Pesquisadores monitoram chegada de peixe amazônico pirarucu a rios de São Paulo, causada pela atividade de aquicultura

Pescada Amazônica também já foi encontrada em diferentes pontos do estado. Extensão de possíveis impactos ambientais ainda não está clara. Mas estudiosos defendem que aquicultores se limitem a trabalhar com espécies nativas da região.

Infográfico: João Francisco | Equipe de Arte ACI – Reitoria – Jornal da Unesp

Natural da Amazônia, o pirarucu é um dos maiores peixes de água doce do planeta, podendo ultrapassar os três metros de comprimento e pesar em torno de 200 quilos. Nos últimos anos, pescadores têm registrado a presença desse “gigante” com cada vez mais frequência no rio Grande, corpo d’água pertencente à bacia do alto rio Paraná que banha os estados de São Paulo e Minas Gerais. A introdução de uma espécie não nativa e que se alimenta principalmente de outros animais aquáticos despertou preocupação de pesquisadores da Unesp sobre os impactos nas relações ecológicas e na população local de peixes, estimulando a criação de projetos de pesquisa que investiguem as consequências da presença deste predador amazônico em águas da região Sudeste.

Os pesquisadores relatam que até o momento o pirarucu foi encontrado apenas em um trecho do rio Grande. Mais precisamente, entre as barragens da usina hidrelétrica de Marimbondo e da usina hidrelétrica de Água Vermelha, um segmento de aproximadamente 120 quilômetros em que o rio Grande divide os territórios mineiro e paulista. Livre-docente em ecologia aquática e professora do departamento de Zoologia e Botânica do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas da Unesp, campus de São José do Rio Preto, Lilian Casatti explica que as duas barragens, construídas nos anos 1970 para a produção de eletricidade, causam a diminuição da correnteza original do rio. Forma-se assim um ecossistema muito parecido com o habitat natural do pirarucu na Amazônia, onde costuma ser encontrado em lagos de água mais parada.

Lilian Casatti é uma das autoras da primeira comunicação científica que registrou a presença do pirarucu na região, em 2015. O artigo foi publicado na revista Checklist, reconhecida por divulgar registros inéditos e comunicações curtas sobre biodiversidade. No texto, a docente do campus da Unesp em São José do Rio Preto observou a carcaça de um pirarucu de aproximadamente 1,20 m nas margens da represa de Água Vermelha, mas não conseguiu identificar a causa da morte ou o conteúdo do seu estômago devido ao avançado estágio de decomposição do peixe.

Peixes de grande porte como o pirarucu são bastante valorizados pelos produtores na aquicultura, e muitas vezes são produzidos fora da sua bacia hidrográfica original. A fuga desses animais dos tanques de produção é a principal causa de introdução de espécies não nativas nos rios. Escapes acidentais como o ocorrido no rio Grande já resultaram na introdução do pirarucu em sistemas aquáticos nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste do Brasil. No caso abordado pela professora da Unesp, o artigo menciona relatos de pescadores da região de que o rompimento de um tanque em um município próximo ao rio Grande após uma forte chuva teria causado a introdução do pirarucu.

Espécie invasora? Ainda não

Casatti explica que, uma vez que a presença do pirarucu nas águas do rio Grande já foi estabelecida, o fundamental neste momento é medir o real impacto da espécie no novo habitat. “Hoje, no rio Grande, o pirarucu é classificado como um peixe não nativo. Para que passe a ser considerado espécie invasora precisamos pesquisar e provar que a sua presença causa dano a alguma espécie ou processo ecológico”, diz. “Estamos falando de um trecho já bastante alterado do rio Grande em que existem barragens, processos de assoreamento, perda de habitat, resíduos de agrotóxicos e presença de diversas espécies não nativas”, argumenta.

Em 2018, um levantamento conduzido pelo aluno Yoshiaki Nogueira Miyazaki, do curso de Ciências Biológicas, durante estágio obrigatório, analisou o conteúdo do estômago de 12 pirarucus, em uma parceria com a Colônia de Pescadores Z-27 do município de Icém. Apesar da amostra pequena, o trabalho observou que camarões (das espécies Macrobrachium amazonicum e M. jelskii) e os peixes lambari e tilápia foram os itens mais importantes na dieta dos peixes amazônicos. Destes animais, apenas o lambari é uma espécie nativa. Casatti faz questão de frisar que o fato de o pirarucu aparentemente estar se alimentando de espécies que também não são nativas não deve ser visto como uma licença para sua introdução. “Quando um peixe não nativo é introduzido, não vem sozinho. Chega com ele um pool de parasitas que estão presentes nesse organismo e também podem causar impactos que devem ser medidos. Por isso é importante o desenvolvimento de pesquisas sobre o tema”, aponta.

E as pesquisas estão a caminho. Lidiane Franceschini, do câmpus da Unesp em Ilha Solteira, é responsável por um projeto que irá investigar os efeitos da chegada do pirarucu ao rio Grande. “Tendo em vista que o conhecimento sobre os efeitos da invasão do pirarucu na bacia receptora ainda é incipiente, informações sobre aspectos biológicos da espécie e fatores que possam influenciar o sucesso do seu estabelecimento na nova área são essenciais para subsidiar medidas de manejo local da espécie”, explica a pesquisadora. Entre as informações sobre as quais ela pretende se debruçar estão a dieta e organismos parasitas presentes no pirarucu, o perfil reprodutivo no novo habitat e o rastreamento da origem amazônica a partir de análises moleculares.

O trabalho, que terá a colaboração da Universidade Estadual de Londrina (UEL), da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e da Universidade de Valência, na Espanha, acaba de ser aprovado para financiamento pela Fapesp. Franceschini explica que o pirarucu é uma espécie predadora de perfil carnívoro generalista ou onívoro, que costuma ocupar o topo da cadeia alimentar. Na ausência de predadores naturais ou espécies concorrentes, como pode ser o caso do rio Grande, o pirarucu pode causar extinção local de espécies de peixes e invertebrados e competir por recursos ambientais com outras espécies, além de introduzir novos parasitas nas espécies nativas. “Ainda, a depender das espécies predadas, a presença do pirarucu pode causar a diminuição de espécies importantes para a pesca regional”, afirma.

Pescada amazônica teve sucesso na adaptação

A situação não seria inédita. Desde o ano de 2020, o doutorando Aymar Orlandi Neto vem avaliando os impactos causados pela introdução da pescada-amazônica, também conhecida como corvina de rio  (Plagioscion squamosissimus) no reservatório do rio Jaguari. A partir do projeto, também apoiado pela Fapesp, já foi possível constatar o sucesso na adaptação, tornando-se o predador mais abundante e ao qual é atribuída a redução da riqueza e da diversidade de espécies nativas no local. Franceschini explica que impactos semelhantes também já foram registrados na literatura científica em relação a introdução de tucunarés (Cichla ocellaris).

Uma vez introduzidos no ambiente aquático, reverter essa situação é quase impossível, apontam as especialistas. “Atualmente, a principal medida de contenção dessas espécies introduzidas é a liberação da pesca esportiva e artesanal profissional durante todo o ano, medida essa insuficiente para conter tais invasões biológicas”, lamenta Franceschini.

Diante da dificuldade de reverter a introdução, Cassatti chama a atenção para que autoridades, moradores e pescadores se esforcem para que o pirarucu não escape novamente para outros corpos aquáticos da região. Próximo a este trecho do rio Grande, explica a professora do câmpus de São José do Rio Preto, está localizado o rio Turvo, um dos poucos do estado de São Paulo que ainda não tem em seu percurso barramentos para represar a água. “O pouco que ainda existe de peixes nativos nesta bacia está sobrevivendo por conta da ausência dessas barragens e pela existência de lagoas marginais no rio Turvo que servem como verdadeiros berçários para essas espécies nativas”, destaca.

A professora defende também que os aquicultores cultivem apenas espécies de peixes nativas da região onde estão localizados os tanques para criação, de forma a evitar escapes e novas introduções indesejadas de espécies. “O Brasil é um dos países mais diversos do planeta e abrigamos mais de cinco mil espécies de peixes. Não há necessidade de criarmos espécies que não são nativas da própria bacia em que está localizada a produção”, destaca.

 

PUBLICADO POR: Jornal da Unesp

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