A Terceira Margem – Parte CDXXXVII

Descendo o Rio Branco 

Forte Nassau, Berbice (1682)

Robert Hermann Schomburgk (1836/1837)  

Diário de uma subida pelo Rio Berbice, na Guiana Britânica, em 1836-7. Por Robert Hermann Schomburgk. Parte I  

Enganados pelos Caribes, sem provisões e frustrados em nossa tentativa de superar as cataratas, a Expedição que subiu o Rio. Corentyne foi obrigado a retornar a Berbice no começo de novembro. Na minha chegada a Nova Amsterdã, não perdi tempo para tomar as providências necessárias para subir o Rio Berbice, que é um pouco mais conhecido que o Corentyne, e esta foi a única alternativa que me restou nesse período já avançado da temporada. Tive o cuidado de providenciar um estoque duplo de provisões, já que a dificuldade de encontrar gêneros ao longo dos Rios é um dos principais obstáculos para se viajar na Guiana. Minha equipe, com exceção do Tenente Losack, foi a mesma; as tripulações dos barcos consistiam de Arawaaks, Warrows e três Caribes […]

25 a 27 de novembro de 1836 Parti de Nova Amsterdã com a maré alta, naveguei ao longo da costa e subi Rio Berbice, rumo Sul por cerca de 4,8 km, até o Rio voltar-se abruptamente em direção a W.S.W., sua largura média era de cerca de 800 m. Quando o Sol se levantou, na manhã seguinte, e dissipou o nevoeiro, as margens do Rio apresentavam uma linha contínua de lavouras; milhares de mockingbirds [Oriolus perisis] surgiram de uma grande e centenária árvore de enorme copa [Erythrina Spec.? [1]], onde tinham se empoleirado durante a noite e, agora, gradualmente se dispersavam em todas as direções.

Rotas de Schomburgk (1840)

Conforme prosseguíamos verificamos que as lavouras margeavam toda a costa Oriental, mas, do lado oposto, a vegetação nativa predominava. Que grande contraste essas praias agora apresentam, quando comparadas com o aspecto que tinham no final do século passado! Essas áreas cultivadas se estendiam até o Savonette ([2]), a última propriedade da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, a cerca de 96 km do mar. Muitos vestígios deste empreendimento ainda podem ser encontrados, mas, à força do trabalho livre, estão tentando restaurar o antigo esplendor sem a influência perniciosa e aviltante da escravidão humana.

28 de novembro de 1836 – Na Latitude 5°50’N. o Rio faz outra volta ao N.W. Ao Sul está o Forte Nassau e a antiga capital holandesa de Berbice, a uma distância de 72 km do mar, em virtude da sinuosidade do córrego. O ancoradouro aqui é bom com 11 m de profundidade, e espaçoso […]. À medi­da que subimos, o Rio se estreita consideravelmente, mas mantém uma profundidade de 9 a 13 m. À Sudoeste, encontramos a primeira morraria a 48 km de distância da costa, formada por cômoros de areia que provavelmente eram a linha limítrofe do Mar em uma era anterior. Eles têm cerca de 4,5 metros de altura e são chamados de Hitia pelos índios. […] Este local é a residência do Sr. McCullum, que tem um estabelecimento de corte de madeira muito grande. […] Ao sair da floresta, três quilômetros a Oeste do povoado, uma grande savana ondulante parcialmente arborizada se apresentava diante de mim. Ali encontrei uma Aldeia Arawaak de cinco ou seis cabanas, como os homens estavam todos ausentes e empenhados no corte de madeira, as mulheres se mostraram bastante assustadas com a minha presença. Pedi um pouco de água, e a trouxeram, imediatamente, em uma cabaça. Depois de dar alguns presentes às aterrorizadas crianças, continuei minha caminhada pela savana até que estanquei diante do Riacho Etonie.

Encontrei algumas plantas, na savana, muito interessantes, e retornei para a casa carregando-as. Enquanto eu estava ausente, alguns dos índios haviam matado uma bush-master ([3]), a cobra mais perigosa que Guiana possui; o ofídio mediu pouco mais de um 1,80 m, e suas formidáveis presas tinham quase 1,3 cm de comprimento. O Sr. McCullum contou-me que vários de seus homens tinham sido picados por elas e que o remédio adotado era a escarificação, para extrair as presas, que geralmente se soltam na picada, a aplicação de sangria por meio de um copo de vidro e um chumaço de algodão embebido em álcool para se obter o efeito da sucção no local da picada; além da administração de óleo e purgantes fortes. O Sr. McCullum tem um grande estabelecimento de beneficiamento de madeira onde frequentemente 200 índios e mais de 50 negros são constantemente empregados por ele no corte e processamento da madeira, com exceção do tempo em que eles estão ausentes para trabalhar nos seus próprios campos. Como chefe da empresa e morando aqui há muitos anos teve a oportunidade de comparar o desempenho laboral de índios e negros como trabalhadores. Ele disse:

Eu descobri que invariavelmente o índio trabalha sempre de boa vontade, e assim permanece até que sua tarefa esteja totalmente concluída, o que geralmente leva de 2 a 3 horas a menos do que levariam os negros para executar a mesma tarefa, e os índios continuam trabalhando até concluir sua carga horária.

Conheço muitos deles que, além de seus salários regulares, ganham de dois a três dólares por semana. Eles também são, em minha opinião, mais honestos. Se o índio for bem tratado, ele se mostrará um valioso trabalhador.

Que o Sr. McCullum os trata bem é provado pelo grau de satisfação demonstrado pelos seus trabalhadores indígenas. Infelizmente não é o caso de todos que os empregam. Para manter um índio no trabalho, recorrem, muitas vezes, a meios injustos, fornecendo a eles artigos e gêneros, em grande quantidade e desnecessários, mediante crédito, cientes de que o nativo será obrigado a continuar trabalhando até quitar totalmente a sua dívida. Muitos madeireiros usam todos os meios para evitar que ele consiga saldar sua dívida, fornecendo-lhe mais e mais mercadorias arruinando a vida dos pobres nativos mantendo-os praticamente em estado de escravidão. […]

08 de dezembro de 1836 – Fizemos uma parada rápida, na manhã seguinte, em uma Aldeia Waccaway, com apenas uma família. Fiquei espantado ao reconhecer no líder da Aldeia um antigo conhecido meu, chamado Philander, que me acompanhara em minha Expedição pelo Essequibo. Eu o tinha deixado com os Macúsies em Waraputa e agora encontro-o às margens do Rio Berbice. Esta é mais uma prova dos hábitos nômades do índio e sua falta de apego às localidades. […]

18 a 22 de dezembro de 1836 – De manhã cedo, começamos nossa jornada que foi, no entanto, de curta duração, pois, após uma súbita curva do Rio, se apresentaram uma série de formidáveis quedas d’água. Verifiquei que elas se estendiam na direção Leste por mais de 2,4 km, e que, além de cinco cataratas, deveríamos passar por várias corredeiras e para ultrapassá-las precisaríamos de uns 5 ou 6 dias transportando as corials e bagagem sobre as pedras. Fiquei apreensivo com a possibilidade de nossas provisões serem insuficientes, e resolvi enviar uma corial de volta ao estabelecimento madeireiro do Sr. McCullum para conseguir mais provisões. O Sr. Reiss gentilmente se ofereceu para liderar essa equipe que partiu na manhã seguinte. Minha primeira intenção era abrir uma trilha margeando o Rio para transportar as cargas, mas verifiquei ser isso impraticável, o terreno era formado por numero­sos pedregulhos amontoados uns sobre os outros que tornavam impossível a construção de uma estiva para o transporte das corials. Preferi, portanto, transportar a carga pelas rochas e depois arrastar as corials à sirga. […] O transporte sobre as rochas progrediu lentamente, tivemos que descarregar e recarregar as corials quatro vezes, e em consequên­cia da pouca profundidade nas corredeiras, só podíamos carregar meia carga de cada vez, pode-se, então, ter uma ideia das dificuldades encontradas até conseguirmos, na noite do dia 21, colocar as três corials à frente da catarata. Na manhã seguinte, quando as rações estavam sendo distribuídas, fui informado de que os Macúsies e os Waccaways, chefiados por Andres, haviam fugido e não foram mais encontrados. Isso sempre acontecia quando a distância de sua Aldeia de origem aumentava. Como não havia vestígio de fogueiras, artigo indispensável para os índios, não resta dúvida de que eles tinham se evadido na noite anterior. […]

27 de dezembro de 1836 – O Sr. Reiss não poderia esperar mais de três ou quatro dias e na manhã do dia 27 transportou a última corial, que havia sido mantida na catarata inferior, sobre as rochas. O Rio estava baixando e a diarreia e fortes resfriados se alastravam entre os índios. Decidi abandonar um dos corais, já que desde a deserção de seis dos Accaways eu não tinha índios suficientes para arrastar a corial, em terra, e dividimos sua carga entre as outras embarcações. Passamos a noite em claro, mal deitáramos em nossas redes quando descobrimos que nossas tendas tinham sido invadidas pelas saúvas-da-mata [Atta Cephalotes], que infligiam impiedosas mordidas. Aqueles que tentaram sair de suas redes ficaram felizes em voltar novamente, nossos pobres cães foram os que mais sofreram, eles não conseguiam sair do alcance delas, e passaram a noite inteira correndo e uivando, em consequência das severas mordidas que recebiam. Uma das colunas das vorazes formigas subiu marchando para a copa de uma das árvore, gerando, como consequência, uma verdadeira chuva de folhas. […]

1° de janeiro de 1837 – Fizemos um progresso lento, o Rio estreitou-se consideravelmente, e numerosas árvores que, haviam caído, por serem velhas ou sofrerem os efeitos da torrente, bloqueavam nossa progressão, e fomos obrigados a cortá-las para abrir passagem. Nove em cada dez árvores eram Moras ([4]), uma das madeiras mais duras da Guiana, e que, por permanecerem imersas na água, tinham sua dureza aumentada. Levamos de duas a três horas para cortar uma dessas árvores, e, às vezes, tínhamos de encarar três a quatro em sucessão. Foi um trabalho hercúleo, e ninguém, exceto as mulheres, foi dispensado de usar o machado. Para tornar tudo mais difícil, muitos de nossos índios, em consequência da indisposição, causada pelas febres e problemas estomacais, eram incapazes de realizar qualquer atividade. A entrada do novo ano foi, portanto, bem calculada para aumentar-nos o sentimento de desânimo, pois, depois de tantos dias, ainda nos encontrávamos muito perto do litoral. Uma sucessão de circunstâncias adversas tinham ocorrido desde que empreendemos esta Expedição pelo Corentyne. […]

02 a 03 de janeiro de 1837 – A indisposição da tripulação aumentara tanto que eu não mais dispunha de tripulantes suficientes para empunhar os remos e fui, portanto, obrigado a permanecer acampado até que a saúde da equipe melhorasse.

04 a 05 de janeiro de 1837 – Enquanto eu estava ausente, em uma excursão de caça, ouvimos dois estampidos de arma de fogo e uma hora depois o Sr. Reiss chegava ao nosso acampamento. O Sr. McCullum, de quem a Expedição recebeu tantas atenções e assistência, atendeu prontamente ao nosso pedido e cedeu-nos a quantidade desejada de arroz, peixe salgado, etc, e a corial conseguiu passar pela catarata sem acidentes. À tarde, enquanto eu estava ocupado observando as mudanças do barômetro e termômetro, uma forte tempestade caiu sobre nós e, de repente, um raio atingiu uma árvore na margem oposta e o trovão seguiu-se instantaneamente ao relâmpago, e a reverberação foi tão severa que homens e animais se assustaram. […]

06 de janeiro de 1837 – Passamos por rochas, da mesma natureza, e prosseguimos na direção da Catarata Natal. […]

24 a 25 de janeiro de 1837 – Recebi, esta noite, uma notícia muito desagradável. Um índio Warrow, que era um dos meus favoritos, me informou que uma insurreição estava brotando no acampamento. Já há alguns dias eu desconfiava da conduta hostil e da desobediência às ordens dos nativos, mas isso nunca tinha sido demonstrado tão ostensivamente como nesses dois últimos dias. Eu estava ciente de que a maioria dos índios estava insatisfeita com o progresso da Expedição, e eu tinha provas de que os negros estavam igualmente contrariados. Todo o esforço para conseguirmos alguma caça ou peixe foi em vão, e a sombria perspectiva de que o tempo chuvoso iria continuar levaram-me a reduzir nossa ração diária a pouco mais de 170 gramas de arroz para os homens e 140 gramas para as mulheres. Fui informado de que os Caribes, chefiados por Acouritch haviam instigado os outros a levar as corials embora e nos abandonar à noite, e se resistíssemos deveriam nos deixar amarrados às árvores. Não sei até que ponto Acouritch poderia ter conseguido apoio dos Arawaaks, no entanto, estava ciente de que a tripulação do meu próprio barco, os Warrows, não permitiria que isso acontecesse, foi um jovem Warrow me repassou estas informações. O conhecimento dessa traição causou-me uma grande inquietação, não sabia até que ponto a insatisfação grassara, e sabia que não havia nenhum indivíduo no acampamento que não objetasse em prosseguir em frente. Informei ao Sr. Reiss da situação, e decidimos permanecer vigilantes, e manter uma guarda rigorosa sobre as corials, armas e munições. Acouritch deve ter tido conhecimento que sua trama fora descoberta e montaram seu acampamento nesta noite não muito longe da minha tenda. Observei as fogueiras acesas durante toda a noite, mas não fiquei surpreso ao descobrir, na manhã seguinte, que haviam desertado por volta da meia-noite. Nós tínhamos ouvido o latido de um dos nossos cães a alguma distância do acampamento. O Sr. Reiss foi verificar, mas, não vendo nada de incomum, voltou para a sua rede, e, enganado pelas fogueiras, supôs que os Caribes estavam em suas redes. Eles levaram consigo alguns dos nossos melhores facões, panelas de ferro, chaleiras de acampamento, etc. Não encontramos nenhum vestígio da direção que haviam tomado, mas concluí que eles devem ter tentado alcançar o Corentyne seguindo no rumo do Oriente. […] Nossa situação se tornava mais crítica a cada dia. Estávamos, agora, reduzidos a onze homens efetivos, que deveriam ser distribuídos entre as quatro corials. Eu ainda estava inclinado, no entanto, a avançar.

26 de janeiro de 1837 – No decorrer do dia, o Rio foi se alargando tomando a forma de um Lago, margeado por pequenos arbustos e parcialmente tomado pela bela vitória-régia ([5]), o orgulho de minhas descobertas botânicas, que crescia tão luxuriantemente que algumas delas mediam 2 metros de diâmetro. Uma espécie de polygonum ([6]), e numerosas gramíneas de diferentes matizes, cobriam o Rio tão completamente, que apenas um pequeno espaço, onde a corrente era mais forte, tinha sido deixado livre. Infelizmente, nossa alegria não durou muito! Tivemos novamente de cortar palmas espinhosas e numerosas solanums ([7]) espinhentas que às vezes tínhamos que arrastar a corial à força sobre elas. (Continua…) (SCHOMBURGK, 1837)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 30.05.2022 –  um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia  

SCHOMBURGK, Robert Hermann. Diário de uma Subida pelo Rio Corentyne, na Guiana Britânica, em 1836 / Diário de uma Ascensão do Rio Berbice, na Guiana Britânica, em 1836-7 ‒ Inglaterra – Londres ‒ The Journal of the Royal Geographical Society of London, Volume The Seventh, páginas 285 a 301 & 302 a 350, 1837.  

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]   Erythrina: um gênero de árvores da família Fabaceae (Faboideae), conhecidas como eritrinas.

[2]   Savonnette: antigamente era uma propriedade açucareira que ficava na margem Oeste do Rio Berbice, entre os riachos Kibilibiri e Tapoeri.

[3]   Lachesis muta: conhecida como surucucu-pico-de-jaca e cobra-topete, é a maior serpente peçonhenta da América do Sul.

[4]   Mora ou Paracuúba: gênero botânico pertencente à família Fabaceae.

[5]   Vitória-amazônica.

[6]   Gênero botânico da família polygonaceae.

[7]   Solanum: gênero de plantas da família Solanaceae. O grupo inclui muitas espécies de plantas perenes arbustivas ou trepadeiras.

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