A Terceira Margem – Parte DXVIII

Descendo o Rio Branco

Monte Roraima, RR

Relatos Pretéritos do Monte Roraima
Parte II

Realidade, n° 97
São Paulo, SP – Abril de 1974

Mundo Perdido – Hamish Mao Innes

[…] Eram os primeiros dias de outubro e há uma se­mana andávamos pela floresta chuvosa, num terreno que subia gradualmente a quase 2.000 metros na base do Roraima. A ideia era chegar ao topo até meados de novembro.

Acordávamos, diariamente, às 06h00. Uma hora antes do início marcha. Antes de calçarmos as botas, enfiávamos sacos de plástico sobre meias, para a proteção dos pés. Todos levávamos parte da carga, embora os carregadores conduzissem, cada um, cerca de 46 quilos material.

A base dos cientistas foi localizada no sopé da escarpa de quase 10 metros que levava aos rochedos do Roraima Foi ali que descobrimos que a maior parte de nossa comida e coisas importantíssimas pa­ra a escalada [as minhas botas, o equipamento pro­fissional de Don] estavam faltando. Essa deficiência, a princípio apenas desagradável [não tínhamos café ou chá], tornou-se seríssima quando ficamos reduzidos a três colheres de arroz por dia.

Ali também verificamos que havia falta de carrega­dores: alguns eram adventistas da Igreja do Sétimo Dia e tínhamos de dispensá-los do trabalho aos sábados. Passamos a fazer uma infusão folhas, que tinha um sabor delicado, lembrando um pouco o chá-da-china. Mas não era fácil resolver todos os proble­mas com os frutos da terra. Philip, o Caçador, um ameríndio, caçou uma anta e alguns porcos selva­gens: pouco, para 27 bocas esfomeadas.

Os Escorpiões Ameaçam a Nossa Escalada

Um oficial do Exército da Guiana, membro também da Expedição, passou um dia para a capital da Guiana, Georgetown, pedindo suprimentos. Eles deveriam ser jogados de avião. Mas como fazê-lo, se o tempo conspirava contra nós e chovia quinze horas todos os dias?

Os cinco alpinistas chegaram às escarpas que levam à cordilheira do El Dorado, ponto de partida para a segunda fase da escalada. Com os binóculos, podía­mos ver um grande número de rochedos cobertos de arbustos, onde encontraríamos, sem dúvida, aranhas e escorpiões. Quanto ao mais, parecia que Roraima ofereceria condições normais de escalada em rocha. As mais úmidas condições do mundo.

Mo Anthoine e Mike Thompson começaram a escalar. Fizeram uma volta e depois subiram uns 51 metros de rocha vertical até um pequeno rochedo. Fixadas as cordas duplas, o próximo passo seria alcançar um segundo rochedo, que batizamos de “Passagem de Retalhos”, por causa da variedade da vegetação que ali crescia.

A rotina da escalada é a seguinte: nós trabalhávamos em pares, determinando um objetivo que nos levaria ao objetivo imediato. Na hora do cansaço, revezamento. Na medida em que a gente vai subindo, vai fazendo estacas para passar a corda.

No monte Roraima, isso significa, algumas vezes, ter que fazer buracos [o que se faz manualmente] na pedra dura para cravar as argolas onde passará a corda. Havia uma água quase perpétua pingando ou jorrando sobre nós. Para os objetivos mais difíceis, na medida em que íamos subindo, frequentemente eram necessários quatro homens para a execução da tarefa.

No fim do dia, com as nossas cordas fixadas no pon­to mais alto, nós acampávamos, isto é, escorregá­vamos usando nosso equipamento até um lugar onde fosse possível armar um acampamento e passar a noite. Foi acima da Passagem de Retalhos que nós, realmente, começamos a encontrar os bichos repelentes. “Cada local onde eu devia pôr a mão”, diz Joe Brown, “precisava ser limpo com a minha picareta. E, mesmo assim, eu esperava ser picado a qualquer momento”.

Em cerca de um terço do caminho havia uma borda de rochedo em direção à Venezuela, pela face Noro­este do monte. O rochedo tinha uma largura variável e descia num ângulo de 60 graus. Era protegido da constante umidade por uma saliência e a ele se agar­ravam punhados de escorpiões, centopeias e aranhas.

Passamos a chamá-lo de “Terraço da Tarântula” e não encontramos consolo quando os cientistas disseram que o escorpião marrom, ali muito encontrado, poderia ser de uma nova e desconhecida espécie… Joe Brown era um hábil colecionador de insetos e ficava feliz quando apanhava escorpiões pelos ferrões. Ele, como qualquer de nós, não desconhecia que uma simples ferroada daquele bichinho, uma picada de qualquer daqueles pequenos e venenosos habitantes, poderia transformar nosso avanço em retirada em pânico, na busca desesperada de assistência médica.

Seis Horas sob Vegetação, Água e Insetos Perigosos

Na verdade, não havia alternativa senão escolher o Terraço da Tarântula como base para o nosso próximo estágio na escalada: O “Terraço da Tarântula” era uma enorme saliência de rocha, aquela que havíamos visto, pelos binóculos, quando estávamos em “El Dorado”: tinha quase a forma que a África apresenta no mapa. Havia apenas um lugar, muito pequeno para pôr o pé naquela saliência, e levamos dois dias para chegar lá em cima e mais um para Mo dar a volta na saliência de 5 m, onde havia um jardim suspenso habitado por papagaios.

Uma noite, vivemos uma experiência terrível no Terraço da Tarântula. Don tentou dormir diretamente na rocha e ficou a noite inteira desafiando o exército de insetos nojentos, com gritos de “eu pego você, seu nojento” ou “este não vai mais morder ninguém”.

Pela manhã, todos os dias, era preparada, uma bebida feita com algumas plantas e água de chuva e a ela recorríamos indiferentes aos micróbios. Nossa refeição matutina era meia xícara de chá dessas plantas e um pouco de macarrão.

Pegávamos comida e equipamentos suficientes e eles eram colocados nas sacolas para as escaladas do dia. Mo e Joe iam à frente, no rumo do “Rochedo da África”.

Eu usava braçadeiras para me içar atrás dos outros. E foi numa dessas vezes que vi, horrorizado, que bem acima de mim a corda estava para rebentar. Eu me equilibrava na ponta da grande saliência e, quando puxei a braçadeira, ela não apertou a corda como deveria fazer.

O revestimento da corda de náilon desceu com ela e a sua parte interna começou a se partir junto à rocha. Não pude deixar de gritar e Don ficou inclinado no seu mini-rochedo, logo acima: “Pelo amor de Deus, suba depressa antes que a corda se rompa”, ele disse.

Havia uma corda de segurança ao meu lado, mas ela também estava em péssimo estado. Desesperado, transferi o meu peso para um estribo atado à corda e após 5 penosos minutos, pude colocar um pé numa fenda de 4 cm de largura. Fiquei preso ali durante seis horas, enquanto Joe e Mo procuravam escalar a “Chaminé Molhada”, uma ranhura vertical e sem fundo, que canalizava a água da chuva que vinha de cima e irrigava as plantas. Durante o dia inteiro, vegetação, água e insetos jorravam sobre mim. Às 17h00, quando já estava tudo escuro, Joe avisou: “Vamos descer. Não tem saída”. O vento havia aumentado e soprava violentamente. Cansados e quase impossibilitados de falar uns com os outros, por causa do barulho do vento, voltamos ao “Terraço da Tarântula”.

Monte Roraima, um Osso Duro de Roer

Era uma situação desesperadora: uma noite escura tempestuosa, duas cordas que não ofereciam segu­rança alguma, sacolas que balançavam ao vento como morcegos monstruosos. Mas, finalmente, alcançamos a [relativa] segurança do terraço.

O vento soprou a noite inteira Enquanto a chuva continuava a cair, chegava até nós o ruído das cachoeiras que se formavam ao longo da face do rochedo. Desistir? Naquele momento não tínhamos certeza de nada. E apenas uma convicção: ninguém queria subir novamente. Eu escrevi no meu diário naquela noite:

O objetivo principal da experiência está em jogo. Nós estamos cansados e o Monte Roraima é um osso duro de roer. Quando a neblina deixar a face da rocha e pu­der reestudar a parte superior da parede, talvez veja­mos uma outra ranhura vital onde poderemos passar a noite.

Nós tivemos um susto quando Mike Thompson, nosso alpinista antropólogo, que havia descido para tentar desvendar o mistério das provisões que faltavam, tropeçou num arbusto e feriu o pé. Ele teve que abandonar a Expedição e ficamos reduzidos a quatro alpinistas ‒ o mínimo necessário para completarmos a missão. Durante três dias – depois da tempestade e de nossa vergonhosa retirada daquele local da rocha descemos. Fomos encorajados por uma entrega “via aérea” de pacotes de alimentos e cigarros. O Major Chan-A-Sue voou com o seu Islander sobre nós, baixou o mais que conseguiu e jogou os pacotes num alvo próximo ao nosso acampamento.

Descansado e fortificado pelo chocolate, tentei novamente subir a parede e consegui ir além da “Chaminé Molhada” – apenas uns 6 m, mas o suficiente para que a gente ficasse fora da rocha úmida e de lá Joe Brown e Mo pudessem retornar ao ataque. Eles escalaram mais de 9 m em 4 horas e chegaram à “Torre Verde”, a única ranhura em quilô­metros e quilômetros. Don e eu chegamos até eles em 2 dias.

Armamos uma barraca tosca ao lado deles e passamos uma noite… miserável. No dia seguinte, domingo, iríamos fazer a derradeira tentativa. Até então, já havíamos passado dezesseis dias escalando o rochedo de mais de 450 m, dando uma média de mais de 21 m por dia. Era uma média que refletia as enormes dificuldades que estávamos vivendo e o tempo terrível que tivemos que enfrentar.

Enfim o pico… pela primeira vez – Ficou decidido que, pela manhã, Don e eu iríamos até o ponto mais alto, a uns 60 m do pico.

Às 11h00, atingimos aquele ponto, uma pequena ra­nhura a partir da qual começava outra… “Chaminé Molhada”. A situação não era animadora. Entusiasmo não havia mais. Olhei com desânimo o meu compa­nheiro. E quando Don juntou-se a mim, eu disse:

̶ Isto poderá ser pura perda de tempo.

Nós só tínhamos aquele dia para alcançar o pico. De­sesperado para subir rapidamente, decidi arriscar a sorte e atirei uma pedra com uma corda amarrada nela, na esperança de que se enroscasse em alguma fenda lá em cima. Deu certo e nós recomeçamos a escalada. O pico estava animadoramente próximo.

A parede vertical tinha uma profusão de plantas e já nos preocupavam de novo as aranhas e os escorpi­ões, toda vez que tínhamos de afundar braços e mãos na densa folhagem da subida. Mo Anthoine ficou encarregado do último “objetivo”, alcançando o pico às 13h30. O resto de nós juntou-se a ele logo em seguida. Soltamos um foguete e, por um trans­missor-receptor, transmitimos mensagem a ser leva­da a Georgetown. O Sol brilhava pela primeira vez em vários dias e os únicos sinais de vida eram as borboletas e os sapos, uns e outros pretos. O pla­nalto era de rocha sólida contornada por uma forma­ção fantástica de arbustos em forma de cogumelos e depressões que formavam jardins naturais. Andáva­mos por ali como se sonhássemos. Cada um estava exausto após tantos dias escalando-a parede. Logo depois de nossa chegada, a chuva caiu com tal in­tensidade que, em pouco tempo, a água subia aos tornozelos. Descobrimos que o pico tinha rachaduras muito profundas e largas, que só poderiam ser atra­vessadas com o auxílio de escadas.

A alegria era geral: a batalha havia sido ganha. Havíamos superado um obstáculo bem superior ao que imaginávamos. Conseguíamos o objetivo final, quando, desanimados, já não acreditávamos em sucesso. Às 17h00, deixamos o platô e descemos à “Torre Verde”, onde passamos uma noite molhada No dia seguinte, voltamos ao sopé do penhasco, deixando todas as cordas fixas em posição, exceto para os últimos 30 ou 40 m. Empacotamos nossas coisas e fomos embora do Monte Roraima. (REALIDADE, n° 97)

REPERTÓRIO FOTOGRÁFICO – MONTE RORAIMA RR

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 05.12.2022 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia  

REALIDADE, n° 97. Mundo Perdido – Hamish Mao Innes – Brasil – São Paulo, SP – Realidade, n° 97, 1974.  

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;  

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com

NOTA – A equipe do EcoAmazônia esclarece que o conteúdo e as opiniões expressas nas postagens são de responsabilidade do (s) autor (es) e não refletem, necessariamente, a opinião deste ‘site”, são postados em respeito a pluralidade de ideias. 

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