Dia Internacional dos Povos Indígenas: Igreja assume a Amazônia, não a indiferença

Em entrevista ao Vatican News, Dom Roque Paloschi, presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), afirma: “a pandemia traz o fantasma do passado que muitos povos viveram: genocídio e extermínio de povos inteiros devido às epidemias que matavam as pessoas sem que pudessem enterrar os seus mortos.

Nós, como Igreja, anunciamos a vida e anunciamos que a vida é muito mais importante do que a economia. Não pode haver desenvolvimento humano integral se não existe investimento de recursos no cuidado da Casa Comum. A Igreja assumiu ser aliada dos povos amazônicos. Isso passa pelo anúncio da vida e denúncia de tudo que produz a morte. A Igreja não pode ficar indiferente nesta hora; tem que ter uma palavra diante de tudo que está acontecendo”.

Neste domingo, 9 de agosto, o Dia Internacional dos Povos Indígenas – data comemorativa instituída pela ONU em 1995, “pretende garantir condições de existência minimamente dignas aos povos indígenas de todo o planeta, principalmente, no que se refere aos seus direitos e condições de vida e cultura, bem como a garantia aos direitos humanos”, afirmou dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho (RO) e presidente do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), organismo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB):

“O Dia Mundial dos Povos Indígenas, sem sombra de dúvida, foi um avanço para os povos indígenas de todo mundo. No nosso caso, aqui no Brasil, cerca de 900 mil indígenas que habitam o território nacional, totalizando 305 povos e 110 povos em situação de isolamento e risco de extinção, apesar das permanentes violências e violações de direitos aos povos originários – somente a Amazônia brasileira são mais de 448 mil pessoas confirmadas com Covid-19; são mais de 13 mil óbitos. A situação das aldeias, entre os povos indígenas, está se agravando cada vez mais. São mais de 15 mil indígenas confirmados com Covid; mais de 600 óbitos e mais de 113 povos dos 9 Estados da Amazônia lutando contra a Covid-19. A maioria dos óbitos e casos confirmados entre os povos indígenas estão na Amazônia.”

Mas não é só a pandemia que ameaça os indígenas. Segundo dom Paloschi, “os inimigos históricos dos povos buscam de todas as formas possibilizar ações que colocam em risco os direitos garantidos na Constituição Federal de 1988, de modo especial, nos artigos 231 e 232”.

“Os povos originários e as comunidades tradicionais são os mais vulneráveis devido à distância em que vivem essas pessoas e a falta de assistência – até básica – em muitos lugares. A grande preocupação é com a devastação intencionada da Amazônia e a invasão dos territórios indígenas e de comunidades tradicionais, sobretudo, agora que Amazônia arde em fogo com as queimadas criminosas na região.”

Essa violência contra os povos indígenas, segundo o presidente do Cimi, se deve a posturas que acreditam que “a economia está acima da vida”, que visam o capital, “um lucro desmedido” já que não se preocupa com o bem-estar do povo.

O Sínodo Amazônico

A Igreja tem dado uma grande abertura para analisar e atuar junto aos povos indígenas, como foi o caso do Sínodo da Amazônia, em outubro do ano passado no Vaticano, quando os indígenas “foram incisivos nas propostas em relação ao seu protagonismo e na defesa dos seus territórios, da vida e dos direitos que se constitui em um princípio evangélico em defesa da dignidade humana”, disse o arcebispo.

“O Papa Francisco falou em Porto Maldonado: ‘nunca os povos originários e amazônicos estiveram tão ameaçados como estão agora’. A pandemia traz o fantasma do passado que muitos povos viveram: o genocídio e extermínio de povos inteiros devido às epidemias que matavam as pessoas sem que pudessem enterrar os seus mortos. Nós, como Igreja, anunciamos a vida e anunciamos que a vida é muito mais importante do que a economia. Não pode haver desenvolvimento humano integral se não existe investimento de recursos no cuidado da vida, das pessoas e da nossa Casa Comum. A Igreja assumiu ser aliada dos povos amazônicos. Do Sínodo, sim: assumiu pra ser aliada dos povos amazônicos. Isso passa pelo anúncio da vida e denúncia de tudo que produz a morte.”

“A Igreja não pode ficar indiferente nesta hora; tem que ter uma palavra diante de tudo o que está acontecendo.”

A opção pela vida

Dom Paloschi, retoma, então, a atual ameaça da pandemia vivida nos territórios. Segundo ele, a ação dos estados e municípios em relação à Covid-19 não está conseguindo “frear o avanço da doença”:

“Isso é um verdadeiro flagelo, pois está aumentando o contágio pela Covid-19 e aumentando o número de óbitos. O que vemos na Amazônia como um todo é a falta de atenção a média e alta complexidade. O que havia antes, já não dava conta da grande demanda. Falo isso a partir do que observo no estado e município onde vivo. O sistema de saúde já era precário antes da pandemia. O que vivemos agora chega à beira do colapso das unidades de saúde, sejam elas de atenção básica, média e alta complexidade. Como pensar na situação dos povos indígenas se a saúde indígena é um subsistema do SUS? Vemos com preocupação a ameaça que hoje paira sobre os povos indígenas, pois os estados e municípios pouco se empenham em atender as demandas dos povos indígenas, relegando esse atendimento à esfera federal. Está difícil. É lamentável, é lamentável que são sempre os mais vulneráveis que pagam a conta com a própria vida pela indiferença, pelo preconceito e pela opção clara de evitar qualquer ação para salvar vidas, quando se trata dos pobres.”

PUBLICADO EM:      VATICAN NEWS     

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