A Terceira Margem – Parte CCCXXXVIII

Expedição Centenária Roosevelt-Rondon 3ª Parte – XLVI

Hiram Reis

Heróis Desconhecidos – I

Heroísmo
(Magalhães, 1942) 

PARA MIM, ESTE HEROÍSMO É BEM MAIS NOBRE E BEM MAIS DIFÍCIL, DEMANDA MUITO MAIS ENERGIA E TENACIDADE DO QUE O HEROÍSMO DO MOMENTO, DE DURAÇÃO EFÊMERA, COMO O QUE REQUER O ATAQUE DE UMA TRINCHEIRA INIMIGA: A PRIMEIRA É UMA TEMERIDADE REFLETIDA; A SEGUNDA, UMA TEMERIDADE QUE SE INCENDEIA COMO A PÓLVORA NEGRA, AO CALOR REPENTINO DO ENTUSIASMO CONTAGIOSO DAS MASSAS, QUE ARRASTAM O HOMEM ÀS MAIORES LOUCURAS.

LÁ É O COMANDANTE QUE FASCINA A MASSA COM O SEU ENTUSIASMO VIRIL, AQUI A MASSA QUE ELETRIZA O COMANDANTE, ENVOLVENDO-O NA ONDA MAGNÉTICA DOS HURRAS COMUNICATIVOS…

Ontem como Hoje… 

Os vivos são sempre, e cada vez mais, governados necessariamente pelos mortos.
(Isidore Auguste Marie François Xavier Comte)

A história do mundo nada mais é que a biografia dos grandes homens. (Thomas Carlyle)

A mais autêntica homenagem que se pode prestar aos grandes vultos da Pátria é manter viva a lembrança de seus feitos, interpretar os acontecimentos de que participaram e recolher os dignos exemplos que nos legaram. (Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Ed Nova Fronteira)

Pena que as autoridades tupiniquins não tenham tido a capacidade de aquilatar a relevância de nossa Descida pelo antigo Rio da Dúvida, hoje Rio Roosevelt, desde Rondônia, atravessando o Noroeste do Mato Grosso até o Amazonas, e da homenagem que seus expedicionários se propunham a prestar à memória de Cândido Mariano da Silva Rondon – o Marechal da Paz e a Theodore Roosevelt – o ex-Presidente dos EUA.

Comissão Rondon – Cel Magalhães, 1942.

Há exatos cem anos, estes dois grandes nomes da historiografia universal gravaram para sempre, seus nomes no “pantheon” dos heróis da humanidade ao realizar a épica descida por um Rio totalmente desconhecido, permeado de diversos Saltos, Cachoeiras e Rápidos, desafiando a turbulência de suas águas e enfrentando as agruras de um ambiente hostil, sem poder contar com qualquer tipo de socorro externo. Os séculos correm celeremente pela nossa querida e malfadada “Terra Brasilis” e continuamos eternamente, marcando o passo, estagnados moralmente, “in æternum”, citados como “o país do futuro”, um porvir que cada vez parece tornar-se mais e mais longínquo.

Um povo que ignora o esforço titânico de seus antepassados, que é incapaz de cultuar seus valores mais caros não conseguirá, jamais, almejar um futuro pródigo para seus filhos. O Hino do Rio Grande do Sul traz na sua bela letra uma insofismável verdade: “Povo que não tem virtude / Acaba por ser escravo”. O Coronel Amílcar A. Botelho de MAGALHÃES, há mais de setenta anos, já apontava esse equívoco cometido pelas autoridades republicanas em relação ao próprio Rondon:

O lado moral, o lado heroico, o prisma sob o qual pudesse a nação aquilatar das dificuldades vencidas e dos sacrifícios empregados para chegar a essa quilometragem aritmeticamente contada e reduzida a mapas e a esquemas, são faces da questão votadas ao silêncio, ao desprezo e quiçá mesmo ao ridículo dos homens de gabinete, incapazes de aguentar alguns meses de Sertão… Dos vastos e admiráveis relatórios, que andam por cinquenta volumes, apresentados pelo General Rondon ao Governo da República, vede o que transcrevem, sem cor e sem entusiasmo, quase todos os Excelentíssimos Srs. Ministros da Guerra e da Viação e Obras Públicas em seus relatórios anuais. Através dos Relatórios Ministeriais, a obra de Rondon é quase uma obra de anão! (MAGALHÃES)

Heróis Anônimos 

Da vontade fizeram renúncia como da vida… Seu nome é sacrifício. POR OFÍCIO DESPREZAM A MORTE E O SOFRIMENTO FÍSICO… A gente conhece-os por militares… por definição, o homem da guerra é nobre. E quando ele se põe em marcha, à sua esquerda vai CORAGEM, e à sua direita a DISCIPLINA. (Guilherme Joaquim de Moniz Barreto – Carta a El-Rei de Portugal, 1893).

Evidentemente, a modelar conduta de Rondon cooptou o coração e as mentes de seus jovens Oficiais que tão galhardamente seguiram seu exemplo e, algumas vezes, imolaram-se anonimamente a serviço da Pátria. Não atacaram o inimigo nem tomaram de assalto suas instalações – seu foco era a Missão, estendendo linhas telegráficas ou demarcando os Sertões de “brasis ainda sem Brasil”; por vezes sacaram de suas armas atirando para o alto – morreriam, e alguns pereceram, se fosse preciso, mas não matariam nunca nossos aborígenes; foram arrojados e indômitos – enfrentaram as vicissitudes da selva e de seus habitantes hostis; cumpriram bravamente o que lhes foi determinado sem jamais titubear ou contestar as ordens recebidas. Novamente recorreremos a um capítulo do livro “Impressões da Comissão Rondon”, do Coronel Amílcar Armando Botelho de MAGALHÃES, para apresentar alguns destes homens de fibra inquebrantável, prestando uma justa homenagem a todos os heróis esquecidos, militares e civis, que tombaram nos “ermos sem fim” dos Sertões inóspitos, lançando linhas telegráficas ou demarcando nossas fronteiras.

UMA PÁGINA DE SAUDADE 

1° Ten JOÃO SALUSTIANO LYRA 

De todos os vultos que desapareceram no decorrer dos trabalhos da Comissão Rondon, o primeiro nesta homenagem que lhes vou prestar, com pungente saudade, não só por justiça como pelo grau afetivo particular que me ligava a cada um deles, cabe ao distinto companheiro 1° Ten João Salustiano Lyra, provecto engenheiro-militar tão cedo roubado ao nosso convívio.

1° Ten João Salustiano Lyra

Vissem-no de perto como eu, robusto e jovial, modesto e sensato; cordial como todo indivíduo dotado de espírito superior; enérgico nos momentos precisos, sem quixotadas, mas firme, resoluto, inabalável, orientado pela bússola invariável da dignidade e do dever, e certamente lamentariam do fundo da alma que uma juventude tão esperançosa fosse bruscamente suprimida pelo destino! Da sua capacidade, sempre vitoriosa a cada prova a que fora submetida, de seu brilhante talento, de seu já vasto cabedal científico e prático, de suas elevadas virtudes, não só o Exército como o Brasil, e quiçá a humanidade, teriam colhido extraordinárias vantagens se bem longa houvesse sido a sua trajetória na vida.

Digno êmulo de Rondon nas grandes explorações do Sertão, foi ele o único a quem o notável Chefe confiou o serviço da vanguarda, que é afinal, propriamente, toda a exploração, e requer qualidades raras de inteligência, golpe de vista, decisão, tato especial; bastava isto para o recomendar se ele não trouxesse, desde os bancos escolares, a tradição de um merecimento que se destaca do comum de uma geração. Tomou parte com o General Rondon em quatro Expedições: as três grandes Expedições de reconhecimento e exploração de 1907, 1908 e 1909, de Mato Grosso ao Amazonas, e a Expedição Científica Roosevelt-Rondon em 1913-14. Em todas afrontara perigos e privações inenarráveis; por muitas vezes sentira a iminência de perder a vida!

Quis um destino caprichoso, imprevisto como todos os destinos, que fosse perder a vida num pequeno Rio (Sepotuba, afluente da margem direita do alto Paraguai) aos 03.04.1917, quando dirigia uma turma independente de serviço geográfico, em trabalhos de levantamento da carta de Mato Grosso.

Como a sua vida excepcional, excepcional foi também a sua morte, envolvida no mistério da ausência de testemunhas. Estas apenas assistiram à primeira fase do desastre que o vitimou; como desapareceu, e para sempre, o seu corpo na profundeza das águas, ninguém o sabe… No cenário apenas quatro protagonistas, dois que pereceram e dois que se salvaram; uma corredeira impetuosa onde as águas borbulham e burburinham, espadanando sobre rochedos; em torno a floresta despovoada, silenciosa e indiferente como toda massa inerte da natureza…Nesse desvão sem glória, a mão do destino apaga facilmente uma existência gloriosa e uma juventude viril também preciosa ‒ Lyra e Botelho.

Tem muita força a fatalidade: como conceber de outra forma que dois grandes nadadores, de fortes músculos, acostumados a esforços mais violentos, fossem vencidos nessa luta?! Ainda mais quando a calma revelada pelos náufragos levouos a atirar para terra as cadernetas de levantamento, para que não se perdessem na corrente e com elas desaparecesse o resultado do trabalho até aí executado; quando espontaneamente atiram-se na água, na convicção de que tal iniciativa evitaria, como evitou, a submersão da pequena canoa em que navegavam!

Esta, flutuou realmente, depois de colher em seu bojo boa porção de líquido, e, arrastada pela correnteza só pôde ser atracada à margem 200 m a jusante, apesar do esforço neste sentido empregado pelo piloto. Fora lançado na água, ao primeiro desequilíbrio da canoa, o proeiro, que nadou para a margem e nada mais viu, porque tratara apenas de se salvar. O piloto, no último olhar que lançou para a retaguarda, viu ainda os dois oficiais à tona da água; quando saltou em terra e correu margem acima ao local do sinistro, nenhum vestígio mais deles encontrou: haviam desaparecido.

Aos gritos do piloto, na esperança de que os oficiais, arrastados pela velocidade das águas, pudessem ter saído mais abaixo, apenas o eco respondeu… Por terra, trilhando caminhos diferentes, a tropa diariamente vinha à beira do Rio, ao encontro da turma de levantamento, em pontos previamente determinados pelo Chefe da Expedição ‒ Tenente Lyra. E era essa justamente a última etapa a vencer, para amarrar o serviço a Tapirapuã, porto da margem esquerda do Sepotuba [hoje Rio Tenente Lyra] até onde, desde a foz, a Comissão havia já executado o levantamento desse curso de água. A última etapa correspondeu, assim, o último dia de vida dos dois distintos oficiais. Os sobreviventes pediram socorro ao pessoal da tropa e todos reunidos porfiaram em encontrar os corpos dos malogrados exploradores. Ao terceiro dia de pesquisas infrutíferas, deram sepultura ao Tenente Eduardo de Abreu Botelho, mas não foram jamais encontrados os restos mortais do Primeiro-Tenente Lyra.

Estava em impressão nesse momento o último trabalho realizado pelo Primeiro-Tenente Lyra, correspondente ao serviço astronômico da Expedição Roosevelt e o Sr. General Rondon; em homenagem ao mérito e aos serviços desse dedicado ajudante, determinou a inclusão de seu último retrato nessa publicação [Publicação n° 52 da Comissão Rondon].

Muito teria eu a dizer se fosse possível estender mais as presentes apreciações sobre a inconfundível personalidade do Tenente Lyra; mas, seria descabido para o caráter deste modesto opúsculo, escrito nas horas vagas, durante as viagens de bonde e de trem, ou enquanto esperava ser despachado nos Ministérios e nas Repartições Públicas, onde me levavam constantemente as funções do cargo que exerço na Comissão (Chefe do Escritório Central).

2° Ten EDUARDO DE ABREU BOTELHO 

A morte deste oficial ocorreu conforme está exposto linhas antes. Seu corpo foi encontrado em adiantado estado de putrefação, deformado pelos peixes e tendo em uma das mãos um fragmento de cipó, a que provavelmente se agarrara nos últimos instantes de vida, na ânsia do salvamento. A pedido de sua desolada família, os seus restos mortais foram exumados no Sertão e conduzidos pela Comissão ao Rio de Janeiro. Ficou-me para o resto da vida a forte impressão de dor e de saudade inenarrável de sua velha mãe, atingida por tão prematuro golpe: as suas lágrimas incontidas e o seu aspecto desolado, faziam-na como a encarnação da mágoa humana, quando defrontou a primeira vez comigo, depois da triste ocorrência que me competira comunicar-lhe muitos dias antes, por intermédio de sua Exmª filha. Pesada incumbência essa de transmitir às famílias, com as delicadezas que o caso requer, o desaparecimento de um companheiro de trabalho! Várias vezes, infelizmente, tive que desempenhá-la nestes seis anos de escritório! Do opúsculo “O desastre do Sepotuba”, cuja publicação o escritório central autorizou (por conta dos recursos obtidos mediante subscrição aberta pelos companheiros da Comissão, para as despesas da missa solene, em homenagem à memória dos dois inesquecíveis mortos), transcrevo os seguintes tópicos:

Admiradores dos trabalhos patrióticos da Comissão que a sabedoria popular designou com a mais ampla justiça ‒ Comissão Rondon ‒ resolveram publicar as seguintes notas, obtidas no escritório central da Comissão, com os comentários que aqui expõem, a fim de prestar uma singela mas expressiva homenagem aos dois dignos oficiais, recentemente desaparecidos no sinistro ocorrido em águas do Rio Sepotuba, aos 03.04.1917.

Acreditam que a simples leitura destas despretensio­sas notas e dos documentos que exibem, sirvam para despertar na mocidade brasileira o interesse pelas coisas do Brasil, salvando a memória dos heróis protagonistas do mar da indiferença. Ecoou doloro­samente por todo o Brasil esse desastre que teve por teatro o extremo Sertão Noroeste de Mato Grosso e do qual foram vítimas dois distintos oficiais do nosso Exército, ali em trabalhos da Comissão Rondon. Pela segunda vez, a fatalidade veio desta forma cobrir de luto a brilhante e patriótica corte de oficiais que, em torno do valoroso, experimentado e competente em­genheiro-militar que é o Cel Rondon – o notável sertanista patrício – tem dedicado uma parcela de vida e a totalidade de seu entusiasmo varonil aos perigos imprevistos de explorar os nossos Sertões. Ainda ontem caía Marques de Sousa, em pleno coração de Mato Grosso, quando explorava o então Rio Ananás, sagrado depois com o seu heroico nome; hoje sentimo-nos abalados com o desaparecimento de outros dois jovens oficiais, arrancados à vida pelas águas revoltas do vertiginoso Sepotuba. Ajoelhemo-nos, com veneração máxima, diante destes dois no­vos túmulos que se abrem, e apontemos à mocidade de nossa Pátria esse nobre exemplo, estoico, sublime, com que se sagraram para sempre heróis benditos, esses tipos de energia máscula, misto de ousadia bandeirante e de intenções patrióticas, sempre orien­tadas por consciente dedicação ao serviço público. Dois nomes mais inscreveu a história Pátria na lista dos que morreram no cumprimento do dever, no teatro das mais arrojadas Expedições dos que sacrifi­caram a vida em trabalhos úteis, colimando o progresso do país: o 1° Ten Engenheiro-Militar João Salustiano Lyra e o 2° Ten Eduardo de Abreu Botelho, seu digno auxiliar. E daqui fazemos um justo apelo ao Legislativo para que, igualmente, em homenagem aos dois pujantes troncos derribados prematuramente por cruel fatalidade, conceda uma pensão ([1]) aos herdei­ros dos Ten Lyra e Botelho, tal como muito legitima­mente concedeu aos herdeiros de Marques de Souza.

A Comissão Rondon se ufana de o poder aqui registrar, pela minha desautorizada voz. (MAGALHÃES,1942)

Amilcar Armando Botelho de Magalhães.j

Os companheiros de trabalho da Comissão Rondon e os que a esta pertenceram, mandaram celebrar, no dia 3 do corrente, uma missa no altar-mor e duas outras nos altares laterais da suntuosa Igreja da Candelária, em homenagem à memória de seu s bravos companheiros Tenentes Lyra e Botelho. Durante a tocante cerimônia, a parte musical e de cânticos, organizada pela Exmª Sr.ª D. Margarida Calasans, esposa do Dr. Armando Calasans, forneceu uma suave e carinhosa nota artística à solenidade, despertando grande emoção na numerosa assistência.

Fizeram-se ouvir então Madame Calasans em primeiro lugar, cantando o “Pia Jesus”; em seguida madame, Siqueira no “Trio de Bacchi”. As duas senhoras, esposas de dois ex-ajudantes da Comissão Rondon, bem como a senhorita Lourdes Vallim, que cantou o “Salutaris”, prestaram gentilmente o seu concurso à grandiosidade dessa manifestação de sentimento, pela perda irreparável dos dois queridos mortos. O Sr. Hess Mello executou belíssimo solo de violoncelo. Todos os acompanhamentos foram prestados pelo exímio artista que é o maestro Figueira.

Finalmente, cabe aqui a referência à saudação que o General Rondon leu no cemitério de S. Francisco Xavier, ao serem recolhidos os despojos do Tenente Botelho ao jazigo perpétuo da família, saudação que já foi integralmente transcrita no capítulo “O estilo é o homem”. (MAGALHÃES, 1942)

Reproduzimos abaixo a locução pronunciada por Rondon, mencionada por Magalhães no parágrafo anterior:

Cumprimos, nós, da Comissão Telegráfica, o doloroso dever de render esta singela homenagem à memória do saudoso Segundo-Tenente Eduardo de Abreu Botelho. Venerar e amar a memória de quantos concorreram com uma parcela do seu esforço para a grandeza e civilização da nossa Pátria, é um dever cívico a todo mundo imposto. Entre os muitos que deram, com a sua vida, prova de amor, de patriotismo, pela obra da integração do Sertão ao patrimônio nacional, é de justiça mencionar o simpático oficial do Exército Tenente Eduardo de Abreu Botelho.

Ainda como Alferes-aluno, ele comandou o 2° Destacamento Militar que foi instalado na Ponte de Pedra sobre o Sacuriú-Iná, para policiar o Grande Sertão, procurando então congregar, em núcleo indígena, os Parecis-Cachinitis do vale desse Rio e do Anhanazá. Fundou o segundo núcleo de Utiarity, reunindo ali os Parecis-Uaimarés, do vale do Timalatiá. Completou a instalação da estação telegráfica de Vilhena e organizou o serviço de conservação da linha, construída em pleno coração do Noroeste mato-grossense. Daí partiu para cooperar na construção do Norte, servindo no setor do Madeira. A segunda fase da sua ‒ para sempre interrompida ‒ carreira, ainda na Comissão telegráfica, depois de um interregno de caserna, consistiu em trabalhos prestados à carta de Mato Grosso.

O destemido oficial fez parte da turma de exploração geográfica chefiada pelo valoroso engenheiro militar, o eternamente glorioso Primeiro-Tenente João Salustiano Lyra, a quem a fatalidade o ligou no desespero do último momento, para nunca mais as memórias desses dois oficiais se separarem. Foi no desempenho deste espinhoso dever que Botelho desapareceu do cenário da intensa vida nacional.

Os dois malogrados oficiais exploravam as cabeceiras do alteroso Sepotuba. Haviam pesquisado todos os recantos e segredos de um dos formadores do Rio. Desciam-no para completar o trabalho. Os perigos se sucediam de Catadupa em Catadupa, de Salto em Salto, de Cachoeira em Cachoeira. O Rio era um só Rápido. Após três naufrágios sucessivos, em que o Tenente Lyra, em fragílima piroga operava, auxiliado pelo radiotelegrafista Magalhães, que não sabia nadar, o abnegado Tenente Botelho, que então, por terra acompanhava a turma de serviço, se oferece para substituir o telegrafista que três vezes escapara de morrer afogado. Dolorosa fatalidade!

O bravo oficial, como o seu denodado Chefe de turma, se distinguia como nadador. Confiantes em si mesmos, nos seus músculos bem treinados, embarcaram e desceram o Rio os intrépidos oficiais, arrostando a fúria das correntes. Mal haviam se desembaraçado dos primeiros tropeços da partida, foram logo atropelados pela impetuosidade das corredeiras. O leito do Rio é cavado na declividade dos últimos espigões das abas da serra dos Parecis e do seu grande contraforte, a serra de Tapirapuã. Justamente por isso, naquele trecho, entre o Salto das Nuvens e o da Felicidade, as águas se entrechocam em convulsões desesperadas. A embarcação é assoberbada pelos furiosos embates das ondas. Era inevitável o naufrágio.

Para impedir a perda do material, os dois oficiais lançaram-se no Rio, vestidos e equipados como se achavam. Arriscaram a vida para salvar o serviço! A luta foi tremenda. A canoa com seus dois tripulantes, assim aliviada, foi repentinamente atirada, Rio abaixo, para bem longe. Os oficiais são arrebatados pela corrente. Os tripulantes tentam salvá-los. Impossível a subida da canoa.

O Ten Lyra debatia-se na convulsão das vagas da Cachoeira. E o seu equipamento não lhe permitia maior liberdade de ação. O intrépido Tenente Botelho demandou a ribanceira. Alcançou-a. Na ânsia da salvação, volta a vista para o camarada, que se debatia no infernal rebojo. Atira para a barranca a caderneta que trazia à mão. Salva o serviço! Volta “incontinenti” para acudir o companheiro, pensando salvá-lo também. Momento de desespero! Os dois abraçados lutam contra o ímpeto das fragorosas ondas. Vãos esforços! A fatalidade venceu o ânimo. Os dois companheiros, num sublime e fraternal amplexo de solidariedade humana, sumiram-se na voragem das vagas. Abismaram-se às profundezas das locas (furnas) da Cachoeira. Sacrificaram-se pelo serviço. Sublime dever!

Seria doloroso homenagear um destes oficiais, sem lembrar o outro. Embora de caráter muito íntimo, como é a solenidade deste culto de família, falando de Botelho, não poderíamos deixar de lembrar do Lyra.

Por isto solicitamos o necessário perdão, caso possam as nossas referências profanar o sagrado remanso deste eterno jazigo, na consagração do culto, que neste instante tributamos à memória do Tenente Eduardo de Abreu Botelho, com profunda saudade do seu companheiro de desdita. Nobre camarada, aqui, diante dos teus sagrados despojos estão os teus companheiros de Sertão; os teus amigos, os teus Camaradas do Exército, a tua família, que vieram trazer-te o último adeus. Sendo verdade que “os vivos são sempre e cada vez mais governados necessariamente pelos mortos”, a tua memória não desaparecerá das almas dos teus companheiros, do coração da tua família, da lembrança da sociedade que serviste. O teu nobre exemplo será ensinamento para as gerações vindouras, que cultuarão o teu nome pelo rasgo de altruísmo em que sepultaste a tua vida.

Morreste para salvar o companheiro. Edificante lição!

Desapareceste da ação objetiva para reviveres nas exortações subjetivas dos que acreditam na regeneração social. A nossa saudade é sincera, como profunda é a convicção que temos de estar trabalhando pela grandeza da República, da qual o Exército jamais se desinteressará. A nossa gratidão se nivela à veneração com que cultuamos os feitos dos grandes servidores. Redivivo serás, nobre Botelho, nos corações dos teus companheiros da Comissão Telegráfica. Cansa-se de pensar, cansa-se de agir, nunca se cansa de amar.

Que prazeres podem exceder aos da dedicação?

Não há de irrevogável na vida senão a morte.

Para bem cumprirmos o dever, precisamos ter o coração sempre cheio, mesmo de dor, da mais amarga dor!

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 04.11.2021 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia 

MAGALHÃES, Amílcar Armando Botelho de. Impressões da Comissão Rondon (1942) – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Companhia Editora Nacional, 1942.  

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;  

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]    O Congresso Nacional concedeu essa pensão, por Decreto, em 1918.

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