A Terceira Margem – Parte CDI

EPOPEIA ACREANA 

O Malho, RJ, 08.04.1911, n° 450

Assassinato de Plácido de Castro – IV

 

Jornal Comércio do Amazonas, n° 1.612
Manaus, AM – Quinta-feira, 17.09.1908
Plácido de Castro ‒ Novas Informações
‒ A Chegada do Juiz de Direito e do Promotor Público a esta Cidade ‒ O que narram ‒ Depoimento do Irmão da Vítima ‒ O que Dizem Cinco Testemunhas ‒ A Atitude do Juiz de Direito do Acre  

A bordo da lancha “Rápido”, chegaram ontem do Acre os Dr. João Rodrigues do Lago, Juiz de Direito da Comarca e Barros Campello, promotor daquele Distrito Judiciário. Ambos hospedaram-se no “Grande Hotel” onde fomos procurá-los e pedir notícias sobre o assassinato do Coronel Plácido de Castro. Gentil­mente recebido o nosso colega entreteve com os dois magistrados amistosa e longa palestra narrando eles em seus mínimos detalhes os acontecimentos, de que aliás fora testemunha de vista o Dr. Campello. Disse-nos esse cavalheiro que o Coronel Plácido, depois de ferido, não se mostrou desanimado, pedindo instantemente ([1]) ao Dr. Caribé da Rocha que o salvasse porque ele precisava fazer uma hecatombe no Acre, a vista do ato covarde de que acabava de ser vítima.

Que, lamentando o fato, chamou, minutos antes de morrer, o seu irmão Genesco e disse-lhe que antes de dar a sepultura o seu cadáver, mandasse extrair o coração, cortasse-o em dois pedaços iguais e mandas­se-os, um à sua mãe e o outro à sua noiva residente na cidade de Petrópolis; que finalmente liquidasse to­dos os seus negócios e se retirasse do Acre, fazendo, porém, antes, todo o possível para vingar a sua morte. O Dr. Campello disse ao nosso companheiro que, Plácido fora ferido por uma bala de Mauser, a qual penetrara na região lombar transpassando a pleura e alojando-se no estômago, e esvaindo-se em sangue vendo seu irmão saltar do animal, gritara: não, Ge­nesco! Monte de novo. Vamos no encalço do inimigo! E saíram, sem nada conseguir. Estando, porém, Plácido muito fraco, saltou do animal, sentou-se em um pau e juntou a cabeça sobre uma das pernas do Dr. Campello e assim se conservou até o regresso do pajem que fora ao Seringal do Coronel Rôla buscar uma rede para conduzi-lo. O Dr. Campello, que se acha seriamente enfermo, segue com o Dr. Lago, no “S. Salvador” para o Rio de Janeiro e ali entregará ao Dr. Afonso Pena uma cópia depoimento de Genes­co de Castro, bem como, em original, uma justificação processada perante o Dr. Souza Leão, Juiz prepara­dor, em que depuseram cinco testemunhas. Desses documentos extraímos o que se segue:

Depoimento de Genesco  

Disse: que está convencido de que o autor da tentati­va de assassinato de seu irmão, Cel Plácido de Castro é o indivíduo Alexandrino José da Silva, atual subdele­gado de polícia do Sr. Gabino Besouro, Pre­feito deste Departamento, auxiliado pelos inúmeros bandidos que tem a seu dispor e que com eles tem servido em todas as diligências “perigosas”, que os últimos Prefeitos de Departamento têm entendido fazer.

Que desde a administração Jesuíno, Alexandrino declara publicamente as suas tenções homicidas contra a pessoa ora vitimada e que todos os moradores deste Departamento têm conhecimento deste fato. Que nos primeiros dias do mês passado tanto o depoente como o seu irmão foram avisados que em reunião realizada na “Empresa”, com a presença do Sr. Prefeito fora resolvido o assassinato de Plácido de Castro para se apoderarem de uma precatória que estava em seu poder expedida contra o indivíduo de nome Manoel Leopoldino Pereira Leitão Cacella e para “tranquilizar a administração deste Departa­mento”; – e que na mesma reunião fora resolvido o assassinato do Comerciante José Maria Dias Pereira, contra quem o Delegado Josias Lima já praticou um atentado de homicídio, e ainda o Dr. Juiz de Direito deste Departamento. Que a resolução deste tríplice assassinato, com ou sem o consentimento ou a cumplicidade do Coronel Besouro, é desde há muitos dias a convicção do depoente, tanto assim que ousou externar ao Sr. Presidente da República em carta aberta, que lhe dirigiu por intermédio do “Correio da Noite”, pedindo providências, que pusesse o seu irmão a salvo do punhal dos seus representantes aqui. Que a sua convicção se firmou com o atentado praticado em Xapuri contra a pessoa do Dr. Sylvio Gentio de Lima, pelo subprefeito chefiando três ou quatro gatos pingados, na noite de dezesseis de julho findo, julgando que assaltava a pessoa de Plácido como declarou, pedindo desculpas quando reconheceu haver se enganado.

Que ainda pelo fato de haver o indivíduo Alexandrino José da Silva, num encontro que teve com Octávio Fontoura, no varadouro que vem da “Empresa” a “Benfica”, ao enxergar aquele senhor, puxado bala para a agulha de uma Winchester [rifle], declarando ao reconhecer-lhe que tinha feito aquilo porque supunha fosse o Coronel Plácido a quem pretendia matar, porque o “Coronel Gabino Besouro lhe decla­rara que o Coronel Plácido pretendia assassiná-lo, bem como ao Coronel Simplício Costa, para tomar conta do Acre”. E como nada mais disse nem lhe foi perguntado mandou a dita autoridade encerrar este auto depois de lido e achado conforme, que assina com o respondente. E eu, Antônio Rebello, Escrivão “ad hoc” ([2]), o escrevi. Em tempo. Disse mais, que interrompeu o seu depoi­mento para assistir o passamento do seu irmão, mas continua agora dizendo que a última tentativa de assassinato do comerciante José Maria Dias Pereira, praticada por força do Exército sob as ordens do Delegado Josias Lima, que uma vez já tentara assassiná-lo; que essa hedionda tentativa, onde sucumbiu uma criança e ficou gravemente ferido um empregado, impune como ficou, é mais uma prova da cumplicidade do Sr. Prefeito nesta tragédia que o macula.

Que o fato do Sr. Prefeito haver negado força a este Juiz de Paz para efetuar a prisão dos criminosos e colocar os seus soldados de prontidão e de piquete assim que soube do assassinato de Plácido de Castro, é mais um fato que muito depõe contra a sua pessoa e muito reforça a suposição da sua culpabilidade; que o fato do Ten Luiz Sombra, empregado da Prefeitura, haver dito aos Srs. Manoel Henrique de Lima e José Martins Ferreira que o Cel Plácido não tinha sido vítima de uma emboscada, como se dizia, mas sim de “uma armadilha para anta e com uma bala podre tão safada que nem deu para matar” é a prova mais evidente da revoltante culpabilidade dos representantes do Poder Público deste Departamento. Que na antevéspera da prática do crime de que se ocupa ainda o respondente levou ao conhecimento do Prefeito uma série de fatos, que fazem crer a premeditação desse crime conhecido e oficial, e a iminência em que estava de realizar-se e que o Prefeito ao invés de tomar medidas para evitá-lo, parece haver acelerado a sua execução, porque as­sim que seu irmão Plácido chegou à Vila Rio Branco o Sr. Gabino Besouro mandou chamar o seu Sub-delegado Alexandrino que foi a sua presença, mesmo bêbado, como costuma andar, e saiu dizendo que ia para fora da Vila, onde o Prefeito lhe disse que ficaria com toda liberdade.

Em vista do exposto e de muitos outros fatos está convencido de que o principal assassino de seu irmão é o Subdelegado Alexandrino José da Silva, com a cumplicidade do atual Prefeito que nem ao menos se dignou disfarçar o seu crime, tomando as cenográ­ficas providências, que outros menos confiantes da sua impunidade praticariam em igual circunstância. Que agora no modo de ver do respondente resta ao Sr. Prefeito mandar quanto antes executar o assassi­nato do Sr. Dr. Juiz de Direito, do comerciante Dias e do respondente, que certamente já entrou para o rol dos que embaraçam com o trabalho “honrado” a sua nefasta administração. E como mais não disse nem lhe foi perguntado mandou a dita autoridade encerrar este auto, que depois de lido e achado conforme assina com o respondente. E eu, Antônio Rebello. Escrivão “ad hoc”, o escrevi.

O Século, n° 653, RJ, 13.10.1908

Primeira Testemunha
Antônio da Silva Rebello 

Disse: Que mais de uma vez no seu hotel 24 de ja­neiro, na Vila do Rio Branco, viu e ouviu Alexandrino José da Silva declarar publicamente que mataria o Cel Plácido de Castro, que quase sempre Alexandrino apareceria na Vila com uns cabras reconhecidamente criminosos, entre os quais a testemunha conhece os de nome Francisco França, apontado como assassi­no, Porfírio de tal, Antônio de tal e Luiz Paula, aquele seringueiro de J. Dias e um parecido com João da Matta, uma das pessoas que o falecido Cel Plácido pensou ser um dos que se achavam em emboscada e os dois últimos que falqueando uma mesa do hotel da testemunha no dia 23 de julho passado, declararam em estado de embriaguez que matariam o Cel Plácido de Castro e qualquer “Placista” que ali aparecesse, isto dizendo um deles, o de nome Antônio puxava a bala para a agulha de uma carabina com a qual se achava munido; que conhece também o sicário de nome Eugênio, tirado da cadeia por Alexandrino de quem raramente se separava, criminoso esse de toda a confiança de Alexandrino. Que Renato de Souza, escrivão de Alexandrino também fez muitos distúrbios no hotel da testemunha e, em uma das vezes declarou que vendia a vida do Coronel Plácido de Castro a quem a quisesse comprar, asserção essa que foi presenciada pelo Tenente do Exército Nilo Guerra, que sabe, por ter ouvido em seu hotel, do próprio Alexandrino que ele ou Plácido tinha de morrer. Que soube do Advoga­do José Maria que Francisco Corrêa havia dito a este ter de morrer ou o Coronel Plácido ou o Coronel Alexandrino. Que sabe ter o Dr. Genesco de Castro estado com o Prefeito e feito queixa a este de Alexandrino que o andava a provocar por diversos modos; que no dia 8 de agosto corrente o Coronel Plácido esteve a negócio na Vila do Rio Branco onde se achava Alexandrino que se retirou poucas horas depois da chegada do Coronel Plácido; que nesse mesmo dia à noite o Coronel Plácido se retirava da Vila do Rio Branco para regressar a seu Seringal “Capatará” em companhia do Promotor Público Dr. Barros Campello, do Dr. Genesco de Castro e do Advogado José Maia.

Que no dia seguinte, às 13h00, soube em seu hotel que o Coronel Plácido havia sido atirado de embosca­da na altura do Seringal “Flor de Ouro”, onde negocia o Coronel Alexandrino; que como todos na Vila, já esperava a emboscada de Alexandrino José da Silva e tanto assim é que a testemunha verificou no local do crime o esconderijo onde se achavam os assas­sinos, que é atrás de um grosso pau do qual sai uma pequena vereda que, seguindo a praia do Rio, vai ter até em frente ao porto do Seringal “Flor de Ouro” onde reside Alexandrino. Que há uns dez dias se acha Alexandrino na casa do Prefeito; que sempre que sai à rua é disfarçadamente acompanhado de seus sequa­zes, atrás referidos; que não há nenhuma dúvida na impunidade dos assassinos do Cel Plácido de Castro, falecido a 11 do corrente e se fosse na sede da Prefeitura a testemunha não se atreveria a depor por temer ser pelos mesmos espancado, pois o Coronel Roberto Moraes que depôs no inquérito aberto pelo Juiz de Paz Manoel de Albuquerque Saldon fugiu da Vila do Rio Branco onde até anteontem era procurado a fim de levar uma surra.

Que o justificante Genesco de Castro está bem arris­cado de ser assassinado pelo mesmo Alexandrino, que gozando da proteção do Prefeito conta com a impunidade dos crimes que tem feito. Que a tes­temunha serviu de escrivão num inquérito aberto pelo Juiz de Paz referido e por isso sabe de ciência própria que o Prefeito em ofício dirigido àquele negou força para prender os criminosos. Que até a presente data o Dr. Gabino Besouro conserva seus soldados arma­dos e paisanos de piquete nos varadouros, tendo assim transformado a Vila do Rio Branco numa Praça de Guerra.

Túmulo de Plácido de Castro

Segunda Testemunha
José Alves Maia  

Disse: que por mais de uma vez viu o subdelegado Alexandrino José da Silva, conhecido da testemunha como assassino, que no ano de mil e novecentos matou um trabalhador do Seringal “Humaitá”, cortando o cadáver em pedaços, dizer publicamente que assassinaria o Coronel Plácido de Castro. Que diversas vezes aparecia Alexandrino na Vila Rio Branco, sempre acompanhado de uns cinco ou seis desordeiros, dentre os quais a testemunha ouviu dizer haver um por nome Eugênio, que fora arrancado da cadeia pelo subdelegado Alexandrino, e uma vez absolvido pelo júri. Que de seu primo José Augusto Maia, coproprietário do Hotel Vinte e Quatro de Janeiro, ouviu que Luiz de Paula e Antônio de tal, capangas do referido subdelegado, entraram em um dos dias do mês de julho findo, no aludido hotel, e ali fizeram toda a sorte de desordens, ficando ambos tão enfurecidos por não aparecer uma pessoa que se dissesse amiga do Coronel Plácido, a ponto de crivar de faca uma das mesas do estabelecimento, gritando ambos que matariam o Coronel José Plácido de Castro; que rara vez vira Alexandrino sem ser embriagado, e assim, nesse estado, em todas as tabernas onde entrava na Vila do Rio Branco, dizia em alto e bom tom, que mataria o irmão do Dr. Genesco. Que na véspera da emboscada, que sofreu o Coronel Plácido, Francisco Corrêa, casado com uma sobrinha de Alexandrino disse a testemunha que, ou o Coronel Plácido ou Alexandrino tinha de morrer.

Que viu quando o Dr. Genesco de Castro foi se quei­xar ao Prefeito Gabino Besouro, de diversas provoca­ções feitas pelo subdelegado Alexandrino, que a testemunha assistiu a uma dessas provocações de Alexandrino ao Dr. Genesco. Que no dia 8 de agosto corrente chegaram a Vila do Rio Branco o Cel Plácido, onde também se achava Alexandrino, que logo esbravejou por toda a parte matar o Cel Plácido; que nesse mesmo dia a testemunha viu o cavalo de sela de Alexandrino ensanguentado e soube que ele havia dado uma facada naquele animal, dizendo não pode-lo fazer na mesma hora ao Cel Plácido. Que nesse mesmo dia 8, Alexandrino retirou-se da Vila, declarando a todo mundo que mataria o Cel Plácido.

Que a testemunha doente, foi convidado pelo Cel Plácido a ir se restabelecer nos seus campos denomi­nados “Esperança”, convite este que a testemunha aceitou, mas com a condição de não ir com o dito Coronel, que saia da Vila na noite do mesmo dia 8, por temer assistir a uma descarga de bala no cami­nho; que o Cel Plácido insistia com a testemunha para irem juntos, alegando que o Promotor Dr. Barros Campello, também ia se tratar, e, em face disso, a testemunha resolveu fazer a viagem juntos e partiu na noite do aludido dia 8 de agosto indo pernoitar na Foz do “Riozinho”, onde dormiram.

Que ao amanhecer do dia 9, partiu com seus companheiros com destino ao Capatará, para daí seguir para os Campos, seguindo na frente o Dr. Genesco, em seguida o Coronel Plácido, logo após o Promotor, Dr. Barros Campello, e, por último a testemunha. Que durante a viagem não se cansou de falar sobre emboscadas, temendo a cada instante, uma descarga de balas detonadas de dentro do mato por Alexandrino e seus sequazes; que ao passar com seus companheiros de viagem o Igarapé “Distração”, um pouco adiante, uma descarga de balas partiu de dentro do mato, indo dois dos projéteis ferir mortalmente o Coronel Plácido de Castro; que nessa ocasião a testemunha apeou do animal em que ia montado e internou-se no mato, onde se perdeu, conseguindo somente chegar a “Benfica”, onde se achava o ferido, uma hora depois.

Que em “Benfica” esteve até o dia 11 de agosto, data em que faleceu o referido Coronel Plácido; que passados sete dias da emboscada, Alexandrino e seus sequazes, com assombro do povo da Vila, entrou cinicamente pelas ruas, indo hospedar-se no mesmo prédio onde habita o Prefeito Dr. Gabino Besouro, que, segundo dizem é cúmplice no assassinato do referido Coronel Plácido; e tanto isso parece ser verdade quanto é certo que até agora não houve providência alguma para capturar os crimino­sos e mais negou força ao Juiz de Paz, Manoel de Albuquerque Soldon, para prender os delinquentes. Que desde o atentado contra o Cel Plácido, o Prefeito pôs a Vila do Rio Branco em pé de guerra; que absolutamente não fazia o presente depoimento na Vila do Rio Branco, pois arriscar-se-ia pelo menos a ser agredido a golpes de espada pelos oficiais do aludido Prefeito.

Terceira Testemunha
Tenente do Exército, Agrimensor de Terras Públicas e Advogado, Nilo Guerra  

Disse: que Alexandrino José da Silva, que tempos atrás cometera um assassinato em Humaitá, mani­festara desejos de assassinar o Cel José Plácido de Castro, como ele próprio declarou no Hotel Vinte e Quatro de Janeiro, na manhã de um dos últimos dias do mês passado, na presença do Capitão Antônio da Silva Rebello, do Cel José Augusto Maia, proprie­tários do mesmo hotel, e da testemunha. Que Alexandrino José da Silva andava acompanhado de indivíduos de má nota ([3]), dentre os quais o indivíduo Eugênio de tal, que no ano passado fora submetido a júri, por crime de homicídio.

Que esses indivíduos, pública e notoriamente sabido, de maus costumes, tinham como mais salientes, no desejo de assassinar o Coronel Plácido de Castro, o de nome Renato de Souza, Escrivão do subdelegado de Polícia, Alexandrino José da Silva, Luiz Paulo e Antônio de tal, os mesmos que no dia 23 de julho passado, em almoço no Hotel Vinte e Quatro de Janeiro, armados de faca e rifle, desafiavam com impropérios a quem quer que se manifestasse amigo ou partidário do Cel Plácido, sendo que o mais audacioso dos facínoras era o referido escrivão do subdelegado, que não obstante amigo do conhecido desordeiro Bruno Barbosa, mereceu ser este adver­tido.

Que ouviu dizer do Advogado José Alves Maia haver-lhe declarado Francisco Corrêa, empregado na Prefeitura e aparentado do aludido Alexandrino, que o Cel Plácido ou Alexandrino tinha que morrer, isso na véspera da conhecida emboscada de “Benfica”, de que foi vítima o mesmo Cel Plácido. Que em um dos primeiros dias do corrente mês viu o Ten Genesco de Oliveira Castro comunicar ao Prefeito Gabino Besouro que Alexandrino José da Silva insultara seu empre­gado Francisco em casa do Dr. Leorne Menescal ameaçando-o para brigar. Que no dia 8 do corrente, estando em companhia do Cel Plácido, viu passar Alexandrino a cavalo, alcoolizado, que vinha de con­versar com Francisco Simplício F. Costa, subprefeito do Acre e Delegado de Polícia no Xapuri, que se achava hospedado em casa do Prefeito devendo nesse mesmo dia 8, à tarde, partir com rumo pelo local da emboscada, que é perto de sua residência em “Flor de Ouro”. Que o referido Simplício é o mesmo que pretendeu assassinar, a tiros de rifle, no porto do Xapuri, em um dos últimos dias do mês de julho, ao Cel Plácido, segundo publicou e ficou sem contestação o n° 1 do jornal “O Estado do Acre”.

Que se publica na Vila Rio Branco; que no dia 9 de agosto, pela manhã, foi vítima dos tiros partidos da emboscada de “Benfica”, de que faleceu no dia 11 do corrente; que dentro da lei os indícios de que Alexandrino é o assassino de Plácido de Castro, são mais que veementes, como poderá averiguar a polícia, no inquérito que lhe cumpre fazer, que o indigitado ([4]) assassino Alexandrino, com seus comparsas crimino­sos continuam como anteriormente, em plena liberda­de, a receber especiais considerações do Cel Gabino, Prefeito do Departamento e do Delegado Auxiliar de Polícia Antônio João de Barros Alencar, o mesmo que, sob o protetorado do Governo do Amazonas, cometeu um infame assassinato de um seu companheiro de casa na Vila Floriano Peixoto, de onde fora, pouco antes do assassinato do Coronel Plácido, chamado pelo Prefeito Coronel Gabino para exercer a atual função de Delegado.

Que o conhecido assassino Alexandrino continua a exercer a função de Delegado de polícia do “Riozi­nho” e campeia ostensivamente pelas ruas da sede da Prefeitura, acompanhado de conhecidos crimino­sos, dentre os quais o já referido Eugênio; que até o presente a ação da polícia, só tem sido benéfica aos assassinos do Coronel Plácido e muito perseguidora não só das testemunhas que depuseram no inquérito feito perante o Juiz de Paz da localidade da embosca­da, como dos amigos e admiradores do Coronel Plácido, sendo que a testemunha Tenente-Coronel Roberto Severiano de Moraes sofreu ameaças de morte, sendo obrigado, para conservação de sua vida, a fugir da Vila Rio Branco.

Que evidentemente, com maus intuitos, está o Prefeito Coronel Gabino Besouro, porquanto desde o meado do mês passado até o presente, tem mobilizado Força Armada, mantida com dinheiro que lhe fora confiado para o melhoramento do Acre, não só em desperdícios com as compras de armas e munições como com a alimentação e pagamento exagerado de diárias para os civis desencaminhados de seus empregos, que se acham ao seu serviço e que se com maus intuitos, é ou não, a prova está em tudo quanto aí fica referido, prova mais que clara e indícios mais que veementes de que o aludido Coronel Gabino, o mesmo que já se levantara contra o poder constituído do país, o mesmo ainda que fora recusado por sua terra natal, é o insuflador e conivente em todos os distúrbios que ora fazem paralisar o comércio do Acre e levantar pânico em sua população. Em aditamento, disse mais: que nos primeiros dias do corrente mês levara ao conhecimento do Coronel Gabino Besouro, que no Hotel Vinte Quatro de Janeiro, onde mora a testemunha, estava ele, teste­munha, constantemente provocado de morte por assassinos, companheiros de Alexandrino José da Silva, pelo simples fato de não acompanhar nem aprovar as violências que contra o Coronel Plácido pretendia o referido Prefeito praticar, fazendo-lhe mesmo ver que algumas dessas provocações publicamente feitas no hotel eram presenciadas pelo Delegado de Polícia; e que o Coronel Gabino nenhuma providência deu para cessar essas ameaças que dia a dia mais avultaram e como ele, testemunha se sentisse sem garantias legais retirou-se da sede da Prefeitura para se pôr a salvo aqui onde faz este depoimento.

Quarta Testemunha
João Damasceno Cavalcante 

Disse: que é público e notório na Villa Rio Branco, que foi o autor da emboscada que vitimou o Cel Plácido de Castro, o cearense Alexandrino José da Silva e seus capangas; que logo que a testemunha soube da emboscada não teve dúvida alguma de atribuir a Alexandrino, porquanto este quando em­briagado, nunca deixou de dizer horrores do Coronel Plácido em sua ausência, jurando de, um dia com ele, Coronel Plácido, se encontrar. Que no penúltimo domingo Alexandrino entrou na Vila Rio Branco com seus capangas e se hospedou no mesmo prédio onde habita o Prefeito; que a testemunha tendo de voltar para a Vila Rio Branco, de onde se ausentou para prestar este depoimento, teme ser agredido por ter narrado a verdade dos fatos, e por isso nada mais adianta.

Brennus, Chefe da Tribo Celta dos Sênones

Quinta Testemunha
Bemvindo Soares de Oliveira 

Disse: que é público e notório na Vila do Rio Branco o fato de Alexandrino José da Silva declarar que no Acre haveria de habitar ou ele ou o Coronel Plácido. Que todas as vezes em que aparecia na Vila era sempre acompanhado de seus capangas, entre os quais o de nome Eugênio Francisco da França que respondeu ao júri no ano passado. Que no dia nove de julho passado, fora ao Purus e por isso não sabe de ciência própria das desordens feitas no Hotel 24 de Janeiro, mas em chegando no dia 19 do corrente à Vila do Rio Branco; soube que Luiz Paulo e Antônio de tal bem como Renato de Souza fizeram distúrbios naquele estabelecimento onde gritavam que se aparecesse um amigo do Coronel Plácido, que o matariam. Que soube do Advogado José Maia, que Francisco Corrêa, casado com uma sobrinha de Alexandrino dissera que o Coronel Plácido ou Alexandrino desapa­receria; que em caminho de Senna Madureira para cá, soube do assassinato do Coronel Plácido, e a propósito tem importantes revelações a fazer.

Que João Dantas, irmão de Raymundo Dantas, arrendatário do Seringal “Bagé”, e Ângelo Dumont, ambos encarregados das estradas de seringueiras do mesmo Seringal, encontraram-se com a testemunha e confidencialmente narraram que Alexandrino José da Silva tinha entregue uma carta a um preto de nome Victal, morador no Seringal “Amapá” a fim deste levá-la a Maurillo de tal, seringueiro do “Bagé” a Raymundo Dantas, vendo aquele preto no centro do Seringal foi ao seu encontro e fê-lo voltar, sendo-lhe pedido pelo mesmo preto que ao menos dissesse que Alexandrino mandara chamar Maurillo. Que este ao saber do recado disse que já sabia para que era o recado; que ele, Alexandrino, mandara chamá-lo para perseguir o Cel Plácido de Castro até tirar-lhe a cabeça. Que isto contando a testemunha a João Dantas e a Ângelo, acrescentara mais que antes de qualquer pessoa saber do assassinato do Coronel Plácido, já Maurillo narrava o acontecimento, sendo de notar que no domingo, nove de agosto corrente, dia em que se deu a emboscada, Maurillo não se achava em casa, e tendo dela saído montado em burro, voltou a pé, segunda-feira, dez do corrente, indo pelo centro do Seringal “Bagé”, narrando que havia sido assassinado o Coronel Plácido. Que João Dantas e Ângelo findaram a sua narração dizendo que não havia dúvida de Maurillo ter tomado parte no crime, tanto mais quanto este indivíduo vivia aos serviços infamantes de Alexandrino José da Silva.

Que atualmente se acham morando na Vila do Rio Branco Alexandrino José da Silva e seus sequazes; que há muito a testemunha sabia da emboscada que Alexandrino preparava pois, tendo mandado a Manoel Nobre de Lima e Antônio Nunes seus empre­gados, buscarem umas reses nos campos de “Capatará”, em caminho, no varadouro do “Riozinho” para “Benfica”, no Igarapé Distração, quando aqueles seus emprega­dos tratavam de estivar a ponte do mesmo, para dar passagem ao gado, viram dentro do mato passarem dois homens armados que atribuíram ser caçadores mas depois, quando procuravam paus bons de cortar, para fazer a estiva da ponte viram Francisco França e Eugênio Francisco da França armados de Mannlicher e um outro que não conheceram, armado de rifle. Que os dois primeiros conversavam com Manoel Nobre e Antônio Nunes, dizendo muito desconfiadamente que andavam a procura do varadouro que ia para a “Flor do Ouro”.

Que os empregados da testemunha acrescentaram quando narraram o fato acima que aqueles conheci­dos criminosos estavam ali de emboscada para al­guém, pois, conhecedores como eles são de todos esses varadouros era aquela história muito mal con­tada. Que em face do exposto, a testemunha esteve no dia trinta de julho passado, três dias ou quatro depois do encontro a que já se referiu, com o Cel Plácido de Castro, em Capatará e fez-lhe ver o perigo que corria sua vida nas emboscadas preparadas nas matas que ficam fronteiras ao Seringal “Flor de Ouro”, onde se achava Alexandrino José da Silva. Que a autoria do crime perpetrado contra o Coronel Plácido, não há dúvida alguma que recai na pessoa de Alexandrino, Francisco França, Eugênio Francisco da Franca, Maurillo de tal e outros sicários às ordens do primeiro: que a vista da impunidade dos delin­quentes, que estão descobertos, a testemunha pre­sume ser conivente no crime o Prefeito do Departa­mento, Cel Gabino Besouro. Que sabe de ciência pró­pria que Alexandrino goza da proteção do Prefeito, tanto assim é que não sabendo Alexandrino ler nem escrever foi nomeado subdelegado de Polícia do “Riozinho”, cargo que ainda continua a exercer.

Quatro Ofícios 

Damos a seguir a cópia de um ofício do Juiz de Direito Dr. João Rodrigues do Lago:

Exm°. Sr. Cel Dr. Gabino Besouro, Digníssimo Prefeito do Alto Acre. – Levo ao conhecimento de V. Exª que nesta data passo o exercício do cargo que ocupo ao Dr. Procurador do 1° Termo e que me retiro da Comarca.

Assim procedo não só pela absoluta falta de garantia que existe em todo Departamento, mas também pelas ameaças que pesam sobre a minha cabeça, ameaças de que se fazem eco auxiliares de V. Exª, sem que encontrem da parte da polícia repressão alguma. Não é mistério para ninguém que pessoas da intimidade de V. Exª declaram em toda parte que do Coronel José Plácido de Castro já estavam livres, e que agora se fazia mister o meu desaparecimento.

Diante da inércia de V. Exª eu não podia nem devia confiar em promessas de garantias, que costuma fazer, quando vi a propriedade alheia assaltada à mão armada, assassinadas crianças, proibido o direi­to de locomoção, eliminados de emboscada cidadãos prestigiosos e tantos outros fatos que bem caracteri­zam a administração de V. Exª. Sirva, pois, este meu ofício de protesto contra a pressão que V. Exª quer exercer sobre o Poder Judiciário, não escolhendo os meios para atingir o fins.

Saudações. – João Rodrigues do Lago. […] (JCA, n° 1.612)

 

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 02.03.2022 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia 

JCA, N° 1.612. Plácido de Castro ‒ Novas Informações… – Brasil – Manaus, AM – Jornal do Comércio do Amazonas – n° 1612, 17.09.1908.  

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]   Instantemente: com urgência.

[2]   “Ad hoc”: para isso.

[3]   Má nota: vagabundos, meliantes.

[4]   Indigitado: apontado.

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