Começa a ser implementado o projeto Arranjo de Tecnologias Sociais de abastecimento de água para comunidades ribeirinhas da Amazônia

Uma oficina sobre a montagem de filtros e sensibilização sobre a importância do tratamento de água foi desenvolvida na comunidade Caburini, a primeira contemplada pelo projeto

© Rafaela Dias Lopes / Instituto Mamirauá

Baldes plásticos e velas podem trazer mais saúde para as pessoas. A vela não é do tipo que ilumina, mas o nome popular de um elemento filtrante muito utilizado no Brasil, que, junto de um par de baldes, forma o Filtro Ecológico Alternativo – uma Tecnologia Social de tratamento domiciliar de água.

As Tecnologias Sociais visam reaplicar soluções para resolver problemas sociais de forma participativa com as populações atendidas. E foi da união de três destas tecnologias que surgiu o projeto “Arranjo de Tecnologias Sociais de abastecimento de água para comunidades ribeirinhas da Amazônia”, que iniciou agora sua implementação na região da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.

Arranjo de Tecnologias Sociais

O projeto, contemplado no Desafio Transforma da Fundação Banco do Brasil, levará acesso à água de qualidade para mais de 300 pessoas na região do Médio Solimões. O arranjo envolve três Tecnologias Sociais certificadas pela Plataforma Transforma! Rede de Tecnologias Sociais, da Fundação: o Sistema de Bombeamento e Abastecimento de Água com Energia Solar; o Filtro Ecológico Alternativo; e a Sodis – Desinfecção Solar da Água. Assim, esta sequência de tecnologias envolve o bombeamento, o tratamento físico e a desinfecção das águas.

Nesta primeira etapa de implementação do projeto, uma Oficina de Capacitação para a montagem dos filtros e do uso da desinfecção solar da água foi desenvolvida, nesta primeira quinzena de fevereiro, na Comunidade Caburini – próxima da cidade de Alvarães (AM) e do encontro das águas dos rios Solimões e Japurá.

De acordo com a coordenadora do projeto e do Programa de Qualidade de Vida (PQV) do Instituto Mamirauá, Maria Cecilia Gomes, as comunidades contempladas foram selecionadas juntamente com as prefeituras de Alvarães, Uarini, Maraã e Fonte Boa, que indicaram localidades que tivessem o perfil do projeto: localizadas em área de várzea, sem sistema de abastecimento de água e que estivessem dispostas a trabalhar com a equipe. Segundo Cecília, Caburini foi escolhida para inaugurar a primeira etapa do projeto pelo entusiasmo e comprometimento apresentados pela comunidade.

Caburini nunca teve nenhum sistema de abastecimento de água. Toda água utilizada pela comunidade, que possui 17 residências e cerca de 80 moradores, vem dos rios e da chuva. E uma dificuldade ainda maior ocorre durante o período de seca, quando as águas baixam e o rio se afasta, formando uma longa praia que aumenta a distância até as casas. Durante a maior parte do ano, os comunitários preferem utilizar as águas das volumosas chuvas para os usos mais nobres, como beber e cozinhar. Mas durante o período de seca (em torno de setembro) as chuvas reduzem, forçando as pessoas a buscarem água com baldes no rio que se distanciou.

Cecília afirma que “Nesse momento, com os Filtros e a Sodis, estamos trazendo a melhoria da qualidade da água para o consumo, que com os filtros pode ser feita de forma independente do sistema de abastecimento de água”. O Sistema de Bombeamento e Abastecimento de Água com Energia Solar será implementado na próxima etapa do projeto, planejada para começar em março, bombeando com energia renovável à água do rio para próximo das casas. “Assim, haverá outras melhorias: do conforto, da comodidade, da higiene pessoal, do acesso”.

“Essa primeira etapa, em formato de oficina e sensibilização, já vai servir para despertar o interesse pelo tema, aumentar a preocupação com a água ingerida, a higiene de forma geral, além de melhorar a qualidade da água”, complementa Cecília.

Para Cecília, o acesso a água pode contribuir ainda para outras demandas e oportunidades. Caburini atualmente está atuando na implementação de uma pousada de Turismo de Base Comunitária para receber turistas que querem conhecer de perto a região e a vida das comunidades ribeirinhas.

Para Ronivon Brandão de Oliveira, presidente da comunidade Caburini, há uma grande expectativa: “O projeto é de suma importância para todos da comunidade”. Segundo Ronivon, o sistema vai facilitar a vida da comunidade, além da oficina de capacitação “mostrar como prevenir de certas doenças”. “Era um sonho de todos”, completa.

A Prefeitura de Alvarães é parceira do projeto e participará das futuras instalações e seminários para definição de um acordo de gestão compartilhada das tecnologias sociais.

Água é Vida

Para Maria das Dores Marinho Gomes, Técnica em Saúde Comunitária do PQV, “água é vida”: “Todo nosso organismo precisa de água, mas precisa ter uma água de qualidade. E por isso é muito importante ter este acesso nas comunidades”.

Maria das Dores conhece muito bem a realidade e as dificuldades da região. Nascida em Fonte Boa (AM), atua há décadas no Médio Solimões e há mais de 10 anos no Instituto Mamirauá, nos temas de saúde coletiva e saúde da mulher. Ela ressalta a importância da orientação para que as pessoas entendam, de forma correta e simples, a importância dos cuidados com a água. “Com pequenas coisas, de forma simples, barata, econômica, as pessoas podem ter água de qualidade nas suas comunidades”.

Segundo Dores, “Esse projeto vem dar as condições que eles não tinham. Se eles se apropriarem dessas tecnologias, este projeto vai melhorar a qualidade de vida destas comunidades. Não é fácil ficar carregando água no sol quente! Só de melhorar o acesso, de ter água na tua casa, isso aí é muito importante. Se for uma água de qualidade, melhor ainda. Esse projeto beneficia todos da comunidade e com tecnologias simples que o município, a prefeitura, também pode se apropriar”.

“O acompanhamento desta primeira etapa do projeto irá ocorrer por pelo menos seis meses, através do monitoramento da qualidade das águas e do uso dos filtros, verificando se estas estão atendendo a demanda das famílias”, afirma Maria Cecilia, que também é líder do Grupo de Pesquisa em Inovação, Desenvolvimento e Adaptação de Tecnologias Sustentáveis (GPIDATS). O monitoramento ocorrerá mensalmente através da coleta e análise de amostras de água e entrevistas com as famílias beneficiadas pelo projeto. O objetivo é acompanhar a adaptação das famílias com o uso dos filtros e o funcionamento e a duração das velas, que são os elementos filtrantes.

Instituto Mamirauá 

O Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá é uma Organização Social fomentada e supervisionada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI). O Instituto, criado em 1999, vem atuando ao longo dos anos no desenvolvimento de pesquisas científicas sobre a biodiversidade, manejo e conservação dos recursos naturais da Amazônia de forma participativa e sustentável.

Com sede em Tefé (AM), no coração da Amazônia, suas ações são voltadas à criação e à consolidação de modelos de uso da biodiversidade para o desenvolvimento econômico e social de comunidades tradicionais. Entre seus principais territórios de atuação estão as Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã, no estado do Amazonas, que juntas somam uma área protegida de quase 3,5 milhões de hectares e mais de 15 mil moradores.

A equipe do Instituto Mamirauá é formada por profissionais e pesquisadores com expertise técnica e profundo conhecimento do território, da biodiversidade e das dinâmicas sociais, que trabalham em estreita colaboração com as populações locais.

O PQV atua, desde os anos 1990, na melhoria das condições de vida de moradores de áreas rurais da Amazônia. As ações se expandem para outros locais da Amazônia por meio de projetos, parcerias e do treinamento de multiplicadores. O Programa atua na sensibilização das populações sobre temas ligados a qualidade de vida e no desenvolvimento e reaplicação de tecnologias sociais voltadas para melhoria de estruturas domiciliares e comunitárias.

O GPIDATS atua de forma interdisciplinar para o desenvolvimento regional e melhoria da qualidade de vida da população ribeirinha, através do emprego de tecnologias sustentáveis na conservação dos recursos naturais, bem como fornecendo subsídios à implementação de políticas públicas de desenvolvimento social. Entre as pesquisas do grupo estão Tecnologias Sociais de abastecimento e tratamento de águas, esgotos e energia solar.

Texto: Leonardo Capeleto –  INSTITUTO MAMIRAUÁ

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