A Terceira Margem – Parte CXLIX

Foz do Breu, AC/ Manaus, AM ‒ Parte XXV 

Cel Hiram em seu caiaque

Francisco D’Ávila e Silva VI  

No dia cinco, bem cedo, os peruanos pediram paz e logo depois das 06h00, davam entrada no Seringal de Luís de Melo [lado direito do Rio Amônea] os feridos brasileiros, sendo que os da retaguarda só puderam ser recolhidos depois de 22 horas.

O quadro era um misto de tristeza e alegria no arraial brasileiro, pois, ao lado do sofrimento dos feridos, notava-se o contentamento reinante pela vitória, que ia se confirmando pela chegada dos prisioneiros inimigos conduzidos pela tropa e voluntários nacionais, em marcha festiva.

Acrescenta Virgílio: O primeiro peruano a entrar na casa de Luís de Melo, foi o Comandante Hurtado que, “amuado, silencioso, exausto e transpirando a gotas”, senta-se em uma cadeira à sala, seguido por seus soldados, calados e desarmados, ficando a nossa tropa do lado de fora, descansando e palestrando, devidamente armada.

Do outro lado do Rio, no acampamento inimigo, as casas fechadas, escondiam alguns soldados feridos e mulheres enfermeiras.

Mário Lobão, ouvido pelo doutor Manuel Onofre de Andrade, não foi tão minucioso quanto o seu primo Virgílio, mas, de um modo geral confirma a narrativa deste, com pequenas discrepâncias, que não alteram os fatos principais do acontecido.

Entre os brasileiros, morreu no dia 4 o soldado do 15° de Infantaria, Domingos Viana da Silva, tendo sido feridos durante a ação as praças do mesmo Batalhão, furriel [hoje 3° Sargento] José Rodrigues da Fonseca, Soldados José Baltazar da Silva e João Caraúba da Silva, além de alguns civis.

Sendo de cinco o número de feridos, segundo Alfredo Teles de Meneses, o “Jornal do Comércio” do Rio de Janeiro e “O Paiz” também do Rio de Janeiro, e, achando-se neste número o Sargento e as duas praças referidas, apenas, dois civis foram atingidos: o comerciante Julião Sampaio e Pedro Augusto da Silva. Às 09h00 do dia cinco de novembro, já o pavilhão brasileiro tremulava no lugar que fora ocupado pelos peruanos, lavrando-se de tudo uma ata.

No dia seis seguinte, o Major Ramirez Hurtado entregava ao Capitão Francisco Ávila e Silva, 30 carabinas mannlicher, 19 rifles e 3.000 balas: sendo concedido ao Major Hurtado e seus subordinados regressarem ao Peru, via Ucayali, seguindo, porém, o armamento o caminho de Manaus, onde seria entregue ao Comandante do Distrito Militar. No dia sete do mesmo mês, às 08h00, os peruanos deixaram o posto valentemente disputado pelas forças do Capitão Ávila, que lhes proporcionou seis embarcações para isso, prestando-se, na ocasião, continências militares: declarando, oficialmente, o Major Ramirez que não tinha desgraças a lamentar, mas, depois de sua saída, foram encontrados nove soldados sepultados, ignorando-se o número de feridos. Tudo terminado, o Comandante brasileiro recebeu do chefe peruano uma longa e amistosa carta, em que este lhe agradecia a distinção e apreço tidos para com ele e seus camaradas, fazendo “votos para que houvesse a mais duradoura paz entre o Peru e o Brasil”.

Suplico a Usted tenga la bondad de manifestar a sus conciudadanos que antes de partir les agradezco particularmente la distinción de aprecio que conservaran para el que tuvo el honor de ser un año Comisario de este Río, que el de su parte va con la conciencia tranquila porque jamás engañó en sus deliberaciones y actos de justicia.

El día 4 de noviembre quedará como testimonio de que los hombres íntegros no saben temer el peligro y que por consiguiente sus distinguidas atenciones serán para mí un grande recuerdo que llevare al seno de mi familia. A Usted mi querido amigo, le ofrezco, como siempre, mi más sincera amistad para que pueda ocuparse con la confianza del verdadero amigo en el Callao Perú.

Lleve a sus compañeros en el Moa, mi saludo y manifiésteles que hago por la más estrecha paz en Brasil y Peru. [Major Ramirez Hurtado – Carta ao Capitão d’Ávila − Arquivo Histórico do Itamarati]

Os peruanos, todavia, na sua retirada pelo Amônea ‒ Ucayali, arrasaram a propriedade do brasileiro Francisco Pereira da Silva, demorando sua permanência no varadouro que liga as duas Bacias.

Por causa dessas notícias, abundância de criminosos e de índios, avultado contrabando e continuas invasões peruanas, e proteção aos Postos Fiscais Federais, foi lembrado o estabelecimento de um Batalhão do Exército nesta zona, com destacamentos em vários pontos da fronteira, além de um outro na sede do Departamento; providências, porém, que não foram tomadas, em vista do “Modus Vivendi” a que já nos referimos e que começou a ser executado com a nomeação de uma Comissão Mista de administração do território neutralizado, a montante do Rio Breu e de uma outra, também mista, para reconhecer o Rio Juruá até as suas nascentes.

O chefe brasileiro da primeira dessas Comissões era o Capitão Tenente J. N. Belford Guimarães, o qual partiu de Manaus a 05.04.1905, e como falecesse no Alto Juruá, foi nomeado para substituí-lo o Capitão de Corveta Colatino Ferreira Vale, por ato de 27.09.1906, que assumiu o cargo de Comissário Administrativo do Brasil no “Território Neutralizado do Alto Juruá”, a 12.01.1907, sediado na Foz do Rio Breu; aí permanecendo até 1910, quando foi assinado o Decreto n° 7.975 de 2 de maio, extinguindo esta Comissão. Havia ali também um Posto Fiscal Aduaneiro e um Destacamento do Exército comandado por um oficial brasileiro: tendo o Peru uma “Comisaría” dirigida por D. Rubem Barrios, dotada também de um contingente militar e um “Resguardo Fiscal”, movimentando o local e lhe dando um aspecto desusado. O embarcadouro brasileiro chamava-se “Porto Branco” e o dos peruanos “Puerto Pardo”. O agrupamento brasileiro ficava a margem direita e o peruano a banda esquerda do Rio Breu, vizinhos, mas, independentes. (SOBRINHO, 1959)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 10.02.2021 –  um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia 

SOBRINHO, Dr. José Moreira Brandão Castello Branco. Peruanos na Região Acreana – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – Volume 244 – Departamento de Imprensa Nacional 1959.

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

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