A Terceira Margem – Parte DLXXV

Jornada Pantaneira

O Canoeiro Hiram Reis e Silva

A Retirada da Laguna –Parte XIII

XIII

Deliberação Sobre o Caminho a Seguirmos Primeiro Incêndio no Campo.

Dirigia-se para Leste a estrada que diante de nós se abria. Passadas seis léguas, neste rumo, voltava-se para o Norte, até a Colônia de Miranda, de que nos separavam ainda quatorze léguas, às quais cumpria ainda ajuntar mais dez para atingirmos Nioaque. Ali, a vinte e quatro léguas da fronteira, poderíamos nos reabastecer de gado. De quinze dias, no mínimo, precisaríamos para transpor esta distância, na marcha em que caminháramos, para o Apa.

Conhecia o inimigo bem esta estrada e já se pusera à nossa frente. Seria sua entrada em Nioaque muito antes da nossa, ocasionando-nos, quiçá, a perdição, ao cabo de tantos esforços. Logicamente era, pois, tal caminho impraticável. Lembraram-se alguns, então, do que propusera Lopes, quando se tratava de invadir o território paraguaio e escolher a melhor via para realizá-lo.

Na opinião do Guia, preferível a qualquer outra, era a passagem pela sua fazenda do Jardim, situada a três dias de marcha a Sudoeste de Nioaque. Afirmava haver facilmente vencido esta distância em dois dias e meio. Dali à fronteira do Apa, quando muito, teríamos seis dias pelo campo.

Quanto a este último trajeto que, segundo as suas asseverações, por ocasião de nosso primeiro Conselho de Guerra sobre tal assunto, nos devia colocar em frente ao Forte de Bela Vista, insistira na necessidade de um reconhecimento que rapidamente deveríamos, dois ou três, em sua Companhia reali­zar, montados em bons cavalos. Fora, então, impos­sível, porém, conseguir-se um estudo sério da suges­tão. Acusaram-no de abuso existente apenas na imaginação do guia.

Se houvesse passagem, diziam, os paraguaios, gran­des mateiros sempre a divagar, conhecê-la-iam cer­tamente. Ao que sempre respondera Lopes: – Só se meu filho lhas ensinasse, pois só Deus, eu e ele podemos ir de minha fazenda ao Apa, pelo campo.

Riram-se os que lhe faziam as objeções e não se falara mais no caso. Nas circunstâncias em que nos achávamos, informa­do o Coronel da passagem dos paraguaios para a margem Setentrional do Rio, e até da existência de um acampamento, ali estabelecido, apressou-se em falar ao velho Guia sobre o caminho pela sua estância.

Respondeu este bastante friamente que, com efeito, em tempo, indicara tal estrada. Aconselhara então, porém, que de antemão se explorassem aqueles lugares, no que não fora atendido. Agora era tarde demais.

Entretanto, havendo dado largas ao ressentimento, e passados alguns minutos de silêncio, acrescentou que tudo bem meditado não via impraticabilidade para uma tentativa deste gênero. Certamente muito nos maltrataria a macega alta; supunha, contudo, que em menos de uma semana poderíamos atingir a sua estância onde repousaríamos; e, com suas laranjas, nos haveríamos de restabelecer.

A seu ver era esta fruta de inestimável valor para a saúde; cada vez que ao Jardim fora, para nos abastecer de gado, grandes sacos dela nos trouxera. Achavam-se as suas árvores carregadas e ainda o deviam estar. Pessoalmente pertencêramos à maioria que outrora opinara pelo itinerário por Lopes proposto, pelo fato de nos facultar meios, graças aos quais mais facil­mente atingiríamos o território paraguaio. O que, então, mais proveitoso fora, para a ofensiva, continuava a sê-lo para a retirada.

Não havia hesitar. Pronunciou-se a maioria dos oficiais pela escolha desta estrada sob a direção do guia. De novo afirmou este, dando a palavra, que em cinco ou seis dias estaríamos no Jardim. Mais dois ou três nos bastariam depois para alcançar Nioaque, onde nos poderíamos ainda antecipar ao inimigo. Foi o plano aceito pelo Comandante. Último dia de triunfo para José Francisco Lopes!

Inteiramente a seu favor tinha a opinião dos solda­dos, a dos oficiais e a do Chefe. Investia-o a confian­ça geral, até como que solenemente, de quase ilimitada autoridade; a pública necessidade e a lei suprema da salvação tornavam-no como um ditador. Toda a vantagem havia em tomarmos a estrada do Jardim. Em primeiro lugar podiam os nossos com­boios escapar ao inimigo que parecia perseguir-nos noutra direção.

E não era só dos mercadores estaca­dos na Machorra, à nossa espera, que se tratava, mas também de todos os mais que, na suposição do seccionamento ou da perda de nossa coluna, penosa­mente recuavam para Nioaque. Tínhamos ainda a probabilidade de algum abastecimento nos distritos desertos, onde, mesmo longe das estâncias, há animais erradios.

Em terceiro lugar não eram de pequena monta as vantagens que nos apresentava a disposição de um terreno acidentado, em parte coberto de matas e capões capazes de neutralizar as armas mais danosas em uma retirada, a cavalaria, graças aos acidentes do terreno e a mataria; a artilharia, porque a nossa, com a dianteira que tomávamos, teria sempre a faculdade de, antes do inimigo, ocupar qualquer posição de algum valor estratégico.

Íamos desde logo evitar uma planície de meia légua onde a água das últimas chuvas ainda encharcava o solo, apenas deixando estreita passagem ao longo da qual, durante muitas horas, teríamos que suportar o fogo do inimigo.

Enfim, por esse caminho da estância de Lopes, só havia um grande Rio a atravessar, o Miranda, enquanto pela estrada ordinária, precisaríamos, além deste, transpor numerosas correntes, 3 pelo menos volumosas: o Desbarrancado, o S. Antônio e o Feio, que às menores chuvas sobremodo acaudalam.

Podia-se dizer, é exato, que um efeito desagradável do nosso desvio da estrada batida seria persuadir aos paraguaios que procurávamos escapar-lhes pela fuga, assim se amesquinhando a boa impressão que os últimos combates lhes deviam ter dado de nós. Mas esta aparente desvantagem vinha pelo contrá­rio, naquele momento, reforçar o desejo em que nos empenhávamos de salvar os comboios da perse­guição do inimigo, atraindo-a sobre nós. É que ela não nos inspirava temor. O que certamente nos leva­va a refletir sobre o caso vinha a ser a ideia de nos embrenhar em lugares ainda não explorados, cheios talvez de inesperados obstáculos, no meio desta ma­cega alta que a alguns passos impede a visão; que é preciso cortar sem descanso e quando seca [como então estava] exige perigoso e pesado serviço.

Qualquer consideração acerca de perigos e dificul­dades secundárias desaparecia, contudo, em frente à urgência da situação. Não houve quem não o com­preendesse; uma única porta de salvação nos resta­va aberta. Pusemo-nos a marchar às 13h00; iam os oficiais no centro de seus Batalhões. Achava-se o comandante com parte do seu Estado-Maior no quadrado do 20. Ao entrar nele, jovialmente dissera ao Capitão Paiva:

‒  Venho colocar-me aqui entre os senhores; nin­guém se defenderá melhor que nós.

Caminháramos um quarto de légua, quando muito, e já o fogo dos paraguaios começara do alto de uma elevação que dominava o Teatro do Combate da manhã. Apanhava-nos os quadrados a descoberto, obrigando-nos a uma evolução em colunas. Surtiu esta manobra bom efeito. Deveria ela, no entanto, fazer compreender ao inimigo as vantagens de contra nós empregar, em constante alternância, a artilharia para bater os quadrados e a cavalaria para nos acutilar, desde que nos formássemos em coluna.

Felizmente não havia o que lhe abrisse os olhos e safamo-nos deste mau passo sem maior dano. Nosso guia, sempre à vanguarda, por simples intuição militar, e sem que nenhum recado tivesse recebido, aproveitou o conhecimento que tinha do terreno, fazendo-nos deixar bruscamente a estrada da Machorra e infletir para a esquerda. Por meio de sú­bita contramarcha levou-nos ao pé de uma eminên­cia onde nos era fácil assestar uma bateria, caso fosse necessário; era a segurança. Apenas percebeu Lopes, aliás, a ausência de inconvenientes, tornou a meter-nos no rumo Norte por subida bastante suave. Pareceu-nos o inimigo hesitante sobre o que lhe con­vinha fazer. Era-lhe visível a perplexidade; avultado número de cavaleiros corria no campo de um lado para outro.

Encaminhavam-se grupos sobre a bateria inimiga onde era evidente a presença do Coman­dante. Pareciam as peças seguir-nos o movimento à medida que progredíamos no declive por onde nos fazia Lopes marchar. Foi esta, aliás, a última vez em que se mostraram: nunca mais as tornamos a ver, ou porque receassem os paraguaios arriscá-las em paragens para eles desconhecidas e prestando-se a emboscadas ou tivessem esgotado as munições. Provavelmente as despacharam sob a escolta de um Corpo de Cavalaria, que tomou a direção da Machorra. Desde aí fomos menos incomodados, mesmo pela cavalaria.

Prosseguia a nossa jornada sem maior empecilho, além da macega alta, que nos cercava e precisáva­mos irremediavelmente cortar, e sobre a qual se tornava a marcha das mais penosas; cortando as arestas das gramíneas os pés dos soldados. Reservava-nos ela, entretanto, provações bem mais cruéis que não tardariam a ocorrer. Notamos, a alguma distância, tênues rolos de fumo. Foi Lopes quem primeiro deu pelo incêndio.

Já o esperava. Nada nele traiu a mínima surpresa. Imóvel por algum tempo, perscrutou o horizonte, rompendo depois o silêncio com uma dessas após­trofes próprias dos homens da natureza, quando enxergam uma luta iminente. Desafiou as chamas que já ameaçavam alçar o colo:

–  Está bem! Haveremos de lutar! Será, contudo, um pouco mais tarde, acrescentou, voltando-se para nós. Vou começar logrando os paraguaios. Caminho direito para Miranda; descambarei depois para a minha fazenda.

Fomos esta tarde acampar perto de uma das cabe­ceiras do José Carlos. Contávamos poder, à vontade, nos dessedentar após um dia dos mais penosos, numa atmosfera escaldante.

Mas ali só encontramos água turva e detestável e como, acima de tudo, tarde chegáramos a este triste pouso, com o Sol posto, nada tivemos para dar, nem água nem pasto, aos nossos bois estafados e cujo olhar invocava a nossa compaixão. Para descansar só tínhamos um solo poeirento, a cuja grama ressequida torrava o Sol. Tivemos, nós mesmos, de nos contentar com um quinto da ração costumeira, ou, para melhor dizer, faltou a comida.

Em vez de vinte e dois bois que, até então diaria­mente se abatiam, quatro apenas foram mortos, es­colhidos entre os mais miseráveis de nossas juntas. Era um princípio de fome; veio apressá-la uma medi­da, então, tomada pelo Comandante. Tornara-se-lhe uma das principais preocupações conservar o máxi­mo de meios possível para o transporte dos feridos.

Acudiu-lhe à mente desatravancar algumas carretas para lhas reservar; assim, pois, distribuíram-se pelos soldados o que nelas vinha. Foram repartidos a farinha, o arroz, os legumes secos. Devia cada qual carregar os próprios víveres, por alguns dias, mas como, em muitos, o cansaço e a fome venciam a previdência, quase tudo o que naquele momento se distribuiu foi ineditamente consumido.

Iam começar as nossas grandes provações; datam daí os sofrimentos que, agravados uns pelos outros, não tardaram em nos fazer crer na iminência de terrível catástrofe ameaçando colher-nos fatalmente. (TAUNAY, 1874) (Continua…)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 19.04.2023 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia 

TAUNAY, Alfredo de Escragnolle. A Retirada da Laguna: Episódio da Guerra do Paraguai – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Tipografia Americana, 1874.  

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;  

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

Nota – A equipe do EcoAmazônia esclarece que o conteúdo e as opiniões expressas nas postagens são de responsabilidade do (s) autor (es) e não refletem, necessariamente, a opinião deste ‘site”, são postados em respeito a pluralidade de ideias

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