Brasil: “A sensação é de que o nosso dever de casa, em grande medida, já foi feito na área de energia”

Embaixador do Brasil nas Nações Unidas, Ronaldo Costa Filho, falou à ONU News nesta quarta-feira. O diplomata destacou os compromissos climáticos assumidos pelo Brasil durante a COP26 e acredita que o país está com “o dever de casa em dia” no setor energético.

Em entrevista à ONU News, o Embaixador do Brasil nas Nações Unidas, Ronaldo Costa Filho destacou os acordos feitos pelo país durante a COP26. Entre eles, o Brasil se comprometeu a reduzir pela metade as emissões até 2030 e neutralizar até 2050.

Falando sobre a produção de alimentos, importante atividade econômica, o diplomata afirmou que há grandes progressos para uma agricultura eficiente sem comprometer o nível da produção, que alimenta “um bilhão de pessoas diariamente”.

O representante brasileiro também contou que o país, grande exportador de carne bovina, faz pesquisas para reduzir emissões de carbono na atividade pecuária. Confira os detalhes da conversa.

ONU News, ON: Olá, como vai?  Bem-vindo ao Destaque ONU News em edição especial. Eu sou Mayra Lopes e hoje estamos com embaixador do Brasil nas Nações Unidas, Ronaldo Costa Filho.

O embaixador já representou o Brasil na Missão junto à União Europeia, em Bruxelas, na Delegação Permanente em Genebra, na Embaixada em Quito e faz sua segunda participação na Missão do Brasil junto às Nações Unidas, aqui em Nova Iorque. Bem-vindo à ONU News português.

Ronaldo Costa Filho, RCF: Muito obrigado, Mayra é uma satisfação estar de volta aqui na ONU News.

ON: A gente queria conversar um pouco sobre a COP26, que acontece esta semana e que tem dominado a pauta durante os últimos dias. O Brasil sempre foi um país que liderou as conversas ambientais e que sempre teve uma participação bastante expressiva nesse assunto. Mas também é um país que tem uma produção agrícola muito grande e muitas vezes essas pautas se confundem um pouco. O que se pode esperar da atuação do Brasil na COP. O que destacaria sobre o assunto?

RCF: Bom, a primeira coisa é realçar que o Brasil, sim, sempre foi um país líder no tratamento do tema do desenvolvimento sustentável. E isso vem da Conferência de 1992 no Rio de Janeiro.  E um processo todo que consolidou o conceito de desenvolvimento sustentável, que é a base do trabalho na área econômica e ambiental aqui nas Nações Unidas.

É um conceito que privilegia o desenvolvimento em suas três dimensões: o econômico, o social e o ambiental. E o nosso empenho é para que se preserve essa visão, porque nosso entendimento é de que não há como tratar de um pilar sem tratar dos demais.

No que diz respeito especificamente à COP26, o Brasil anunciou, em Glasgow, um aumento das suas metas de redução de emissões. Nós tínhamos um compromisso de reduzir em 43% as emissões, até o ano de 2030, com base nas emissões de 2005. Em Glasgow nós elevamos isso para 50%. Ratificamos o nosso compromisso em ter uma economia neutra em emissões de carbono até 2050. E temos acho que outras credenciais que representam a liderança e o destaque do Brasil nesse campo.

Nós temos a ciência de que a pecuária é fonte de contribuição para emissões de metano no mundo, mas já há pesquisas em andamento no Brasil de maneira a reduzir essa emissão pela pecuária brasileira

Um campo, por exemplo, é a energia em que o Brasil ultrapassa em 80% a produção de eletricidade por fontes renováveis. O que se compara com uma média mundial de em torno de 23%.

Na área de transportes, se amplia o conceito de energia também para o transporte, a nossa matriz energética também extremamente renovável, com 43% que se compara com algo em torno de 15% para o mundo inteiro. Então, nós temos a sensação de que o nosso dever de casa, em grande medida, já foi feito nessa área de energia.

Na sua pergunta você relaciona a questão do meio ambiente à questão da agricultura. E é verdade. Toda a atividade econômica terá um impacto sobre o meio ambiente. E a agricultura brasileira tem se desenvolvido de uma maneira extraordinária.

Eu me lembro que na década de 90, o Brasil era o importador líquido de alimentos. Hoje, o país alimenta cerca de 1 bilhão de pessoas, por dia.  E isso se logrou através de intensa aplicação da ciência e da tecnologia para tornar a agricultura brasileira mais eficiente.

A eficiência não quer dizer, necessariamente, um menor impacto no meio ambiente. Tem sido constante essa busca por maior eficiência em que esse aumento extraordinário da produção brasileira não se fez à custa de ampliação significativa do território brasileiro dedicado à agricultura. Cerca de 8% apenas do território brasileiro é utilizado pela agricultura. Então, nós temos a convicção de que estamos fazendo a nossa parte. É possível melhorar? Claro que é possível.

Lembro que em Glasgow agora se assinou dois acordos: um para a redução do desmatamento ou eliminação do desmatamento até 2030 o que coincide com um compromisso já assumido pelo presidente Jair Bolsonaro na Cúpula Climática convocada pelo presidente Biden e o segundo acordo é a redução de 30% da emissão de metano, que é outro gás de efeito estufa.

Nós temos a ciência de que a pecuária é fonte de contribuição para emissões de metano no mundo, mas já há pesquisas em andamento no Brasil de maneira a reduzir essa emissão pela pecuária brasileira, o que garantirá ao Brasil não só a redução das emissões como a continuidade do suprimento de nutrição para mais de 190 países.

ON: São metas ambiciosas, mas necessárias da forma como a gente vem acompanhando as mudanças climáticas, então são é super necessário que elas aconteçam. Embaixador, para finalizar a última vez que esteve aqui, tinha acabado de retornar a Nova Iorque, um pouco antes de termos a pandemia, que fechou a cidade e o mundo, não é mesmo? O que o senhor destaca desde o começo de 2020 até agora da sua atuação aqui?

Ratificamos o nosso compromisso em ter uma economia neutra em emissões de carbono até 2050. E temos acho que outras credenciais que representam a liderança e o destaque do Brasil nesse campo.

RCF: O primeiro sentimento que vem a mente é de um pouco de frustração. Você chega para assumir um posto com muitas ideias, muitos projetos e a pandemia fechou não só a nossa cidade, mas em grande medida a ONU. Nós estivemos limitados por mais de um ano a reuniões de caráter virtual e não é a mesma coisa, não há como se comparar o dinamismo de uma diplomacia face a face, por mais importante que seja o progresso tecnológico, a relação não é a mesma. Não dá para construir laços de confiança com seus interlocutores por uma tela. A relação é muito diferente. Felizmente agora as coisas começam a se reabrir. Tivemos agora a abertura da Assembleia Geral em formato, que não direi que é plenamente normal, mas bastante normalizado que foi positivo. E a nossa esperança de que com progressiva melhora dos índices de Covid que o trabalho possa voltar plenamente normal.

ON: A expectativa é grande para retomar esse relacionamento, esse olho no olho, talvez até melhorar esse sentimento de frustração. Alguma consideração final para encerrar?

RCF: Só meu muito obrigado e que estamos à disposição da ONU News sempre que houver interesse.

PUBLICADO POR:  ONU – NAÇÕES UNIDAS – 3 novembro 2021 – Clima e Meio Ambiente

COP26cobertura especial da 26ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática

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