A Terceira Margem – Parte C

Porto Velho, RO/ Santarém, PA ‒ Parte LXX

Percival Farquhar, New York Times, 22.09.1912

Descendo o Rio Madeira ‒ I 

Apresentação 

Foi com imenso prazer que consegui, passo a passo (remada a remada), percorrer o mesmo caminho desbravado pela “Bandeira de Francisco de Mello Palheta”, em 1722, a “Viagem da Real Escolta”, empreendida por José Gonçalves da Fonseca, nos idos de 1749 e a “Viagem ao Redor do Brasil (1875 – 1878)”, do insigne Patrono do Serviço de Saúde do Exército Brasileiro, então Coronel João Severiano da Fonseca, pelos tumultuados saltos, cachoeiras e corredeiras do Rio Madeira.

Emocionei-me ao folhear e reescrever as páginas heroicas escritas com o sangue de nossos bravos guerreiros nos “ermos sem fim” do Vale Guaporeano.

Mais uma vez, prestei reverência aos nossos irmãos lusitanos que brava e obstinadamente estenderam nossas fronteiras para Oeste com muita coragem, suor, sangue e determinação, lançando no longínquo pretérito, em terras brasileiras, nos mais desertos rincões, as pedras angulares que hoje sustentam os alicerces de nossa tão vilipendiada soberania materializada “ad æternum” pela maior obra da Engenharia Militar naqueles confins Ocidentais, o Real Forte do Príncipe da Beira.

Procurei, durante toda a jornada, mostrar a meu filho João Paulo Reis e Silva como extrair a energia das águas, como desviar a atenção do cansaço e da incômoda postura no caiaque, admirando as paisagens, as gentes e os animais da formidável região amazônica.

Apresentei-o aos famosos “banzeiros” que intimidam e apavoram os ribeirinhos, a ser capaz de fazer uma leitura das condições do tempo observando o voo inquieto dos pássaros.

Longe de ser apenas uma apressada descida a remo, estávamos ali para vivenciar e aprender com a natureza e as gentes desse “Paraíso Perdido”, historicamente esquecido pelos poderes públicos.

Graças aos ribeirinhos, líderes comunitários, Prefeitos e, em especial, ao General-de-Brigada Paiva, Comandante do 2° Grupamento de Engenharia, sediado em Manaus, AM, do Tenente-Coronel Rangel, Comandante do 5° Batalhão de Engenharia de Construção, Porto Velho, RO, e do Tenente-Coronel Sérgio Henrique Codelo Nascimento, Comandante do 8° Batalhão de Engenharia de Construção, Santarém, PA, conseguimos atingir todos os objetivos propostos com muito mais conforto e segurança.

O sucesso não seria completo, contudo, se não contasse com o apoio irrestrito de minha fiel companheira Rosângela Maria de Vargas Schardosim e dos amigos e irmãos Grupo Fluvial do 8° BECnst comandado pelo Comandante do Piquiatuba Soldado Mário e sua zelosa tripulação formada pelos soldados Vieira, Rebelo e Marçal.

Aos nossos caros parceiros de ideais, que nos incentivaram a cada momento, amigos de longa data e de outras eras que sempre apoiaram nosso Projeto Aventura Desafiando o Rio-mar.

Rumo a Porto Velho, RO 

Céus de Rondônia 

(Joaquim de Araújo Lima) 

Quando nosso céu se faz moldura

Para engalanar a natureza

Nós, os bandeirantes de Rondônia,

Nos orgulhamos de tanta beleza.

Como sentinelas avançadas,

Somos destemidos pioneiros

Que nestas paragens do Poente

Gritam com força: somos Brasileiros!

Nesta fronteira, de nossa pátria,

Rondônia trabalha febrilmente

Nas oficinas e nas escolas

A orquestração empolga toda gente;

Braços e mentes forjam cantando

A apoteose deste rincão

Que com orgulho exaltaremos,

Enquanto nos palpita o coração

Azul, nosso céu é sempre azul

‒ Que Deus o mantenha sem rival,

Cristalino muito puro

E o conserve sempre assim.

Aqui toda vida se engalana

De belezas tropicais,

Nossos Lagos, nossos Rios

Nossas matas, tudo enfim…

Partida de Porto Alegre (17.12.2011) 

Chegamos ao Aeroporto Salgado Filho antes das sete horas, nosso voo tinha a partida marcada para as 07h53. A enorme fila frente aos portões de embarque confirmava que o “caos aéreo” das festas de fim de ano já se instalara. Apesar do atendimento da Gol ter sido perfeito, as instalações aeroportuárias se mostravam extremamente acanhadas apesar do reduzido número de voos previsto para aquele horário. A confusão era geral, partimos com 30 minutos de atraso. No deslocamento até Porto Velho, constatamos uma total falta de educação dos passageiros em relação ao uso de aparelhos eletrônicos a bordo, apesar dos insistentes apelos da tripulação.

Chegada em Porto Velho (17.12.2011)  

A viagem transcorreu sem maiores alterações e a aeronave pousou pontualmente às treze horas, hora local, no Aeroporto Internacional de Porto Velho – Aeroporto Governador Jorge Teixeira. Em virtude do fuso horário e horário de verão, teríamos um extenso dia de 26 horas. O Tenente-Coronel da Arma de Engenharia Moacir Rangel Junior, Comandante do 5° Batalhão de Engenharia de Construção (5° BEC) – Batalhão Carlos Aloysio Weber, havia escalado o Tenente Thiago Teixeira Baptista e o Soldado Keiles para nos recepcionar no Aeroporto e nos alojar no Palacete do Rio Madeira.

O Palacete é uma Casa de Apoio para Oficiais do 5° BEC, e tem a finalidade de apoiar oficiais e comitivas do 2° Grupamento de Engenharia que se deslocam para a guarnição de Porto Velho, a serviço.

Depois de devidamente recepcionados e instalados, pelo Soldado Guilherme Fialho, o Tenente Teixeira fez um “tour” pela Cidade mostrando suas instalações mais relevantes e discorrendo sobre sua história.

De todos os locais visitados, o que mais nos impressionou foi o “Parque Memorial Madeira-Mamoré”.

Parque Memorial Madeira Mamoré 

As obras de restauração do conjunto rotunda/girador/oficina marcarão uma mudança no modo de ver a relação do Rio Madeira com Porto Velho. A Cidade está virada “de costas” para o Rio e a recuperação de uma área como o pátio da EFMM, complementada pela obra que se iniciou, fará que a população, através do contato, se aproprie do Rio como parte da paisagem. Esta obra será mais um passo para que a Cidade una dois dos seus maiores patrimônios:
o histórico [EFMM] e o natural [Rio Madeira].
(Giovani Barcelos – IPHAN)

No dia 10.11.2005, a ferrovia foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), e em 28.12.2006, a Portaria 108, considerou a EFMM como Patrimônio Cultural Brasileiro.

O IPHAN, em novembro de 2011, iniciou as obras de restauração da grande oficina da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, que possui 5.700 m2 e 13 metros de altura. A previsão é de que as obras estejam concluídas até 2014 quando as locomotivas percorrerão um trecho de 8 quilômetros entre a Estação de Porto Velho e Santo Antônio.

Universidade Federal de Rondônia (18.12.2011) 

A ética é o fundamento que orienta as pessoas para que possam ter uma vida digna e justa. A corrupção é um mal que se estabelece nas sociedades através de pequenos vícios, portanto não deve ser encarada como algo natural, mas sim um desvio de conduta adquirido através de maus exemplos. Tem como fruto a miséria, a falta de saúde, falta de educação, falta de moradia digna etc. Rondônia tem sido alvo de pessoas inescrupulosas que utilizam o serviço público em defesa de seus interesses pessoais. O “Movimento Unificado pela Ética e Contra a Corrupção” espera que essa lamentável situação seja a base de uma reflexão mais profunda sobre os efeitos maléficos da corrupção visando a banir de nosso meio a longa e dolorosa tradição de apropriação indevida do aparato público.
(Movimento Unificado pela Ética e Contra a Corrupção)

O Ten Thiago Teixeira Baptista nos acompanhou até as instalações da Universidade Federal de Rondônia (UNIR).

O número de obras paralisadas em virtude dos últimos acontecimentos é impressionante, mas o que mais chamou atenção de nossa pequena comitiva foi a falta de ação dos encarregados da segurança que permitiam uma grande quantidade de pessoas perambularem, no domingo, pelas instalações sem qualquer tipo de controle, a falta de manutenção das instalações, além do descaso com os gastos com energia elétrica já que a maioria das salas de aula, embora vazias, estavam com as luzes acesas e os aparelhos de ar condicionado ligados.

Curiosamente em todas elas estava fixado um aviso para que isso não ocorresse.

No dia 14 de setembro deste ano, professores e alunos da UNIR se uniram em movimento grevista reivindicando melhores condições de trabalho. O Laudo de Vistoria Técnica, de 21.10.2011, realizado pela Diretoria de Serviços Técnicos do Corpo de Bombeiros Militares do Estado de Rondônia confirmaram as denúncias dos grevistas: o Campus Universitário, inaugurado em 1984, não vinha sofrendo qualquer tipo de manutenção e a deterioração ameaçava a segurança dos profissionais e alunos da UNIR além de prejudicar as atividades de ensino.

O Comando de Greve, mais tarde, incorporou-se ao Movimento Unificado pela Ética e Contra a Corrupção, reivindicando o afastamento da administração anterior envolvida em inúmeras irregularidades administrativas. Representantes do Movimento levaram pessoalmente um dossiê de 1.500 páginas à Casa Civil da Presidência da República onde foram informados que a administração da UNIR contava com o apoio da base aliada do Governo Federal no Congresso e nada poderia ser feito.

As pressões continuaram e, finalmente, no dia 23.11.2011, o Reitor da UNIR, José Januário de Oliveira Amaral, apresentou sua renúncia ao Ministro da Educação. Januário argumentou que não tinha mais condições de permanecer no cargo em virtude da série de denúncias de desvio de recursos envolvendo a Fundação Rio Madeira – RIOMAR, que serve de apoio à UNIR. No dia 24 de outubro, a Secretaria de Educação Superior (SESU) nomeou uma Comissão de Auditores, integrada por representantes do MEC e da Controladoria-Geral da União (CGU), para auditar as contas da RIOMAR e da UNIR.

Um movimento legítimo bem diferente do que se verificou recentemente na USP, onde riquinhos e alienados baderneiros, travestidos de estudantes, reivindicavam a liberdade de fumar maconha no Campus Universitário.

Usina Hidrelétrica de Samuel (18.12.2011) 

Nas proximidades de Porto Velho, ao Norte a BR-364, observamos um dos extensos diques da Hidrelétrica de Samuel. Dele avistamos o grande reservatório da barragem que nessa oportunidade estava bastante seco. No local onde existia a Cachoeira de Samuel no Rio Jamari, afluente do Rio Madeira, foi construída a barragem da Hidrelétrica de Samuel, com potência instalada de 216 MW. Em virtude do relevo pouco acentuado da bacia do Jamari, foram construídos 70 km de diques para conter extravasamento da água represada no seu reservatório de 540 km² para os Igarapés vizinhos.

Em 1982, a construção da usina teve início e, em consequência da falta de verbas, só foi concluída catorze anos depois. A construção da Usina Hidrelétrica de Samuel fez surgir no lugar de uma antiga colônia de pescadores a sede do Município de Candeias do Jamari. Os royalties proporcionados pela Usina Hidrelétrica de Samuel favoreceram, além de Candeias do Jamari, mais três municípios: Alto Paraíso, Cujubim e Itapuã do Oeste.

Atualmente, 90% dos 52 Municípios do Estado são beneficiados com energia desse sistema isolado da ELETRONORTE. Rio Branco, a capital do Acre, a partir de novembro de 2002, passou a ser abastecida com a energia de Samuel e, em maio de 2006, esse sistema foi ampliado, permitindo que a geração térmica do Acre fosse substituída pela hidráulica, proporcionando a substituição da geração a derivados de petróleo.

Além de Samuel, a ELETROBRAS ELETRONORTE opera a Usina Termelétrica Rio Madeira, que produz 90 MW. Somada à geração dos produtores independentes de energia, a potência instalada em Rondônia é de 403 MW.

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 02.12.2020 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

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