A Terceira Margem – Parte CCCXCIX

EPOPEIA ACREANA

Hiram Reis e Silva – O canoeiro

Assassinato de Plácido de Castro – II 

Publicamos, a seguir, uma série de correspon­dências trocadas entre o Coronel Plácido de Castro, o Juiz João Rodrigues do Lago, o Coronel Francisco de Oliveira e o Coronel Gabino Besouro para início e realiza­ção da paz. Escreve, no dia 17 de julho, o Juiz João Rodrigues do Lago ao Coronel Plácido de Castro:

Alto Acre, 17 de julho de 1908

Ilm° sr. Coronel José Plácido de Castro

Queira aceitar as minhas afetuosas saudações.

Na qualidade de Juiz de Direito desta Comarca do Alto Acre, tomei a deliberação de dirigir a presente carta à V.Sa. para tratar de assuntos que dizem respeito a este Departamento, por cujo progresso tanto tem mostrado se interessar. Não influiu em meu ânimo senão o muito interesse que tenho pela paz e progresso deste futuroso Departamento, que hoje faz parte do território Nacional, devido em grande parte aos esforços de V.S.ª.

É bem de ver, portanto, que a ninguém mais do que V.S.ª, cujas responsabilidades, pelo papel saliente que representou como chefe da Revolução Acreana e pelos grandes interesses que aqui tem, deve interes­sar o progresso e desenvolvimento desta zona. Confiante nisto e sabendo quanto deseja o desenvol­vimento do Alto Acre, por amor do qual não duvidou jogar a vida, e, não me fazendo portador de boatos, é que venho pedir à V.S.ª no sentido de fazer desa­parecer o sobressalto em que se acha grande parte da população, receosa de uma luta armada. Em todos os tempos e em todos os lugares, os vultos mais salientes estão sempre sujeitos a apreciações, das quais não podem escapar. Os próprios amigos, muitas vezes, emprestam-lhes opiniões e dizeres, que nunca lhes passaram pela mente. Nos meios pequenos, essas opiniões atribuídas às pessoas salientes, são exploradas por todos os meios e sob todas as formas. Não é de estranhar, portanto, que o nome de V.S.ª tenha aparecido nos boatos que circulam nesta Vila.

Convicto, porém, de que de modo algum o autorizou, é que me animo a pedir a V.S.ª para empregar pres­tígio e influência de que dispõe no sentido de fazer voltarem à calma e a tranquilidade ao espírito públi­co. Na certeza de que prestará este serviço à causa pública, subscreva-me com estima e consideração.

Admirador e Criado [assinado] ‒ João Rodrigues do Lago.

Nesse mesmo dia, o Dr. Lago dirigiu também um ofício ao Prefeito Gabino Besouro:

Juízo de Direito da Comarca do Alto Acre, em 17 de julho de 1908.

Exm° sr. Dr. Gabino Besouro, Prefeito do Departa­mento do Alto Acre ‒ Em vista dos acontecimentos que vão desenrolando neste Departamento cuja vida normal se acha profundamente alterada, resolvi me transferir com os funcionários do Foro para Porto Acre onde provisoriamente se acha instalado o 1° Termo, e lá aguardar a comunicação de V. Exª sobre a conclusão dos mesmos acontecimentos.

É certo que V. Exª, no ofício 289, ofereceria a este Juízo todas as garantias, mas diante do pânico que se vai apoderando do espírito público, entendi que aqui não deveria permanecer. Retirando-me, como faço, deixo sob a guarda de V. Exª o arquivo do Cartório, cuja chave acompanha este, bem como peço à V. Exª garantia para a casa onde resido.

Queira V. Exª com protestos de minha consideração, aceitar os votos que faço para que em breve a calma volte aos espíritos e restabelecimento da ordem seja completo.

Saudações [assinado] – João Rodrigues Lago. (CASTRO)

Somente no dia 19 de julho, chegam, às mãos de Plácido, as duas cartas, uma do Juiz João Rodrigues Lago e outra do seu amigo Coronel Francisco de Oliveira, dono do Seringal “Catuaba”, informando-lhe que se apresen­tara ao Prefeito Gabino Besouro para ser o mediador da situação litigiosa.

Plácido responde à ambas com altivez. Ao Juiz João Rodrigues Lago:

Capatará, 19 de julho de 1908.

Exm° sr. Dr. João Rodrigues do Lago, M. D. Juiz de Direito da Comarca do Alto Acre.

Chegando neste momento à casa, deparei com a car­ta de V.Exª, que passo a responder. Ainda que não tivesse o prazer de ser particularmente conhecido, por V.Exª tenho vida pública pela qual posso ser jul­gado. Entrando o Território do Acre para a comunhão brasileira, recolhi-me à vida industrial e comercial, que absorve quase toda a minha atividade.

A dúvida e o temor que diz V.Exª pairarem sobre essa região, para mim tão querida e talvez na iminência de uma conflagração geral, deve ser mais intensa ainda no meu espírito, que sou alvo do ódio e talvez dos pu­nhais daqueles que chegados aqui ontem se julgam com mais direitos de viver nesta terra do que eu e os que como eu regam-na com suor honesto.

Como disse, tenho vida pública, e por ela posso, tal­vez, afirmar que se alguém nesta terra entrou pela porta da honra e do sacrifício, esse alguém, desculpe-me a falta de modéstia, fui eu. Com que indignação e com que dor não devo assistir, como agora, os representantes do Governo de minha pátria calcando sob coturnos os mais sagrados direitos de pessoas que me são tão caras – irmão e amigos.

Meu irmão, arrancado alta noite de casa pela solda­desca de armas embaladas, os meus amigos com a casa indefesa, assaltados em pleno dia por essa mesma soldadesca, a tiros de Mauser, vendo-se obrigados a abandoná-la para não serem assas­sinados.

O apelo não deve ser feito às vítimas para impedir a luta, sim ao agressor. Esses fatos são eloquentes de­mais para não se ignorar quem é o perturbador da ordem pública, o responsável por essa nuvem lutuo­sa que se estende sobre o Território do Acre.

Quem vai enlutar esta terra pela qual tenho tanto carinho, não sou eu, Exm°. Sr.: é o representante do Governo de nossa pátria, é o depositário do poder público! Quando penso que os que praticam essas violências são os mesmos de Canudos, que o autor dos “Sertões”, pintou com tão vivas cores, vejo que bem contra minha expectativa e vontade é chegada para mim a hora suprema da suprema resolução.

Entretanto, se o depositário do Poder Público enten­der que não deve continuar a mandar assaltar a casa de meus amigos inermes e suspender esse aparato bélico dentro da própria paz que ele acaba de perturbar, não serei eu quem vá interromper a marcha pacífica da vida acreana, na qual a minha responsabilidade moral é maior que a dele.

Se cessar a agressão, terei o prazer de ir pes­soalmente apertar as mãos de V.Exª

Do cordial admirador. [assinado] – Plácido de Castro.

Responde ao amigo Cel Francisco de Oliveira:

Capatará, 19 de julho de 1908.

Amigo Francisco de Oliveira:

Recebi tua carta de 17 do corrente, que respondo. Tu que estás bem a par de minha vida nesta terra, e onde pela qual tanto temos trabalhado, bem sabes qual a posição que tenho mantido e qual o meu espí­rito de ordem. Não te podes esquecer de que, quando vi o Prefeito descer à arena de ódios e lutas mesquinhas onde soa unicamente o eco da intriga, eu te pedi que te aproximasses dele, esforçando-se por abrir-lhe os olhos.

Pois bem, não mudei, ainda penso assim e faço questão de transigir em benefício público. Somente para minha honra e a minha vida me reservo o direi­to de fazer preço, e eu seria indigno de mim mesmo se nesta hora não soubesse o meu lugar. Devo dizer-te que estranhei que ao invés de me pe­dires uma conferência não tivesses vindo em minha própria casa, onde tu não poderias duvidar de tua segurança pessoal.

Amanhã estarei no “Benfica” às tuas ordens; mas se de fato não queres ver sangue de irmão, não leves força armada contigo nessa entrevista de amigo.

Plácido de Castro. (CASTRO)

No dia 21 de julho, responde o Prefeito Gabino Besouro ao Coronel Francisco de Oliveira:

Rio Branco, 21 de julho de 1908.

Ilm° sr. Coronel Francisco de Oliveira.

Saúdo-o afetuosamente.

Eu compreendo bem as suas inquietações, que são hoje as de todos os habitantes deste Departamento. Os desejos por V.Sa. e por outras pessoas, que em comissão me procuraram, manifestado no interesse da tranquilidade pública, são também os meus.

E nem se pode compreender que outros sejam de minha parte, quando para aqui vindo, desconhecen­do coisas e pessoas, sem ligações de interesses su­balternos, sem paixões e sem ódios, outros propósi­tos não trouxe, senão os de fomentar quanto em mim coubesse, o progresso material do Departamen­to, sem me subordinar a interesses de luta estéril, procedendo com justiça e equidade e a todos tra­tando com considerações e cortesias.

Deste programa diz-me a consciência não me ter afastado e espero não me afastarei.

Daí o não compreender a razão das notícias alar­mantes de preparativos contra a minha autoridade sem nenhuma causa justificável.

É verdade que nenhum interesse pessoal de ordem material me liga a esta terra; mas ligam-me a ela outros de ordem moral, não menos importantes, como brasileiro que deseja, investido da confiança do governo, fazer algumas coisa por seu progresso. Intermediário que V.Sa. teve a bondade de se prestar ser junto ao sr. Coronel Plácido de Castro, de quem está hoje dependendo a tranquilidade e harmonia deste povo, pois V.Sa. sabe que os boatos e as notí­cias alarmantes giram em torno de sua individuali­dade, ninguém melhor está nas condições de avaliar da gravidade ou não da situação e concorrer com os bons ofícios para que todos voltem aos labores normais.

Na carta que o Ilm°. Sr. Coronel Plácido de Castro dirigiu a V.Sa., fala em agressão de que foi vítima, dizendo assim justificar a posição de defesa em que se acha. Não sei se o sr. Cel Plácido refere-se à agressão sofrida de minha parte. Quero crer que não, pois desde que aqui estou, não pratiquei ato que pudesse sequer molestá-lo, quanto mais de agressão, que justifique essa atitude, ignoro comple­tamente e nem sequer disto sei como fato público.

O sr. Coronel Plácido afirma a V.Sa. que se puder as­sumir o compromisso de não mais continuar a falta­rem-lhe as garantias constitucionais por parte das autoridades, que na mesma hora deixará de fazer sentinela à sua casa, reassumindo de novo os seus labores habituais. Realmente nunca ao meu conhecimento chegou a notícia da queixa de qualquer violação dos direitos de que o sr. Coronel Plácido fala; mesmo, como quer que seja, eu não me sinto convenientemente apto para assumir o compromisso a que se refere V.Sa, mesmo porque é o meu dever, não só relativamente à sua pessoa, como à de qualquer cidadão.

E eu jamais toleraria uma autoridade que provada­mente se desviasse do dever do respeito aos direitos alheios. Se disto está dependendo a tranquilidade e a harmo­nia do povo acreano, que precisa de paz para o seu útil labor, tenho certo que será uma realidade essa tranquilidade de que necessita também o governo do Departamento, para poder enfrentar e resolver os problemas de administração que devem garantir o seu progresso moral e material. Quanto à conferên­cia de que V.Sa. me fala, com o sr. Coronel Plácido de Castro, cabe-me declarar que estou ao seu inteiro dispor em qualquer ocasião que julgar oportuna.

Queira V.Sa. aceitar; os protestos de estima e consideração. De v.v. att° ven° am° e obgm° [assinado] Gabino Besouro. (CASTRO)

Relata-nos Cláudio de Araújo Lima que, logo depois de responder às cartas do Juiz Lago e do amigo Francisco, Plácido de Castro, escreve, já na madrugada de 20, a um amigo de Manaus esta carta, exprimindo claramente o temor que assaltava seu espírito:

[…] Escrevo-te estas linhas dentro de um verdadeiro acampamento de guerra e bem contra a minha von­tade. Por minha correspondência anterior já deves saber que a única preocupação do atual Prefeito é botar-me fora do Acre por todos os meios […] Em vista destes acontecimentos, nada mais podia o Genesco duvidar sobre a nossa sorte, e, apesar de achar-me no Xapuri, reuniu gente imediatamente em nossos seringais e despachou um próprio ([1]) em minha procura, que me encontrou já em viagem a meio caminho.

Aqui cheguei e, tomando conhecimento de todas estas misérias e bem à contragosto, resolvi botar para fora estes bandidos; fiz avançar piquetes até além do Guarani e dentro de quatro dias eu saberia qual o meu destino ou o desse Besouro, que tanto me tem zumbido. Mas, felizmente, hoje veio um emissário dele e de alguns amigos meus, a me pro­porem que detivesse a minha marcha, que Besouro, por sua vez, se desarmaria.

Que para mim, que ia fazer um morticínio, bem contra a minha vontade, somente em defesa própria e de amigos meus assaltados, e não uma revolução, isto será o verdadeiro maná caído do céu. Oxalá cheguem a duradouro acordo.

Teu amigo, Plácido. (LIMA)

No dia 21 de julho, o amigo Francisco de Oliveira assenta-lhe as bases da pacificação, e, cheio de espe­ranças, mostra a Plácido a carta recebida de Besouro. Aparentemente a missiva indicava que o Prefeito con­cordava com os termos de Francisco de Oliveira. Conta-nos Genesco de Oliveira Castro:

Cheguei a Capatará no dia 23, à noite, depois de haver percorrido cerca de cem quilômetros em canoa, e três vezes mais de caminhos terrestres, alguns péssimos e perigosos, como o de “Batávia” a “Bagaço”. As minhas primeiras palavras sobre a pacificação foram reprovando-a, porque achava que, uma vez que havíamos armado gente para reagir, forçados pela conduta do Prefeito, devíamos ir até o fim.

Mas, Plácido me ponderou:

–  Lembra-te de que eles são irresponsáveis e queimam pólvora alheia. Eles nada têm a perder, e nós, tudo. Eles nos fazem guerra à custa dos cofres públicos, e nós a temos que fazer à nossa custa… Eu tenho res­ponsabilidade, estou ligado a esta terra e, a atitude que éramos forçados a tomar, seria a nossa ruína […]

Ele tinha muita razão: tudo era contra nós. Passa­mos a noite quase em claro, discutindo a situação em que nos encontrávamos, de constantes sobres­saltos e de contínuos prejuízos comerciais, devidos à tenaz perseguição que lhe moviam todos os Prefeitos do Acre, e meu irmão concordou em abandonar a terra que ele entregara livre à comunhão brasileira e que, desde então, gemia sob a mais desumana escravidão. (CASTRO)

Reporta-nos Cláudio de Araújo Lima:

Quando a madrugada vai alta, uma ideia já se antepôs às outras, dominadoramente. O libertador do Acre tem como definitivamente deliberado que, logo após a conferência com Besouro, se retirará de uma vez do Acre que tanto estremece. Transferirá todo o ativo e passivo de sua casa comercial a Ge­nesco. Regressará ao Rio Grande do Sul, para casar-se e iniciar outra vida. Talvez assim seja feliz. E mais feliz, sem sua presença, se torne também o Acre.

AFINAL A PACIFICAÇÃO 

A 7 de agosto, realizou-se na sede do governo prefeitural do Alto Acre – em Vila Rio Branco – a con­ferência ajustada entre o Coronel Gabino Besouro e Plácido de Castro. Do que se discutiu e deliberou entre quatro paredes, até hoje nada se apurou ao certo. Só o que se pôde ouvir, à hora da despedida, foi esse fim de diálogo, que prometia ao Acre uma nova era de tranquilidade:

‒  Coronel Plácido, espero que este abraço seja o selo da paz entre nós no Acre.

Ao que Plácido de Castro retorquiu, com aquela sua inata tendência a prolongar indefinidamente (?) o fôlego dos ressentimentos:

‒  Assim seja, Coronel. Mas V. Exc.ª era quem queria a guerra.

Devia ser a paz. Mas o fato é que a dissipação da borrasca era apenas aparente. Senão, Genesco de Castro não teria datado desse mesmo dia a carta-aberta que decidira dirigir ‒ se com o beneplácito do irmão, não se sabe ‒ ao Chefe da Nação:

Sr. Presidente da República:

Se os crimes que venho denunciar ameaçassem simplesmente a minha vida, eu não viria, creia, à vossa presença denunciá-los, porque daria um ates­tado de covardia de minha parte, ou mostraria estar sofrendo da mesma enfermidade [mania de perse­guição], que o vosso escolhido para administrar este infeliz Departamento.

Nos primeiros dias do mês passado fomos preveni­dos de que o Prefeito deste Departamento havia presidido um concílio de assassinos, onde se resolveu fossem assassinados Plácido de Castro, José Maria Dias Pereira e Dr. João Rodrigues do Lago, coincidindo essa notícia com a nova aqui espalhada pelo subprefeito, que o “Coronel Gabino Besouro havia recebido do governo reservadas e severas instruções sobre a pessoa do Coronel Plácido por causa da atitude do Correio do Norte”.

Quinze dias apenas, depois de havermos sabido da resolução do Prefeito, já se havia inventado uma revolução na Prefeitura, tentado duas vezes contra a vida de Plácido de Castro e uma contra a de Dias Pereira, sem que providência alguma fosse tomada!

Mesmo porque os heróis dessas façanhas são o subprefeito Simplício de tal, o Delegado Josias Lima e o subdelegado Alexandrino José da Silva, bêbado contumaz, criminoso relapso e íntimo do Coronel Besouro!

Esse estado de coisas pareceu serenado por alguns dias, mas o fato de mais um conhecido assassino ser chamado para a administração Besouro, levanta uma atmosfera de traição e de perversidade em torno da sua autoridade como Prefeito deste infeliz Depar­tamento, cuja sede se acha transformada num covil de bandidos, e faz supor que, de fato, alguma coisa muito grave, se não perversa, está sendo executada à sombra do representante do vosso governo, Sr. Presidente.

Tanto assim que, na qualidade de irmão de Plácido de Castro, sentindo o peso desta atmosfera sangui­nolenta, indo eu à presença do Sr. Gabino relatar-lhe os graves acontecimentos que impressionam, ele justificou esses atentados traiçoeiros e absolveu os criminosos! É nessa contingência, Sr. Presidente da República, que vos peço providências que ponham a pessoa de meu irmão, a salvo do punhal da primeira autoridade deste Departamento!

Empresa, 7 de agosto de 1908.

Genesco do Castro.

No dia seguinte ‒ 8 de agosto ‒ Plácido de Castro ainda se encontra na Vila. Disposto que está a viajar para o Sul, com o propósito íntimo de não mais vol­tar ao Acre, aproveita a estada em Rio Branco para fazer seu testamento.

[…] Plácido prepara-se para regressar a “Capatará” no mesmo dia. Em sua companhia viajarão também dois amigos particulares – José Alves Maia e o Promotor Dr. Barros Campelo – ambos convalescentes de enfermidade grave, e que pretendem refazer-se na confortável e salubérrima zona dos campos, onde há leite abundante e clima magnífico. Nos campos “Esperança” encontrarão um verdadeiro sanatório.

À última hora, porém, Alves Maia desiste de acompa­nhá-lo, nessa viagem noturna que Plácido decidiu fa­zer, por estar avisado de que seriam atacados numa emboscada. O gaúcho sorri, e lembra ao amigo te­meroso a cena que tivera lugar na véspera, quando de sua chegada para a entrevista com o Prefeito. Ao defrontar Alexandrino, que chilreava numa roda de moradores da Vila, aproximou-se dele com ar de superioridade, interpelando-o em voz alta para que todos o ouvissem:

–  Então, Coronel Alexandrino? Soube que o senhor andou dizendo que ia me matar, onde me encontrasse. A ocasião é ótima. Aqui está a sua vítima.

A coragem de Plácido desnorteia o facínora. Este se descobre com ar respeitoso, esboça um sorriso amá­vel e responde, em voz alta:

–  Isto é uma “caluna” que me “levantaro”, seu “Coroné”.

E Plácido ainda lhe atira, cheio de desprezo, uma última frase, repisando a torpeza de sua prosódia ([2]):

‒  Pois se é “caluna”! Melhor para você. (LIMA)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 25.02.2022 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia  

CASTRO, Genesco de Oliveira. O Estado Independente do Acre e J. Plácido de Castro: Excertos Históricos – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Tipografia São Benedicto, 1930.

LIMA, Cláudio de Araújo. Plácido de Castro, um Caudilho Contra o Imperialismo – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Companhia Editora Nacional, 1952.   

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]   Próprio: mensageiro.

[2]   Prosódia: vocalização correta das palavras.

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