Mulheres rurais de Rondônia: inspiração que vem da floresta

Liderança em sua família e na aldeia, a jovem agricultora indígena Diná Suruí, de 34 anos, já tem uma história marcada por muitos desafios e vitórias. O eco de suas conquistas tem chegado longe e servido de inspiração para outras mulheres. Com seu jeito amoroso e humilde de ser, ela demonstra a sabedoria de quem soube conquistar seu espaço, agregando e fortalecendo a família.

Diná Suruí vive na Aldeia Tikã, no município de Cacoal, em Rondônia. É casada com Tintin Yamixarah Suruí, de 54 anos. Foto: FAO


“Sei que muitas mulheres não têm essa autonomia que eu tenho, mas todas podem ter. A partir do momento que uma mulher pode trabalhar e se desenvolver, isso faz a diferença em sua vida, na família e em sua comunidade. Todos precisamos uns dos outros, isso é igualdade. Ter autonomia nos faz caminhar com mais firmeza diante da vida”, comenta Diná.

Ela vive na Aldeia Tikã, no município de Cacoal, em Rondônia. É casada com Tintin Yamixarah Suruí, de 54 anos, e mãe de Payamah, Pagoar, Xamekar e Xamekabh. Esta mulher rural trabalha na lavoura há mais de 20 anos com plantio de café, mandioca, banana, cará e outras culturas. E todo esse trabalho e dedicação estão gerando bons resultados. Em 2019, Diná e seu esposo começaram a fazer parte do projeto Tribos, que é destinado aos indígenas de Rondônia.

O Tribos, realizado pelo Grupo 3Corações, vai além de uma ação comercial. Neste projeto, todo o café produzido por cerca de 130 famílias de cafeicultores indígenas de Rondônia, de diversas etnias, é adquirido com agregação de valor por qualidade. Conta ainda com ações de transferência de tecnologia, assistência técnica e subsídios para a adequação de benfeitorias para a produção de cafés especiais.

Este projeto conta com a parceria da Embrapa Rondônia para a definição de estratégias de produção sustentável de cafés com qualidade por povos indígenas. Além disso, também fazem parte deste projeto: Fundação Nacional do Índio (FUNAI), Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER-RO), Secretaria Municipal de Agricultura de Alta Floresta D’Oeste e Câmara Setorial do Café de Rondônia.

O projeto Tribos é baseado no tripé: produção de cafés de qualidade, com sustentabilidade e promoção do protagonismo indígena. Segundo o pesquisador da Embrapa Rondônia, Enrique Alves, esta ação representa uma transformação de realidade para estes povos. “Eles deixaram de ser produtores de cafés tradicionais, para se tornarem produtores de Robustas Amazônicos Finos e de origem”, afirma o pesquisador.

Diná e o esposo acreditaram e se dedicaram ao Tribos e foram os campeões da primeira edição do concurso de qualidade dos cafés Robustas Amazônicos, que é destinado aos indígenas do estado, realizado em 2019. Os dois lidam diariamente com a lavoura de café, que é a principal fonte de renda da família.

Apesar de não ser da cultura do povo Paiter Suruí, os indígenas passaram a cultivar o café há mais de 30 anos e, hoje, esta cultura agrícola é muito importante para a renda destas famílias. “O café é tudo para nós. Com a premiação do Concurso Tribos investimos mais na lavoura, sempre com sustentabilidade. Eu tenho tentado passar meu conhecimento e aprendizado com a produção de café também para o meu povo e outras pessoas, não quero guardar isso só para mim”, conta Diná.

O toque feminino

No campo, as mulheres indígenas têm a função de plantar e cultivar os alimentos. Segundo Diná, a atenção aos detalhes é seu toque especial para a produção de cafés com qualidade, desde a colheita, seleção dos grãos até a secagem. Ela foi a maior incentivadora para que a família se dedicasse à produção de cafés especiais. O trabalho em conjunto tem gerado bons resultados e incentivado a produção de alimentos com qualidade e sustentabilidade na área indígena.

A família de Diná possui 2,5 mil pés de café em produção, que divide espaço com a floresta e outras árvores frutíferas. A mulher, segundo Diná, trabalha para o sustento da família e para oferecer aos demais, consumidores, produtos com qualidade. “É preciso muito planejamento e dedicação”, reforça Diná. Ela se divide entre a rotina de cuidar dos quatro filhos, sendo dois adolescentes, uma criança e um bebê, fazer as tarefas da casa e ainda se dedicar a todo o processo de produção de cafés.

“As mulheres querem fazer as coisas sempre melhor, elas planejam como vão fazer, depois como vão aplicar na família o que conseguem ganhar e assim vão ajudando no sustento. É cansativo, mas o resultado nos anima”, afirma Diná.

Autonomia e protagonismo: Mulheres Donas da História

Em Rondônia, estão sendo realizadas pela Embrapa, desde 2017, ações voltadas para a sensibilização, visibilidade, reconhecimento, capacitação e geração de oportunidades, especialmente para mulheres que atuam no setor do café. No estado, são mais de 17 mil famílias que atuam com esta cultura e que correspondem a cerca de ¼ dos estabelecimentos rurais de Rondônia.  Além disso, o estado também é responsável por, aproximadamente, 97% de todo o café produzido na região Amazônica.

A Embrapa Rondônia promove ações de pesquisa e transferência de tecnologia junto aos produtores e identificou a necessidade de sua intervenção para ajudar a corrigir o fenômeno da “invisibilidade” da mulher no campo.  São mulheres que, apesar da importância do trabalho que desempenham, estão sempre à margem. A forma que a Embrapa Rondônia encontrou para atuar nesse viés foi por meio do conhecimento científico e tecnológico e da comunicação social e estratégica. O acesso ao conhecimento, o reconhecimento de seu papel, o respeito aos seus diretos e a autonomia conferem a elas o protagonismo de suas próprias histórias.

Esta iniciativa da Embrapa une-se também ao Projeto Tribos como forma de dar visibilidade e subsidiar estas lideranças femininas que têm surgido como um protagonismo natural no projeto, a exemplo da Diná Suruí e outras cafeicultoras indígenas como Melissa Tupari, Maria Aruá, Marcela Aruá e Grazielly Aruá.

A liderança indígena e campeã do Concurso Tribos 2019, Diná Suruí diz, em poucas palavras, a importância do trabalho da mulher na agricultura. “Não importa se o trabalho é grande ou pequeno, ou quem faz. O que importa é acordar todos os dias e fazer o seu trabalho com amor e humildade. Eu sou a prova disso. A diferença é o amor que a gente coloca em tudo o que faz e isso está nos nossos cafés”, conclui Diná.

15 dias de iniciativas inspiradoras

A história de Diná Suruí, enviada pela Embrapa Rondônia, faz parte da ação “15 dias de iniciativas transformadoras”, parte da campanha #MulheresRurais, mulheres com direitos.

Durante os próximos dias, outras organizações parceiras da campanha irão compartilhar histórias de mulheres rurais promotoras da alimentação saudável, guardiãs da terra, líderes e empreendedoras, com base em três eixos principais: direitos e autonomia econômica; papel produtivo em sistemas agroalimentares; redução de lacunas e uma vida livre de violência. No dia 15 de outubro, encerra-se a ação com a celebração do Dia Internacional das Mulheres Rurais.

Autor : Aline Czezacki Kravutschke

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