O pioneirismo de mulheres dedicadas ao estudo de mamíferos no Brasil

Ensaio publicado por Alexandra Bezerra (MPEG) e Ana Lazar (MN/UFRJ) na edição especial do Boletim da Sociedade Brasileira de Mastozoologia descreve as contribuições de 21 cientistas que desafiaram o século XX.

Intrigadas com a presença tímida de mulheres protagonizando eventos científicos no Brasil, pelo menos dez pesquisadoras de diferentes estados assumiram a responsabilidade de editar o volume especial do Boletim da Sociedade Brasileira de Mastozoologia, com trabalhos assinados ou liderados por estudiosas da diversidade de mamíferos no país. É nessa edição que Alexandra Bezerra (MPEG), em parceria com Ana Lazar (MN/UFRJ), publica o ensaio Mulheres na mastozoologia brasileira: as pioneiras e a Sociedade Brasileira de Mastozoologia”.

São 21 resumos biográficos sobre cientistas que se dedicaram a esmiuçar esses vertebrados de sangue quente no decorrer do século XX, ou ainda se dedicam no transcorrer do século XXI, contribuindo de modo determinante para a consolidação desta e outras áreas de conhecimento. Essas mulheres ultrapassaram fronteiras geográficas e sociais, tornaram-se referência para a comunidade científica nacional e internacional. São mulheres inspiradoras, define Alexandra Bezerra, que reconhece familiaridades com o objeto de investigação distinto daqueles que analisa como bióloga. “Minha formação é em taxonomia, área na qual o pesquisador está sempre em busca de informações e registros históricos sobre as espécies”, assegura.

Senhorita Doutora – Um dos destaques no preciso ensaio é a naturalista alemã Henriette Mathilde Maria Elizabeth Emilie Snethlage (1868-1929), que chegou ao Brasil em 1905, diretamente para atuar como pesquisadora no Museu Goeldi, em Belém. Notabilizada por suas fartas contribuições no estudo das aves, Emilia Snethlage, como se tornou mais conhecida, teve sua trajetória marcada por, pelo menos, 18 expedições científicas. A última delas, na própria Amazônia, onde faleceu. Sua sensibilidade científica, coletando elementos próprios da mamíferologia em seu trabalho de campo, e sua generosidade na relação com os colegas investigadores fez da Senhorita Doutora uma incontestável colaboradora para o avanço do conhecimento dessa outra fauna. Outros pesquisadores e pesquisadoras se dedicaram a analisar minuciosamente essa farta história, onde se lê a carinhosa alcunha, a exemplo de Nelson Sanjad (MPEG), em “Nimuendajú, a Senhorita Doutora e os ‘etnógrafos berlinenses’: rede de conhecimento e espaços de circulação na configuração da etnologia alemã na Amazônia no início do século XX”.

À esquerda, Emilie Snethlage em pesquisa de campo (Foto: Emil-Heinrich Snethlage/Álbum de família). À direita, Emilie Snethlage no Museu Nacional (Acervo Arquivo Guilherme De La Penha/MPEG).Para se ter ideia de alguns dos desafios enfrentados por Emilia Snethlage, vale observar uma das mais emblemáticas expedições que empreendeu, numa região ainda nem mapeada à época, 1909. A pesquisadora percorreu, a pé, uma trilha entre os rios Xingu e Tapajós, na companhia de sete indígenas.

Esses mergulhos em campo da naturalista, que assumiu a direção do MPEG em 1914, tornando-se então a primeira mulher a chefiar uma instituição científica na América do Sul, resultaram na coleta de cerca de 10 mil aves e mamíferos, sendo base para 43 artigos científicos. O ensaio das pesquisadoras destaca que museus do Brasil, Estados Unidos e Europa tiveram seus acervos enriquecidos com o depósito dessas amostras, algumas delas holótipos, matriz para comparação e reconhecimento de novas espécies. Não à toa, o nome da alemã motivou o batismo de espécies como a tigrina Leopardus emiliae; o roedor Lonchothrix emiliae; o primata Mico emiliae; o peixe Peckoltia snethlageae; o sapo Pipa snethlageae; a serpente Atractus snethlageae; o lagarto Loxopholis snethlageae; e o periquito Pyrrhura snethlageae.

Suely Marques Aguiar

Nova geração – Emilia Snethlage concluiu sua jornada de vida como pesquisadora do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, deixando um legado para muitas gerações, como a de Suely Aparecida Marques-Aguiar. Sua tese de doutorado, defendida em 1993, no George Washington University (EUA), “foi primordial para o reconhecimento taxonômico do gênero de morcegos Artibeus e é obrigatório em estudos taxonômicos da subfamília Stenodermatinae”, lê-se no ensaio de Alexandra Bezerra.

Gentilmente conhecida pelos colegas como Batgirl, em alusão à sua especialidade acadêmica, Suely foi uma das fundadoras da Sociedade Brasileira de Mastozoologia, em 1985, e se aposentou do MPEG em 2016. Ainda assim, é pesquisadora associada e colaboradora fundamental do terceiro maior acervo de mamíferos da América Latina, do qual chegou a ser curadora.

Alexandra enumera uma série de feitos surpreendentes no percurso das biografadas, como o número de publicações científicas que as estudiosas assinam, “algumas, ainda ativas, já contam com mais de 120 artigos”, ressalta. Além disso, têm tido papel fundamental na formação de novos pesquisadores, orientando alunos em cursos de graduação e pós-graduação. Comumente, suas vidas pessoais precisam ser ajustadas a moradia ou longas temporadas de trabalho de campo em localidades pouco habitual.

Exceções – Para o ensaio, as autoras definiram como limite temporal máximo de inclusão no rol de homenageadas aquelas com título de doutorado adquirido até o ano 2000. Duas exceções foram abertas nesse recorte, uma delas para Leonora Pires Costa, professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e curadora da coleção de tecidos e DNA do laboratório biológico do Departamento de Ciências da instituição. “O laboratório é um dos principais responsáveis por transformar o Estado do Espírito Santo em um centro de excelência para estudos sobre evolução de pequenos mamíferos”, indica o ensaio. Nos últimos 13 anos, ela supervisionou pelo menos 45 estudantes e seus artigos já foram citados 1.710 vezes em outras publicações científicas.

A outra prerrogativa foi concedida à arquiduquesa Leopoldina da Áustria, homenageada no ensaio como patronesse da mastozoologia brasileira. Muito afeita às ciências naturais, artes e cultura, sua chegada ao Brasil, no início do século XIX, ainda que por razões matrimoniais, possibilitou um fluxo privilegiado de jovens naturalistas vindos de vários países europeus. Entre eles, Johann Baptist Ritter von Spix, Alexander Philipp Maximilian zu Wied-Neuwied, Johann Natterer, Peter Wilhelm Lund e Johannes Theodor Reinhardt.

Leonora Costa

No país, coletavam espécimes e material etnográfico, produziam gravuras, pinturas, desenhos e descrições de cenários, de povos indígenas, da flora e da fauna local. A expedição mais famosa deste período foi a “Missão artística austro-alemã”. Uma série de estudos sobre mamíferos realizados posteriormente não poderia ter sido concluída sem a consulta aos materiais e publicações derivados de tais expedições.

Os rumos trilhados pelas cientistas biografadas também têm em comum entre si as barreiras impostas pelos protocolos da cultura patriarcal que atravessam o tempo, restringindo tanto o desempempenho de suas carreiras quanto o seu reconhecimento público, descreve ensaio. O largo lapso de tempo entre a chegada dos primeiros pesquisadores ao Brasil (início do século) e o momento em que as mulheres começaram efetivamente a trabalhar e obter distinção na pesquisa em mamíferos (segunda metade do século XX) ilustra essa realidade. O apoio da família, no entanto, tem se mostrado um fator relevante para esse enfrentamento, assim como o levantamento biográfico e sua difusão, como o que foi feito no ensaio, estimulando outras mulheres a apostarem na carreira científica e ultrapassarem barreiras.

A expectativa de Alexandra Bezerra é que trabalhos desta natureza se expandam: “Após o ano 2000, temos várias importantes pesquisadoras que instituíram novas linhas de pesquisa, fizeram grandes descobertas e já formaram muitos recursos humanos. Quem sabe um dia não tenhamos um volume inteiro somente para elas? As mulheres dos anos 2000!”.

Texto: Erika Morhy

FONTE: Agência Museu Goeldi – Notícias             

 

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