Crime organizado impõe medo em aldeias indígenas do rio Envira, no Acre

Povos Huni Kuin (chamados também de Kaxinawá) denunciaram à Polícia Civil e à Fundação Nacional do Índio (Funai) que jovens da etnia, com idades entre 13 e 18 anos, estão sendo aliciados pelo tráfico de drogas realizado por organizações como Comando Vermelho e Bonde dos 13, uma facção local.

A imagem acima mostra indígena Huni Kuin na coleta de bananas na Terra Indígena Katukina/Kaxinawá, no Acre (Foto: Guto de Lima/ CC 2.0)

As aldeias ficam na Terra Indígena Katukina/Kaxinawá, no município de Feijó, na fronteira do estado Acre com o sul do Peru. A agência Amazônia Real procurou a polícia, mas a instituição diz que tem dificuldade de investigar o caso devido ao deslocamento só possível pela via fluvial. Faltam embarcações e combustível.

Conforme as denúncias, pessoas ligadas às facções estão se infiltrando entre os indígenas. O perfil dos jovens é selecionado: os aliciamentos acontecem com aqueles que têm problemas com bebidas alcoólicas ou drogas ilícitas para torná-los “soldados do crime”. Esses jovens estão sendo usados para cometer crimes ou usados como “mulas” para transportar por terras ou pelo rio pacotes de maconha e cocaína até os centros urbanos do estado do Acre.

Em entrevista à reportagem, o delegado de Polícia Civil do Acre, José Obetânio, confirmou, inclusive, a existência de prisão de indígenas por tráfico de drogas e ligações com as organizações criminosas. No entanto, ele relatou ter dificuldade para realizar as investigações na própria aldeia devido à falta de estrutura para o acesso ao local.

A Terra Indígena Katukina/Kaxinawá fica distante a 342 quilômetros, em linha reta, da cidade de Rio Branco, capital do Acre. O acesso às aldeias é feito pelo rio Envira em viagem de barco e tem duração de mais de cinco horas a partir de Feijó.

“Temos limitações no que se refere a logística, estamos com um pouco de dificuldade. Fiz contato com os meus superiores na Secretaria de Polícia Civil e aí estamos aguardando o retorno para viabilizar um deslocamento nosso até a aldeia. Vamos trabalhar para dar a resposta mais efetiva”, disse delegado.

Além dos indígenas Huni Kuin, vivem na Terra indígena Katukina/Kaxinawa o povo Shanenawa. As duas etnias falam uma língua do tronco linguístico Pano. Ambos formam uma população de 1.259 pessoas, segundo dados do Instituto Socioambiental (ISA). As aldeias ficam margeadas no baixo rio Envira e são elas: Paredão, Paroá, Pupunha e Belo Monte. Esses indígenas vivem do plantio de banana, mandioca e mamão. O limite da terra indígena fica ao norte com o estado do Amazonas, ao leste com os municípios do Acre: Santa Rosa do Purus e Manoel Urbano e ao oeste Tarauacá e Jordão. O sul é a fronteira com o Peru.

 

Funai compara tráfico a “doença”

Procurado para falar sobre as denúncias dos Huni Kuin, o coordenador da Fundação Nacional do Índio (Funai) no município do Juruá, Luiz Nukini, disse ter conhecimento da infiltração de membros de facções criminosas nas aldeias. Ele prometeu atuar.

“A Funai tem ciência dessa ameaça nas terras indígenas. O ponto que tá sendo pautado para trabalhar este ano é o trabalho de mais proximidade do Estado, mesmo, Funai e outros atores que possam contribuir como a Polícia Federal, como Ministério Público. Todos os atores que possam se envolver direta e indiretamente para a gente ajudar essas terras”, disse o coordenador.

Para Luiz Nukini, os indígenas Huni Kuin precisam fazer sua parte e denunciar o caso e buscar identificar os acusados. “Nesse caso, é igual uma doença. As nova geração vão, tem contato com esse mundo [das drogas, na periferia das cidades] e são contaminados a ponto de levar as coisas [o uso de entorpecente e a comercialização] para comunidade, e aí fica nesse sistema [no tráfico]”.

Também procurado pela agência Amazônia Real, o Ministério Público Federal (MPF), disse por meio da assessoria de imprensa que recebeu uma denúncia sobre a passagem de membros de facções por aldeias Huni Kuin e encaminhou o caso às polícias Militar e Civil, por se tratar de um crime comum e não de crime transnacional. Neste caso, a investigação é de competência da Polícia Federal. “O MPF só atuaria em caso de defesa dos direitos dos índios e os crimes comuns fica com a polícia Estadual”, disse o órgão.

 

Jovens têm entre 13 e 18 anos

A reportagem da Amazônia Real conversou com indígenas Huni Kuin sobre o aliciamento pelo crime organizado dos jovens nas aldeias do rio Envira. Eles aceitaram falar sobre o assunto desde que seus nomes não sejam expostos na matéria, pois temem por represálias de traficantes de drogas. Renato (nome fictício) disse que estava cansado dos problemas vividos. Eles disseram que, desde o ano de 2017, os índios Huni Kuin passaram a sentir pressões das organizações criminosas em suas aldeias.

“Todos têm medo de serem mortos. As autoridades não atuam por falta de estrutura, apesar de terem conhecimento. A faixa etária dos jovens envolvidos com o crime variam de 13 anos e 18 anos”, disse.

Jair (nome fictício) disse que nas aldeias há pessoas de duas facções: Bonde dos 13 (criada no Acre) e do Comando Vermelho. Ele disse que, no mês de julho do ano passado, aconteceu um crime bárbaro na região. “Foi a primeira morte na comunidade. Um esquartejamento de um indígena. Aí a polícia foi bater lá, fizeram investigação”.

Sobre como atua essas organizações no tráfico de drogas nas aldeias Huni Kuin, o indígena Simão (nome fictício) diz que começou com o transporte de não-índios transitando pelos limites das aldeias. Depois, com o aliciamento, estes passaram a integrar as facções transportando drogas para os núcleos urbanos das cidades.

“De primeiro, eles [não-índios] levavam para a comunidade, agora, os jovens [indígenas] estão indo pra cidade. É mais fácil dar a droga para um indígena levar”, disse.

Simão contou que no mês de janeiro deste ano, as lideranças presenciaram um indígena transportando dois quilos de maconha. “Ele foi pego no barco; a polícia pegou. Alguém denunciou. Agora ele está na Penitenciária de Tarauacá”, afirmou.

Outro Huni Kuin, Rodrigo (nome fictício) relata o medo que tomou conta das lideranças, impedindo até que elas façam denúncias e a solicitação da intervenção policial nas aldeias. No entanto, elas esperam que a polícia faça sua parte.

“O que está faltando para a polícia ir nas aldeia? Está faltando denunciar. Se a gente não denunciar é porque não tem proteção, não é medo da gente, mas é medo do que pode acontecer com a família. Eles [os membros da facção] não têm nada a perder, só quem perde é a gente mesmo. É difícil identificar todos os integrantes da facção, porque se pega ele [diz que] é ele mesmo. Eles não entregam um ao outro não”, relata Rodrigo.

 

O que diz a Polícia Federal?

A Amazônia Real procurou a superintendente da Polícia Federal no Acre para falar sobre o tráfico de drogas nas aldeias Huni Kuin. A delegada Diana Calazans Mann afirmou que atualmente a instituição busca trabalhar com o levantamento de informações por meio do serviço de inteligência para sufocar o tráfico com a prisão dos líderes e o ataque a principal base econômica das organizações criminais. O aliciamento de jovens indígenas pelo tráfico de drogas não é atribuição da PF.

“A Polícia Federal trabalha na atribuição constitucional do combate ao tráfico de drogas [na fronteira], então a Polícia Federal, aqui, no Estado, tem atuado com uma visão de combater as organizações criminosas no sentido de descapitalizar e chegar os líderes, não aquelas pessoas que poderiam ser presas hoje e facilmente substituídas amanhã, os pequenos traficantes. Estamos mais interessados na questão financeira, na lavagem de dinheiro, na prisão, no afastamento do líder que vai impactar na desorganização dessa estrutura”, explicou a delegada.

FONTE: AMAZÔNIA REAL

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