A Terceira Margem – Parte LXX

Porto Velho, RO/ Santarém, PA ‒ Parte XXXIX

FORTE PRINCIPE DA BEIRA – RONDONIA

Real Forte do Príncipe da Beira – VII  

Virgílio Corrêa Filho, baseado nas Cartas de Rolim de Moura, relata:  

Pombeiros insignes, os seus “aventureiros” comuni­cavam-lhe, de contínuo, os menores movimentos dos inimigos que, a 17 de abril, sulcaram o Guaporé nas suas 40 canoas. Rolim esperou o ataque baldadamente, e no outro dia saiu, em 7 canoas de guerra, a oferecer-lhes batalha, que evitaram. Compreendeu que pretendiam fazê-lo render-se pela fome, cortando-lhe a comunicação com Vila Bela. Resolveu evidenciar-lhes, de modo enérgico, a inanidade completa do plano. A 5 de maio, despacha escolhido pelotão que, à noite, rompe habilmente o cerco e sobe o Baurés até a missão de S. Miguel, onde chega na madrugada de 8, “tanto a tempo que aprisionou os Padres João Roiz e Francisco Espino, que a governavam, e rende os índios todos sem resistência, que são 600 para 700 almas”.

Para tal gente, o bloqueio planejado não passava de brincadeira. Pôde-se levar a sua ofensiva até o interior do território inimigo, onde arrasou a Aldeia de S. Miguel, mais facilmente Rolim conseguiria corresponder-se com os seus jurisdicionados de Vila Bela, que lhe mandaram reforço de gente e víveres. Contando já cerca de 500 homens, resolveu a 22 de junho acometer o inimigo na própria paliçada em que se embicara, em três colunas, a primeira fluvial, sob o seu direto comando, à jusante; outra, confiada ao Tenente Tego, com maior número de canoas, à montante; enquanto a última, de cem homens escolhidos, comandados pelo ajudante de ordens realizaria o assalto.

Afoitos em demasia, os assaltantes transgrediram as prudentes recomendações do militar, que também era o Governador e foram, de peito aberto, expor-se desvantajosamente à arma contrária. Ainda assim escalaram a primeira paliçada, mas foram vigorosa­mente contidos no arremesso à outra, interna. Depois de hora e meia de fogo, quando o inimigo já se dispunha à rendição, retiraram-se com perda de 21 mortos e alguns feridos, sem pressentir que já lhes sorria a fortuna, prometendo-lhes vitória. Para contrabalançar semelhante dano, Rolim enumerou vantagens não pequenas.

O arrasamento da Aldeia de S. Miguel e o assalto à trincheira de Itonamas, onde pereceu o Padre Fran­cisco Xavier Irraes ‒ o instigador dos seus comanda­dos à luta –, infundiram ao inimigo tamanho pavor que, após a refrega, chistosamente refere o Capitão-General “na missão de S. Pedro se não atrevia o Superior a ir se lavar no Rio, sem levar consigo uma grande quantidade de índios armados”. Aliás, a mal­querença de Rolim aos Missionários põe-se de mani­festo a cada passo da sua correspondência. (FILHO)

Rolim de Moura envia, em 30.04.1764, Carta a D. João Manuel de Mello, nos seguintes termos:

Um castelhano de Buenos Aires, que se achava dentro da paliçada de Itonamas, no dia do ataque, disse que nele havia logo ficado no terreno 160 homens, e muitos feridos dos quais, na Missão de Madalena morreram 17, fora os que foram morrer nas Missões; donde se vê que os castelhanos não podiam ter dentro da paliçada menos de 500 para 600 homens; […]. Aqui é necessário lembrar que os nossos eram por todos muito poucos mais de 100; e destes, soldados unicamente 24 Dragões e seis infantes, e tudo mais pedestres, mulatos, negros, escravos e carijós, com alguns paisanos brancos; sem embargo do que, a nossa perda foi de 21 na ação. (FILHO)

As incursões anteriores e a corajosa investida contra a trincheira do Itonamas forçaram a retirada definitiva das tropas espanholas no dia 03.11.1763. O grosso das tropas luso-brasileiras retirou-se do Forte Nossa Senhora da Conceição e retornaram para Vila Bela no dia 03.01.1764. Rolim de Moura vencera uma tropa de efetivo numericamente superior e melhor equipada e municiada, graças às estratégias de combate utilizadas bastante originais para a época. Ao termo de sua proveitosa administração, Rolim de Moura foi agraciado com o título de Conde de Azambuja, a graduação de Marechal de Campo, nomeado para a Capitania da Bahia e, mais tarde, Vice-Rei do Brasil.

Capitão-General João Pedro Câmara 

Assumiu a Capitania do Mato Grosso, seu sobrinho, Capitão-General João Pedro Câmara. Câmara, nomeado em junho de 1762, chegou a Vila Bela em dezembro de 1764. A Metrópole traçara para o novo Capitão-General um Programa de governo: previa a ampliação da produção de ouro, povoamentos das áreas de lavra, desenvolvimento das comunicações, incremento da criação de gado e, no campo militar, a consolidação das fronteiras do extremo Oeste. O período conturbado enfrentado por Câmara não permitiu, no entanto, que o Governador se dedicasse às questões administrativas. Câmara, em fevereiro de 1766, fez uma viagem até o sítio do antigo Destaca­mento das Pedras Negras onde resolveu guarnecer o local com 40 soldados de ordenança.

Em 15.06.1766, visita o Forte Nossa Senhora da Conceição, onde resolve ativar os trabalhos de recons­trução e adestramento das tropas preparando-se para uma possível investida por parte dos espanhóis.

Antônio Leôncio Pereira Ferraz, na sua “Memória sobre as Fortificações em Mato Grosso”, relata:

[…] a elevou Antônio Rolim no mesmo local onde ele destruíra cinco anos antes a missão espanhola de Santa Rosa, situada à margem direita do Guaporé, em frente à boca do Itonamas, onde teria havido um entrincheiramento e paliçada, procurando, já em 1756, assegurar a posse daquele ponto conquistado com a criação de um Distrito Militar. Foi construída e armada com material de guerra vindo do Pará pela via fluvial do Madeira, nada se sabendo quanto a seu primitivo traçado, pois que a primeira notícia que a seu respeito se tem data da época em que nela introduziu modificações um outro Capitão General, João Pedro da Câmara, que lhe deu a forma abaluartada, de sistema Vauban, medindo o corpo principal do forte 40 braças de frente por 80 de profundidade. (FERRAZ, 1940) (Continua…)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 21.10.2020 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem. 

Bibliografia   

FERRAZ, Antônio Leôncio Pereira. Memória Sobre as Fortificações em Mato Grosso – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Marinha de Guerra, Serviço de Documentação Geral da Marinha – Estado Maior – Divisão de História Marítima, 1940.   

FILHO, Virgílio Corrêa. As Raias de Matto Grosso – Brasil – São Paulo, SP – Volume IV – Fronteira Occidental – Seção de Obras d’O Estado de São Paulo, 1925.

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

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