A Terceira Margem – Parte CXXXIV

Foz do Breu, AC/ Manaus, AM ‒ Parte X

Istmo de Fiscarrald

Caucheiros Peruanos I 

Realmente, o caucheiro não é apenas um tipo inédito na História. É, sobretudo, antinômico ([1]) e paradoxal. No mais pormenorizado quadro etnográfico não há lugar para ele. A princípio figura-se-nos um caso vulgar de civilizado que se barbariza, num recuo espantoso em que se lhe apagam os caracteres superiores nas formas primitivas da atividade. (CUNHA, 2000) 

Castilla ulei 

A Castilla ulei, mais conhecida como caucho, é uma árvore nativa da floresta amazônica, da qual se extrai um látex que produz borracha de qualidade inferior.

A técnica do caucheiro consistia em identificar a Castilla, abatê-la, cortá-la em toras de aproximadamente um metro, fazer cortes profundos e extrair-lhe o leite que escorria para dentro das rasas cavidades retangulares escavadas no chão ou nos próprios troncos onde se acumulava e ganhava rigidez. O material elástico da fôrma depois de pronto chamava-se “plancha”. Quando o produto solidificava, o caucheiro o retirava e, se havia sido manufaturado no chão, dava-lhe algumas pancadas para limpar a areia e o barro aderido.

De cada árvore conseguia retirar de 8 a 16 quilos de caucho. Em pouco tempo, arrasado o cauchal e o seu entorno, havia necessidade de buscar novas fontes da goma e os “exterminadores de árvores” partiam cumprindo sua cíclica sanha.

Ocupação Predatória   

Partiendo términos por el septentrión con la Real Audiencia de Lima y Provincias no descubiertas… por el levante con el Mar del Norte y línea de demarcación entre las coronas de los Reinos de Castilla y de Portugal por la parte de las Provincias de Santa Cruz del Brasil.
(Libro 2° da “Recopilación das Indias”, 1680)

As “Provincias no descubiertas” situadas das cabeceiras do Madre de Dios e do Ucaiali foram sendo invadidas pelos caucheiros somente a partir da segunda metade do século XIX (1860). Uma nova civilização penetrava naqueles “ermos dos sem fim”, resoluta e cruelmente “no afogado das selvas”, como dizia Euclides da Cunha.

Desta forma, as suas extremas Setentrionais, apenas definidas nas terras mais abeiradas da Cordilheira, a defrontarem as do Departamento de Cuzco, ampliavam-se logo, indeterminadamente, para o Norte, no difuso de uma penumbra geográfica, “Provincias no Descubiertas”. E o que pode afigurar-se de restritivo neste rumo, desaparece de todo naquele desafogo largo para o levante. A lei é límpida: os limites por ali iriam até onde fosse a Linha de Demarcação entre Portugal e Espanha. As Províncias ainda não descobertas, mostra-o o próprio impreciso desta expressão crepuscular, predestina­vam-se a extinguir-se, ou a recuar, continuadamente, ante o simples desenvolvimento de uma divisa Oriental, que se dilataria, margeando a meridiana, sem termos prefixos, até aonde se estendessem as terras lusitanas, a extinguir-se no Atlântico Norte. Não há interpretação mais lógica. Todos os antecedentes a esteiam, inabalável. A fatalidade física, tangível e rijamente geognóstica, que apontamos, há pouco, como determinante da constituição territorial da Bolívia, harmoniza-se, neste caso, com as leis sociais mais altas. A sua missão histórica erigindo-a, no levante, em barreira protetora dos domínios castelhanos, traçou-lhe desde o princípio, naturalmente ‒ no indeterminado das paragens ainda ignotas, ou “no descubiertas”, uma diretriz inflexível para o Norte, acompanhando, num movimento heroico, os rastros da expansão lusitana. Paulatinamente os caucheiros ultrapassaram o Ucaiali e alcançaram as nascentes do Purus, do Juruá e do Javari, estendendo seus limites aleatoriamente na faina arrasadora de extrair a goma das árvores. (CUNHA, 1907)

Por volta da última década do século XIX, o caucheiro peruano Carlos Fiscarrald abriu o varadouro entre o Urubamba (um dos braços do Ucaiali) e o Madre de Dios (afluente do Beni/Madeira), arrastando sua lancha Contamana pela terra, por uma estreita faixa de terra (12 km), que separa as duas Bacias hidrográficas e que passou, a partir de então, a ser denominada “Istmo de Fiscarrald” (12°01’39,7” S / 71°56’04,2” O).

Aos poucos, essas penetrações foram se estendendo até que Leopoldo Collazas, em 1899, partindo do Urubamba, chegou ao Alto-Purus, embora alguns autores atribuam este feito a Delfin Fiscarrald, irmão de Carlos Fiscarrald. Estava aberto um novo campo de ação para os caucheiros peruanos.

Collazas instalou-se a montante de Sobral, último barracão brasileiro no Rio Purus, e negociava com as populações ribeirinhas brasileiras, mercadoria ou dinheiro em troca da extração do caucho e borracha. Estes produtos eram adquiridos em Manaus e transportados na lancha “Rio Autaz”, de sua propriedade.

Caucheiros (Euclides da Cunha) 

[…] batedores da sinistra catequese a ferro e fogo, que vão exterminando naqueles sertões remotíssimos os mais interessantes aborígenes Sul-americanos.
(CUNHA, 2000)

Euclides da Cunha faz uma narrativa contundente do “Modus Vivendi” dos caucheiros peruanos que somente décadas depois dos pioneiros brasileiros começaram a penetrar na região marcando sua presença a sangue, ferro e fogo.

Quando Carlos Fiscarrald chegou, em 1892, às cabeceiras do Madre-de-Dios, vindo do Ucaiali pelo varadouro aberto no Istmo que lhe conserva o nome, procurou captar do melhor modo os Mashcos ([2]) indomáveis que as senhoreavam. Trazia entre os Piros que conquistara um intérprete inteligente e leal. Conseguiu sem dificuldades ver e conversar com o curaca selvagem.

A conferência foi rápida e curiosíssima. O notável explorador, depois de apresentar ao “infiel” os recursos que trazia e o seu pequeno exército, onde se misturavam as fisionomias díspares das tribos que subjugara, tentou demonstrar-lhe as vantagens da aliança que lhe oferecia contrapostas aos inconvenientes de uma luta desastrosa. Por única resposta o Mashco perguntou-lhe pelas flechas que trazia. E Fiscarrald entregou-lhe, sorrindo, uma cápsula de Winchester. O selvagem examinou-a, longo tempo, absorto ante a pequenez do projétil. Procurou, debalde, ferir-se, roçando rijamente a bala contra o peito. Não o conseguindo, tomou uma de suas flechas; cravou-a de golpe, no outro braço, varando-o. Sorriu, por sua vez, indiferente à dor, contemplando com orgulho o seu próprio sangue que esguichava… e sem dizer palavra deu as costas ao sertanista surpreendido, voltando para o seu “tolderio” com a ilusão de uma superioridade que a breve trecho seria inteiramente desfeita. De fato, meia hora depois, cerca de cem Mashcos, inclusive o chefe recalcitrante e ingênuo, jaziam trucidados sobre a margem, cujo nome, Playamashcos, ainda hoje relembra este sanguinolento episódio… Assim vai desbravando-se a região bravia. Varejadas as redondezas, mortos ou escravizados num raio de poucas léguas os aborígines, os caucheiros agitam-se febrilmente na azáfama estonteadora. Em alguns meses ao lado do primitivo “tambo” multiplicam-se outros; a “casucha” solitária transmuda-se em amplo “barracone” ou “embarcadero” ruidoso; e adensam-se por vezes as vivendas em “caserios”, a exemplo de Cocama e Curanja, à margem do Purus, a espelharem, repentinamente, no deserto, a miragem de um progresso que surge, se desenvolve e acaba num decênio. Os caucheiros ali estacionam até que caia o último pé de caucho. Chegam, destroem, vão-se embora. (CUNHA, 2000)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 20.01.2021 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia  

ALVAREZ, Ricardo. Los Piros: Legendas, Mitos Cuentos – Perú – Lima – Instituto de Estudios Tropicales Pio Aza, 1960.  

CUNHA, Euclides da. Peru Versus Bolívia – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Livraria Francisco Alves, 1907.  

CUNHA, Euclides da. Um Paraíso Perdido – Brasil – Brasília, DF – Senado Federal, Conselho Editorial, 2000.  

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]    Antinômico: contraditório.

[2]    Mashcos: a primeira notícia que se tem relativa aos Mashcos remonta aos idos de 1686, quando um grupo de soldados espanhóis acompanhados dos Conibos subiu o Rio Ucaiali com o objetivo de vingar a morte do Padre Jesuíta Richter, morto pelos Piro. No trajeto, o chefe Conibo Don Felipe Cayá-bay relatou ao missionário franciscano Manuel Biedma que em um tributário Oriental do Ucaiali, morava a “muito numerosa nação dos Mashcos”. A palavra mashco na língua Conibo significa “pequeno, baixo em estatura”. (ALVAREZ)

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