A Terceira Margem – Parte CCLXXXI

Expedição Centenária Roosevelt-Rondon  2ª Parte – XXI  

Herald and Review, 29.07.1926

Utiariti – III  

Jornal do Brasil n° 137 ‒ Rio de Janeiro, RJ – Quinta-feira, 09.06.1927 

A Expedição Dyott-Roosevelt 

Conversando com o Nosso Patrício Dr. José Tozzi Calvão, que foi o Verdadeiro Organizador da Exploração Através dos Nossos Sertões  

Os leitores do Jornal do Brasil foram, a seu tempo, largamente informados pelo nosso colaborador Ramon da Paz sobre a “Expedição Dyott-Roosevelt”, que realizou uma viagem perigosa e interessantíssima através dos sertões mato-grossenses e do Amazonas.

Ramon da Paz, que reuniu um enorme material de observações para editar um volume acerca das regiões percorridas, acha-se atualmente nu Europa, onde, como nos comunica um seu companheiro, o Dr. José Tozzi Calvão, tenciona organizar uma expedição francesa. No entanto, quisemos aproveitar a presença no Rio, do Dr. Tozzi Calvão, nosso patrício, que foi o verdadeiro organizador da “Expedição Dyott Roosevelt”, para proporcionar aos leitores do Jornal do algumas informações mais detalhadas sobre aquela empresa.

O Dr. Tozzi Calvão tomou parte em quase todas as expedições norte americanas realizadas na América do Sul; e por isso, está em condições, melhor do que qualquer outro, de expressar opiniões concretas sobre a importância das dificuldades superadas e sobre os resultados efetivos das expedições. Declarou-nos Dr. Tozzi Calvão:

O principal elemento de sucesso de uma expedição depende sempre do cálculo exato dos mantimentos, que, para a sua duração, precisam, e da perfeita saúde dos membros que dela tomem parte. Não é suficiente possuir uma boa constituição física, mas é indispensável que ela seja preservada dos contágios das febres maláricas e das outras moléstias fáceis a insinuar-se nos organismos os mais fortes, pelo duro regimen de vida, que cada expedicionário se deve impor.

A organização dos transportes e dos recursos alimentícios, exige também a competência de homens experimentados nestas viagens, porque, como seria prejudicial qualquer otimismo a respeito às condições do itinerário, assim poderia resultar muito incômodo uma organização pesada dos ditos transportes. Dados os meus conhecimentos dos sertões, e as experiências feitas nas outras expedições, consegui desempenhar as muitas tarefas com a plena satisfação do comandante Dyott.

A expedição teve encontros com os revoltosos em pleno sertão? 

Dois encontros. O primeiro aconteceu na madrugada do dia 02.11.1926. Enquanto eu, com a comitiva composta de animais de montaria, de quarenta e cinco bois de carga e de dez homens, preparava-me para a travessia do sertão de Mato Grosso em demanda do Rio Roosevelt [Dúvida], fui surpreendido pelos revoltosos da Coluna Prestes, comandados pelo Capitão Miranda.

Em consideração de que a missão era estrangeira, o Capitão Miranda requisitou somente os nossos animais de sela, que eu tinha escolhido em S. Luiz de Cáceres, deixando-nos alguns cavalos magros e cansados. Com estes animais atravessamos cento e oitenta léguas de sertão, habitado pelos célebres Nhambiquaras, chegando a 24 de dezembro a Utiariti, que fica na margem esquerda do rio Papagaio, acima do Salto de Utiariti, que mede quarenta metros de largura por oitenta de altura.

Qual foi a parte mais difícil da Expedição? 

A parte mais difícil da viagem foi a travessia do Rio Roosevelt, que está cheio de cachoeiras e de voltas perigosa. Às vezes precisava parar longas horas no Rio, para cortar algumas arvores colossais que obstruíam, a passagem das nossas canoas. A 2 de fevereiro encontramos as primeiras cachoeiras, e fomos obrigados a abandonar o batelão de madeira, como também parte da carga e os nossos aparelhos radiotelegráficos e os motores.

Armamos então a terceira canoa de lona, e assim conseguimos superar a primeira grande dificuldade. Eu procedia sempre na frente, explorando o rio e os canais por onde poderíamos passar. No dia 28 de Fevereiro, precisando caçar, entreguei o lugar de piloto ao índio, que me acompanhava e fiquei na proa, para ter liberdade de matar alguma jacutinga ou mesmo algum macaco.

Foi um desastre, porque, pela imperícia do meu novo piloto, a canoa, ao atravessar uma cachoeira, foi de encontro às pedras virando e jogando os tripulantes n’água. Porém, por boa sorte, a carga de mais necessidade estava bem acondicionada, por isso, flutuando pelas águas espumantes da cachoeira, foi apanhada pelas outras canoas a 2 km abaixo. Lutamos assim, todos os dias, sempre de baixo de fortes chuvas e trovoadas, molhados até os ossos.

No dia 3 de março, chegamos à serra do Sargento Paixão, e as cachoeiras do mesmo nome. Tivemos de fazer um varadouro de 3 km. Enquanto eu com mais dois homens íamos abrindo o varadouro numa floreta espessa, fomos cercados por uma tribo de índios desconhecidos, em atitude hostil. Os meus companheiros apavorados quiseram fugir, mas felizmente consegui contê-los, o que foi a nossa salvação, pois, do contrário, os índios nos teriam atacado.

Mostrei, então, que éramos amigos, entregando à tribo, que depois soube chamar-se “Araras”, machados e facões de presente e recebendo, em troca, arcos, flechas, milho e “chicha” [aguardente de milho]. Até a chegada ao rio Madeira varamos, em 45 dias, 65 cachoeiras.

Quantos meses durou a Expedição? 

Deixamos o Rio de Janeiro aos 15.09.1926 e chegamos a Manaus no dia 2 de maio deste ano.

Quais são as suas impressões sobre os nossos sertões?  

O entusiasmo com que tenho tomado parte em tantas Expedições e o desejo de realizar ainda outras explorações, podem demonstrar o meu vivo interesse para o conhecimento mais perfeito e o estudo de regiões maravilhosas, assim exuberantes de riquezas, e que poderiam, só elas, assegurar a prosperidade de um grande País.

Quais são os resultados práticos dessas expedições?  

Os resultadas, hoje, são para os estudiosos. E seja-me permitido afirmar que talvez se interessem mais os estrangeiros do que os nossos patrícios em conhecer as extraordinárias riquezas que existem naquele “inferno verde”.

Quando o problema das comunicações for resolvido, e parece que o voo de “De Pinedo” têm apresentado a possibilidade de solução do problema, os resultados das atuais explorações poderão ser apreciados praticamente.

O Dr. Tozzi Calvão está se preparando para tomar parte numa outra expedição no interior desconhecido do País. (JORNAL DO BRASIL N° 137)

Magalhães (1942)  

No Utiariti o Rio corre mansamente antes da queda; ao aproximar-se desta, deu-se o desnivelamento brusco, de modo a formar uma grande corredeira marulhosa e junto do salto as águas se subdividem por causa de uma pequena ilha. Um grande golfo forma-se à esquerda; outra porção maior contorna a ilha à direita e antes de se despenhar se subdivide, indo uma pequena parte para o abismo, onde cai como extenso e alvo lençol e a outra, de maior volume, volve por um salto preliminar a encontrar-se com o grosso das águas provenientes do golfo. Despenha-se, então, toda essa massa, da altura de cerca de 80 m, no mesmo enorme poço onde se desfaz o lençol da direita; e de onde se levanta uma grossa nuvem de água como que volatilizada e que, de muito longe, anuncia a existência do salto, a quem tem o hábito de ler e avaliar os acidentes de um terreno. O corte de arenito vermelho, aí descorado em muitos pontos e completamente desnudado, é vertical; o poço cavado pelas águas é semicilíndrico, aberto no meio do arco anterior já esboroado. À esquerda segue-se o muro de grés, vertical e reto, para o Norte, num abaixamento moderado; à direita a rampa é mais suave para o Rio, então estreito, com especialidade logo depois do salto, onde a sua largura é de 6 m; também aí correm as águas com enorme velocidade.

Antes da queda a largura é de 90 m. No salto a água se eleva em nuvens mais ou menos altas, conforme a temperatura do momento, fazendo sentir constantemente os efeitos da umidade, por mais de 200 m em redor. (MAGALHÃES)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 16.08.2021 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Filmetes 

 Bibliografia 

JORNAL DO BRASIL N° 137. A Expedição Dyott-Roosevelt – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Jornal do Brasil n° 137, 09.06.1927.

MAGALHÃES, Amílcar A. Botelho de. Impressões da Comissão Rondon – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Companhia Editora Nacional, 1942.

 (*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

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