Assentamentos II

O Coronel de Engenharia Higino Veiga Macedo, meu Caro Amigo e Mentor (com letras maiúsculas mesmo), enviou-me mais um texto de sua autoria que faço questão de compartilhar com os leitores.

O Capixaba
Texto do Coronel Eng Higino Veiga Macedo 

Uma tarde, eu fui até ao Posto de Controle, em Vilhena (janeiro de 1975) onde já se encontrava um senhor com uns sessenta anos. Ele quando soube, pelo soldado, que eu era o comandante da Residência, veio direto conversar comigo. Havia a ordem de não deixar ninguém passar com família porque, naquela semana, o trecho estava medonho. Estava engolindo milhares de veículos. Ele disse para eu o deixar entrar. A altivez do cidadão me chamou a atenção. Ele me fez o pedido não como alguém pede uma esmola. Ele me fez o pedido como alguém que encara um desafio, que se voluntaria para algo nobre. Apesar da sua pequena estatura, franzino, com físico mais desgastado pela atividade que pelo tempo vivido, voz pequena e arrastada, mas forte, período curto, fala de um ser resoluto, determinado a cumprir o que pensava.

Aliás, um tipo de personalidade que sempre me fascinou e que, na medida da minha incompetência ia copiando. A desse, copiei tudo. Resolvi ir até onde ele estava estacionado. Disse que vinha do Espírito Santo, de uma cidade que não mais lembro. A fila ia para mais de três quilômetros. Só entrava “tanqueiro” (motorista de caminhão tanque de combustível) e ônibus. Quando vi a família do senhor quase tive um colapso. Ele disse à mulher:

‒  O Tenente não quer nos deixar entrar.

Ela baixou a cabeça e começou a chorar. Ele também tinha lágrimas pedindo pra cair. Estavam num caminhão pequeno, antigo, Chevrolet, do tamanho de um da Mercedes Benz, na moda na época, o MB 608. Era um “pau de arara” bem enlonado e onde trazia toda a família, mais um burro pequeno, alguns porcos, um gradeado de galinha, milho para os animais e toda a tranqueira de casa: panela, balde e muito mais coisa. Só não vi cachorro. Ele e a mulher se acomodavam na cabine; na carroceria, duas filhas uma de, mais ou menos, oito a dez anos e outra mocinha, de quinze a dezesseis, e um rapaz de uns dezoito anos.

Quando vi aquilo perguntei a ele para onde ia. Ele disse que não sabia, mas ia tentar arrumar um pedaço de terra pra ele. Fui duro, mas nobre:

–  Meu senhor, seria uma irresponsabilidade minha deixar o senhor entrar assim, sem destino; pelo amor de Deus, fique por aqui, descarregue esse caminhão e fique por Vilhena; espere o período de seca; eu me proponho a levá-lo até ao INCRA, para tentar alguma coisa para o senhor; se depender de mim, o senhor não passa daqui.

Ele me fitou, cara a cara, e disse compassadamente, olhando nos olhos:

–  Tenente, o senhor é um homem novo e tem muita vida ainda pela frente; o senhor pode esperar; eu sou um homem já velho e essa é a minha última tentativa de ter alguma coisa; o senhor não pode fazer isso comigo. Tudo que tenho na vida está aí, ó, nesse caminhão; vendi tudo o que podia vender e toda minha riqueza está aí; eu preciso entrar.

Meu Deus, o que fazer. A malária estava agredindo muito. Havia estória de morte em atoleiro embora eu não tenha conseguido identificar onde e quem. Era sempre a mesma coisa: “o pessoal está comentando que morreu em…”.

Disse a ele que tudo que acontecesse era toda responsabilidade dele. Assim, pelas três da tarde, ele entrou. O Soldado do posto disse que era uma temeridade, pois as notícias dos caminhoneiros, que chegavam do trecho, diziam que a coisa estava feia. Bom, no outro dia, fui ao trecho, até ao acampamento de Marco Rondon. Não deu outra, encontrei-o atolado com o caminhãozinho quase trombando e ele em apuros para descarregar o burro, as galinhas e tudo mais. Dei-lhe uma espinafrada dizendo que ele estava sendo teimoso e inconsequente. Não me respondeu nada. Parei um caminhoneiro e arrastamos o caminhãozinho. O pior é que ele não conhecia nada. Não tinha a menor ideia de onde andava.

O pobre capixaba achava que Porto Velho estivesse a cem quilômetros dali. Arrastei-o até ao acampamento de Marco Rondon. Chegou notícia que havia aberto um enorme buraco perto de Pimenta Bueno. Expliquei ao capixaba os locais onde tinha nosso acampamento. Ele iria entrar só quando o meu pessoal desse o pronto. Assim, pararia dois ou três dias num local, mas seguiria sem atolar e sem o risco de quebrar o caminhãozinho. Bom, a última notícia que me deram é que ele foi arrastado até Pimenta por uma caçamba que lá fora conseguir algumas peças para o Batalhão.

Passados os anos, na minha segunda vez que servia no 5° BEC, (78/79) fui destacado em Ji-paraná. O meu trecho agora começava em Pimenta Bueno. À frente de Pimenta Bueno era de responsabilidade do 9° BEC. Fui até Pimenta Bueno. Em Cacoal, paramos no mesmo posto de gasolina, do mesmo dono, para tomar café e espichar as pernas. Quando menos espero me chega um senhor com um chapéu de palha bem surrado e um cigarro de palha na boca. Aí, ele abriu um sorriso enorme e disse:

–  Tenente, o senhor ainda por aqui? Nunca mais tinha lhe visto.

Eu não o reconheci. Disse eu que estava voltando e que já não era mais tenente, embora isso pouco importasse a não ser o prazer de rever-lhe. Disse, sem que ainda o tivesse reconhecido. Ele notou minha dificuldade, e perguntou se eu não o estava reconhecendo. Respondi que a pessoa me era familiar, mas não me lembrava de onde e o nome. Aí ele foi até irônico:

–  O senhor se lembra do homem que o senhor não queria deixar entrar porque não tinha para onde ir? Pois bem sou eu. Tenente, eu venci e de qualquer forma tenho muito a lhe agradecer. Toda a minha família ainda lembra muito do senhor.

Perguntei onde ele estava e o que estava fazendo. Disse que tinha recebido uma gleba de terra na linha não sei das quantas e que já tinha lavoura, casa boa, trator e mais alguma coisa. Tinha plantado café, atividade que ele tinha no Espírito Santo. Pela hora não daria tempo de eu ir até lá onde ele morava. Trocamos um forte abraço, abraço fraternal, de irmão de labuta e nos despedimos, imagino que para sempre. Um arrependimento: tive duas oportunidades de perguntar-lhe o nome e não o fiz. Hoje o velho sou eu.

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 17.03.2022 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.   

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.  

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