Especialista em sensoriamento remoto diz: ‘Conter o desmatamento não custou o desenvolvimento’

O biólogo Dalton Valeriano, especialista em sensoriamento remoto, diz que o desmatamento zero é viável, mas ressalta que é possível usar a floresta para produzir riqueza.

O biólogo Dalton Valeriano tem 56 anos e passou os últimos 30 deles observando a Amazônia. Mestre em sensoriamento remoto e doutor em geografia, é o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) responsável pelo monitoramento da floresta. Valeriano diz que o desmatamento zero é viável, mas não o defende a ferro e fogo. Ao contrário, diz que é possível usar a floresta para produzir riqueza e melhorar as condições de vida dos moradores da região.

 

“O Brasil não é a Suécia, temos bolsões de pobreza e desníveis sociais que entram na raia de prioridade. O recurso natural faz parte da função social da terra, que é atender o desenvolvimento e bem estar da população”, afirma. Nesta entrevista, concedida na sede do Inpe, em São José dos Campos, Valeriano fala sobre a capacidade de regeneração da mata, das frentes de desmatamento e do início do monitoramento por satélite que, ao contrário de acompanhar o desmatamento, tinha como objetivo comprovar a ocupação da área financiada pela Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam).

 

O Globo: Como foi o início do monitoramento remoto da Amazônia?

Dalton Valeriano: Começou com a primeira recepção de dados do satélite norte-americano Landsat. O satélite começou a operar em 1974 e começamos a receber as imagens em Cuiabá em 1975. Na época, a demanda por imagens era da Sudam, que queria saber se os subsídios estavam sendo bem aplicados. Eles não tinham indicadores de eficiência da ocupação da Amazônia, então sendo financiada pelo governo com a abertura de estradas e fornecimento de energia e telecomunicações. Havia programas de doação de terras para empresas, que deveriam desmatar a metade da propriedade e usar o restante de forma economicamente viável.

 

Quais foram as primeiras áreas a serem desmatadas?

Valeriano: O desmatamento foi e ainda é determinado pela abertura de estradas. Basicamente, as áreas desmatadas estão ao longo da Belém-Brasília e da BR-364, que liga Cuiabá a Porto Velho. Imaginava-se inicialmente que as estradas iriam escoar uma produção agrícola, como arroz e outros tipos de grãos. Mas não deu certo. A opção passou a ser o gado. O boi tem boa liquidez e o principal: caminha sozinho para o mercado, não precisa ser levado. Basta organizar uma comitiva para conduzir que ele vai andando. O primeiro estudo completo, que mapeou a Amazônia Legal, foi feito em conjunto pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF) e pelo Inpe, em 1978.

 

E o que se viu?

Valeriano: A Amazônia Legal tem cinco milhões de quilômetros quadrados e quatro milhões de km² são de floresta. O resto é cerrado, vegetação aberta, e um espelho d’água de cerca de 300 mil km2. Havia 250 mil km² quadrados desmatamento. Os dados foram publicados em 1979. A ideia era que o IBDF desse continuidade. O pessoal do Inpe foi cuidar de outros projetos. E não se falou mais em desmatamento.

 

Quando ocorreu um alerta em relação à destruição da floresta?

Valeriano: Em 1988, o governo nos pediu para que fosse iniciado um programa. Fora do País já estava sendo criada consciência e mobilização para proteger as florestas tropicais. A preocupação era com a velocidade do desmatamento. O Banco Mundial, que financiou a BR 364, ficou com a pecha de ter financiado o desmatamento na Amazônia. O governo precisava se informar sobre o que estava acontecendo.

 

Qual é a situação hoje?

Valeriano: O eixo de desmatamento continua sendo as estradas. Nas regiões remotas não há ameaças. Há desmatamento onde existe infraestrutura. Na beira dos rios isso não ocorre. Há roças, mas não é um eixo de desmatamento. O fato é que o rio é inundável, fica tudo debaixo d’água. Perto da linha do Equador também está preservado.

 

Por que?

Valeriano: Há uma limitação das tecnologias agrícolas para chegar perto da linha do Equador. Lá é úmido o ano inteiro e a duração do dia não tem diferença. O dia tem 12 horas sempre. A noite também. Aqui, por exemplo, o dia varia de 10 a 16 horas. Isso é informação para a planta, um jogo hormonal de crescimento. Na situação equatorial, dizem, a alface vai subindo, não enrepolha. O boi também não gosta de muita umidade. Dá problemas de parasitas na pele.

 

Qual o total desmatado?

Valeriano: Dos quatro milhões de km², 730 mil km² estão desmatados. Na última medida que fizemos, 20% da área desmatada está em condição de regeneração. A floresta é um mosaico de regeneração em diversos estágios.

 

Essa regeneração pode ser rápida?

Valeriano: Não se sabe a velocidade de regeneração da biomassa. Mas a floresta tropical é rápida, tem muita disponibilidade de água e luz. Mas o solo é pouco fértil e a floresta precisa de mecanismos de retenção de nutrientes. Quando se desmata, no primeiro ano surge mato, no segundo começam a surgir árvores. Em três a cinco anos há uma estrutura florestal, a chamada floresta secundária. Essas árvores precisam de sol para se desenvolver e não tem muitas simbioses com outros organismos para poder existir. Elas não são longevas. São árvores oportunistas, os frutos vão pelo vento e as sementes se espalham. Mas não é o conjunto de espécies final. Mas floresta é floresta, ponto.

 

Podemos estar exagerando ao avaliar o desmatamento?

Valeriano: Temos que nos preocupar é com a quantidade desmatada por ano. Se você tem uma fortuna e gasta 0,5% por ano, vai acabar com tudo. Fizemos isso com a Mata Atlântica, que começou a ser derrubada na época do café. Acabou em 150 anos.

 

O desmatamento zero é viável?

Valeriano: Tudo é viável, mas é preciso ver se é o caso de adotar o desmatamento zero ou se é melhor um planejamento orientado por zoneamento, que atenda a demanda por desenvolvimento da população local. Se a população precisar de desmatamento, ela tem este direito. O zoneamento ecológico é essencial. Acre e Mato Grosso já fizeram. O Pará está estudando o seu. Este processo vai permitir desmatar além da regra do Código Florestal. As leis estaduais de zoneamento ficam acima do Código Florestal e nas áreas indicadas como de desenvolvimento agrícola o desmatamento da propriedade pode chegar a 50% da propriedade, não os 20%. O modelo não é o do caminho cego do desmatamento zero, mas também não podemos acabar com o capital florestal.

 

A velocidade atual de desmatamento é suportável?

Valeriano: Está controlada. O Plano Real causou um pico de desmatamento, elevando para 28 mil km². Em 2004, tivemos outro pico, de 27 mil km². Se o desmatamento for mantido em níveis baixos e a floresta secundária for manejada, ela pode se tornar floresta se novo. Não pode acontecer é o desmatamento excessivo. Fechamos 2011 com um desmatamento entre 6 mil e 7 mil km². Nossa última estimativa é que podemos fechar este ano com 6.200 km².

 

Isso é suficiente para a preservação?

Valeriano: A gente não sabe dizer se é suficiente. O compromisso com a Noruega, por exemplo, é de reduzir em 80% a média de desmatamento de 1995 a 2006, que foi de 19.500 km² por ano, até 2017. É um acordo de US$ 1 bilhão e o Fundo Amazônia já recebe este dinheiro. 80% dele deve ser investido para reduzir o desmatamento na Amazônia.

 

E as clareiras abertas por desmatamento ilegal, muitas delas dentro de áreas de proteção?

Valeriano: A nossa arte, aqui no Inpe, é fazer a imagem confessar. Cada pátio deste de desmatamento tem alcance de 250 metros e conexão com estradas, para chegar a serrarias. Este é um caminho indireto de desmatamento. É a principal causa de incêndio florestal. Quando ocorre incêndio, já houve a ação de madeireiros ilegais antes. Se há fogo é porque a floresta perdeu a umidade, seu fator de equilíbrio.

 

Qual o balanço que o senhor faz do monitoramento?

Valeriano: Fico quase como um gerente de fábrica. O governo tem informação em tempo real. São 19 bases de operação do Ibama na Amazônia e há resposta do aparato de fiscalização e controle. No ano passado percebemos grande desmatamento no Mato Grosso. A reação foram 783 pessoas em campo, em fiscalizações. Sou otimista. Conter o desmatamento não custou o desenvolvimento da região, pois o PIB da região e a inserção social continuaram a aumentar. Isso mostra que o desmatamento estava sendo desperdiçado.

FONTE : O Globo

VER EM : http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=82568

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