A Terceira Margem – Parte CX

Porto Velho, RO/ Santarém, PA ‒ Parte LXXX

Mapa 4 – Nova Aripuanã – Nova Olinda do Norte

Descendo o Rio Madeira ‒ XI   

Rumo a Borba   

O grande amigo e repórter Walter Filho, de Manicoré, me telefonou querendo saber quando chegaria a Borba e lhe informei que às 11h45 do dia 12.01.2012, e que partiríamos de Nova Aripuanã, às 05h15, como de costume, de 11.01.2012. Não era possível vencer a distância de 150 km, entre Nova Aripuanã e Borba, em apenas um dia.

Partida de Nova Aripuanã (11.01.2012)   

A navegação foi relativamente lenta nas proximidades da Cidade onde o Rio Madeira se divide em dois braços que contornam uma pequena Ilha frontal à Cidade. O dia amanhecera com uma leve cerração e uma garoa fina e bastante agradável.

O João Paulo começou a me acompanhar quando eu já remara em torno de 20 km; o “surfista” está melhorando a olhos vistos, já não briga tanto com o remo e está aprendendo, aos poucos, a linguagem das águas. Elas, e não o canoísta, que determinam a melhor rota, as águas devem ser acarinhadas pelos remos e não violentadas por eles, o navegante deve integrar-se totalmente à sua fluidez captando sua energia e usando-a a seu favor.

Remamos energicamente e fizemos a primeira por volta das 12h00 em uma das primeiras comunidades do Município de Borba. O pequeno sítio era um capricho só, construções limpas e pintadas, terreno capinado e plantações bem cuidadas, chamou-nos a atenção, em especial, o enorme curral que abrigava dezenas de jabutis. Fizemos uma troca de alguns gêneros alimentícios por frutíferas.

Partida para Borba (12.01.2012) 

Parti no horário costumeiro, prevendo uma única parada a meio caminho em um afluente de águas negras que aparecia na fotografia aérea do Google Earth.

Lá chegando, verificamos que a foto havia sido feita na estiagem do Madeira, o pequeno afluente fora invadido pelas barrentas águas do Madeira, sendo impossível reabastecer de água limpa a caixa d’água do Piquiatuba.

Os ventos fortes que surgiram, a partir desta rápida parada, retardaram, sensivelmente, nossa progressão. Quanto mais nos aproximávamos de Borba mais intensa a ventania e, consequentemente, os banzeiros. As ondas ainda não tinham ultrapassado os 60 centímetros de altura, não exigindo, portanto, a colocação da saia de “neoprene” para impedir que as águas invadissem o “cockpit”.

Borba, AM

Aportamos exatamente às 11h45 e, depois do almoço, fui com o João Paulo até o Banco do Brasil. Infelizmente os caixas eletrônicos não permitiam o saque, e uma estagiária nos informou que somente no dia seguinte, às oito horas, o saque poderia ser feito.

O Banco do Brasil, ao contrário do que se pensa, não é a organização bancária mais presente na Amazônia Brasileira, deixando de cumprir uma importante função social que deveria nortear sua administração.

Logo depois, fomos procurar um hotel onde eu pudesse me concentrar para escrever os artigos. As informações contraditórias e a péssima apresentação dos mesmos eram impressionantes, resolvi voltar para o barco. Mais tarde, o João Paulo descobriu uma instalação decente onde passei minha primeira noite em Borba.

Borba (13.01.2012)  

Acordei cedo e, depois do café, fui até o Banco do Brasil fazer o saque e retirar um extrato para informar ao meu pessoal de apoio sobre as novas contribuições. Felizmente mais alguns companheiros investiram no Projeto embora as contribuições até agora só tenham alcançado os 33% do montante total necessário para esta descida de 2.000 km de Porto Velho, RO, a Santarém, PA.

As obras de contenção, jardins e a bela Igreja conferem à Cidade uma visão bastante agradável para quem a acessa pelo Rio. Infelizmente, como a maioria das concentrações urbanas amazônicas, certas pessoas consideram as calçadas como seu bem particular.

Negociantes colocam seus produtos impedindo a passagem de pedestres, moradores chegam a colocar cercas para demarcá-las como “sua” propriedade, e condutores irresponsáveis estacionam seus veículos nestes passeios “públicos”.

Rumo a Nova Olinda do Norte 

É muito melhor arriscar coisas grandiosas, alcançar triunfos e glórias, mesmo expondo-se à derrota, do que formar fila com os pobres de espírito, que nem gozam muito, nem sofrem muito, porque vivem nessa penumbra cinzenta que não conhece vitória nem derrota. (Theodore Roosevelt)

A distância de Nova Olinda do Norte era, pelo Google Earth, de pouco mais de 90 quilômetros. No planejamento inicial, eu previra dois dias de deslocamento, mas decidi fazer em um dia, contando com o tempo bom e a velocidade da correnteza.

Iguana Iguana – Borba, AM

Partida de Borba, AM (14.01.2012)   

O João Paulo apareceu, de madrugada, dizendo que tinha sido convidado por alguns novos amigos para um churrasco e que pretendia ficar mais um dia em Borba. Parti um tanto preocupado, deixando meu filho para trás. Lancei-me às águas, como o programado, por volta das 05h15, pronto para enfrentar o mais longo desafio do Rio Madeira, eu estava otimista, a primeira hora foi alvissareira, águas de Almirante, suave brisa e águas rápidas. Depois de remar 15 km, minha proa apontou para enormes e carregadas nuvens negras no horizonte. A chuva começou pela margem esquerda e logo me atingiu por rajadas de vento de até 40 km por hora, uma chuva forte acompanhada dos inevitáveis “banzeiros”. As ondas não ultrapassaram os 60 cm, mas resolvi navegar próximo da margem direita, já que a visibilidade fora reduzida a uns 300 metros. O esforço agora era considerável, em virtude dos ventos de proa, torci para que o tempo melhorasse para não comprometer minha programação.

O objetivo seria alcançado de qualquer maneira, fui doutrinado, na Academia Militar das Agulhas Negras, para não entregar os pontos e forçar coração, nervos, músculos, tudo, para atingir a meta. Os óbices acontecem, mas devem ser encarados com naturalidade e ultrapassados com coragem e determinação, sempre mantendo o “foco” no objetivo a ser atingido.

Depois de navegar, aproximadamente 20 km, o Soldado Walter Vieira Lopes (Subcomandante do Piquiatuba) resolveu acompanhar-me no caiaque do Mestre José Holanda. Durante a primeira hora, o Vieira Lopes dominou a arte da canoagem como bom marujo que é, enfrentando fortes ondas de proa e de través. As ondas acalmaram, o vento diminuiu consideravelmente e, como ele estivesse à minha frente, gritei para que ele aproasse a jusante de uma Ilha à nossa frente; o Vieira Lopes girou o corpo para me ouvir melhor e virou o caiaque.

Depois de tentar diversas vezes subir, sem sucesso, no caiaque, resolvi rebocá-lo até a margem. Foi uma progressão lenta, difícil e cansativa até uma margem repleta de canaranas. Viera Lopes retirou a água do caiaque e partiu célere para a margem direita do Rio. Somente depois de ultrapassarmos as pequenas Ilhas, avistamos o Piquiatuba comandado pelo Soldado Mário Elder Guimarães Marinho. Fui até a embarcação colocar uma camisa seca e renovar meu estoque de água de coco. O Vieira Lopes continuou mais um pouco e foi substituído, no caiaque, pelo Soldado Marçal (nosso cozinheiro). Novamente a maestria dos nossos marujos na condução de uma embarcação a que não estavam absolutamente acostumados ficou patente.

Faltavam apenas 26 km e resolvi imprimir um ritmo forte até Nova Olinda, acompanhado a par e passo pelo Marçal. A uns dez quilômetros de distância da Cidade, o Marçal comentou sobre a ausência dos golfinhos (botos e tucuxis) no Baixo Madeira e, logo em seguida, como para atender a seu apelo, apareceram cinco enormes botos vermelhos. Os belos mamíferos aquáticos evoluíam muito próximos dos caiaques, por vezes nos assustando e nos acompanharam até as cercanias da Cidade.

Chegada em Nova Olinda do Norte (14.01.2012)  

Nova Olinda, AM

Chegamos às das 12h55 depois de navegar 93 km em 07h40 a uma média próxima dos 12 km/h. O Sd Mário Elder ancorou no Porto do DNIT e conseguiu autorização do funcionário Charles Christian Sales para que ali permanecêssemos até segunda de manhã.

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 16.12.2020 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

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