Morte por Covid-19 sobe para 4 entre Yanomami, diz organização indígena

A maioria dos indígenas contraiu a doença dentro da casa de saúde, em Boa Vista, e no território, que está invadido por mais de 20 mil garimpeiros.

Imagem do atendimento de saúde aos indígenas Yanomami do Pólo Base Kayanau (Foto Dsei-Y)

Boa Vista (RR) – Em dois meses, o número de indígenas Yanomami com a Covid-19 chegou a 68 pessoas e quatro mortes registradas na etnia, conforme monitoramento realizado pela Rede Pró-Yanomami e Ye’kwana, no Amazonas e em Roraima. O levantamento, do dia 4 de junho, inclui mais dois óbitos e 18 casos suspeitos do novo coronavírus, que estão sendo investigados.

O levantamento da Rede Pró-Yanomami e Ye’kwana mostra que a maioria dos indígena infectados, 41 pessoas ou 60% dos casos confirmados, contraíram a Covid-19 dentro da própria Casa de Saúde Indígena (Casai-Y) Yanomami onde são internados para o tratamento de outras doenças, em Boa Vista. Outras 12 pessoas, ou 18% dos casos, foram contaminadas pelo vírus dentro do território indígena, que está invadido por mais de 20 mil garimpeiros ilegais, alerta o levantamento. A estatística diz que dez indígenas, ou 15% do total geral de casos confirmados, foram infectados nas cidades.

“O garimpo ilegal está levando a Covid-19 para a Terra Yanomami. Para os garimpeiros, há liberdade para entrar e sair e tem contaminação entrando. Eles são vetores”, denunciou Dário Yanomami, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami (HAY), durante uma live organizada pelo Instituto Socioambiental (ISA) na terça-feira (3).

Os dados Rede foram coletados nas próprias organizações da Terra Indígena Yanomami e apresentam uma diferença se comparados as notificações do boletim epidemiológico da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, que divulgou 59 casos confirmados da doença entre os Yanomami e três mortes até quinta-feira (4).

A Terra Indígena Yanomami tem mais de 9,4 milhões de hectares entre os estados do Amazonas e de Roraima. O território, localizado na fronteira do Brasil com a Venezuela, tem uma população de 28.148 indígenas que vivem em 366 aldeias, segundo a Associação Hutukara, a mais importante do povo Yanomami e fundada pelo líder Davi Kopenawa Yanomami.

O primeiro caso do novo coronavírus entre os Yanomami foi registrado em um jovem de 15 anos, no município de Alto Alegre, região de grande incidência de garimpeiros no rio Uraricoera, na região Leste de Roraima. Ele sentiu os primeiros sintomas da doença em 18 de março, passou por diversos atendimentos, chegando a receber alta médica, e só foi testado para a Covid-19 em 6 de abril, morrendo três dias depois no Hospital Geral de Roraima, na capital.

Desde então, foram mais três óbitos causados pela Covid-19 entre os Yanomami, segundo a Rede Pró-Yanomami e Ye’kwana. No dia 28 de abril um bebê recém-nascido morreu na Maternidade Nossa Senhora de Nazareth, em Boa Vista, após seus pais pedirem ajuda na missão Catrimani. Os pais e o recém-nascido estavam infectados pelo coronavírus.

A terceira morte foi de uma liderança indígena de 68 anos, que faleceu na comunidade Maturacá, dentro do território Yanomami, em Santa Isabel do Rio Negro, no norte de Amazonas, em 25 de maio. O acesso à comunidade é por São Gabriel da Cachoeira, um dos municípios com maiores índices da doença entre indígenas no estado: 113 casos confirmados e cinco mortes, diz a Sesai.

A Rede Pró-Yanomami e Ye’kwana não informou detalhes sobre a quarta morte confirmada entre os indígenas da etnia e nem a data.

A agência Amazônia Real enviou 26 perguntas para a Sesai responder sobre o atendimento prestado ao povo Yanomami, mas o órgão diz que “estamos levantando as informações”, desde o dia 7 de maio.

Situação caótica da Casai-Y

Indígenas Yanomami recebendo atendimento de profissionais do Dsei-Y (Foto do Dsei Yanomami/Sesai)

Em entrevista à agência Amazônia Real, o presidente do Condisi-Y, Júnior Hekuari Yanomami disse que a situação dos casos de Covid-19 é preocupante na Casai Yanomami, que fica no Monte Cristo, zona Rural da capital, pelo alto índice de contaminação. No dia 6 de maio, a reportagem esteve no local e foi informada que o ingresso de pessoas estava restrito em razão do crescente número de casos da doença entre pacientes e funcionários. “A doença está se espalhando e indígenas que estão na unidade para se tratar de outras doenças acabam se contaminando”, afirmou o presidente do Condisi.

Segundo Júnior Hekuari, outra preocupação é o avanço do vírus entre os profissionais da Saúde Indígena. Ele disse que até o dia 18 de maio, já eram 74 profissionais do Dsei-Y diagnosticados com a doença, entre os quais 46 são da Casai-Y e 22 da sede do Dsei-Y, na capital. Na Casai Yanomami há 43 indígenas com infecção ativa, “que ainda não completaram 14 dias em isolamento domiciliar, a contar da data de início dos sintomas, ou, em caso de internação hospitalar, que ainda não recebeu alta médica”, diz a Sesai.

O presidente do Condisi disse ainda que a Sesai está procurando um prédio para separar indígenas doentes com a Covid-19 dos que estão em tratamento de saúde por outros enfermidades dentro da Casai-Y. A medida, segundo ele, faz parte do plano de contingência da Saúde Indígena para lidar com a pandemia entre os Yanomami. Ele disse que a ação está sendo realizada em em conjunto com a Fundação Nacional do Índio (Funai) há algumas semanas, mas ainda não há um prédio definido para o novo isolamento.

“Estamos buscando um lugar para transferir os pacientes com a Covid-19. Pode ser que seja uma escola ou até uma casa alugada aqui em Boa Vista, caso a Sesai sede em Brasília libere o pagamento de aluguel para isso, o que até agora não aconteceu”, disse Júnior Hekuari.

“Hoje há uma casa isolada dentro da Casai para os casos de Covid-19, mas mesmo assim não tem segurança lá dentro e a circulação de pessoas espalha a doença. Por isso, os casos de coronavírus têm que ficar isolados em prédios diferentes, longe um do outro, porque indígenas que vieram se tratar doença como tuberculose e malária estão sendo contaminados pelo vírus”, completou o presidente do Condisi.

Ainda sem hospital de campanha para atender os povos indígenas, a Sesai encaminha pacientes em estado grave pela Covid-19 ao Hospital Geral de Roraima, em Boa Vista. Principal hospital do estado, a unidade tem, segundo o governo, 112 leitos de enfermaria destinados a pacientes com o novo coronavírus e 38 com ventiladores mecânicos.

Em março, quando o estado tinha apenas dois casos confirmados do novo coronavírus, a operação Acolhida, que cuida do fluxo migratório venezuelano no estado, anunciou a criação de um hospital de campanha chamado de Área de Proteção e Cuidados (APC) para atender casos da doença em parceria com o governo estadual, a prefeitura e a Sesai. Mas a inauguração, que inicialmente era prevista para o dia 24 de março, foi adiada quatro vezes e ainda não ocorreu mais de dois meses depois. A explicação é que ainda faltam diversos insumos e pessoal para atuar na unidade que inicialmente deve ter 80 leitos.

No dia 4 de junho, o número de casos confirmados do novo coronavírus chegou 4.831 em Roraima, com 139 óbitos confirmados e outros 30 em investigação, segundo a Secretaria Estadual de Saúde (Sesau). Ao todo, 229 pessoas estão internadas no Hospital Geral de Roraima e outras 16 na Maternidade Nossa Senhora de Nazareth.

Júnior Hekuari Yanomami, do Considi-Y, foi um dos 12 indígenas da etnia que foi curado da doença.  Diagnosticado no final de abril, ele disse que cumpriu o isolamento em sua residência, em Boa Vista, e que há cerca de duas semanas deixou de apresentar os sintomas do coronavírus. Ele também disse que logo no início da doença teve “febre, tosse, dor de garganta, peito, dificuldade de respirar e dor de cabeça” e que acredita ter sido contaminado na própria sede do Dsei-Y.

“É uma doença perigosa, um inimigo invisível”, disse Júnior Hekuari. “Por isso minha orientação é que as pessoas fiquem em casa, que os índios fiquem isolados nas comunidades e não vão à cidade. O isolamento é o único remédio para se proteger”, completa.

Garimpo e a iminência de grave crise

Garimpos poluem os rios com mercúrio na TI Yanomami (Foto da Associação Hutuakara)

Em nota técnica enviada à 6ª Câmara do Ministério Público Federal no último dia 14 de maio, a rede de 54 pesquisadores e apoiadores dos povos Yanomami e Ye’kwana alertaram para “iminência de uma grave crise epidemiológica” na Terra Indígena Yanomami. Eles cobraram medidas emergenciais para conter a disseminação do novo vírus, entre elas a expulsão dos garimpeiros ilegais do território e um isolamento eficaz de casos suspeitos e confirmados de Covid-19 entre os índios na Casai-Y.

“Já existem alguns focos da doença na TIY e é alta a possibilidade dela se espalhar por todo território”, alerta o documento assinado pelos pesquisadores e apoiadores, entre eles a fotógrafa Claudia Andujar e o antropólogo Bruce Albert, frisando que mesmo sendo predominantemente jovens (4,5% da população são idosos), os indígenas yanomami apresentam comorbidades, especialmente, doenças que acometem o sistema respiratório. “É preciso que medidas emergenciais sejam tomadas para evitar que a epidemia se alastre em toda a TI Yanomami”.

A gestão de saúde do território Yanomami e Ye’kwana é responsabilidade do Dsei-Y que possui 37 polos-base, 36 unidades básicas de saúde dentro da Terra Indígena e quatro unidades administrativas em Boa Vista. Em praticamente todo o território (98%) a remoção de indígenas que precisam de atendimento fora da região tem que ser via aérea, pois não é acessível por terra.

Outra preocupação trazida pela rede de pesquisadores e apoiadores é o avanço do garimpo no território Yanomami que está “invadido por mais de 20 mil garimpeiros ilegais que entram e saem da área sem nenhum controle, sendo hoje um dos principais vetores da Covid-19 neste território”, diz o relatório.

Antes da chegada do novo coronavírus, o alto índice de malária nas regiões invadidas pelo garimpo já era motivo de preocupação, segundo a nota técnica que acrescenta que, além dos garimpeiros, “infelizmente, os próprios funcionários do Dsei-Y podem também representar focos de disseminação da Covid-19, uma vez que os trabalhadores da saúde são bastante vulneráveis ao contágio”.

O relatório também chama atenção para o caso revelado pela Amazônia Real de um grupo de adultos e crianças Yanomami da aldeia Xexena, no Ajarani. Entre março e abril, o grupo estava em um acampamento improvisado com papelão e plástico em uma esquina abandonada na Avenida Glaycon de Paiva, uma das mais movimentadas de Boa Vista. Não tinham água potável, sabão ou máscaras e se alimentavam de doações. No dia 21 abril, todos foram mandados de volta para a Terra Indígena Yanomami numa missão executada pela Sesai e a Funai. Não foram testados para a Covid-19 e nem fizeram quarentena antes de regressar. Dias depois, do grupo de 40 indígenas que foram levados de volta à Xexena, 19 deles foram colocados em quarentena na Casai-Y.

“Nos falaram que há uma doença se espalhando e vejo muitas pessoas andando de máscara nas ruas”, relatou à reportagem no dia 14 de abril, o líder do grupo Ixup Yanomami, que fala português.

A população da comunidade de Xexena, cujo povo foi dizimado na época da construção parcial da perimetral norte (BR-210) na década de 70, há muitos anos migra para as cidades, enfrentando condições precárias e muitas vezes sofrendo preconceito e exploração.

MPF pede ações emergenciais 

Garimpo no território Yanomami, em 2013 (Foto: Bruno Kelly)

O Ministério Público Federal em Roraima acionou a Justiça no final de abril para cobrar um plano emergencial de ações no contexto da pandemia de Covid-19 para “monitoramento territorial efetivo” da Terra Indígena Yanomami – a maior em extensão territorial do país – alegando que no último ano “houve a aceleração do avanço do garimpo criminoso na Terra Indígena com os consequentes prejuízos ambientais, sociais, culturais e sanitários” e que agora a situação se agravou ainda mais.

“A situação, já extrema, conseguiu se agravar com o advento da pandemia mundial decorrente da disseminação da Covid-19”, diz trecho da ação civil pública impetrada em face da União, Funai, Ibama e ICMbio e que ainda espera decisão no âmbito do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1).

De acordo com o órgão ministerial, em 23 de março uma importante fiscalização que seria promovida pelo ICMBio no ramal de cerca de 40Km que corta a Floresta Nacional (Flona) Roraima até a Terra Yanomami foi cancelada em razão da pandemia. Além disso, conforme o MPF, desde 2018 a Funai e União descumprem uma decisão que determinou a reativação de três bases das Bases de Proteção Etnoambiental na TIY.

Com isso, o MPF pediu na ação impetrada em abril um plano emergencial de proteção territorial da reserva Yanomami a ser elaborado e executado pelo Exército, Funai, Ibama e ICMBio, garantindo “a imediata extrusão de todos os garimpeiros e seu não retorno, mantendo-se a presença estatal de forma permanente durante todo período em que reconhecida a pandemia de Covid-19”.

Por: | 05/06/2020 às 04:52

PUBLICADO EM:    AMAZÔNIA REAL    

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