A Terceira Margem – Parte LXXV

Porto Velho, RO/ Santarém, PA ‒ Parte XLIV

Imagens foram registradas pela fotógrafa Daiane Mendonça, em outubro 2019, na premiação do concurso de Redação de Turismo em Costa Marques

Real Forte do Príncipe da Beira – XII  

Relatos Pretéritos do Forte Príncipe da Beira 

Luiz de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres (1779) 

Construção do Forte do Príncipe da Beira, e Conservação de Outros Estabelecimentos. 

Il.mo e Ex.mo Sr. Martinho de Mello e Castro – Na construção do Forte do Príncipe da Beira, que principiei no dia 20.06.1776, conforme as precedentes e repetidas contas que tenho feito subir à presença de Sua Majestade em direitura a V. Ex.ª, continuo em fazer prosseguir com todo aquele maior vigor e diligência de que se fazem susceptíveis os escassos meios deste país aonde, além do dinheiro, que é o mais indispensável instrumento com que se aplainam as dificuldades e adiantam semelhantes trabalhos, faltam ainda verdadeiramente vários outros recursos necessários, como são os competentes artífices e operários que se deveriam empregar, de maneira que, sobre alguns remetidos do Pará depois das mais excessivas delongas e despesas, fui obrigado, por último, a mandar vir um mais considerável número deles, que hão de ser escravos do Rio de Janeiro, aonde a referida encomenda, sobre conta da Real Fazenda, se fez há perto de um ano; mas, antes dos fins do corrente de 1779, não poderá chegar a esta Capital, sendo fácil de calcular por esta tão extraordinária demora aliás inevitável, suposto que dentro do mesmo continente, que a V.Ex.ª representa, apesar das mais vivas recomendações; os obstáculos que quase insuperavelmente se oferecem a fim de qualquer empresa nestas tão desprovidas como remotas regiões, apesar do grosso cabedal quase incrível na Europa que tudo custa, por maiores que sejam os esforços do zelo e da economia.

Enquanto aos outros novos estabelecimentos e postos guarnecidos desta dita Capitania, sobre que igualmente tenho posto na real presença, mediante o conhecimento de V. Ex.ª, as humildes contas e representações que correspondiam, vão subsistindo no indicado estado, enquanto a Rainha nossa senhora não for servida decidir ou mandar o contrário; ao mesmo tempo que o entretimento de todos eles se faz quase impossível de suprir, como por muitas vezes tenho relatado a V. Ex.ª, pela expressada falta de meios.

Presentemente se me não oferece que acrescentar às sobreditas contas, que a última nova fundação de que ainda não tinha dado parte, a qual da mesma sorte fiz executar, constante do termo que incluo a V. Ex.ª; situada na Margem Ocidental do Rio Paraguai, a 3 ou 4 dias de viagem para cima do presídio que chamei Nova Coimbra; na imaginação de se tratar de demarcações, segundo respectivamente anunciam os dois tratados públicos. Nesta mesma ocasião, executo as ordens de Sua Majestade concernentes à clandestina extração dos diamantes, absolutamente proibida nesta Capitania, dirigindo as respectivas devassas que vou fazendo tirar, ao Ex.mo Visconde de Vila Nova da Cerveira como Secretário de Estado dos negócios do Reino, pois que assim o determina a Carta Régia de 16.11.1770.

Deus guarde a V. Ex.ª muitos anos.

Vila Bella, 5 de junho de 1779. (RIHGB, 1865)

Ignácio Accioli de Cerqueira e Silva (1833)  

Deste salto vão trinta léguas ao do Jirau, latitude de 09°21’ S; também é mui perigoso o seu trajeto, sendo preciso varar as canoas por terra sobre rolos de madeira por espaço de 365 braças ([1]).

Passando em 1768 por esta paragem, o Governador de Mato Grosso Luiz Pinto de Souza, a tomar posse daquele Governo, erigiu aqui uma Povoação que denominou de Balsamão, com os índios Pamas, que já existiam nesse lugar; a Cachoeira consta de cinco saltos continuados.

Seguem-se as Cachoeiras dos Morrinhos, Bananeira, Pederneiras, Caldeirão do Inferno e Paredão, desta última vão cinco léguas à Barra do Mamoré, e à do Guaporé onde está o Forte do Príncipe da Beira, além destas ainda se encontra a da Misericórdia, cujo perigo depende do estado das águas, e a do Ribeirão de cinco saltos, na Latitude de 10°S, o varadouro é de 340 braças ([2]), hoje se denomina a esse lugar S. José do Ribeirão.

Nele há um destacamento com escravos do Estado destinados à cultura, a benefício dos que navegam para o Pará, e Mato Grosso: esse estabelecimento, criado de ordem do Ministério pelo Governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro, prosperou no tempo daquele Governador, e do seu imediato sucessor Manoel Carlos, hoje, porém tem decaído, chegando até a não fornecer o sustento diário para a guarnição, que o vai buscar ao Forte Príncipe da Beira. (SILVA)

James C. Fletcher e Daniel P. Kidder (1845) 

O Tenente Gibbon, U.S.N. deu-nos um relato muito interessante de sua descida [em 1852] do Rio Mamoré, desde o Forte Príncipe de Beira até o Madeira, e daí até o Pará; mas a melhor descrição detalhada dessa longa rota e das numerosas dificuldades que ela opõe ao viajante e ao negociante, se encontra numa memória publicada pelo Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro. (FLETCHER & KIDDER)

Felipe José Nogueira Coelho (1850) 

Em 20 de junho, lançou S. Ex.ª a primeira pedra, com as solenidades costumadas e assistência de vários oficiais, do novo Forte que mandou erigir na margem Oriental do Rio Guaporé, pouco acima da arruinada Fortaleza da Conceição, em sítio alto e bem proporcionado.

Denominou-o – Forte do Príncipe da Beira — em obséquio do Sereníssimo Príncipe que era da Beira, e hoje do Brasil. Mandou gravar no pórtico ou porta principal uma inscrição latina, que se acha nos Anais da Câmara, e nomeou para seu primeiro Comandante o Capitão de Dragões da Capitania de Goiás José de Mello da Silva Castro e Vilhena, que aqui se achava destacado. Festejou-se em Vila Bela o regresso de S. Ex.ª e a construção do dito Forte [como muro desta Capitania] com um numeroso outeiro, em que lembrou o verso de Virgílio:

o fortunatos nimium, sua si bona norint, agrícolas” ([3]).

Foram criados Capitão e Oficiais da ordenança para a Povoação do mesmo Forte e vizinhanças. Fez também S.Ex.ª Capitão-mor das conquistas do Paraguai a João Leme do Prado, sertanista inteligente, o qual tinha ido descobrir o Rio Embotety, hoje Mondego, que deságua no Paraguai acima do Presídio da Nova Coimbra, dando notícias das campanhas e margens do mesmo Rio, e de que lho apareceram alguns índios que, por alguns trajes, rosários, miçangas e ornatos de prata que traziam, bem deixavam ver se comunicavam com os espanhóis.

Pouco abaixo da Foz do mesmo Mondego, descobriu também um lugar mais próprio para Povoação, e mesmo para Forte. Em 16 de setembro, recolhendo-se S. Ex.ª do Forte do Príncipe da Beira, mandou dar princípio a uma Povoação, que denominou Viseu, na margem Ocidental do Guaporé, em quase meia viagem do sobredito Forte. E concedeu alguns privilégios aos que quisessem ir ser colonos, pelo bando do dito ano, no Registro 5ª da Ouvidoria, à folha 123. Foi aberta neste ano a rua que corta o quintal do Palácio, como tinha sido no ano antecedente a travessa grande que vai da Praça à Rua do Fogo, por ordem de S. Ex.ª e despesas da Câmara, para melhor prospecto e cômodo da Vila. Em 2 de outubro criou S.Ex.ª o primeiro Cadete que teve a guarnição militar desta Capital. (COELHO)

Revista Trimensal do IHGE do Brasil (1864) 

Tradução de Alguns Artigos da Gazeta de Buenos-Aires 

Título ‒ Navegação Dos Rios  

Já manifestamos de que modo entorpeceram a demarcação da linha divisória estipulada no dito Tratado. Logo depois, em 1870, povoaram fazendas, e puseram guardas nas privativas possessões da Espanha, na linha que devia tirar-se desde o Arroio S. Luiz, pela margem Ocidental da Lagoa-mirim até o Arroio mais Meridional, que entra em seu desaguadouro; e assim contravieram ao Tratado de 1770. Construíram do modo o menos injustificável os Fortes Albuquerque e Coimbra, em território pertencente à Espanha, e várias povoações na margem Meridional do Itenes, e entre elas o Forte Príncipe da Beira, construído poucos meses depois de concluído o Tratado de 1777, sobre a Vila do mesmo Rio Itenes com o objetivo de usurpar toda a navegação do Madeira. (RIHGB, 1864)

Cândido de Melo Leitão (1941) 

As constantes lutas do Sul, “principais motivos das discórdias ocorridas entre as duas Coroas”, fizeram com que as lindes platinas fossem desde logo demarcadas e por pessoal numeroso, que levasse com brevidade a cabo tal empreendimento. Para o restante da linha divisória, desde esse remoto Rio Branco, ao Norte, “região onde até então nenhum homem branco havia penetrado”, até esse Extremo Sudoeste onde, para evitar as constantes incursões dos castelhanos, fazia o Governo de Lisboa levantar o Forte Príncipe da Beira, era nomeada uma só Comissão. Diz explicitamente a provisão do Capitão General João Pereira Caldas:

Para proceder com conhecimento mais exato e maior certeza à importante operação de demarcação dos domínios reais, ordenou o Governo de Lisboa que se empregassem no reconhecimento das fronteiras os mesmos geômetras e engenheiros tanto na Capitania do Grão Pará como na de Mato Grosso. […]

As viagens de Natterer […] de julho de 1829 a agosto de 1830, descendo o Guaporé (com demora de alguns dias no Forte Príncipe da Beira) e o Mamoré, residindo em Borba quase um ano [24.11.1829 a 25.08.1830]; de setembro de 1830 a setembro de 1831, subindo o Rio Negro até à Cachoeira de Tumui e visitando alguns dos seus afluentes; de setembro de 1831 a fins de 1832, quando explorou o Rio Branco até ao Tacutu; de 1833 a julho de 1834 em pequenas expedições pelas proximidades de Manaus, chegando ao Pará em setembro de 1834. […] Alcides D’Orbigny veio à América do Sul, contratado pelo Governo argentino. […] Tendo penetrado em nosso território na altura do Forte Príncipe da Beira, à margem do Guaporé, subiu por esse Rio até Vila Bela, regressando pelo mesmo caminho fluvial para a Bolívia. (LEITÃO) (Continua…)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 28.10.2020 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia  

COELHO, Felipe José Nogueira. Memórias Cronológicas da Capitania de Mato Grosso, Principalmente da Provedoria da Fazenda Real e Intendência do Ouro – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Revista Trimensal de História e Geografia – Volume 13 – 1850.  

FLETCHER & KIDDER, James Cooley Fletcher & Daniel Parish Kidder. O Brasil e os Brasileiros: Esboço Histórico e Descritivo, Vol 2 – Brasil – São Paulo, SP – Editora Brasiliana, 1941.  

LEITÃO, Cândido de Melo. História das Explorações Científicas no Brasil (1941) – Brasil – São Paulo, SP – Editora Brasiliana, 1941 

RIHGB, 1864. Tradução de Alguns Artigos da Gazeta de Buenos-Aires – Navegação dos Rios ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ ‒ Revista Instituto Histórico e Geográfico do Brasil ‒ Tomo 27 ‒ 1ª Parte, 1864.  

RIHGB, 1865. Carta de Luiz de Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, Governador de Mato Grosso, de 5 de junho de 1779 – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. 1865. 

SILVA, Ignácio Accioli de Cerqueira e. Corografia Paraense ‒ Brasil ‒ Belém, PA ‒ Typographia do Diário, 1833.  

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]    365 braças: 803 m.

[2]    340 braças: 748 m.

[3]    Oh! que felizes seriam os homens do campo se conhecessem a sua felicidade! (Virgílio, Geórgicas, II, 458)

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