Rio+20 – Amazônia precisa de mais pesquisadores

O Diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), professor Adalberto Luís Val, apresenta um olhar diferenciado sobre os debates em torno da Amazônia, tema recorrente nas discussões sobre Sustentabilidade.

O Inpa, ao lado do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém do Pará, e do Instituto Leônidas e Maria Deane (Ilmd), do Amazonas, constitui uma rede de órgãos de pesquisa do Governo Federal na região que reúne o maior complexo de biodiversidade de espécies do planeta.

 

Coordenador do Laboratório de Ecofisiologia e Evolução Molecular do Inpa, Adalberto Luis Val tem percorrido a região amazônica para dar palestras sobre a Rio+20, a fim de envolver o maior número possível de atores sociais nas discussões que, para ele, ultrapassam as fronteiras dos países e indicam atitudes de políticas globais.

 

Especialista que se dedica ao estudo da respiração e as adaptações dos peixes amazônicos às modificações do meio ambiente, o educador ressalta a importância da socialização da informação sobre questões ambientais e sociais da Amazônia – região sobre a qual o mundo lançará seu olhar durante a Conferência das Nações Unidas.

 

Qual é a importância da Rio+20 para o Brasil e o mundo?

Adalberto Val – Inicialmente, precisamos definir o que entendemos por sustentabilidade? Esse é o ponto fundamental. Devemos utilizar a seguinte ideia: realizar as nossas atividades de uma maneira geral sem ir além do que a natureza pode suportar. Sustentabilidade é aquilo que mantém o estoque natural na linha do tempo. Desde a revolução industrial, criamos um débito com a natureza, utilizando muito mais do meio ambiente do que ele pode suportar. Precisamos desenvolver estratégias para ir além da sustentabilidade, naquilo que talvez possamos chamar economia verde.

 

Como define economia verde?

Val – Seria um conjunto de atividades que resultaria em uma reposição do que utilizamos do meio ambiente ao longo do tempo. Precisaríamos ter programas de replantio de florestas, sistemas de proteção de nascentes, sistemas extremamente efetivos de transporte no sentido trazer o ambiente para níveis aceitáveis de gases do efeito estufa. É um conceito que vai além da sustentabilidade. Estamos no limite do momento de transição mundial. Veremos um novo paradigma econômico e de relações entre a sociedade. Os limites políticos dos países, principalmente do ponto de vista ambiental, terão menos importância. As questões mais globalizadas vão se sobressair neste contexto. E precisamos de um processo muito mais eficiente de geração de informações para que possamos caminhar de forma segura neste novo paradigma. Um pilar fundamental dentro deste processo é a educação – não tem como proferirmos informações para uma sociedade que não esteja preparada para recebê-las.

 

Como avalia o tratamento dado às questões de sustentabilidade nas escolas do Brasil?

Val – Há muito que caminhar e o Governo tem papel importante. Precisamos capacitar de forma efetiva os professores para prepararem as crianças que, na realidade, irão guiar os países no futuro. Quando falamos em um novo paradigma de relações da sociedade e da economia, temos que mudar nossos sistemas nos próximos cinco, dez anos. Mas este será um processo extremamente longo, tanto que as crianças de hoje estarão vivenciando esta nova realidade daqui a 30, 40 anos.  O processo de educação precisa ir além da condição frágil que vivemos hoje.

 

Que participação espera de alunos e professores na Rio+20?

Val – Acho que seria extremamente importante se entusiasmássemos esse pessoal todo a se manifestar dentro desse processo. De qualquer forma, estamos muito próximos da reunião e fizemos muito pouco no sentido de esclarecer a importância deste momento que envolve todos os países do mundo para essas questões todas: a economia verde, sustentabilidade, relações entre os povos, e assim sucessivamente. Eu tenho caminhando pela Amazônia em várias outras regiões para falar, junto a meus colegas, sobre a Rio +20. E existe uma receptividade extremamente grande nos vários lugares em que vamos. Entretanto, a informação demora a chegar e se espalhar na sociedade – esse é o grande problema que vejo na sociedade brasileira e, de modo geral, nos outros países. Precisamos socializar a informação.

 

Qual a importância da Amazônia, apontada como o pulmão do mundo, com relação às questões ambientais?

Val – A Amazônia não é o pulmão do mundo; esse conceito é equivocadíssimo. Ela é uma floresta em clima e tudo que ela produz de oxigênio, acaba consumindo. Mas ela tem um papel importante para estocar, armazenar parte do CO2 que vem sendo lançando na atmosfera de uma forma geral. O grande gargalo dessa situação é a falta de informações sobre a região. Conhecemos muito pouco sobre sua diversidade biológica; não sabemos como esses organismos todos que vivem na região interagem entre si e com seus ambientes; como essa diversidade biológica é mantida; como essas mudanças climáticas todas que estamos presenciando no mundo inteiro vão afetar a Amazônia.

 

Poderia nos falar da importância do Inpa e das atividades que o instituto desenvolve?

Val – O Inpa basicamente trabalha questões ambientais e tem quatro focos principais de pesquisa: a biodiversidade; a dinâmica do ambiente amazônico; a área de sociedade, ambiente e saúde; e um foco de tecnologia e inovação. O Inpa mantém vários programas de pós-graduação. Temos aproximadamente 600 estudantes de mestrado e doutorado. É o principal instituto de biologia tropical existente no mundo. Boa parte do que nós conhecemos hoje sobre os ambientes tropicais foi gerado por meio de pesquisas realizadas pelo Inpa. Trabalhamos em cooperação com outras várias instituições brasileiras e estrangeiras. Nosso gargalo é a questão de escala: trabalhamos em um ambiente muito extenso. Quando falamos de Amazônia, falamos de cerca de 60% do território brasileiro. A quantidade de pesquisadores disponíveis para estudar este ambiente é bastante reduzida.

FONTE : Folha Dirigida –   http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=82584

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