A Terceira Margem – Parte CXXVII

Foz do Breu, AC/ Manaus, AM ‒ Parte III

FOZ DO BREU/AC – Google maps

Descendo o Juruá ‒ III  

De Pé e à Ordem 

Qual a definição da expressão “DE PÉ E À ORDEM”? Significa que, estando o Maçom em Loja “de Pé e à Ordem” ele estará fazendo o sinal do grau em que a Oficina da Arte Real está funcionando; de forma absolutamente correta.

Que o Irmão ao dizer-se “de Pé e à Ordem” para outro irmão, […] ele está dizendo que está pronto para receber e cumprir ordens e, principalmente, que o Maçom diz-se “DE PÉ E À ORDEM” por estar cônscio de suas obrigações para com a Sublime Ordem, a Família, a Pátria e a Humanidade. (Grão-Mestre Osvaldo Pereira Rocha)

Desafio de um Amazônico Amigo 

Enfim lanço um desafio ao Coronel Hiram para que realize como realizei [nunca de caiaque é claro], a viagem da Serra do Divisor [nascente dos Rios Amônea e Moa] pelo Juruá até Manaus; tenho certeza, quase que absoluta, que o Comando Militar da Amazônia, em função da curiosidade sobre esse período desconhecido que vai reescrever as histórias do Estado do Acre e Militar na Amazônia, apoiará integralmente esse Projeto de Pesquisa.
(Ten Cel Eng Lauro Augusto Andrade Pastor Almeida)

Respondi imediatamente afirmando ao Ten-Cel Pastor que estava pronto para mais esta missão.

Recomendei, porém, que se iniciasse a jornada no Juruá, da Foz do Breu, fronteira peruana, até a Foz do Amônea de onde se subiria a motor para depois descê-lo de caiaque, voltando a percorrer o Juruá até sua Foz no Solimões (mais de 3.100 km) e da sua Foz até Manaus pelo Solimões (mais de 850 km), a partir de dezembro de 2012, período das cheias. Chegaríamos à região no início de dezembro para iniciar as pesquisas, havendo necessidade de o caiaque e a “voadeira” de apoio, do 8° Batalhão de Engenharia de Construção – Santarém, PA, já terem sido transportadas, via fluvial, de Santarém, PA, a Porto Velho, RO, e por terra de Porto Velho até Cruzeiro do Sul, AC, de onde partiríamos, via fluvial, até a primeira Comunidade brasileira às margens do Juruá que é Foz do Breu.

Calculei entre cinco e seis meses a descida. De maio a julho, fecharíamos as pesquisas e o livro estaria pronto e editado até dezembro de 2013. Achei difícil que este sonho se transformasse em realidade.

As dificuldades encontradas até agora para viabilizar jornadas bem mais curtas justificavam meu pessimismo. Os tempos áureos das descobertas e das expedições científicas parecem ter findado, o interesse das pessoas e das Instituições migrou para outros temas menos relevantes.

Mesmo assim a materialização deste desafio seria a realização de um ideal, eu teria a honra e o privilégio de percorrer as mesmas águas em que se aventurou, em 1905, o chefe da Comissão Mista Brasileiro-Peruana de Reconhecimento do Rio Juruá General Bellarmino Augusto de Mendonça Lobo.

Tâmo” Junto Comandante! 

De Pé e à Ordem   

Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união. É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba, a barba de Arão, e que desce à orla das suas vestes. Como o orvalho de Hermom, e como o que desce sobre os montes de Sião, porque ali o SENHOR ordena a bênção e a vida para sempre. (Salmos, 133:1-3) 

Antes mesmo de ter sido confirmada a Expedição de Descida do Rio Juruá, resolvi iniciar meu planejamento consultando dois membros do Grupo Fluvial do 8° Batalhão de Engenharia de Construção (8° BEC), Santarém, PA, os Soldados Mário Elder Guimarães Marinho e Marçal Washington Barbosa Santos, se aceitariam compor a equipe de apoio para mais uma descida pelos amazônicos caudais. A resposta dos dois guerreiros foi imediata:

–  Tâmo junto Comandante!!!   

Nenhum dos dois sequer titubeou ou pensou em perguntar qual o Rio, de onde ou quando partiríamos, qual seria a duração da missão nem mesmo quais embarcações seriam empregadas, eles, simplesmente, estavam prontos – “De Pé e à Ordem”. Nas minhas duas últimas descidas (Rio Amazonas – 23.12.2010 a 22.01.2011 ‒ 851 km e Rios Madeira/Amazonas – 22.12.2011 a 15.02.2011 ‒ 2.000 km) contei com o apoio irrestrito da valorosa Tropa de Elite do Barco a Motor (B/M) Piquiatuba da qual faziam parte, além do Mário e do Marçal os Soldados Walter Vieira Lopes e Edielson Rebelo Figueiredo.

Como esta missão é de longa duração em Rios e Igarapés que apresentam problemas de navegabilidade para embarcações maiores em determinados trechos, estou prevendo o apoio de uma “voadeira” com motor de rabeta de, no máximo 6,5 Hp, e um motor, reserva, de popa, de 25 Hp para emergências, com apenas dois militares para não desfalcar, por demais, o efetivo do Grupo Fluvial do 8° BEC.

A pronta resposta de meus caros amigos paraenses me fez “engarupar na anca da história” e lembrar os velhos tempos de aluno do Colégio Militar de Porto Alegre quando ouvi extasiado, pela Rádio Guaíba, o relato denominado “Mensagem a Garcia”. A reportagem enaltecia a figura ímpar do Coronel Andrew Summers Rowan (1857-1943) que cumpriu, sem pestanejar, a missão de encontrar e entregar uma mensagem do Presidente Norte-americano William Mac Kinley (1843-1901) ao insurreto Major-General cubano Calixto Ramón García Iñiguez (1836-1898).

Mensagem a Garcia 

Em todo este caso cubano, um homem se destaca no horizonte de minha memória. Quando irrompeu a Guerra entre a Espanha e os Estados Unidos, o que importava aos americanos era comunicar-se, rapidamente, com o chefe dos revoltosos – chamado Garcia – que se encontrava em uma fortaleza desconhecida, no interior do sertão cubano.

Era impossível um entendimento com ele pelo correio ou pelo telégrafo. No entanto, o Presidente precisava de sua colaboração, e isso o quanto antes. Que fazer?

Alguém lembrou: Há um homem chamado Rowan… e se alguma pessoa é capaz de encontrar Garcia, esta pessoa é Rowan. Rowan foi trazido à presença do Presidente, que lhe confiou uma Carta com a incumbência de entregá-la a Garcia. Não vem ao caso narrar aqui como esse homem tomou a Carta, guardou-a num invólucro impermeável, amarrou-a ao peito e, após quatro dias, saltou de um pequeno barco, alta noite, nas costas de Cuba; ou como se embrenhou no sertão para, depois de três semanas, surgir do outro lado da Ilha, tendo atravessado a pé um país hostil, e entregue a Carta a Garcia. O ponto que desejo frisar é este: Mac Kinley deu a Rowan uma Carta destinada a Garcia; Rowan tomou-a e nem sequer perguntou:

–  Onde é que ele está?

Eis aí um homem cujo busto merecia ser fundido em bronze e sua estátua colocada em cada escola. Não é só de sabedoria que a juventude precisa…

Nem de Instruções sobre isto ou aquilo. Precisa, sim, de um endurecimento das vértebras para poder mostrar-se altiva no exercício de um cargo; para atuar com diligência; para dar conta do recado; para, em suma, levar uma mensagem a Garcia. O General Garcia já não é deste mundo, mas há outros Garcias.

A nenhum homem que se tenha empenhado em levar adiante uma tarefa em que a ajuda de muitos se torne precisa têm sido poupados momentos de verdadeiro desespero ante a passividade de grande número de pessoas, ante a inabilidade ou falta de disposição de concentrar a mente numa determinada tarefa… e fazê-la.

A regra geral é: assistência regular, desatenção tola, indiferença irritante e trabalho malfeito. Ninguém pode ser verdadeiramente bem-sucedido, exceto se lançar mão de todos os meios ao seu alcance, para obrigar outras pessoas a ajudá-lo, a não ser que Deus Onipotente, na sua grande misericórdia, faça um milagre enviando-lhe, como auxiliar, um anjo de luz. Leitor amigo, tu mesmo podes tirar a prova. Estás sentado no teu escritório, rodeado de meia dúzia de empregados. Pois bem, chama um deles e pede-lhe:

Queira ter a bondade de consultar a enciclopédia e de fazer a descrição resumida da vida de Correggio ([1]).

Dar-se-á o caso de o empregado dizer, calmamente: – “Sim, senhor” e executar o que lhe pediste? Nada disso! Olhar-te-á admirado para fazer uma ou algumas das seguintes perguntas:

–  Quem é Correggio?

–  Que enciclopédia?

–  Onde está a enciclopédia?

–  Fui contratado para fazer isso?

–  E se Carlos o fizesse?

–  Esse sujeito já morreu?

–  Precisa disso com urgência?

–  Não seria melhor eu trazer o livro para o Senhor procurar?

–  Para que quer saber isso?

Eu aposto dez contra um que, depois de haveres respondido a tais perguntas e explicado a maneira de procurar os dados pedidos, e a razão por que deles precisas, teu empregado irá pedir a um companheiro que o ajude a encontrar Correggio e depois voltará para te dizer que tal homem nunca existiu.

Evidentemente pode ser que eu perca a aposta, mas, seguindo uma regra geral, jogo na certa. Ora, se fores prudente, não te darás ao trabalho de explicar ao teu “ajudante” que Correggio se escreve com “C” e não com “K”, mas limitar-te-á a dizer calmamente, esboçando o melhor sorriso:

–  “Não faz mal… não se incomode”.

É essa dificuldade de atuar independentemente, essa fraqueza de vontade, essa falta de disposição de, solicitamente, se pôr em campo e agir, é isso o que impede o avanço da humanidade, fazendo-o recuar para um futuro bastante remoto.

Se os homens não tomam a iniciativa de agir em seu próprio proveito, que farão se o resultado de seu esforço resultar em benefício de todos? Por enquanto parece que os homens ainda precisam ser dirigidos. O que mantém muito empregado no seu posto e o faz trabalhar é o medo de, se não o fizer, ser despedido ou transferido no fim do mês. Anuncia-se precisar de um taquígrafo e nove entre dez candidatos à vaga não saberão ortografar nem pontuar, e – o que é pior – pensa não ser necessário sabê-lo.

–  Olhe aquele funcionário – dizia o chefe de uma grande fábrica. É um excelente funcionário.

–  Contudo, se eu lhe perguntasse por que seu trabalho é necessário ou por que é feito dessa maneira e não de outra, ele seria incapaz de me responder. Nunca deve ter pensado nisso.

–  Faz apenas aquilo que lhe ensinaram, há mais de 3 anos, e nem um pouco a mais.

Será possível confiar-se a tal homem uma carta para entregá-la a Garcia?

Conheço um homem de aptidões realmente brilhantes, mas sem a fibra necessária para dirigir um negócio próprio e que ainda se torna completamente nulo para qualquer outra pessoa devido à suspeita que constantemente abriga de que seu patrão o esteja oprimindo ou tencione oprimi-lo.

Sem poder mandar, não tolera que alguém o mande. Se lhe fosse confiada a mensagem, a Garcia retrucaria, provavelmente:

–  “Leve-a você mesmo!” Hoje esse homem perambula errante, pelas ruas em busca de trabalho, em estado quase de miséria. No entanto, ninguém se aventura a dar-lhe trabalho porque é uma personificação do descontentamento e do espírito da discórdia. Não aceitando qualquer conselho ou advertência, a única coisa capaz de nele produzir algum efeito seria um bom pontapé dado com a ponta de uma bota 44, sola grossa e bico largo.

Pautemos nossa conduta por aqueles homens, dirigentes ou dirigidos, que realmente se esforçam por realizar o seu trabalho.

Aqueles cujos cabelos ficam mais cedo encanecidos na incessante luta que estão desempenhando contra a indiferença e a ingratidão, justamente daqueles que, sem o seu espírito empreendedor, andariam famintos e sem lar.

Estarei pintando o quadro com cores por demais escuras?

Não há excelência na nobreza de si mesmo; farrapos não servem de recomendação. Nem todos os ricos são gananciosos e tiranos, da mesma forma que nem todos os pobres são virtuosos.

Todas as minhas simpatias pertencem ao homem que trabalha, fazendo o que deve ser feito, melhorando o que pode ser melhorado, ajudando sem exigir ajuda. É o homem que, ao lhe ser confiada uma carta para Garcia, toma a missiva e, sem a intenção de jogá-la na primeira sarjeta, entrega-a ao destinatário.

Esse homem nunca ficará “encostado”, nem pedirá que lhe façam favores. A civilização busca ansiosamente, insistentemente, homens nessa condição. Tudo que tal homem pedir, se lhe há de conceder. Precisa-se dele em cada Vila, em cada lugarejo, em cada escritório, em cada oficina, em cada loja, fábrica ou venda. O grito do mundo inteiro praticamente se resume nisso:

PRECISA-SE – E PRECISA-SE COM URGÊNCIA – DE UM HOMEM CAPAZ DE LEVAR UMA MENSAGEM A GARCIA”. (Elbert Hubbard)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 11.01.2021 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]    Correggio: pintor renascentista italiano Antônio Allegri nasceu em Correggio em 1489.

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