Estudantes indígenas de Manaus têm acesso a projeto americano que combate informação falsa

O Projeto de Educação Midiática e Alfabetização Digital foi criado pela jornalista Christine Bragale. Ela defende a liberdade de imprensa como defesa da democracia.

Manaus (AM) – Estudantes indígenas de diversos cursos universitários em Manaus tiveram acesso ao projeto The News Literacy Project (NLP, sigla em inglês para Projeto de Educação Midiática e Alfabetização Digital) que visa auxiliar os alunos, a trabalhar numa plataforma virtual, para filtrar informações verdadeiras em meio ao intenso fluxo de notícias falsas nas redes sociais. As chamadas “fake news” foram muito difundidas nas últimas eleições presidenciais no Brasil e, anteriormente nos Estados Unidos. Daí a importância de discutir o tema com a sociedade.

O projeto NLP foi criado pela jornalista americana Christine Bragale, que esteve em Manaus no dia 7 de novembro, ministrando a palestra “Desordem Informacional”, numa promoção da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, em parceria com o Instituto Cultural Brasil – Estados Unidos (Icbeu Manaus) e a agência de jornalismo independente Amazônia Real.

Christine é jornalista internacional e ex-membro do corpo de imprensa na Casa Branca. Trabalhou na agência Associated Press, onde ajudou a lançar o canal de televisão da agência global de notícias APTN, e gerenciou as operações de coleta de notícias nas Américas para o canal.

Durante a palestra “Desordem Informacional”, que foi realizada no auditório do Icbeu Manaus, a jornalista destacou os passos de como a sociedade pode discernir os fatos e as informações falsas, entre eles: defender a liberdade de imprensa como defesa da democracia, identificar notícias falsas, compreender algoritmos e compartilhar o conhecimento adquirido sobre tal processo. Além disso, Bragale destacou a importância de não limitar a desinformação ao termo “fake news”, uma vez que um conteúdo pode ter diversas origens e finalidades, e pode, inclusive, ser uma sátira.

The News Literacy Project (NLP) foi lançado em 2008 e já forneceu ferramentas para mais de 30 mil alunos nos Estados Unidos. A plataforma de sala de aula virtual Checkology® foi lançada em maio de 2016 e já foi usada por mais de 12 mil professores. Mais de 91 países já acessaram o projeto. Christine Bragale é vice-presidente do NLP desde junho de 2018.  Antes disso, ela trabalhava na organização humanitária Mercy Corps, onde liderou a comunicação global e a equipe de engajamento do público.

Do povo Sataré Mawé, Rangelma Waykiru é aluna da UEA

A palestra “Desordem Informacional” em Manaus contou com a participação de 22 estudantes indígenas das universidades públicas e privadas do Amazonas, entre eles, as alunas Samella Marteninghi, do povo Sateré-Mawé, estudante de Biologia, e Vanda Witoto, aluna Pedagogia, ambas da Universidade do Estado do Amazonas (UEA); Marcos Rodrigues, estudante de História do UniNorte; e profissionais como o antropólogo e coordenador do Centro de Medicina Indígena da Amazônia, João Paulo Barreto, doutorando em antropologia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Participaram também da palestra o adido de imprensa Mark A. Pannel e o assessor de imprensa Julio Galhardi, ambos da Embaixada dos Estados Unidos, além da secretária geral do Icbeu Manaus, Ruth Peixoto. A mesma palestra foi promovida também para mais de 400 pessoas, entre estudantes, professores e profissionais da Comunicação Social e de outras áreas, em parceria com a Fundação Rede Amazônica e Secretaria de Estado da Educação (Seduc). Além de Manaus, Christine fez palestras em Brasília e São Paulo, eventos que contou com as parcerias do jornal Correio Braziliense, Universidade de São Paulo (USP), organizações Palavra Aberta, Énois, Alumini e Secretaria de Educação do Estado de S. Paulo.

Consciência como leitor   

O antropólogo João Paulo Barreto faz doutorado na UFAM

Sobre a importância da palestra para as lideranças indígenas, Samella disse que tem preocupação com o conteúdo falso nas redes socais. “Nós somos influência. Se nós compartilhamos alguma coisa, as pessoas que se espelham na gente vão achar que é verdade. Então, é importante que nós tenhamos conhecimento da fonte pra poder compartilhar, pra não acabar enganando outras pessoas”, disse ela.

Para a educadora Vanda, a palestra explicita a importância da consciência crítica. “O resultado das nossas eleições, ao meu ver, foi fruto de opiniões mentirosas, que a sociedade se deixou levar e, enfim, estamos onde estamos. Uma palestra dessa é importante pra gente ter consciência como leitor”.

Sobre a aplicação dos conceitos apresentados por Christine, Vanda ainda ressalta a relação da educação infantil com as mídias: “dentro da escola, a gente consegue desenvolver trabalhos que tornam as crianças reflexivas. Trabalhar essa questão da checagem [dos dados], com uma linguagem para a criança, com certeza trará bons resultados”.

O estudante de história Marcos Rodrigues considera que a desinformação deixará marcas na história brasileira: “a palestra teve muito a contribuir na minha vida. Principalmente nesse momento que a gente está da história do nosso país, que a gente está vivenciando um retrocesso muito grande em relação às políticas públicas”.

Voto e cidadania

Palestra “Desordem Informacional” com Christine Bragale, no Icbeu Manaus

Em junho de 2018, Christine Bragale iniciou o projeto de Educação Midiática e Alfabetização Digital na organização humanitária Mercy Corps, liderando a comunicação global e a equipe de engajamento público. Ela é bacharel em História e certificada em estudos latino-americanos pela Universidade de Georgetown. Por seu trabalho em campanhas de comunicação, discursos e produção de vídeo, ela já ganhou mais de 30 prêmios. Leia a entrevista exclusiva que Christine Bragale concedeu à agência:

Amazônia Real – O material de divulgação do News Literacy Project diz que “os fatos são o cinto de segurança da democracia”. Por quê?

Christine Bragale – Nós acreditamos que os fatos são o cinto de segurança da democracia porque democracia e eleições livres são baseadas em eleitores informados. E para que os eleitores estejam bem informados, eles precisam entender quais são os fatos. A partir dos fatos, eles farão suas opiniões, escolhas políticas e decidir como votar. Não se quer que uma pessoa vote baseada em um boato falso ou uma desinformação disseminada por um governo. Queremos que as pessoas votem porque elas entendem quais são os problemas, o que os candidatos defendem e como seu voto impactará a comunidade.

 Amazônia Real – No dia 4 de novembro, estudantes brasileiros participaram de um exame nacional que permite a entrada em universidades. O tema da redação foi “Manipulação do comportamento do usuário pelo controle de dados na internet”. Muitas pessoas criticaram a escolha do tema por considerá-lo partidário. Você concorda?

Christine Bragale – Desinformação não é um problema partidário. Desinformação é problema de todo mundo, porque você não pode tomar suas decisões com base em informações falsas. Essa desinformação pode ser sobre tal cidade ser um local perigoso para se viver quando, na verdade, é completamente segura. Desinformação pode ser o fato de criarem notícias sobre algo que nunca aconteceu. Pode ser usada para incitar a violência. O desafio, no entanto, é que a desinformação tem sido usada como arma política e colocada como uma questão partidária. Então nós, como consumidores, não estamos sempre conscientes de que ela existe. Mas existe e nós temos que aprender a lidar com ela.

Christine Bragale desenvolveu um projeto para ajudar cidadão a filtrar “fake news”

 Amazônia Real – E por que você considera que a desinformação tem sido tão usada como arma política?

Christine Bragale – “Fake news” é um termo que ficou popular com um jornalista chamado Craig Silverman, que trabalhava para o BuzzFeed News. Ele e outros jornalistas do BuzzFeed News descobriram uma fábrica de informações falsas na Macedônia, durante a campanha de 2016 [nos EUA]. Mas o que acontece é que agora nós temos políticos – de todos os partidos nos Estados Unidos, e não é só um partido – que, quando eles não concordam com algo, chamam aquilo de “fake news”. Se virem uma reportagem factual, mas que não coloca algo de forma clara, eles chamam isso de “fake news”. Então não é mais um termo tão útil. E é assim que tem sido usado nos Estados Unidos hoje. Nós queremos ser bem específicos sobre o que é informação falsa ou uma informação errada, como está sendo usada: é realmente só um erro ou é algo feito intencionalmente para fazer com que o receptor aja de determinada forma? Talvez incitar a violência ou algo pior.

Estudantes indígenas tiveram acesso ao projeto americano

Christine diz que a desinformação pode ser usada para incitar a violência

 

 

 

(Fotos: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

FONTE: Amazônia Real

 

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