A Terceira Margem – Parte CCCXCV

EPOPEIA ACREANA

O Canoeiro Hiram Reis e Silva

Inimigos na Trincheira! – X

 

Jornal Comércio do Amazonas, n° 032
Manaus, AM – Domingo, 07.02.1904
Resposta ao Tenente Alípio Bandeira 

Caluniai, caluniai, porque da calúnia
sempre fica alguma coisa (
[1]). 

Foram estas as palavras que serviram de inspiração ao Tenente Alípio Bandeira para escrever no Jornal “Quo Vadis” desta capital uma série de artigos, cada qual o mais infame e indigno, contra tudo e contra todos do Acre. Homens e coisas, até as próprias mulheres, nada escapou à sua bílis venenosa de nulo ([2]) ardendo em desejos de aparecer, de ver o seu nome escrito em letras redondas nos jornais diários.

O ilustre clínico Dr. Batista de Moraes está dissecando pelo “Amazonas” esse cadáver moral; com o bisturi da verdade, sem temor ou tibieza, rasgando as carnes aqui e ali, vai mostrando ao público admirado as podridões do Alípio. O público que me perdoe algumas expressões enérgicas de que venha a me utilizar no decurso destas linhas.

Mas nós fomos caluniados, fomos dolorosamente feridos em nessa honra individual por este novo “Apulcro de Castro” ([3]) que, aproveitando-se da nossa ausência [nem esta atenuante o caluniador tem] vazou contra nós toda a peçonhenta bílis que o despeito e a inveja tinham acumulado em sua alma ferina. Caluniou Alípio um povo nobre e generoso, caluniou uma Revolução gloriosa que acaba de integrar a Pátria brasileira, caluniou indefesas mulheres que tinham cometido o grande crime de tratá-lo com carinho quando o infeliz andava de barracão em barracão mendigando uma hospitalidade que nunca lhe foi negada.

Prostitutas! Eis generosas cearenses como Alípio pagou os vossos desvelos. Mas estais vingadas! O mísero afogou-se na lama que quis lançar contra vós. Covarde ‒ o povo acreano, diz Alípio em seus pasquins. Mas não sabe ou finge ignorar Alípio que o povo acreano é composto em sua quase totalidade de cearenses [95%] e que chamando aquele de covarde atira a mesma pecha a estes.

Lança a tua vista sobre o grande mapa do Amazonas e Pará e verás por toda parte gigantes evidentes de uma luta titânica entre o homem e a natureza, verás nas margens dos grandes Rios e dos pequenos Igarapés os marcos miliários formados pelas cruzes implantadas sobre as sepulturas dos que tombaram; e estas são milhares e milhares!

Dize Alípio, se um povo que com tanto heroísmo afronta a morte em procura de trabalho honrado merece a pecha de covarde que tu lhe lançastes! Povo indolente – continua Alípio, pega em qualquer estatística comercial e a verás: borracha exportada pelo Amazonas e Pará – vinte e seis milhões de quilos por ano, isto é, metade da produção do mundo inteiro! Será indolente, quem tanto produz? E tu deves saber: Alípio, que 95%, dos seringueiros são cearenses. Povo sem sentimento…

Quem reuniu de novo à Pátria brasileira o território do Acre que tu e outros como tu entregam à Bolívia? Foi o cearense, porque o Exército acreano era composto em sua maioria de filhos daquele heroico Estado Brasileiro.

Foram eles que fizeram dos seus peitos uma muralha contra a qual nada puderam as hostes bolivianas. E um povo que assim procede é um povo sem sentimentos? Deixando de parte estas e outras diatribes de Alípio, vou entrar no verdadeiro assunto deste artigo – a minha defesa pessoal. Antes, porém, farei uma resenha dos acontecimentos que precederam a atual Revolução Acreana.

Em 1899, o sr. Paravicini, Ministro boliviano, tomou posse do Acre em nome da Bolívia, após a assinatura do Tratado Cerqueira ‒ Paravicini. Este encontrou da parte dos brasileiros que habitavam aquela região a mais decidida má vontade contra a sua ocupação. Retirando-se por doente o sr. Paravicini deixou em seu lugar o sr. Moysés Santivañes, que estabeleceu a sua residência em Porto Alonso, hoje Porto Acre. As medidas vexatórias postas em execução pelos bolivianos, exasperaram o povo que, afinal, revoltou-se, apoderou-se de Porto Alonso, expulsando os empregados da Alfândega boliviana.

Em julho desse ano [1899], chegou ao Acre o espanhol Galvez com oito ou nove companheiros da mesma nacionalidade, os quais encontrando grande animosidade da parte do povo acreano contra o domínio boliviano, proclamaram em 14 de julho ([4]) a independência do Acre. Essa Revolução burlesca durou apenas alguns meses, terminando com a prisão do Galvez por forças enviadas pelo Governo brasileiro. A questão do Acre, até então, passara completamente desapercebida. A prisão de Galvez deu ensejos a grandes discussões na imprensa.

Publicados e discutidos os Tratados, algumas pessoas chegaram à conclusão que o Acre era, de direito, brasileiro tendo sido entregue a Bolívia por inépcia da nossa chancelaria. Formou-se, então, um pequeno partido que levantou por toda parte a campanha da reivindicação do Acre. E no princípio de 1900 subi para esse Rio a bordo do vapor “Rio Affuá”, hoje “Independência”. No dia de minha chegada a “Bom Destino”, lugar de residência do cidadão Domingos Carneiro, houve uma reunião de proprietários e nela ficou resolvido proclamar de novo a Revolução.

De fato, ficou constituído o seguinte Governo: Cel Antônio de Souza Braga, Presidente, Cel Joaquim Victor, Vice-presidente, ambos importantes negociantes daquele Rio. Em setembro desse mesmo ano, a Bolívia enviou para o Acre uma Expedição de novecentos homens, todos soldados de linha, sob o comando-geral do Coronel Ismael Montes, já naquele tempo Ministro da Guerra do General Pando.

Acompanhava a expedição, na qualidade de delegado especial D. Lucio Velasco, atual Vice-presidente daquele país.

Os acreanos, ou antes o Coronel Joaquim Victor julgando não ter elementos preparados para resistir às Forças bolivianas que entraram no Acre pelo varadouro de “Capatará”, assinou com estes um Tratado de Paz, entregando-lhes de novo o domínio do Acre. Este ato do Coronel Joaquim Victor causou grande descontentamento na população. Nessa ocasião eu estava no “Xapuri”, e ao saber da invasão dos bolivianos desci imediatamente até a “Boa União” tendo conferenciado com a maioria dos proprietários. Destas conferências nasceu a nova Revolução que pôs em iminente perigo as forças bolivianas de ocupação do Acre. […] Os oficiais Cel Alexandrino e Hyppólito Moreira assinaram com o Ministro da Guerra, já solto, um novo Tratado de Paz, contra o qual eu protestei em carta que dirigi a D. André Muñoz. Ei-la:

Exm° Sr. D. André Muñoz. – Caquetá, 11.01.1901.

Pelo vapor “Cidade do Pará” soube de uma nova pacificação feita entre os revolucionários acreanos e os vossos soldados acampados na Boca do “Riozinho”. Em nome dos verdadeiros revolucionários, em nome daqueles que preferem tudo à desonra, eu protesto contra a “Pacificação do Riozinho”. O Acre é dos brasileiros que foram os seus exploradores. O Tratado de 1867, quer se considere o “uti possidetis”, quer interpretado tecnicamente, garante ao Brasil a posse dessa região que vós ambicionais porque não tendes saída para o Pacífico. Que culpa temos nós que o Chile se tenha apoderado dos vossos portos? Infelizmente encontrastes um Ministro brasileiro ([5]) que não estando na altura do cargo que ocupava fez com a vossa Pátria um convênio em que tivestes tudo a ganhar.

O povo, entretanto, teve conhecimento que o enganavam e protestou com armas na mão, defendendo os seus legítimos direitos. A pacificação de hoje nada representa de duradoura, porque não é a vontade do povo e sim a venalidade de um comandante que coloca os seus mesquinhos interesses pessoais acima da honra da sua própria Pátria. Judas continua a ter muitos prosélitos! Revolucionário convencido, eu, não posso e nem quero abandonar uma causa com a qual estou identificado.

A pacificação de hoje é uma farsa, uma comédia, cujos atores o Brasil em breve conhecerá. Eu desço para Manaus e irei até o Rio de Janeiro para ver se consigo abrir os olhos do meu Governo em relação ao vosso procedimento no Acre. Deixo por enquanto as margens deste Rio, não abandono, porém, a luta. Por toda a parte hei de proclamar alto e bom som, com a convicção que dá a tranquilidade da consciência. O Acre é dos brasileiros; a Revolução é o direito dos oprimidos.

[assinado] Gentil Norberto.

A Bolívia aparentemente triunfava. O delegado, de então D. André Muñoz ([6]), atual Ministro da Bolívia no Brasil, era realmente um homem honesto e bondoso, e muitas simpatias captou. Depois dele vieram outros que só trataram de enriquecer o mais depressa possível. Novos impostos foram lançados, os juízes não tinham nenhum escrúpulo em vender as causas que julgavam. Os comandantes de navios e negociantes, desiludidos das promessas do Governo Boliviano, e que ainda não eram revolucionários, tornavam-se neutros na questão.

O Contrato Aramayo, vendendo o Acre a um Sindicato norte-americano ([7]), exasperou o povo acreano e atraiu para nós as simpatias da opinião pública do Brasil. Aproveitando este estado de coisas assinei com outros o seguinte documento:

Nós abaixo assinados, convencidos da absoluta necessidade de levantar de novo a Revolução na região acreana, com o fim de a libertar do domínio boliviano e contrário à nossa dignidade de brasileiro e aos nossos interesses comerciais, tomamos o compromisso de honra de auxiliarmos pessoalmente e em tudo que estiver ao nosso alcance qualquer movimento revolucionário que tenha em vista este “desideratum” ([8]). Para garantia, ao que assinamos este documento, se honra, com inteira liberdade de ação, convencidos como estamos dos nossos direitos e dos justos fins a que almejamos.

Belém, 20 de março de 1902.

[assinados]

Gentil Norberto.
Joaquim Alves Maia.
José Galdino de Assis Marinho.
Martinho Rodrigues de Souza.
André de Albuquerque Arco-Verte.

E a junho de 1902 subi para o Acre. Pouco antes de mim, subia pela primeira vez o Cel Plácido de Castro, o qual já gozava naquela região de muita popularidade pelos elogios que faziam de sua pessoa aqueles que o conheciam.

Em reunião que houve em Caquetá, Plácido de Castro, conhecedor da “Arte da Guerra”, pois fizera toda a campanha no Exército federalista, exercendo sempre cargos de confiança, foi aclamado pelo povo acreano comandante em chefe das Forças da Revolução que ia rebentar. De fato, no dia 6 de agosto, no Xapuri, Plácido de Castro prendia as autoridades bolivianas e proclamava o “Estado Independente do Acre”. No dia 24.01.1903, Porto Acre, o último baluarte dos bolivianos caia em poder dos acreanos.

A Bolívia quis tentar um último golpe. O General Pando a frente de dois mil homens marchou contra nós. O Governo brasileiro fê-lo parar em seu caminho, bem a contragosto nosso que desejávamos experi­mentar as nossas Forças com as do quixotesco General. Foi então que partiu para o Acre o Ten Alípio Bandeira. Como ele mesmo diz em seu primeiro artigo, ia com a alma repleta de “ilusões doiradas”. Nós, porém, não podíamos satisfazer essas ilusões do “garboso e valente” Tenente. Revolução feita exclusivamente com o sacrifício do povo, nós os revolucionários não podíamos saciar o apetite voraz dos muitos corvos que nos cercavam. Daí essa campanha difamatória levantada contra o Coronel Plácido e contra mim pelo Tenente Alípio Bandeira. O Coronel Plácido, descerá em breve e dará ao farsante a reposta conveniente. Limitar-me-ei, pois a rebater as acusações que me fez.

Uma delas é de ter inutilizado dezesseis soldados acreanos com castigos corporais que lhes infringi. É uma infâmia. Jamais mandei castigar corporalmente um só acreano, soldado ou seringueiro que fosse. Entretanto, aqueles que comandam forças arregimentadas sabem muito bem que é um castigo necessário para certos indivíduos refratários a qualquer outro.

A imprensa registra fatos dessa ordem todos os dias, que nos corpos do Exército, quer nos navios da armada. O Governo fecha os olhos porque sabe que os proibindo a indisciplina brotará por toda a parte. Não ordenei nunca tal castigo porque felizmente não tive necessidade de aplicá-lo para a disciplina. […]

Os fatos de “Boa Fé” foram miseravelmente deturpados pelo “valente” Tenente. Eu não fui preso pelo Major Carneiro. O General Olympio prendeu-me à frente de sua oficialidade armada no dia em que chegou a “Boa Fé”.

Dois dias depois soltou-me e convidou-me para tomar conta das mercadorias da Revolução no valor superior a 700 contos de réis. Agradeci o convite do General e escusei-me porque era solidário com o Coronel Plácido de Castro. A fábula do velho de 70 anos amarrado por mim é uma invenção do caluniador Tenente Alípio Bandeira.

Considerações de ordem elevada impedem-me de contar detalhadamente os fatos que se passaram em “Boa Fé”. Só um irresponsável como Alípio Bandeira não compreende estas coisas. Com o intuito perverso de fazer recair sobre a minha honestidade suspeitas desairosas publicou o bilioso Tenente uma ordem minha mandando apreender dois mil quilos de borracha no Barracão “Mucuripe”.

O fato passou assim: tendo falecido o proprietário de “Mucuripe”, o sr. Borges, deixou uma declaração escrita dizendo que no terreiro do seu barracão existiam dois mil quilos de borracha pertencentes a D. Conceição de tal, mulher com quem vivia há muitos anos e que lhe serviu até os últimos momentos de enfermeira desvelada.

A pessoa que ficou encarregada dos negócios do falecido recusou entregar a borracha à pobre mulher. Esta apela para o Coronel Plácido de Castro o qual, como era de justiça, manda entregar a borracha a quem de direito. Eis a origem da ordem que dei.

Conceição de tal deve residir hoje em Belém ou Cametá.

A borracha foi embarcada por ela e em nome dela a bordo do vapor “Arinos”, cujo comandante pode dizer se é verdade ou não o que afirmo. Chama-me o Ten Alípio de D. Juan.

Com tua licença, Tenente! Pois tu, que vives amasiado com a mulher de um dos teus subalternos, podes chamar alguém de D. Juan? É irrisório, não é?

Eis a que ficaram reduzidas as infames acusações do Tenente Alípio Bandeira. Nada provou do que disse. Conseguiu, entretanto, o seu fim – tornar conhecido o seu nome.

Alípio Bandeira é hoje tido e havido como o último dos caluniadores; é uma triste glória, em todo o caso sempre é uma glória. Eu poderia publicar cartas de negociantes e passivas de todo o crédito para provar o que mas, para que? Os fatos são demasiadamente conhecidos. […] (JAC, n° 32)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 16.02.2022 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia 

JCA, N° 032. Acre – Resposta ao Tenente Alípio Bandeira – Brasil – Manaus, AM – Jornal do Comércio do Amazonas – n° 032, 07.02.1904.

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]   Frase de Pierre-Augustin Caron de Beaumarchais em “O Barbeiro de Sevilha”.

[2]   Nulo: fracassado.

[3]   Apulcro de Castro: Foi em 1884, no Rio de Janeiro. Um jornalista, ou melhor, um “alucinado”, criara, agindo libérrimo graças à frouxidão das leis repressivas, escândalo permanente de insultos intoleráveis na Corte do antigo império; e tendo respingado sobre o Exército parte das alusões indecorosas, que por igual abrangiam todas as classes, do último cidadão ao monarca, foi infelizmente resolvido por alguns oficiais, como supremo recurso, a justiça fulminante e desesperadora do linchamento. (CUNHA, 1905)

[4]   Aniversário da tomada da Bastilha (14 de julho de 1789).

[5]   Olinto Máximo de Magalhães: sucedeu de Dionísio Cerqueira no cargo de Ministério das Relações Exteriores (1899-1902), no Governo de Campos Sales, atuou na pasta até o final do Governo, quando foi substituído pelo Barão do Rio Branco. Sua infeliz gestão reconheceu oficialmente a soberania boliviana sobre as terras acreanas.

[6]   19.10.1900: em “Bagaço” Gentil Norberto aprisiona o Vice-presidente e o Ministro da Guerra bolivianos, mas volta atrás e liberta as autoridades bolivianas.

[7]   Bolivian Syndicate: Uma companhia […] com direitos absolutos de administração fiscal e policial. Exclusividade para as iniciativas de exploração do território. Poderes para manter um Exército. E uma pequena esquadra também. Enfim, uma promissora organização no gênero das “chartered companies”. (LIMA)

[8]   Desideratum: desejo.

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