Arqueologia do Alto Rio Madeira é tema de dossiê no Boletim de Ciências Humanas

O dossiê que compõe o novo número do periódico, que é um dos mais antigos do Brasil, já pode ser acessado na WEB e traz contribuições importantes sobre a ocupação humana milenar e plural de Rondônia

Agência Museu Goeldi – Em número referente ao período de maio-agosto deste ano, o Boletim de Ciências Humanas do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) traz um dossiê temático com oito artigos sobre a “Arqueologia do Alto Rio Madeira”, além de um artigo com a revisão etnohistórica sobre a fermentação amiliolítica na Amazônia e outro sobre o Sambaqui do Recreio na planície costeira do Rio Grande do Sul. A publicação encontra-se disponível para a consulta e o download de artigos.

Um dos principais afluentes do Rio Amazonas, o Madeira é um rio que banha os estados de Rondônia e do Amazonas. Tem extensão total aproximada de 3.315 km, sendo o 17º maior do mundo em extensão. No artigo de introdução ao dossiê, os pesquisadores Fernando Ozorio de Almeida, da Universidade Federal de Sergipe, e Guilherme Mongeló, da Escola Superior Politécnica do Litoral em Guayaquil (Equador), ressaltam a importância das pesquisas arqueológicas para a região, localizada no interior do que hoje reconhecemos como o estado de Rondônia.

No texto, eles explicam que, nos últimos 10 anos, um considerável aumento do que se sabe sobre a arqueologia regional do alto Madeira tornou necessário reorganizar a grande quantidade de informações produzidas, a fim de dar um sentido histórico a elas. Esse aumento das pesquisas é explicado tanto pela criação do departamento de Arqueologia da Universidade Federal de Rondônia quanto pela obrigatoriedade de levantamentos em decorrência do licenciamento de obras como as Usinas Hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau.

Entre outras descobertas, os variados estudos têm demonstrado que, nessa longa história de ocupação humana, que pode chegar a 12.700 anos antes da era corrente, as dinâmicas sociais da região foram muito plurais, com a conexão de povos de diferentes lugares, e estiveram interligadas com o restante da Amazônia.

“Assim, a região pode nos ajudar a compreender fenômenos de extensa amplitude geográfica, como a expansão de grupos falantes de línguas Tupi e Aruaque, assim como a dispersão de alimentos domesticados. Ao mesmo tempo, a bacia do alto Madeira possui um caráter particular: observa-se uma diversidade cultural singular que se reflete em grande diversidade biológica, linguística e de culturas arqueológicas”, apontam os autores.

Essa grande diversidade se explicaria por fatores como a ocupação contínua da região por mais de dez mil anos. “Esta é uma das cronologias mais estáveis da Amazônia”, afirmam.

Outra justificativa seria a própria localização do alto Madeira, “situado entre a grande planície amazônica, os Andes, o Planalto Central brasileiro, um mosaico de terras baixas, como as do Pantanal e dos Llanos de Mojos (Bolívia), assim como o Gran Chaco”.

“Pode-se acrescentar, por fim, que essa diversidade está ligada com práticas de diferentes pessoas e coletivos que, por milênios, ocuparam ou ainda ocupam a região. Resta ainda compreender melhor a intensidade e as maneiras como se deram tais intervenções humanas”, completam.

Na contramão dessa imensa riqueza histórica e cultural, os processos de colonização da região teriam se baseado no silenciamento e apagamento histórico da presença indígena, das suas significativas contribuições e do seu pioneirismo em diversos momentos dessa história de longa duração.

A violência desses processos se manifestaria tanto no plano físico, sob a forma de massacres, como os registrados em Corumbiara nos anos 1980 e 90, quanto simbólico, de anulação e rebaixamento em relação ao “pioneirismo” de colonos europeus e de outras regiões, como o Sul e o Sudeste do Brasil.

Segundo os autores, o conhecimento arqueológico dessa história milenar, baseada em diversidade, serve então como um contraponto aos discursos de progresso e desenvolvimento homogeneizadores, que reduzem a ocupação humana na região a um passado mais recente.

Artigos – Entre os 10 artigos que compõem o Dossiê “Arqueologia do Alto Rio Madeira” estão os seguintes títulos: “Introdução: arqueologia dos ‘pioneiros’ e da diversidade do alto rio Madeira”, assinado por Fernando Ozorio de Almeida e Guilherme Mongeló; “Ocupações humanas do Holoceno inicial e médio no sudoeste amazônico”, de autoria de Guilherme Mongeló; “Arqueobotânica de ocupações ceramistas na Cachoeira do Teotônio”, de Jennifer Watling e outros autores; “A temporalidade das ocupações ceramistas no sítio Teotônio”, de Thiago Kater; “Arqueologia no sítio Santa Paula, alto Madeira, Porto Velho, Rondônia, Brasil”, de Eduardo Bespalez e outros autores; “Aldeia circular e os correlatos da ocupação indígena na margem esquerda da Cachoeira de Santo Antônio”, de Cliverson Pessoa e outros autores; “Tecnologias cerâmicas no alto rio Madeira: síntese, cronologia e perspectivas”, de Silvana Zuse e outros autores; e “A arqueologia do alto Madeira no contexto arqueológico da Amazônia”, de Eduardo Góes Neves e outros autores.

Outros dois artigos também compõem o novo número do boletim:

“Revisão etnohistórica da fermentação amilolítica na Amazônia”, de Alessandro Barghini; e

“O Sambaqui do Recreio: geoarqueologia, ictioarqueologia e etnoarqueologia”, de Gustavo Peretti Wagner e outros autores.

Boletim – O Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi é um dos periódicos científicos mais antigos do Brasil. Criado por Emílio Goeldi sob o nome original de Boletim do Museu Paraense de História Natural e Ethnographia, seu primeiro número data de setembro de 1894. Atualmente, é publicado três vezes ao ano, em duas versões, Ciências Naturais e Ciências Humanas.

Serviço – O novo Boletim de Ciências Humanas do MPEG está disponível no issuu (para acessar, clique aqui) e os seus artigos podem ser baixados, individual ou conjuntamente, pelo endereço http://editora.museu-goeldi.br/humanas/.

Texto: Brenda Taketa – Edição: Joice Santos

PUBLICADO EM:   MUSEU GOELDI   

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