A emergência de novas doenças e a crise da biodiversidade clamam por novas sínteses científicas

“Para tomadas de decisão que sustentem o gerenciamento integrado da biodiversidade e do bem-estar socioambiental inseridos em uma economia de mercado, é necessário aprofundar o entendimento do funcionamento das economias baseadas em diferentes biomas”, escrevem pesquisadores do Centro de Síntese em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos do CNPq 

O ano de 2020 será lembrado pela pandemia de covid-19, que após emergir na China em 2019, rapidamente se propagou por todo o mundo, causando grande impacto humanitário. Esta pandemia constitui o evento mais recente de uma sequência de emergências de saúde pública envolvendo doenças transmissíveis com forte vínculo com animais silvestres, como Zika, Ebola e Febre Amarela.

Estima-se que de 30 a 50% de todas as espécies conhecidas são parasitos em pelo menos uma fase de seu ciclo de vida. Parasitos representam uma grande parte da biodiversidade, sendo também intrinsecamente relacionados ao funcionamento dos ecossistemas, desempenhando funções na regulação da abundância e coexistência de muitas espécies de vida livre e aumentando a estabilidade das redes tróficas. A rápida redução da biodiversidade observada em diversos ecossistemas altera a dinâmica de transmissão de parasitos e patógenos.

O contexto atual de ocupação e modificação dos ecossistemas globais tem resultado em um aumento sem precedentes das taxas de extinção de espécies, degradação e fragmentação de ecossistemas naturais, o que caracteriza a atual crise da biodiversidade.

Esta crise está ligada a profundas alterações dos biomas em diferentes escalas, sendo consequência direta das escolhas dos modos de produção e consumo estabelecidos pela base urbano-industrial da economia contemporânea. As economias de base agropecuária orientadas a commodities associadas a processos de urbanização incompleta e forças especulativas estão levando a níveis insustentáveis as transformações das paisagens. Crescem as evidências de que estas profundas alterações estão associadas à emergência ou reemergência de doenças, sobretudo zoonoses. Uma das principais consequências deste modo de produção é a desestruturação das comunidades biológicas e do fluxo de energia nos ecossistemas, o que favorece espécies mais generalistas, oportunistas e de rápido crescimento populacional.

Se estas espécies forem competentes para transmitir determinado patógeno, poderá haver elevação das taxas de infecção destes patógenos entre seus hospedeiros. Quanto maior a prevalência da infecção nos hospedeiros silvestres, maior o risco de ocorrência de surtos e transmissão a outras espécies, incluindo humanos. Países megadiversos com alta vulnerabilidade social e crescente degradação ambiental são mais propensos a experimentar o impacto destes eventos de transmissão de patógenos de hospedeiros silvestres para seres humanos.

No Brasil, a pressão crescente sobre a floresta Amazônica, região com mais altos índices de biodiversidade do mundo, proporciona condições socioambientais críticas para desencadear a emergência de novas doenças infecciosas originárias de animais silvestres.

Alertas claros ocorrem em todas as regiões do país, com os surtos recorrentes da febre Oropouche, de Mayaro, a Síndrome Cardiopulmonar por hantavírus e a reemergência da doença de Chagas e da febre amarela silvestre. A precariedade da atual resposta à pandemia de COVID-19 na região Amazônica demonstra os grandes desafios postos para a vigilância e controle de uma epidemia emergindo na região.

Faz-se necessário, portanto, desenvolver estratégias para a conciliação da saúde ambiental, saúde animal e saúde humana, na definição mais ampla do  bem-estar e equidade, dentro do conceito de Saúde Única. A complexidade da questão exige a construção de ambientes colaborativos de debate e diálogo, e que sejam estimulados processos construtivos de conhecimento transdisciplinar, harmonização de conceitos e integração de dados. Como parte desse esforço, em todo o mundo surgem iniciativas de formação de Centros de Síntese de conhecimento sobre a biodiversidade1, incluindo o Brasil2.

Acreditamos que o estímulo à geração de sínteses científicas seja estratégico não só para a conservação da biodiversidade diretamente, mas também para a saúde pública em sua interface com o ambiente, mediada pelas estratégias de desenvolvimento econômico. São vastos os impactos positivos do desenvolvimento de conhecimento transdisciplinar transorganizacional que combine síntese teórica, dados, metodologias e aplicações, particularmente no que se refere à proposição de estratégias de inovação social e políticas públicas baseadas em ciência e tecnologia. Para tomadas de decisão que sustentem o gerenciamento integrado da biodiversidade e do bem-estar socioambiental inseridos em uma economia de mercado, é necessário aprofundar o entendimento do funcionamento das economias baseadas em diferentes biomas.

Compreender os agentes da produção e suas restrições em seus territórios é o primeiro passo para fornecer evidências técnico-científicas para o desenho de estratégias de desenvolvimento que fortaleçam trajetórias tecnológicas e que levem a novas economias baseadas nas potencialidades de nossos biomas. Nesse caminho, é também fundamental desenvolver interfaces com a sociedade para ampliação do engajamento público nas ações de ciência, conservação da natureza e saúde pública. Quando a sociedade é envolvida, a síntese surge não como um monstro a ser enfrentado, mas como um pilar a ser protegido por todos.

1 https://synthesis-consortium.org/

2 www.sinbiose.cnpq.br/web/sinbiose

Os autores pertencem a projetos de síntese científica em andamento no Centro de Síntese em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos do CNPq. Os projetos são “Serviços Ecossistêmicos como Serviço de Saúde: trajetórias competitivas para o uso da terra no bioma Amazônico e sua ligação com doenças transmitidas por vetores”, coordenado por Claudia Codeço (pesquisadora titular da Fiocruz) e Antônio Miguel Monteiro (pesquisador titular do INPE) e “Integrando dados e modelos de redes eco-evolutivas e socioeconômicas para entender e prever surtos de doenças tropicais negligenciadas”, coordenado por Paulo Sérgio D’Andrea (pesquisador titular do IOC/Fiocruz) e Cecilia S. Andreazzi (pesquisadora associada do IOC/Fiocruz).  

Autoria (ordem alfabética): Andreazzi, C.S.[1]; Andreazzi, M.A.R[2]; Bacellar, A.E.F[3]; Bueno, M.G.[4]; Codeço, C.T.[5]; Coelho, F.C.[6]; Cordeiro, J.L.P.[7]; Dal’Asta, A.P.[8]; D’Andrea, P.S.[1]; Escada, M.I.S.[8]; Fernandes, D.A.[9]; Fernandes, J.[10]; Gentile, R.[1]; Gonçalves- Oliveira, J. [10]; Gontijo, A.B.[11]; Guimarães Jr., P.R.[12]; Krempser, E.[13]; Lacerda, A.C.F.[14]; Lana, R.M.[5]; Lemos-Costa, P.[15]; Lopes-Rocha, F.[16]; Monteiro, A.M.V.[8]; Nascimento, J.L.[3]; Neves, T.C.[5]; Oliveira, L.F.B.[17]; Reis, I.C.[18]; Raimundo, R.L.G[19]; Rodrigues, D.L.[20]; Rorato, A.C.[8] ; Silva Junior, M.B.[21] ; da Silva-Nunes, M.[22];  Tabet, G.[1]; Winck, G.R.[1];

[1] Laboratório de Biologia e Parasitologia de Mamíferos Silvestres Reservatórios, Instituto Oswaldo Cruz (IOC, FIOCRUZ)

[2] Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

[3] Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio)

[4] Laboratório de Virologia Comparada e Ambiental, Instituto Oswaldo Cruz (IOC, FIOCRUZ)

[5] Programa de Computação Científica, Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ)

[6] Escola de Matemática Aplicada, Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ)

[7] Área de Saúde e Ambiente, Fiocruz Ceará (FIOCRUZ)

[8]  Laboratório de investigação em Sistemas Socioambientais – LiSS/INPE

[9] Instituto de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Federal do Pará (UFPA)

[10] Laboratório de Hantaviroses e Rickettsioses (IOC, FIOCRUZ)

[11] Serviço Florestal Brasileiro (SFB/MAPA)

[12] Departamento de Ecologia, Instituto de Biociências, Universidade de São Paulo (USP)

[13] Centro de Informação em Saúde Silvestre (FIOCRUZ)

[14] Departamento de Sistemática e Ecologia, Universidade Federal da Paraíba (UFPB)

[15] Department of Ecology and Evolution, University of Chicago

[16] União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN-Brasil)

[17] Departamento de Vertebrados, Museu Nacional (UFRJ)

[18] Laboratório de Transmissores de Hematozoários (IOC, FIOCRUZ)

[19]Departamento de Engenharia e Meio Ambiente, Universidade Federal da Paraíba (UFPB)

[20] Instituto de Estudos em Desenvolvimento Agrário e Regional, Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA)

[21] Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

[22] Universidade Federal do Acre (UFAC)

*O artigo expressa exclusivamente a opinião de seus autores

PUBLICADO EM:   JORNAL DA CIÊNCIA

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