A Terceira Margem – Parte CVIII

Porto Velho, RO/ Santarém, PA ‒ Parte LXXVIII

O Autor e João Paulo no Rio Madeira – AM

Descendo o Rio Madeira ‒ IX  

Rumo a Nova Aripuanã, AM 

Só se pode amar as coisas que se conhece e entende… Só lutamos e defendemos o que amamos.
(Thiago de Mello)

Marmelos (31.12.2011/01.01.2012)

Mapa 3 – Boca do Cará – Nova Aripuanã

Nossa passagem pelo Rio Marmelos, teve muitos significados importantes. Além de transpormos as fronteiras físicas de dois Municípios, Humaitá e Manicoré, rompemos a barreira cronológica de 2011 para 2012, encerramos as homenagens aos 40 anos do 2° Grupamento de Engenharia, Grupamento Rodrigo Octávio e iniciamos nosso preito aos 100 anos do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA).

Meu filho João Paulo, que me acompanha neste périplo, é, por enquanto, o último de três gerações de “Reis e Silva” que vibraram e se emocionaram percorrendo as históricas arcadas do Velho Casarão da Várzea. Meu pai, Cassiano Reis e Silva, da turma de 1939, foi aluno da então Escola Preparatória de Cadetes, local em que eu e meus dois irmãos estudamos, nas décadas de 60/70, e em que, mais tarde, passaram meus três filhos, na década de 90 e na primeira década da virada do século.

Praticamente, de duas em duas décadas um “Reis e Silva” se fazia presente no CMPA, por isso recorri ao número 20, seguido de dois zeros (centenário do CMPA) para determinar a extensão de minha jornada. Esta descida de 2.000 km, a mais longa de todas até agora, reflete o meu reconhecimento aos queridos mestres e ao Velho Casarão que orientaram meus passos desde a adolescência e me encaminharam, adulto, vitorioso e virtuoso, para a Academia Militar das Agulhas Negras.

Lá, segundo o Capitão Camargo, Comandante da 2ª Companhia do Curso Básico, a missão dos instrutores não era “corrigir defeitos, mas sim para aprimorar virtudes”. Meu querido CMPA: tenhas a certeza de que cada gota de suor derramado no Rio Madeira ou no Rio Amazonas, cada contração muscular, cada regozijo ou dor fazem-me vibrar de emoção porque cada um deles representa uma humilde oferenda por tudo que tu representas para mim, para meus familiares e para o Brasil. Zum zaravalho!!!

Última Noite em Manicoré (06.01.2012) 

A distância que nos separava do próximo alvo, Nova Aripuanã, era de 150 km. No planejamento inicial, eu previra três dias; o que se alcançaria com muita folga, decidi fazer em dois ‒ o primeiro lance em torno dos 85 km, e o segundo, dos 65 km. Na véspera da partida, dia seis de janeiro, mostrei ao Comandante Mário nosso objetivo intermediário, a Foz do Rio Mataurá. Pela imagem do Google Earth, era um belo Rio de águas limpas que se chocava com as barrentas do Madeira, proporcionando um breve e curioso “encontro das águas”.

Combinei com nosso caro amigo e repórter Walter Filho que estaríamos em condições de sair a partir das cinco horas da manhã, condicionando a largada aos primeiros raios de luz, já que a jornada era muito longa.

Partida de Manicoré (07.01.2012)  

Resolvi dormir embarcado para não atrasar a saída. A sinfonia noturna foi muito ruidosa e meu sono por demais entrecortado; arrependi-me de não ter permanecido no Hotel dos irmãos Macaxeiras, por mais uma noite.

Uma das pequenas pererecas mais parecia uma velha e barulhenta furadeira, cheguei a sonhar com alguém furando um piso de granito. Acordei às 04h40 e resolvi me equipar silenciosamente. Às cinco horas, toquei alvorada e no mesmo instante visualizei a silhueta do Walter descendo a enorme escadaria de madeira que dava acesso à embarcação. Pela primeira vez, pude constatar um repórter britanicamente pontual. Os poucos dias de convivência com o Waltinho, como carinhosamente o chamam, mostraram o quanto ele ama o que faz e o seu alto grau de profissionalismo e perfeccionismo.

Colocamos o caiaque n’água e remei um pouco para montante e depois ao sabor da corrente, sob o holofote do Piquiatuba, para que o Walter fizesse sua última tomada da matéria. Retornei para despedir-me do caro amigo de Manicoré e remei forte rumo ao Mataurá. Tinha remado alguns quilômetros quando o João Paulo resolveu me acompanhar, acordar cedo nunca foi seu forte.

Nas primeiras duas horas, a neblina reduzia a visibilidade a uns 800 metros, o tempo foi melhorando e mantivemos um ritmo forte e sem paradas, a hidratação e alimentação no percurso foi feita embarcada. Pouco antes de abordarmos a Foz do nosso alvo, observamos um bando de urubus sobre algumas árvores à flor d’água, resolvi me aproximar, para averiguar, e avistei um jacaré-açu de uns quatro metros e meio sendo devorado pelos funestos carniceiros. Chegamos à Foz do Mataurá, por volta das 11h30, depois de remar 85 km sem parar, a uma média de 13,5 km/h. As águas eram muito limpas e o local bastante agradável, ouvimos ao longe um foguetório que anunciava que a Comunidade Maravilha estava em festa, afinal era sábado.

O leiloeiro do evento, conhecido como “Jabá” veio, gentilmente com seus familiares, até o Piquiatuba convidar a tripulação para participar dos festejos que incluíam jogos, leilões e naturalmente um animado forró.

O Autor e João Paulo no Rio Madeira – AM

Partida de Mataurá (08.01.2012)  

O lance era mais curto, aproximadamente de 65 km, mas resolvi sair cedo aproveitando a lua. Logo na saída da Foz do Mataurá, o Rio inflete para a esquerda num ângulo de 90° ao mesmo tempo em que se comprime entre as margens aumentando sensivelmente a correnteza e provocando redemoinhos e banzeiros já que as ondas, acompanhando a corrente, se chocam contra o enorme barranco e retornam provocando um perigoso turbilhonamento. Felizmente ninguém resolvera me acompanhar, de caiaque, logo cedo; eu precisava, nesta hora, de toda a atenção concentrada no meu deslocamento apenas.

Rio Madeira

O fétido jacaré-açu morto que encontráramos, na véspera, estava descendo o Rio, felizmente minha velocidade era bem maior e logo me vi livre do ar nauseabundo que o cercava. A meio caminho, uma voadeira veio na minha direção, seus tripulantes tinham participado dos folguedos da Comunidade Maravilha e estavam curiosos a respeito de minha viagem, respondi às suas perguntas e continuei, célere, minha jornada. O Comandante Mário resolveu me acompanhar em dois trechos, a velocidade agora oscilava entre 15 e 16 km/h, ele precisou voltar ao Piquiatuba por duas vezes tendo em vista que alguns locais exigiam cautela redobrada na condução do barco a motor. Chegamos a Nova Aripuanã exatamente às 10h00, depois de 04h30 de navegação. Havíamos quebrado nosso recorde de velocidade média, atingimos 14,44 km/h. Brinquei com meu filho e a tripulação, que esta etapa, não dera tempo nem mesmo de aquecer o corpo, tão rápido fora o deslocamento.

Rio Madeira

Nova Aripuanã (08.01.2012)  

Depois do almoço, procuramos a PM que indicou o Hotel do Tio Zé para me hospedar. Mais tarde, seguindo a orientação do Walter Filho, procuramos o Ir:. Newton Aroucha Filho, no seu Posto de Combustível. O Newtinho contatou o Prefeito que, imediatamente, nos procurou e nos levou até um encontro das 32 Comunidades da Reserva Juma, coordenado pela Amarjuma que estava acontecendo na Cidade.

O Prefeito Aminadab Meira de Santana foi interpelado sobre diversas questões como educação, merenda escolar, saúde e transporte e a todas respondeu com muita serenidade.

A administração está conseguindo recursos através de créditos de carbono que deverão dobrar o orçamento da Prefeitura para o ano que vem. Aminadab Santana prometeu aplicar 90% destes recursos na área rural.

Nova Aripuanã (09/10.01. 2012)  

Logo de manhã, acompanhamos o Prefeito Aminadab nas suas andanças pela Cidade, tomamos café na sua residência, visitamos a Prefeitura e as Secretarias, onde pudemos observar a falta de comprometimento com o trabalho por parte da maioria de seus Secretários, forçando o Prefeito a intervir diretamente em questões inerentes a cada uma das pastas.

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 14.12.2020 –  um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.  

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

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