A Terceira Margem – Parte CCCLII

Epopeia Acreana 1ª Parte – IV 

Hiram Reis

Homenagem Especial – III  

Esta verdadeira ode aos heróis acreanos desco­nhecidos me fez engarupar na memória e rememorar uma canção de Francisco Alves, retratando as tropas de peões-soldados sempre dispostos a defender o nosso rincão, que se destacou, em 1981, na “XI Califórnia da Canção Nativa” chamada “Sabe Moço”:

Sabe Moço
(Francisco Alves) 

Sabe moço que no meio do alvoroço
Tive um lenço no pescoço que foi bandeira pra mim
E andei mil peleias em lutas brutas e feias
Desde o começo até o fim.

Sabe moço depois das revoluções
Vi esbanjarem brasões pra caudilhos coronéis
Vi cintilarem anéis assinatura em papéis
Honrarias para heróis.

É duro moço olhar agora pra história
E ver páginas de glórias e retratos de imortais
Sabe moço fui guerreiro como tantos
Que andaram nos quatro cantos.

Sempre seguindo um clarim
E o que restou, ah sim
No peito em vez de medalhas
Cicatrizes de batalhas.

Foi o que sobrou pra mim
Ah sim
No peito em vez de medalhas
Cicatrizes de batalhas
Foi o que sobrou pra mim.

Espíritos da Tempestade (E. de Morgan, 1900)

O Paiz, n° 7.071 ‒ Rio de Janeiro, RJ
Domingo, 17.02.1904
Francisco Mangabeira 

O Paiz n° 7.071, 17.02.1904

Este poeta, que acaba de morrer aos vinte e cinco anos de idade, deixou cinco livros admiráveis; “Flâmulas”, poesias os poemas “Hostiário”, “Tragédia Épica” e “Santa Thereza”, além do volume de seus últimos versos. Era ainda estudante de medicina, quando partiu para Canudos e, logo depois de formado, seguiu para o Acre, de onde regressava enfermo, morrendo durante a viagem, no alto-mar, na mesma altura onde expirou Gonçalves Dias. M. Teixeira

E então o pensamento; hoje sombrio,
Dos que te amavam com maior ternura,
Pousará, como um pássaro erradio,
Sobre o jardim de tua sepultura.
F. Mangabeira

O insigne poeta do “Hostiário”,
Que desfraldara as “Flâmulas” da rima,
Nos mastros de um navio solitário;

E abriu velas de seda em duro clima,
Mais generoso e belo que os piratas
E audaz como os califas de Fátima;

Ao tumultuar das multidões ingratas
Preferia as ameaças do oceano
E a escura solidão das nossas matas.

Era assim que o seu estro soberano
Procurava a fantástica beleza,
Que o seduzia num delírio insano…

E apareceu-lhe, então, “Santa Thereza”,
Vencida, nos seus êxtases sagrados,
Pelo rigor das leis da Natureza.

Seguiu pelo recôncavo os soldados
Que foram dar combate ao fanatismo,
Numa guerra infernal de alucinados….

Viu de perto as loucuras do heroísmo,
Aos sinistros listões dessa fornalha
Que transformou Canudos num abismo!

E ele, deixando o campo da batalha,
Tinha n’alma a tristeza do vidente
Que em plena juventude se amortalha…

Morrer moço ‒ é ficar eternamente
Na mocidade, aos olhos dos vindouros,
Alumiando do tempo a ação potente.

E quando a fronte juvenil tem louros,
Bela se ostenta em todas as idades,
Como o escrínio de incógnitos tesouros!

É trocar esperanças por saudades…
E na tela de um sonho emoldurado
Aureolar-se de vivas claridades! …

Não quero mais amar, nem ser amado:
Parece-me que a Morte anda em procura
Daqueles que me inspiram mais cuidado!

Tenho visto cair na sepultura
Os que mais eu guardava na minh’alma,
Os que mais me sorriam de ternura! …

Este… sonhou colher da glória a palma,
E dentro do seu Sonho de Poeta
Passou por nós, num ímpeto, sem calma.

Zuniu da morte a sibilante seta,
Ferindo a ave que melhor cantava,
E que longe do ninho errava inquieta.

Era tão cedo ainda… despontava
Apenas no horizonte dessa vida
O doirado porvir, que o deslumbrava!

E de tamanho anseio, em tanta lida,
Só nos resta a visão da mocidade
Na solidão funérea da jazida

Aspirações de amor e liberdade
Povoavam-lhe a mente, pois o seio
Ele tinha repleto do bondade.

Como era justo e bom! Ao mundo veio
Mostrar os dons do céu; e ao ver o mundo,
De nele se manchar teve receio.

Entornou-se-lhe n’alma o mais profundo
Tédio da vida, essa fatal doença
Que lhe emprestava um ar de moribundo.

Seu nostálgico olhar na esfera imensa
Procurava encontrar o que não via
Do planisfério na penumbra densa.

Era o romeiro ideal da Poesia,
Parando sempre ao pé dos que choravam,
Longe sempre da turba que sorria.

Nessa idade em que os outros mergulhavam
No oceano das paixões, de lá trazendo
Pérolas e corais, que ao Sol brilhavam,

Ele, escutando o ribombar tremendo
Da boca acesa dos canhões da guerra,
Foi na “Trincheira Negra” aparecendo…

Do renhido da luta não se aterra:
E só se curva ‒ para erguer nos braços
O ferido que vê rolar por terra! …

Respeitavam-lhe a calma os estilhaços
Das granadas e bombas explosivas,
Que estavam sempre a embaraçar-lhe os passos!

Quando rompiam do triunfo os “vivas”,
Dos vencidos lembrando a triste história,
Metia-se nas selvas primitivas.

Vendo em sangue de irmãos tinta a vitória,
Deixava os vencedores, e sombrio
Ficava a meditar na luta inglória…

Desafiou mais tarde o clima ímpio
Das regiões aspérrimas do Norte
Dilatadas na hipérbole de um Rio.

Ousara o fraco provocar o forte:
Partiu… [partiu-me a alma essa partida!]
E foi sorrindo procurar a morte…

A Natureza, então, surpreendida
Por tanta audácia e tanta indiferença,
Invejando talvez tão bela vida,

Sugou-a, pela febre… e na doença
Foi-lhe roubando as forças, que hoje espalha
Pelos rebentos da floresta imensa!

Quando o tufão nas árvores farfalha,
Seu estro canta, numa lira estranha,
Como um clarim num campo do batalha.

O fluído universal nele se entranha;
E ora desce, a rugir, na “pororoca”
Ora se eleva ao topo da montanha!

A eterna lei do transformismo troca
Um ser por muitos seres, perpetuados
Numa lembrança, que a saudade evoca.

Como as virgens, que em bailes e noivados
Querem ficar dançando a noite inteira,
E voltam cedo aos lares apagados,

Quem sabe se aquela alma forasteira
Não queria ficar mais alguns dias
Presa ao calor da paternal lareira?

Por que partiste assim, quando sabias
Que esse orgulho e prazer que nos causavas
Em lágrimas e dor transformarias?!

Se eras por nós amado, e nos amavas,
A mim e aos teus, que aos teus me junto agora,
Como a eles outrora me juntavas;

E assim choramos por quem já não chora…
Meu Deus! Esta existência é só de enganos:
As rosas vivem pouco mais que a aurora…

E o cipreste feral ([1]) dura cem anos!
Rio, 08 de fevereiro de 1904
Múcio Teixeira (O PAIZ, N° 7.071)

Anjo da Morte Azrael (Evelyn De Morgan, 1881)

 

Os Annaes, n° 98 ‒ Rio de Janeiro, RJ
Quinta-feira, 13.09.1906
A Livraria
Últimas Poesias”, por Francisco Mangabeira
Oficina dos dois Mundos ‒ Bahia, 1906.  

Já é uma obra póstuma esta representada pelo volu­me que ora se publica; é a primeira na série recolhida entre os papeis que se encontraram pertencentes a Francisco Mangabeira, um poeta de ontem, cuja es­treia excepcionalmente brilhante, ainda, de certo, ninguém pode esquecer. “Hostiário”, que foi o seu livro inicial, pertence ao número dessas belas promes­sas periódicas que se sucedem tão regularmente em nossa literatura como se fossem fenômenos astronô­micos ou meteoroló­gicos de reprodução cíclica. É coisa, portanto, que já podemos ter por normal, tanto como infelizmente a desilusão que a quase todas essas risonhas promessas melancolicamente, desola­doramente se sucedem.

Os Annaes n° 98, 13.09.1906.j

Não será só entre nós que tal fato se dê; nem é ele o atestado de uma fraqueza propriamente orgânica na nossa complexão intelectual. Será este um fenômeno comum a todas as sociedades ainda em via de perfeita organização em que a função artística e literária ainda se classifica como um acidente esporádico, de continuidade precária, não correspondendo a um estágio de que ela venha a ser uma característica necessária, essencial. As tão numerosas estreias literárias que todos os anos contamos nas nossas letras obedecem àquela mesma lei de que resulta serem muito mais numerosamente representadas na vida as espécies de resistência menor.

A natureza se caracteriza por absoluta despreocupa­ção sentimental. A morte nunca lhe inspirou a mórbida e negativa ambição de esterilidade. Pelo contrário, ela é causa apenas de estímulo, de exaltação para a sua atividade. Pouco lhe importa que os indivíduos sucum­bam, contanto que ela ache meios e modos de salvar o princípio da Vida em cada uma das suas represen­tações gerais. Se tão pouco está no homem, muito menos nos moços, poderem penetrar os intuitos infle­xíveis da natureza a tempo de evitar-lhes as conse­quências no que estas lhes interessem de mais perto. A nossa deficiente cultura, de todos os pontos de vista, ‒ a inexperiência prática da raça, e a sua ilusão, a ingenuidade das suas vistas nesta questão de valores intelectuais, ‒ impedem e hão de impedir por muito tempo ainda que se opere uma modificação sensível no fenômeno da nossa produtividade literária, por modo que nos livre da falácia característica do ciclo atual.

As notas biográficas que precedem, muito pertinente­mente, a matéria das “Últimas Poesias”, revelam-nos a normalidade que o caso lamentável do jovem Francisco Mangabeira representa. Levado pela vida, dentro da fatalidade do meio em que teve de se agitar, dotado de viva sociabilidade, sendo até mesmo de espírito aventureiro, senão romanesco, ele reproduziu lá no Norte o tipo clássico do poeta brasileiro, de pouca ponderação e dispersivo, quase obrigado a morrer moço para melhor harmonia do quadro fantasista que tais existências oferecem.

Como os tempos que atravessamos são mais de bulhas políticas e de ação prática do que de serenatas sob as janelas e de torneios acadêmicos por satisfação simplesmente da vaidade intelectual, este nosso contemporâneo, já de uma geração posterior à minha, andou em guerras e compôs hinos de revoltas, marchou para Canudos, que lhe deu um livro, e continuou depois a varar para o Norte, sublevou-se com os acreanos, quis assentar tenda no promissor Amazonas, que, mefítico ([2]), lhe deu a morte. Essa vida moderna que ele levou, que todos nós mais ou menos levamos, embora poucos com tanto arrojo e ainda mais raros por forma tão radical, é pior para o poeta, comparada com a que tiveram os românticos. Emocional, absorvente como seja, é, no, entanto, de sentimentalismo nenhum, e antiestética o quanto pode ser. É o “repórter” quem a registra, hoje em dia, entre as cifras muitas vezes pouco exatas e as mentiras convencionais que a indústria do jornal requer. Ela tem seu encanto, como a vida sempre teve afinal, mas um encanto selvagem e áspero, para que o lirismo atual quase que não encontra expressão. Não se presta à contemplatividade do poeta: ela quer ser vivida muito objetivamente, quer ser amada como, uma mulher ardorosa e prosaica.

Ainda pior se se tem de atravessá-la em atmosferas como aquela para que foi arrastado o poeta em questão. Quais que só o Rio, por enquanto, oferece no Brasil um meio já um tanto intelectual, em que um homem pode viver mais naturalmente pensando. Nos outros só por exceção, por um grande esforço pessoal, consegue um ou outro destacar-se da massa que os interesses materiais absorvem totalmente, ainda mais numa fase como esta em que entramos de dificulda­des excepcionais para a vida.

Mas por isso mesmo esses que representam tal exceção necessitam fugir ao caso geral, no que respeita às condições de sua colocação em tais meios, de tal modo que sua obra não represente a inanidade circunstante, coisa difícil de alcançar, principalmente para o poeta, simpático por natureza às influências diretas e imediatas.

Em todo caso, mesmo que ele venha dotado de uma rara espontaneidade e de uma energia excepcional, de um belo egoísmo produtivo, ser-lhe-á impossível furtar-se de todo ao menos a certas consequências da deficiência do horizonte. As “Últimas Poesias” de Francisco Mangabeira falam-nos eloquentemente da vida dúplice de que as naturezas intelectuais são capazes e revelam-nos na dele uma bela força de reação contra a influência imediata, hostil e esteriliza­dora, que é de calcular seja a da atmosfera a que viveu circunscrito nos últimos anos de sua vida. Não fosse ele na realidade um poeta e a pena lhe houvera caído da mão, para o verso, muito antes de vir a morte traiçoeiramente ceifar-lhe a existência.

Nem foi apenas este livro o que se encontrou no acervo literário que ficará representando a sua obra póstuma, quando todas as páginas que ele deixou puderem ser conhecidas do público. Outros volumes, ‒ poemas, poemetos, páginas íntimas, uma história mística, ‒ puderam coligir aqueles que carinhosamen­te se entregaram ao labor de ordenar o seu disperso arquivo. Pelo que se pôde julgar, perpassando as produções que se encontram neste livro de agora, admira-se o trabalhador pertinaz que foi aquele moço, através da sua vida agitada e cheia de tão vários acidentes.

Trabalhador e talentoso, por tal modo que o seu nome será repetido com o respeito de todos quantos conhecem as dificuldades da execução e que sabem que só a idade traz certos complementos ao espírito do homem, seja qual for a sua força de espírito e o seu poder de intuição. Vê-se, no entanto, pelas “Últimas Poesias” que a falta maior de que se ressentiu este espírito foi a de elementos que permi­tissem uma renovação constante no seu repositório de ideias, que é para o que o meio, a leitura e o lazer são úteis.

Talvez dois terços deste livro, ele os realizou graças à forte e fácil virtuosidade de que era capaz, que, como já tive ocasião de dizer nestas mesmas colunas, é uma das qualidades indispensáveis ao verdadeiro poeta. Há muita capacidade verbal representada nessas rimas brilhantes. Por vezes, há mais do que isso. Podem-se apontar neste volume diversas produções de mais sério valor, e novo, ainda mais, dentro da individualidade que o poeta do “Hostiário” nos permitiu conhecer.

O “Rio Amazonas”, “As Árvores”, falam-nos de uma evolução legítima operada nesta natureza, que com a vida e os anos ainda se ia ductilmente ([3]) modelando. Tem um ardor tropical; um flagrante da natureza sel­vagem e imponente com que ele se foi encontrar mais para o Norte que as suas brilhantes páginas de estreia, ainda, tão inspiradas na musa dos simbolistas peninsulares, não revelam. A “Torre de Cristal” e “A Borboleta”, lembrando ligeiramente Alberto de Oliveira embora, indicam que delicioso artista Mangabeira poderia vir a ser, nos prismas policromos que a primeira objetiva, no íris das asas que tremulam na última, e ainda na delicadeza do sentimento panteísta de que esta representa a expressão.

Fantasia Turca” é de uma virtuosidade encantadora, tem valor particular, falando-nos da capacidade que havia no poeta para transportar-se a outros meios e dar-lhes a devida nota característica. Mas a impressão que se tem do conjunto, por essa relativa falta de variedade nas ideias de que falei, não está na altura da expectativa formada pelos que, ignorando as circunstâncias especiais que se deram na vida do poeta, dele exigisse o que era lógico esperar de quem teve uma estreia tão merecidamente vitoriosa.

Avisados, porém, que estejamos, as “Últimas Poesias” só nos fornecem motivo para admirar em Francisco Mangabeira a sua força irresistível de idealização e a pertinácia com que prosseguiu em seu sonho, de modo a poder-nos ainda legar páginas cuja beleza atesta um legítimo progresso que se dera em seu espírito e faz-nos ainda mais lastimar a brutalidade do destino que o esmagou.   Nunes Vidal (OS ANNAES, N° 98)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 24.11.2021 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.  

Bibliografia 

O PAIZ, n° 7.071. Norte do Brazil ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ ‒ O Paiz, n° 7.071, 17.02.1904.

OS ANNAES, N° 98. A Livraria ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ ‒ Os Annaes, n° 98, 13.09.1906.

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;  

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]   Feral: fúnebre, lúgubre.

[2]   Mefítico: pestilento.

[3]   Ductilmente: sutilmente.

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