A Terceira Margem – Parte CCLXXIX

Expedição Centenária Roosevelt-Rondon  2ª Parte – XIX

Missão Santa Teresinha do Utiariti.

Utiariti – I 

O “Naturalista” nato adquire seus conhecimentos em contato com a natureza. […] Os profissionais cada vez mais isolam-se e protegem-se no casulo da “civilização de laboratório”. São cientistas, mas não devem ser chamados de “Naturalistas”. Estão ligados ao cordão umbilical de fórmulas e formulários, bolsas e relatórios. Presos a engrenagens burocráticas crescentes, anunciadoras de que os meios justificam os fins, estes nem sempre alcançados. […] A divulgação do que é simples é vestida com uma linguagem complicada, inacessível aos não iniciados: biologês, geologês, etc. […] Que diferença dos textos dos grandes “Naturalistas” e cientistas europeus de menos de um século atrás, que lançaram as bases da ciência atual! Que falta eles fazem! Muitos “Naturalistas” natos desistem de transmitir a outrem o que observaram, frente a essas barreiras com sua ortodoxia […] Como colocar nessa camisa de força as sensações mencionadas de início? Como encaixá-las no matematismo? Alguns “Naturalistas”, contudo, têm coragem para desafiar a corrente. (AQUINO)

Missão Santa Teresinha do Utiariti.

Aldeia Utiariti (07.11.2015) 

Felizmente houve consenso para que permanecêssemos mais um dia em Utiariti. Uma empreitada complexa como a nossa que homenageia uma Expedição que se intitulava “Científica” deve envolver hoje como ontem, necessariamente, a busca do conhecimento das coisas e das gentes das regiões percorridas.

A conversa com os anciãos, a observação aguçada da natureza que nos cerca, as danças, os ritos de passagem, as lendas e mitos, a visita aos locais considerados sagrados pelos povos nativos fazem parte da rotina de um verdadeiro naturalista, se isso não ocorrer estaremos apenas realizando um percurso como um descompromissado turista não tem nenhum valor.

No dia de hoje, troquei minhas vestes de expedicionário pelas de “naturalista” e consegui, graças a essa sutil metamorfose, documentar o magnífico Salto do Utiariti de ambas as margens, de observá-lo do mesmo ângulo e local em que há mais de um século Rondon o fizera, de perambular pelas ruínas da antiga Missão absorvendo sua história e as difíceis interações dos missionários com as crianças nativas, de interagir com os Paresí mais idosos e mais jovens da Aldeia ouvindo suas estórias, de observar seus jogos e brincadeiras, enfim de participar de seu dia-a-dia. Nesta manhã, entrevistei a Professora Terezinha e a Sr.ª Tertuliana procurando colher informações adicionais sobre o Utiariti ([1]) e a antiga Missão, instalada à margem esquerda do Rio Papagaio, ao lado do lendário Salto do Utiariti. Após a entrevista, atravessei, de balsa, o Papagaio, acompanhando a Professora e seu esposo, o casal seguiu viagem e eu fui, visitar as ruínas da Missão, localizadas na Terra indígena Tirekatinga, dos Nambiquara que guardam hoje apenas uma pálida lembrança que foi um dia a Missão Jesuítica. Apesar de ser um sítio por demais aprazível, de terras férteis, pleno de belezas naturais e de relevância histórica, o local hoje está totalmente abandonado e as edificações do complexo criminosamente desmanteladas e saqueadas.

Ao retornar de minha peregrinação pelas ruínas da Missão encontrei a bela menina Iara e sua amiguinha que me auxiliaram na transposição do Rio trazendo a Balsa para a margem em que eu me encontrava (esquerda). Na margem direita ela e mais três amiguinhos fizeram uma bela demonstração de agilidade e coragem escalando a vegetação marginal e saltando dos galhos mais altos nas límpidas águas do Rio Papagaio.

À tarde atravessei, novamente, o Rio Papagaio acompanhado de um amigo Paresí, chamado Galego, e do Dr. Marc com o objetivo de conhecer o local exato de onde o Coronel Rondon havia tirado a famosa foto do Salto Utiariti. O Galego nos levou, também, até o cemitério da Missão cujo solo sagrado fora igualmente saqueado e profanado. É interessante verificar que os povos tradicionais, tão ciosos guardiões dos restos mortais de seus ancestrais, principalmente quando reivindicam novas demarcações de terras, sejam capazes de agir de maneira tão abominável. Ao transpormos os umbrais de um cemitério, independentemente da origem ou credo dos mortos, deveríamos fazê-lo com todo o respeito e orar pela alma dos que já se foram. Nesta tarde uma Comissão de mais de 20 pessoas, da Aldeia Três Jacus, representando o Cacique Tarcísio, veio conversar com o Dr. Marc a respeito do valor de um pretenso “pedágio” a ser cobrado para percorrermos o trajeto de Utiariti até o Rio Buriti. Depois de muitas delongas ficou acordado o exorbitante valor de R$ 1.500,00 para percorrermos apenas 43 quilômetros das Terras dos Nambiquara, certamente o mais caro “pedágio” do mundo, quase R$ 35,00 por quilômetro.

Nossa “lua de mel” com os povos indígenas terminava em Utiariti depois de percorrermos as Terras dos amigáveis Paresí, e iniciava-se, a partir de agora, uma longa jornada pelas “soturnas e mercantilistas” trilhas Nambiquara. Remando pelos amazônicos caudais tive contato com dezenas de etnias e encontrei apenas uma delas, a dos Tikuna, que se equipara com a dos Paresí em altivez, empreendedorismo e honestidade.

Missões Jesuítas no Brasil 

O mundo avança mesmo sem nós, de nós depende que avance conosco! (ARRUPE)

O Padre italiano Pedro Arrupe, membro da Companhia de Jesus, no livro “Os Jesuítas: Para Onde Caminham?”, conta-nos:

A dedicação dos jesuítas aos índios é uma vocação histórica, imersa nos primeiros tempos do Brasil. Entretanto, os jesuítas viram dissolver-se as missões, quando expulsos do Brasil, a partir de 03.09.1759. Com quase cem anos de ausência do Brasil e dizimados em quase todas as partes do mundo, foram incorporados de novo nos ministérios religiosos pelo Breve ([2]) de Pio VII, de 07.08.1814. Voltaram ao Brasil com a finalidade expressa de reatarem as missões indígenas, se bem que não pudessem, durante quase outro século, estabelecer adequadamente uma Missão entre os silvícolas, apenas o conseguindo na forma de Prelazia. Com iniciativa, já não própria da Companhia, mas da Nunciatura Apostólica, oferecendo uma Prelazia, os jesuítas brasileiros dedicaram-se estavelmente a uma Missão indígena.

De fato, pela Bula “Cura Universæ Ecclesiæ”, de 22.03.1929, foi confiada à Companhia de Jesus no Brasil a região de 350.000 km², situada no Centro Norte do Estado de Mato Grosso. Essa região foi elevada à categoria de Prelazia, a Prelazia de Diamantino. Até o ano de 1952, a Província do Brasil Central esteve com a direção da Missão Anchieta, na Prelazia de Diamantino.

Impossível desconhecer os sacrifícios imensos, as ações heroicas praticadas pelos primeiros jesuítas que ali trabalharam. Evoquemos a figura de Monsenhor João Batista du Dréneuf, SJ, feito primeiro administrador apostólico da Prelazia. Desde 1930 até 1948 lutou com mil dificuldades para colocar as bases firmes de uma ação missionária eficaz. Em 1935 fundou o primeiro posto missionário, “Santa Teresinha do Mangabal”, no Rio Juruena, entre os índios Nambiquara.

O solo árido, as distâncias imensas, a falta de comunicações, tudo concorreu para que os missionários sofressem fome e privações sem conta, ao lado de seus amados índios. Provada a impossibilidade de subsistência deste posto, cessa em 1945. No ano seguinte, abre-se outro posto, a 120 quilômetros a Sudeste do primeiro: “Santa Teresinha do Utiariti”, à margem esquerda do Rio Papagaio.

Com a morte de Monsenhor du Dréneuf em 1948, assumiu a direção da Prelazia o Padre Alonso Silveira de Mello, SJ, que no dia 21.08.1955 era sagrado Bispo em Porto Alegre, aliás o primeiro Bispo jesuíta em toda a história da Companhia de Jesus no Brasil. A Prelazia dedica-se formalmente à pastoral, no que diz respeito à religião. Mas, não se pode omitir na vida social e ignorar as obras de caridade e de formação.

Nessas atividades externas se encontra com outro poder constituído, o Estado. Convém que a Prelazia institua uma ou mais sociedades civis, que facilitem as tramitações de negócios correntes. A criação de tal sociedade realizou-se no dia 19.11.1956. Esta entidade, atualmente com o significativo nome de Missão Anchieta, funciona com sede em Diamantino, a serviço exclusivo da Prelazia de Diamantino, em suas atividades de cunho civil. Por que dizer que a Missão dos jesuítas na Prelazia de Diamantino é uma das mais difíceis do mundo? Por três motivos: grandes distâncias, tribos numerosas e diferentes entre si, e dispersão em pequenos grupos.

          1. Utiariti, posto pioneiro, está a 400 km ao Norte da última cidade de Mato Grosso. As tribos da vizinhança são: os Nambiquara, a 120 km; os Paresí, a 200 km; os Iranche, a 200 km; os Canoeiro, os Caiabi, a mais de 500 km por via fluvial. Das tribos que estão no vale do Rio Xingu, as maiores, as mais numerosas, estamos inteiramente desligados por falta de pessoal de comunicação;
          2. Sobe a 31 o número de tribos no território da Missão. Todas diferem entre si pela língua, tradições e costumes, constituindo cada uma delas, uma pequena nação;
          3. E não se pense que o missionário encontra grandes aglomerações. Os índios de uma mesma tribo vivem em pequenos grupos ou turmas. Seria muito difícil a sobrevivência de um grande número num mesmo lugar por falta de caça, pesca etc. O trabalho na Prelazia se estende a 5 paróquias, 160 sítios sertanejos. O pré-seminário conta com 20 candidatos. O trabalho de evangelização entre os índios atinge a 9 tribos somente. As outras 22 estão à espera do missionário. Dois padres se ocupam no trabalho direto com os índios, na Missão volante. (ARRUPE)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 12.08.2021 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Filmetes 

Bibliografia 

ABNRJ N° 35. Aborígenes e Ethnographos – Dr. Roquette Pinto– Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Annaes da Bibliotheca Nacional n° 35, Officinas Graphicas da Bibliotheca Nacional, 1913.

AQUINO, Carla Abreu Soares. A Preguiça Comum (Bradypus variegatus) ‒ Prefácio da Monografia, 2002.

ARRUPE, Pedro. Os Jesuítas: Para Onde Caminham? – Brasil – São Paulo, SP – Edições Loyola, 1978.

COMÉRCIO, Jornal do. Missão Rondon ‒ Brasil ‒ Brasília, DF ‒ Edições Senado Federal, Conselho Editorial, 2003.

JORNAL DO BRASIL N° 137. A Expedição Dyott-Roosevelt – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Jornal do Brasil n° 137, 09.06.1927.

JORNAL DO COMMERCIO N° 216. Populações Indígenas Encontradas nos Sertões Mato-Grossenses; Contatos e Relações Estabelecidas Entre elas e a Comissão Rondon; Hábitos e Costumes Indígenas ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ ‒ Jornal do Commercio n° 216, 05.08.1915.

MAGALHÃES, Amílcar A. Botelho de. Impressões da Comissão Rondon – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Companhia Editora Nacional, 1942.

ROQUETTE-PINTO, Edgard. Rondônia ‒ Brasil ‒ Rio, RJ ‒ Companhia Editora Nacional, 1938.

VIVEIROS, Esther de. Rondon Conta Sua Vida ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ ‒ Livraria São José, 1958.

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]    Utiariti: Falco Sparverius.

[2]    Breve: decisão do Papa sobre questões teológicas.

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