A Terceira Margem – Parte CXXXVI

Foz do Breu, AC/ Manaus, AM ‒ Parte XII

Euclides da Cunha e membros da Comissão

Seringueiros Brasileiros I  

Perdido na mata exuberante e farta, com o intento exclusivo de explorar a hevea apetecida, o seringueiro compreende, de pronto, que a sua atividade se debaterá inútil na inextricável trama das folhagens, se não vingar norteá-la em roteiros seguros, normalizando-lhe o esforço e ritmando-lhe o trabalho tão aparentemente desordenado e rude.
(CUNHA, 1906) 

A borracha já era conhecida pelos indígenas antes do descobrimento da América. O Padre d’Anghieria, em 1525, observou índios mexicanos fazendo uso de bolas elásticas em seus jogos.

O missionário Carmelita Frei Manuel da Esperança, em 1720, verificou que os índios Cambebas faziam uso da borracha para fabricar garrafas e bolas em forma de seringa. O Frei Manuel resolveu, então, dar à substância o mesmo nome do objeto fabricado com ela – seringa. O nome foi consagrado e, desde então, chamam-se de seringueiros aqueles que extraem o sumo leitoso da “Hevea” e a de seringais às plantações de onde ele é extraído.

E da seringa surgiu o Seringal, espaço físico-social onde se erguem, dispersas pela floresta, as espécies vegetais da borracha. E do Seringal, o seringueiro, o homem que se associa à planta, para explorá-la. Uma trilogia marcadamente ecológica. (TOCANTINS, 1982)

Hevea brasiliensis (Seringueira) 

É planta tropical de ciclo perene cultivada com a finalidade de produção de borracha natural. A seringueira é encontrada nas margens dos Rios e terrenos sujeitos à inundação da terra firme, podendo atingir, em condições ideais, trinta metros de altura. A produção de sementes inicia aos quatro anos, e pouco antes dos sete anos a produção de látex. O diâmetro do tronco varia entre trinta e sessenta centímetros e a sua casca é responsável pela produção da seringa.

Submetida a um manejo adequado, poderá produzir, economicamente, por um período de vinte a trinta anos. A Hevea, nativa, tem como área de ocorrência toda a Amazônia Brasileira, Bolívia, Colômbia, Peru, Venezuela, Equador, Suriname e Guiana, sendo que a espécie Brasileira é a que apresenta maior produtividade.

Dentre as diversas doenças e pragas que atacam a espécie, o “mal-das-folhas”, causado pelo fungo “Microcylus ulei”, é o mais conhecido e temido, e um dos principais fatores que restringem a expansão da heveicultura no Brasil.

Abertura das “Estradas” 

Em outubro de 1905, embarcam no vapor “Rio Branco”, que estava ancorado na “Boca do Acre”, confluência do Rio Acre com o Purus, dois ícones da nacionalidade brasileira, Plácido de Castro e Euclides da Cunha. Plácido de Castro tinha comandado o vitorioso Movimento Revolucionário Acreano, que resultou na incorporação das terras bolivianas ao Brasil.

Euclides chefiara a “Comissão Brasileira de Reconhecimento do Alto Purus”, cuja missão era mapear o Rio Purus, desde a Foz, no Solimões, até suas cabeceiras, definindo as fronteiras do país com a Bolívia e o Peru.

A viagem da Boca do Acre a Manaus durou uma semana e, neste período, aconteceu o encontro histórico. Euclides da Cunha solicitou a Plácido de Castro que redigisse um histórico da campanha, desde 1902 que culminou com a conquista do Acre.

Plácido escreveu os apontamentos a lápis, e manteve longas conversas com o escritor, inclusive sobre a dinâmica da extração da borracha, seu ciclo produtivo e a vida nos seringais. Ao chegar ao Rio de Janeiro, Euclides da Cunha publicou na Revista Kósmos (em janeiro de 1906), o artigo “Entre os Seringais” sem, contudo, referir-se à conversa que mantivera com Plácido de Castro. (CASTRO, 2003)

Revista Kósmos n° 01, janeiro de 1906

Em 27.03.1907, Plácido de Castro, Prefeito de Rio Branco, queixou-se, indignado, ao Ministro da Justiça, do artigo de Euclides da Cunha.

Somente em 1930, os “apontamentos” do herói do Acre foram publicados, na íntegra, como parte do livro “O Estado Independente do Acre”, de autoria de Genesco de Castro, irmão de Plácido. O livro enfrentou dificuldades na sua distribuição, tendo em vista que os assassinos de Plácido permaneciam no poder.

Revista Kósmos n° 01, janeiro de 1906

Relata Euclides da Cunha na Revista Kósmos n° 01, de janeiro de 1906:

[…] o mateiro lança-se sem bússola no dédalo ([1]) das galhadas, com a segurança de um instinto topográfico surpreendente e raro.

Percorre em todos os sentidos o trecho de selva a explorar; nota-lhe os acidentes; apreende-lhe a fisiografia complexa, que vai dos igapós alagados aos firmes sobranceiros às enchentes; traça-lhe os varadouros futuros; avalia-lhe, rigorosamente, as “estradas”; e vai no mesmo lance, sem que lhe seja mister traduzir complicadas cadernetas, escolhendo à beira dos Igarapés todos os pontos em que deverão erigir-se as pequenas barracas dos trabalhadores.

Feito este exame geral, apela para dois auxiliares indispensáveis – o toqueiro e o piqueiro ([2]); e erguendo num daqueles pontos predeterminados, com as longas palmas da jarina, um papiri ([3]), onde se abriguem transitoriamente, metem mãos à empreitada.

O processo é invariável. Segue o mateiro e assinala o primeiro pé de seringa, que se lhe antolha ao sair do papiri.

É a boca da estrada. Aí se lhe reúnem o toqueiro e o piqueiro – prosseguindo depois, isolado, o mateiro, até encontrar a segunda árvore, de ordinário pouco distante, a uns cinquenta metros.

Avisa então com um grito particular, ao toqueiro, que parte a alcançá-lo junto da nova madeira, enquanto o piqueiro, acompanhando-o mais de passo, vai tirando a facão a picada, que prefigura a “estrada”.

O toqueiro auxilia-o por algum tempo, abrindo por sua vez um pique para o seu lado, enquanto um outro grito do mateiro não o chame a reconhecer a terceira árvore; e assim em seguida até ao ponto mais distante, a volta da estrada. Daí, agindo do mesmo modo, retrogradando por outros desvios, vão de seringueira em seringueira, fechando a curva irregularíssima que termina no ponto de partida. Ultima-se o serviço que dura ordinariamente três dias, ficando a “estrada” em pique. (CUNHA, 1906)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 22.01.2021 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia   

CASTRO, Plácido de – Apontamentos sobre a Revolução Acreana – Brasil – Manaus, AM – Editora Valer, 2003. 

CUNHA, Euclides da. Entre os Seringais – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Revista Kósmos n° 01, janeiro de 1906.  

TOCANTINS, Leandro. Amazônia – Natureza, Homem e Tempo – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Biblioteca do Exército – Editora Civilização Brasileira, 1982.

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]    Dédalo: labirinto.

[2]    Piqueiro: trabalhador que auxilia na abertura de estradas abrindo a picada.

[3]    Papiri: tapiri, abrigo rústico.

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