem ser minimizadas. No Brasil, a hidrelétrica de Balbina, que tem emissões muito altas de metano, não foi incluída na tabulação de barragens no primeiro inventário nacional do país ([1], p. 154; Ver também [2]), embora os autores do estudo tivessem publicado anteriormente dados da emissão da superfície da barragem [3]. 

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Hidrelétricas e o IPCC: 14 – A “dívida” de aquecimento global

14 de Abril de 2017  - Jaime de Agostinho

Uma usina hidrelétrica emite grandes quantidades de gases de efeito estufa nos primeiros anos após a sua construção, que cria uma “dívida” de aquecimento global que é lentamente paga na medida em que a eletricidade gerada pela barragem desloca combustíveis fósseis nos anos subsequentes; em contraste com isto, a geração de eletricidade a partir dos combustíveis fósseis emite gases em uma taxa constante, com a emissão ocorrendo ao mesmo tempo em que a eletricidade é gerada. Esta diferença é fundamental em comparações entre barragens e combustíveis fósseis, com qualquer valor atribuído ao tempo pesando fortemente contra as represas [1, 2]. 

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Hidrelétricas e o IPCC: 13 – O horizonte de tempo

5 de Abril de 2017  - Jaime de Agostinho

O horizonte de tempo utilizado é pelo menos tão importante quanto a escolha de uma taxa de desconto, na derivação valores de GWP (sigla em inglês para Potencial de Aquecimento Global) e na contabilização das emissões dos gases de efeito estufa. O Quinto Relatório de Avaliação do IPCC deixa claro que “não há nenhum argumento científico para a seleção de 100 anos, em comparação com outras opções [1, 2]. A escolha do horizonte de tempo é um juízo de valor porque depende do peso relativo atribuído aos efeitos em momentos diferentes” ([3], p. 711-712). 

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Hidrelétricas e o IPCC: 12 – Ignorando o valor do tempo

29 de Março de 2017  - Jaime de Agostinho

O valor do tempo é, talvez, o fator mais fundamental que leva à subavaliação da importância para o aquecimento global das emissões de hidrelétricas. Uma ampla gama de opiniões existe sobre a questão de quanto valor, se houver algum, deve ser dada ao tempo na apreciação do valor dos gases de efeito estufa que são emitidos ou impedidos de serem emitidos. Se uma tonelada de carbono emitida hoje tem o mesmo valor que uma tonelada emitida um século ou mais no futuro é fundamental para decidir o que fazer sobre o aquecimento global, especialmente para as decisões sobre barragens. 

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Hidrelétricas e o IPCC: 11 – Potencial de Aquecimento Global desatualizado

26 de Março de 2017  - Jaime de Agostinho

Na contabilização das emissões sob a UNFCCC, gases de efeito estufa não-CO2 são convertidos em CO2-equivalentes (CO2e) multiplicando o número de toneladas emitido de cada gás por um potencial de aquecimento global (GWP). Cada gás tem um forçamento radiativo característico, que representa a sua eficácia em bloquear a passagem de radiação infravermelha pela atmosfera de forma quase instantânea: forçamento radiativo é o saldo do fluxo de energia na tropopausa (a divisão entre a troposfera e a estratosfera, em aproximadamente 10 km de altitude) causado por uma determinada quantidade de gás após uma demora de “alguns meses” para equilibrar a temperatura estratosférica ([1], p. 170).

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Hidrelétricas e o IPCC: 10 – Concentrações subestimadas de metano

17 de Março de 2017  - Jaime de Agostinho

As estimativas das emissões das turbinas (incluindo as minhas) que usam dados sobre a concentração de CH4 na água à profundidade das turbinas com base em medições em amostras coletadas usando garrafas tradicionais de Ruttner têm subestimado estas concentrações, e consequentemente as emissões, quando a água é liberada abaixo da barragem.

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Hidrelétricas e o IPCC: 9 – Contagem incompleta a jusante

9 de Março de 2017  - Jaime de Agostinho

O que se entende por “emissões a jusante” varia entre autores, o termo às vezes é usado para referir-se à emissão da desgaseificação quando a água emerge das turbinas e para a emissão da superfície da água no rio a jusante da barragem, e, às vezes, o termo é usado somente para o fluxo da superfície do rio a jusante. Medições de fluxo no rio muito abaixo da saída da barragem perderão a maior parte das emissões, que ocorrem predominantemente nos primeiros metros abaixo das turbinas.

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Hidrelétricas e o IPCC: 8 – Turbinas e árvores mortas ignoradas

4 de Março de 2017  - Jaime de Agostinho

Quando a água é liberada a partir das turbinas está sob pressão considerável – por exemplo, no caso Tucuruí, a pressão é de aproximadamente quatro atmosferas devido ao peso da água no nível das entradas das turbinas (atualmente em 40 m de profundidade), além de uma atmosfera de pressão devido ao peso do ar acima do reservatório. Esta pressão é reduzida de repente para uma atmosfera na hora que a água emerge das turbinas, causando uma imediata emissão de gases. Grande parte desta emissão ocorrerá quase que imediatamente.

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Hidrelétricas e o IPCC: 7 – Reservatórios como “áreas úmidas”

21 de Fevereiro de 2017  - Jaime de Agostinho

O IPCC classifica os reservatórios como “áreas úmidas” (“wetlands“), mas uma revisão da seção de áreas úmidas das diretrizes (“guidelines”) de 2006 do IPCC [1] realizada entre 2011 e 2013 excluiu explicitamente da revisão a parte sobre emissões de reservatórios ([2], p. O.4). 

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Hidrelétricas e o IPCC: 6 – As diretrizes de 2006

14 de Fevereiro de 2017  - Jaime de Agostinho

O IPCC produziu um novo conjunto de diretrizes em 2006, que fornece informações para as emissões de reservatório em um apêndice. A 17a Conferência das Partes (COP-17), realizada em Durban (África do Sul) em 2011, decidiu que as diretrizes de 2006 do IPCC seriam usadas para os inventários nacionais começando em 2015 para os países de Anexo I (Decisão 15/CP.17: [1]). Para relatar emissões de metano, o Tier 1 é especificado para incluir apenas as emissões relativamente modestas que ocorrem por meio de difusão da superfície do reservatório. 

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Hidrelétricas e o IPCC: 5 – Emissões de gases nos inventários nacionais

9 de Fevereiro de 2017  - Jaime de Agostinho

As emissões de barragens tropicais representam uma lacuna significativa nos inventários nacionais de gases de efeito estufa compilados para a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC). Pelas diretrizes do IPCC, informações para cada item podem ser relatadas em um de três “tiers“, ou níveis de complexidade metodológica. 

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