Assentamentos IV

O Coronel de Engenharia Higino Veiga Macedo, meu Caro Amigo e Mentor (com letras maiúsculas mesmo), enviou-me mais um texto de sua autoria que faço questão de compartilhar com os leitores.


Idiossincrasias na Conquista de Terras…
Texto do Coronel Eng Higino Veiga Macedo  

Como hilária, registro coisa que mais parecem “causos” de pescador.

Há um ditado popular que narra ter a conquista de um pedaço de terra ou de uma propriedade de terra, um fascínio inexplicável aos homens em geral. Há quem afirme que perder a namorada ofende menos que perder a terra.

Trabalhei na BR-364, com vigor em 1975. Entre Vilhena e Porto Velho eram 760 km. Estrada de terra com melhoramento em revestimento primário, mas já muito desgastados. Tinha uma frequência de mil veículos por dia. Por ela se alimentava também o Acre e algumas passagens precárias para o Amazonas, pela BR-319. Nesta época já mereceria ser asfaltada. Em Vilhena, pelo 5° BEC, era feito um dos controles de registro de veículo, carga e destino. Em 1975 tinha pelo menos cem com transporte de família. Fora os que vinham de ônibus, pela valente empresa União Cascavel e seus incansáveis motoristas. Na época, na região do Rio Jaru e do assentamento de Ouro Preto a malária fazia enormes estragos. Jaru era conhecido como o Quartel General da malária. Ariquemes e Machadinho chegaram a ser as rainhas da malária. Havia dois tipos: Vivax e Falciparum. Bom, segundo os moradores a “Vivax”, maltratava, mas não matava. A “Falciparum” sempre matava.

Na boca popular, corria a estória de que era comum encontra, no Jaru, macaco trocando banana por aralen ([1]).

O Projeto do governo era bom. Bem planejado, se tomado no todo, mas com enorme dificuldade em implantar. A migração era muito grande. Ter um lote de terra na Amazônia era o grande “eldorado” do Centro Sul do Brasil. As coisas de governo tinham integração entre os Ministérios. Os ditos PND, Plano Nacional de Desenvolvimento, continha a integração dos Ministérios. Como os Ministérios eram técnicos, não havia favorecer um para aumentar a importância do Partido premiado. Portanto, a abertura de uma BR implicava em trazer o Ministério da Agricultura para avaliar os locais com potencialidades agrícolas; o Ministério da Educação para formar as bases de implantação, nos assentamentos, das escolas; o Ministério da Saúde, para implantar as unidades básicas de atendimento médico.

Mas como encontrar tantas empresas de terraplenagens para implantar assentamentos? Como motivar médicos para enfrentar uma frente pioneira sem nenhuma infraestrutura ainda. Aliás, era isso que seria a infraestrutura para atrair pessoas qualificadas. E como formar professores? Mas o fluxo de pessoas era constante. Os velhos planejamentos de uma casa construída, com ferramentas e um burro, não tinham como serem feitos. Cada família queria apenas a delimitação do terreno. À foice e facão fazia “tapiris”, “brocava” algum hectare e começava a plantar. Aquilo era agricultura familiar: ou fazia ou morreria de fome.

Com já dito, a malária grassava tanto nas mar­gens da BR quanto nos assentamentos já instalados. O governo dispunha da SUCAM – Superintendência de Campanhas de Saúde Pública – Ministério da Saúde. O volume de funcionários era insuficiente para atender a demanda. E também a experiência com a doença era pouca embora ela já existisse na Europa desde a antiguidade.

O nome vem do latim “MALE ARE”. E veio importada com portugueses e outras etnias. O medicamento: aralén em comprimido e, nos casos graves, injetável pelo soro. A toxidade no fígado era algo intolerável.

Acontece que era impossível o acompanhamento no tratamento. As pessoas procuravam os postos, faziam as lâminas, mas não havia médico. Eram enfermeiros sanitaristas. Médicos não queriam se meter em aventuras. O infectado (por mosquito – anofelino) infectava outros mosquitos de sua redondeza e assim o contágio era grande. A pessoa recebia o remédio em função das leituras das lâminas: de uma a quatro cruzes. Mas no terceiro ou quarto dia os sintomas desapareciam: febre, indisposição, dor no corpo, dor na nuca… e ela a necessidade de trabalhar, o cidadão deixava de tomar o medicamento até o final: seis meses. Bom, depois de dois a três meses havia a “recindiva” – a malária estacionada em alguma parte do corpo voltava para a circulação sanguínea e voltava tudo de novo. Assim, as cepas, os “trofozoitos”, ficaram resistentes. Tivemos até médicos americanos estagiando no 5° BEC, para, com médicos brasileiros, aprenderem mais sobre malária. A resistência da “Falciparum” foi preocupação até da Organização Mundial da Saúde.

Mas havia muita trapaça. Trabalho de bandidos organizados, hoje o tão banalizado “crime organiza­do”. E como hoje envolvia pessoas e autoridades ligadas ao crime. Algum infeliz comprava um seringal todo, mas por inocência o visitava em voo de avião. Pela dificuldade de acesso, depois de algum tempo ia tomar posse do patrimônio comprado. Ali verificava que tinha cinco ou seis donos que também haviam comprado por voos de monomotor. E encontrava até registro de imóveis. Outros recebem do INCRA seus lotes que em geral eram de 500 m de frente por 2000 m de fundos. Aí agiam os grileiros com parceria de agentes do INCRA e advogados desonestos. O cidadão de bem, se passasse um ano sem ir ao fundo de sua propriedade poderia encontrar alguém já morando lá com plantações, criação de gado e residência de madeira. Tudo arranjado pelo grileiro. Seu advogado acionava o INCRA que retirava o lote do coitado e dava para o bandido do grileiro. Vendiam posteriormente e repartiam o dinheiro. E, dali, partiam para outra grilagem. Ou simplesmente contratavam jagunços e expulsavam o proprietário… Com dois anos ausente o INCRA redistribuía seu lote. O miserável ia para as margens de estradas na faixa de domínio. Á medida que a tal abertura democrática crescia, aumentava a participação de partidos marxistas. Penso que houve, na intenção de parecer democrático (palavra com sig­nificado prostituído), estadistas, moderados, deixa­ram o marxismo se infiltrar nesses órgãos que detinha forte valor psicossocial.

Particularmente ao longo da BR-364, havia vários povoados, hoje cidades, que inchavam do dia para a noite. Em dois lugares que trabalhei em implantação de estradas pioneiras, havia sempre incômodos com pessoas e mesmo famílias querendo entrar e se instalar em algum lugar à espera das ações do INCRA cuja previsão nem existia, pois não existia a estrada, cuja estrada estávamos começando a implantar. Os sofrimentos eram grandes. Há história de famílias inteiras serem dizimada pela malária.

Na implantação do assentamento do Rio Juma, como dito, hoje pertence ao município de APUÍ (nome de uma árvore), aconteceu algo interessante contado pelo Tenente que fora destacado para lá. Estive lá já no final e apenas na sede do INCRA. O assentamento era na passagem da BR-230 – Transamazônica, com o rio Juma. De Porto Velho ia-se até Humaitá, atraves­sava de balsa o rio Madeira e caminhava 400 km. Tinham várias pontes de madeira. E lá, pela abertura da BR e sem as fiscalizações como fazíamos, muitos locais foram invadidos. Invadidos por bem intenciona­dos e por mal intencionados que grilavam os terrenos melhores. Mas no Rio Juma já havia presença de agricultores e grande produção de arroz, café e feijão que, com dificuldade, escoavam para o lado de Humaitá. A estrada era de chão. Mas os agricultores foram se acomodando conforme iam chegando. Chegaram muito antes que o INCRA. Assim, tinha terreno de todo tamanho e com acesso por todos os lados. O engraçado disso foi que o projeto do INCRA teve que se adaptar ao que existia. Assim, as linhas saiam da BR e ia passando nos terrenos: primeiro no seu “zé das coves”… dali seguia para os do “João da cotia”… e assim ia ligando as moradias e lavouras já bem produtivas e as moradias consolidadas. Os projetos anteci­pados tudo era na linha reta e os terrenos com mesma área.

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 29.03.2022 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com

[1]    Medicamentos contra malária em comprimido – Cloroquina (AralentmTM)

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