A Terceira Margem – Parte LXII

Porto Velho, RO/ Santarém, PA ‒ Parte XXXI

Viagem ao Redor do Brasil (Fonseca).

Viagem ao Redor do Brasil (1875-1878) – III  

Em 02.09.1866, foi nomeado chefe do Serviço Médico das Forças Expedicionárias, em cujas funções beneméritas teve azo ([1]) de assistir aos inevitáveis e funestos bombardeamentos de 22 e 23.09.1866 e 30.10.1866. O primeiro desses assinala o malogrado ataque a Curupaiti, no qual perdeu ele seus dois irmãos, o Tenente Hipólito e o Alferes Afonso Aurélio. Por serviços relevantes prestados naqueles combates de meados de abril a 24 de maio, foi promovido ao grau de Oficial da Ordem da Rosa, por Decreto de 17 de agosto e Diploma de 24 de outubro, tudo como consta da Ordem do Dia da Repartição do Ajudante General n° 536, de 30.12.1866.

No ano seguinte, a 5 de abril de 1867, por ocasião do surto epidêmico de cólera-morbo, coube-lhe organizar e dirigir o Serviço Médico da Ambulância Volante de Artilharia e muito bem se houve no executar a profilaxia e o combate contra esse terrível mal levantino, que vinha dizimando mais combatentes nos campos cruentos da luta que as mortíferas balas inimigas!

Ao lado de Osório, em 20 de julho, no comando da Ambulância, participava da evolução de flanco sobre Humaitá, seguindo depois para Tuiu-cuê, acompanhando o 1° Regimento de Artilharia a Cavalo, sob o comando de Emílio Luís Mallet, pelo que assistiu ao combate, de 31 de julho, sobre as avançadas inimigas e, a 6 de agosto, nos reconhecimentos sobre as linhas do Espinilho e do Passo Pocu.

Pela Ordem do Dia n° 579, de 17.09.1867, consta haver sido agraciado com o grau de Cavaleiro da Ordem de Cristo pelos serviços prestados aos feridos nos combates no Potrero Pires e trincheiras do Sauce, em julho de 1866, por Decreto de 13 de abril e Diploma de 12 de junho, tudo de 1867. Por sua eficiente atuação nos hospitais de sangue de San Solano, Estabelecimento e Espinilho, no início do ano de 1868, foi fartamente elogiado nas Ordens do Dia do Exército em Operações.

A 4 de abril do mesmo ano [1868] marchou com o Exército que acampou em Pare-cuê. A 8 de maio assumia a direção do Serviço Médico das Forças Expedicionárias do Chaco. No arroio Guaicuru assistiu ao reconhecimento feito em 3 de julho. A 8, marchou a reunir-se ao 1° Corpo do Exército, o que fez a 17. A 22, incorporou-se ao 3° Corpo de Exército de Vanguarda, ao mando do Marques do Herval. No ataque e assalto do Passo Real do Tebicuari, a 29 de agosto, viu expirar, em seus braços, ferido mortalmente na testa, o Major Joaquim Pantaleão Tales de Queiroz, Comandante do 7° Regimento de Cavalaria, malgrado seus esforços de homem de ciência.

Testemunhou o reconhecimento à mão armada sobre as linhas inimigas de Pequiciri e Angustura. Foi nas trincheiras avançadas, a frente desse primeiro sítio, que o ilustre médico militar teve conhecimento, pela Ordem do Dia do Ajudante General sob n° 638, de 28.09.1868, que por Decreto de 11 de abril e Diploma de 2 de maio fora agraciado com o grau de Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro, pelos excelentes serviços prestados nos prélios ([2]) de 19 de fevereiro, sendo o primeiro oficial do Serviço de Saúde a receber esse laurel.

Sempre entregue a faina diuturna nos hospitais de sangue, vibrou de entusiasmo ante a capitulação da Fortificação de Angustura.

A 30.01.1869, marchou para Assunção, onde chegou três dias após. Por Decreto de 20 de maio, publicado a 28, foi promovido ao posto de 1° Cirurgião efetivo, por merecimento em campanha e a 22 de junho passava a servir no Hospital Militar Brasileiro de Assunção. Em 22 de outubro era transferido para a Ambulância da Guarnição.

Conquanto a guerra houvesse tido fim, a 01.03.1870, sob a espada do Brigadeiro José Antônio Correa da Câmara, as margens do Aquidabanigui, o Capitão 1° Cirurgião Dr. Severiano continuou a servir no território do vencido, a princípio, a 3 de setembro, na enfermaria do Mangrulho e, depois, no Hospital de Assunção, em 07.02.1871. Foi aí que, um mês transcorrido, teve conhecimento pela Ordem do Dia do Ajudante General, n° 758, haver sido, por Decreto de 6 de setembro e Diploma de 28 do mesmo mês, tudo do ano anterior ([3]), promovido, por proposta do Marques de Caxias, ao grau de Comendador da Ordem da Rosa, em atenção aos valiosos serviços prestados na guerra do Paraguai nos combates de dezembro de 1868.

A 17.11.1871 embarcou para a Capital do Império, conduzindo doentes de Assunção e Humaitá, apresentando-se no destino a 2 do mês seguinte, sendo designado pelo Cirurgião-mor do Exército, o Conselheiro Dr. José Ribeiro de Souza Fontes, para servir no Hospital Militar da Guarnição da Corte. Com o Diploma de 13 de julho foi-lhe conferida a Medalha Geral de Campanha do Paraguai, mandada cunhar com o próprio bronze dos canhões tomados ao inimigo, a qual trazia sobre a fita o passador de prata e o número 5, correspondente a totalidade dos anos em campanha que o Decreto de 06.08.1870 lhe outorgava [Ordem do Dia n° 877, de 18.09.1872]. Dessa mesma Ordem do Dia constava haver sido nomeado para servir na Divisão organizada na Província do Rio Grande do Sul. A 21 do aludido mês, porém, era tornado sem efeito esse ato, devendo permanecer em serviço na Guarnição da Corte até segunda ordem. A 27.03.1875, por Portaria, foi posto à disposição do Ministério dos Estrangeiros, a fim de integrar a Comissão de Limites entre o Brasil e a Bolívia, ficando-lhe garantido o lugar de Segundo Cirurgião no nosocômio em que laborava, o que consta da Ordem do Dia n° 119, de 06.04.1875.

A 01.05.1875, acompanhando a Comissão, rumou para Corumbá, onde teve oportunidade de patentear, mais uma vez, as virtudes de seu largo coração fazendo acolher no Hospital de Caridade de São João os emigrados paraguaios que, fugindo a miséria pós-guerra, acompanharam as forças de ocupação, de regresso do país vizinho.

Nessa Cidade mato-grossense, a 11.01.1877, contraiu núpcias com D. Anália d’Alicourt Sabo, de cujo enlace houve dois filhos: Hermes Severiano e Afonso Deodoro, aquele nascido em Corumbá a 14.09.1877 e batizado em Cuiabá em 05.03.1878, que se fez militar, atingindo o posto de Coronel de Artilharia, e bacharel em Matemática e Ciências Físicas, e o último, natural do Rio de Janeiro a 25.01.1880. Ambos não mais existem.

Na Comissão exerceu suas funções com devotamento, assiduidade e grande competência, o que ressalta dos copiosos louvores que enxameiam sua opulenta fé de ofício. Por Aviso do Ministério de Estrangeiros, sob n° 3, de 18.02.1878, foi dispensado dessa Comissão, merecendo mais um extenso elogio do Ministro Dr. Domingos de Souza Leão, 2° Barão de Vila Bela.

Por Portaria de 18 de abril, foi reintegrado no lugar que ocupava no Hospital Militar da Guarnição da Corte. A 22 de junho, foi-lhe conferida a medalha criada pelo Decreto n° 3.468, de 08.05.1865, para os que lutaram na República Oriental do Uruguai de 1864/5, sob o comando do Marechal-de-Campo João Propício Mena Barreto, Barão de São Gabriel, conforme se lê na Ordem do Dia n° 1.412, de 28 de junho. Da mesma consta, ainda que por Decreto, de 02.05.1877, e Diploma, de 9 do dito mês, foi nomeado Cavaleiro da Ordem de São Bento de Aviz, a única Ordem Nacional, que, como militar, lhe faltava possuir, por isso que sua outorga era condicionada, entre outras exigências, possuir o oficial, no mínimo, três lustros ([4]) de serviço.

A 22.04.1880, era recebido na Academia Imperial de Medicina como membro efetivo, sendo destarte o primeiro médico militar a ter ali ingresso, honra assaz merecida. Até 30.04.1870, exerceu interinamente o cargo de primeiro Cirurgião do Hospital Militar da Corte, o qual retomou a 6 de dezembro para deixá-lo de vez a 10.05.1880, em que passou a servir como 2° Cirurgião do mesmo estabelecimento hospitalar.

A 17 de julho, apresentou às autoridades competentes a certidão de seu casamento e a do batismo de seu primogênito. A 6 de novembro assumia o lugar de 1° médico do Hospital Militar do Andaraí, por troca feita com o Cirurgião-mor de Brigada Graduado Dr. Manuel Cardoso da Costa Lobo. Em 12.02.1881, entregou, para os efeitos legais, a certidão de batismo de seu segundo filho. Por Decreto, de 11 de junho, era promovido, por merecimento, a Cirurgião-mor de Brigada, posto correspondente a Major-médico, pelo que veio a chefiar a enfermaria da Escola Militar da Praia Vermelha, a 11.04.1882.

A 6 de outubro, no entanto, retornava ao Hospital Militar da Corte para exercer as funções de seu 1° Cirurgião. Da Ordem do Dia n° 1.842, de 21.05.1884, consta haver o Dr. João Severiano apresentado o Diploma de Membro da Academia Imperial de Medicina, com sede no Rio de Janeiro, para qual fora eleito em sessão, de 12.04.1880, com o beneplácito de Sua Majestade o Imperador D. Pedro II expresso em Aviso de 17.04.1880. Sua monografia inédita apresentada àquele sodalício ([5]) versou sobre “Climatologia de Mato Grosso”.

Por Decreto, de 15 de abril de 1885, publicado na Ordem do Dia n° 1.921 do dia seguinte, foi promovido por merecimento a Cirurgião-mor de Divisão, posto correspondente a Tenente-Coronel médico. Continuou a exercer a função naquele Hospital e substituiu, por várias vezes, o Cirurgião-mor do Exército Dr. Antônio de Souza Dantas, durante as suas faltas e impedimentos.

Dr. João Severiano da Fonseca

A 13.07.1889, foi nomeado, por Decreto, Professor da cadeira de Ciências Físicas e Naturais do Imperial Colégio Militar, recém-instalado, consoante publicação na Ordem do Dia n° 2.269 de 17 desse mesmo mês. A República, proclamada a 15 de novembro, veio encontrá-lo na direção interina do Hospital Militar da Guarnição da Corte e no exercício do magistério do novel educandário. Quatorze dias depois do evento que derrocara o regime governamental do Brasil, o insigne militar teve a coragem cívica de, na primeira sessão do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, realizada na noite de 29, propor que a cadeira em que o Imperador ora destronado costumava sentar-se durante as sessões fosse por jornais ocupada e envolvida em crepe, em homenagem ao magnânimo Monarca.

Eu me levanto, para pedir ao Instituto que no meio de seus arroubos pela mãe-pátria, não se esqueça da gratidão que deve àquele que foi um protetor e um pai e que nesta hora marcha para o exílio.

Foram palavras de seu sentido discurso. (PILLAR) (Continua…)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 09.10.2020 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia 

PILLAR, Olyntho. Os Patronos das Forças Armadas – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Biblioteca do Exército Editora, 1981

 (*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;   

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]    Azo: oportunidade.

[2]    Prélios: combates.

[3]    Ano anterior: 1870.

[4]    Lustros: quinquênios.

[5]    Sodalício: sociedade.

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