A Terceira Margem – Parte CCLXXXVII

Expedição Centenária Roosevelt-Rondon 2ª Parte – XXVII  

Sede da Fazenda São Miguel

Aldeia Utiariti – Fazenda S. Miguel – II  

Luiz Leduc (1907)  

Travessia do Rio Papagaio 

04.11.1907: Depois de todas essas dificuldades, extenuados, estropiados, maltrapilhos e famintos, no dia 4 de novembro, chegamos ao Rio Sauêruiná [Rio Papagaio]. Afinal, chegamos! Nossos soldados puderam, logo, preparar uma boa fogueira, que permitiu armarmos o acampamento, passando, todavia, a noite, nas mesmas condições da anterior. A regra, em viagem, é de atravessar o Rio, fazendo-se o pouso do outro lado, em face de uma possível chuva, que impedisse a travessia no dia seguinte. Nessa ocasião, foi-nos impossível seguir essa regra, em virtude do adiantado da hora e do estado deplorável do pessoal. Nesse dia, uma dúzia de palmitos, sobra ainda do festim de dias passados, acima descrito, mais algumas frutas, maduras ou não, sãs ou bichadas, foi o jantar. Havia fome e cansaço, mas ninguém disse o que sentia, em respeito ao raro valor do nosso Chefe, o Major Rondon, esse grande condutor de homens.

05.11.1907: Felizmente, não havendo chovido, tudo saiu bem, podendo, logo na manhã seguinte, após ser distribuída a escassa refeição a que estávamos reduzidos, atravessar o Rio, contentes, já esperançosos de dias melhores.

Na vinda, havíamos deixado ali uma canoa, desaparecida nessa ocasião, embora a tivéssemos escondido entre a vegetação ribeirinha. Os índios teriam-na descoberto, levando-a dali. Mas, quem pode esconder alguma cousa no mato, que não seja descoberta por esses índios? Para onde levariam os Nambiquara essas e outras canoas não mais encontradas em nossa marcha de volta? Teriam-nas arrastado, escondendo-as no mato, ou teriam-nas solto Rio abaixo? Era preciso passar para a outra margem do Rio. Difícil, mas necessário e não impossível. Meditávamos. Havia, entre nós, meia dúzia de homens ainda suficientemente fortes para essa empresa. No entanto, o Chefe repetiu duas ou três vezes o apelo ao pessoal:

‒  Companheiros, o tempo não espera! Precisamos passar para a outra margem! Mãos à obra! Já passa do meio dia! Vamos adiante!

Nos 3 ou 4 cargueiros que nos restavam, não havíamos deixado perder os couros de bois, que em viagem servem para cobrir a carga, preservando-a das chuvas. Esse couro serve também para fazer o que se chamava de “pelotas” que, numa emergência, substituíam a canoa, para a travessia da bagagem e dos homens que não sabem nadar. A “pelota”, único instrumento de que poderíamos nos valer nessa emergência, em pouco estava construída. O restante de nossas bagagens devia ser atravessada com bastante demora, visto que a “pelota” não comportava senão poucos volumes de cada vez. Também na “pelota” deviam passar os enfermos, que na ocasião pareciam mais depauperados que doentes, os arreamentos, as bruacas, as cangalhas etc. Nossos companheiros, de força e ânimo verdadeiramente esgotados, não se ofereciam ao trabalho. Era necessário o exemplo.

O Major [Rondon] entrou na água e, puxando, por uma corda presa aos dentes, a “pelota” carregada, levou-a à outra margem. Enquanto ia e vinha, os homens válidos preparavam a carga para a viagem seguinte, continuando, assim, até se encontrar tudo na outra margem.

Eram seis horas da tarde quando, terminada a travessia, pôde o Major descansar, o que ainda não havia feito desde que iniciara a primeira travessia. Não mostrava sinais de maior fadiga. (LEDUC)

Amílcar Botelho de Magalhães (1907) 

XI Sauêruiná ou Papagaio – Como os anteriores, este Rio nasce em plena linha divisória do chapadão formado pelas cabeceiras Saueruiná-suê e Zolorê-suê. Este nome foi o de um Cacique célebre, e caracteriza o Caxiniti; um índio Paresí – Caxiniti, ao dar o seu nome, acrescenta: “filho de Zolorê”.

As coordenadas da origem da cabeceira principal, a Saueruiná-suê, são: Latitude 14°30’ S; Longitude [Rio de Janeiro] 15°50’ O. É seu contravertente o braço mais oriental e setentrional do Jauru, cujas cabeceiras são a Jauru-suê e a Xiviolonô-suê. […]

Ao cansaço e enfraquecimento geral do pessoal, veio juntar-se a grande decepção de não encontrarem a canoa com que contavam para a travessia e que ali deixaram amarrada à margem esquerda, na ida: os índios, haviam-na feito desaparecer e provavelmente combinaram alguma ação de guerra baseada nesse ato de hostilidade, cujo efeito moral repercutiu dolorosamente, tornando evidente o extremo desânimo de todos, menos do Chefe, cuja energia máscula ia produzir uma das mais belas páginas de sua vida no Sertão.

Testemunha ocular referiu-me, com cores nítidas, o quadro desalentador que então se apresentou e que lhe parecia o fim trágico de toda a Expedição: os homens, desanimados, rojavam-se ([1]) ao solo, sem coragem de empreender o mínimo esforço, dominados por invencível torpor e como que resignados a ali se deixarem matar pelos silvícolas que flanqueavam a coluna. Rondon, num seguro relance d’olhos, compreendeu o esgotamento dos seus homens e, pois, a dupla necessidade de atravessar o curso d’água, para acampar na margem oposta, interpondo esse formidável desfiladeiro entre a sua gente e os guerreiros Nambiquara; e, Chefe insubstituível em tão difícil emergência, lançou-se ele próprio à corrente, para salvar a Expedição de um fracasso, à custa embora de seu esforço isolado e sobre-humano. Desde as 13h00 até às 18h00 da memorável tarde de novembro, nadou ele ininterruptamente de uma para outra margem, conduzindo a reboque uma pelota de couro cru, dentro da qual efetuou a travessia de todo o pessoal e de toda a carga da Expedição! Para ter mais livres os membros e facilitar, por conseguinte, a natação, servia-se dos dentes para agarrar a ponta do cabo de reboque!

Só os seus oficiais [“noblesse oblige!”] ([2]) recusaram deixar-se conduzir assim pelo valoroso Chefe. O Ten Lyra, de saudosíssima memória, que era um de seus prestimosos e competentes ajudantes e como tal presenciou o lance heroico, afirmou-me que, para incutir no seu pessoal a convicção de não o fatigar semelhante esforço, Rondon se mantinha dentro d’água, a evoluir contra a correnteza, mesmo durante o tempo em que a pelota era encostada à margem quer para o embarque, quer para o desembarque!

Para terminar e para que os leitores tenham uma prova da modéstia desse homem fora do comum, aqui lhes apresento a forma singela com que narrou ele essa emocionante passagem em seu relatório:

Os índios haviam lançado Rio abaixo a canoa que tinha servido para nos transportar da margem direita para a esquerda, na nossa ida. Mas era preciso avançar, isto é, transpor o pessoal, a tropa e a carga para a outra margem, o que pude executar nadando de uma hora às seis da tarde, consecutivamente. (MAGALHÃES, 1942)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 24.08.2021 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Filmetes 

Bibliografia  

LEDUC, Luiz. Luiz Leduc e a Saga na Comissão Rondon ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ ‒ www.luizleducjr.com.br/1parte-historia4.html, 2008.

MAGALHÃES, Amílcar A. Botelho de. Impressões da Comissão Rondon – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Companhia Editora Nacional, 1942.   

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]    Rojavam-se: arrastavam-se.

[2]    “Noblesse oblige!”: a nobreza obriga. A nobreza exige que se cumpra, com generosidade e responsabilidade, certas responsabilidades sociais.

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