Evo entre o desenvolvimentismo e a Pacha Mama

Evo Morales encontra-se em seu pior momento político desde que assumiu a presidência da Bolívia em 2005. O motivo: os protestos indígenas contra a construção de uma estrada que deveria atravessar a reserva natural do território Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure e sua posterior repressão. A contradição que ele enfrenta é: optar por uma política desenvolvimentista ou sustentar os princípios eco-indigenistas que o levaram ao poder. O artigo é de Oscar Guisoni.

Evo Morales encontra-se em seu pior momento político desde que assumiu a presidência da Bolívia em 2005. Os protestos indígenas contra a construção de uma estrada que deveria atravessar a reserva natural do território Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure (TIPNIS) e sua posterior repressão culminaram com uma profunda crise de gabinete. O afastamento de um ministro símbolo do governo, o conhecido militante dos direitos humanos Sacha Llorenti, que ocupava a pasta do Interior, junto com outros dirigentes críticos à atuação do governo, como a ministra da Defesa Cecilia Chacón, não é mais do que a expressão de um descolamento profundo no interior do movimento popular que levou Morales a ganhar duas vezes por ampla maioria a presidência da República. Optar por uma política desenvolvimentista ou sustentar até a morte os princípios eco-indigenistas que o levaram ao poder, essa é a contradição que atravessa a discussão no interior do Movimento ao Socialismo (MAS), hoje no poder.

O último momento de glória de Evo foi, sem dúvida, no final de 2009, quando se apresentou pela segunda vez nas eleições gerais e obteve um arrasador triunfo com 63% dos votos. A aliança entre os movimentos indígenas e campesinos com a classe média urbana, um setor que cresceu à luz da bonança econômica dos últimos anos, permitir ao líder boliviano melhorar seus resultados eleitorais e consolidar uma sólida maioria parlamentar. Mas a semente do debate que terminou por explodir graças ao TIPNIS já estava semeada.

Alguns intelectuais do influente grupo Comuna, do qual provem o atual vice-presidente Álvaro García Linera, começavam a manifestar dúvidas sobre o rumo que estava adquirindo o “processo de câmbio”. Um deles, o sociólogo Luis Tapia, manifestou em uma entrevista que realizamos para o documentário “Rapsódia boliviana” suas reservas quanto à profundidade da reforma agrária, uma das bandeiras fundamentais do MAS. As objeções de Tapia terminaram desembocando em 2010 na ruptura definitiva do grupo com o governo. Intelectuais como Raúl Prada, ex-assessor presidencial em uma área sensível como a reorganização do Estado, deixaram o governo e começaram a manifestar publicamente suas críticas.

Evo, afirmam, está preso a uma contradição muito forte: ou desenvolve economicamente o país na linha do projeto nacionalista que abriu a Revolução de 1952 ou consolida um projeto alternativo mais perto da realidade do século XXI, onde a preservação do meio ambiente e o respeito às formas econômicas das culturas originárias se tornam objetivos centrais das políticas de Estado.

As críticas do grupo Comuna ressoaram durante as últimas semanas no conflito do TIPNIS. A crise surgiu quando o governo anunciou a construção de uma estrada que unirá Villa Tunari (coração do mundo cocalero, onde Morales começou sua construção política há mais de duas décadas) e San Ignacio de Moxo, no verde Beni. A construção, sob responsabilidade da empresa brasileira OAS, devia atravessar a reserva natural do TIPNIS, o que motivou a reação das comunidades indígenas que habitam a região. Evo Morales não quis ouvir suas objeções e cometeu um erro de envergadura: negou-se a realizar um referendo entre os atingidos, tal como estabelece a nova Constituição Política do Estado, aprovada pelo MAS durante a primeira presidência de Evo.

Os protestos, aos quais confluíram desde ex-integrantes do governo, como o ex-embaixador nos EUA, Gustavo Guzmán, até conhecidos representantes da oposição de direita e uma grande quantidade de associações e organizações sociais que desde o começo apoiaram o projeto de Morales, evidenciaram o mal-estar da população com o governo. “Álvaro García Linera não compreende o indígena”, chegou a afirmar Silvia Rivera Cusicanqui, uma das mais destacadas intelectuais do país, sugerindo que o pensamento colonial voltou ao país. Tentaram estigmatizar os indígenas acusando-os de “selvagens” por se oporem às bondades do desenvolvimento econômico, “mas o truque não funcionou”. Rivera acredita que o problema é o projeto desenvolvimentista “que pensa que o desenvolvimento são as estradas e as usinas hidroelétricas”, um imaginário que alguns membros do governo compartilham, na avaliação dela, com “a extrema-direita”.

“Evo pode vestir um poncho, mas veste com muito mais frequência – e lhe cai melhor – a jaqueta do sindicalista que sempre foi”, explica em uma lúcida análise, publicada na revista Umbrales del Sur, Pablo Stefanoni, ex-diretor da edição boliviana do Le Monde Diplomatique. “O MAS é um partido de pequenos produtores (urbanos e fundamentalmente rurais), um partido mais campesino do que indígena, cujo projeto é basicamente anti-neoliberal”, afirma Stefanoni, “muito prudente no terreno macroeconômico e muito conservador no terreno ético/moral”.

“Morales tem ainda capital político para tratar de reverter parcialmente a perda da mística do processo de mudança, e na hora da eleição os resultados dependerão de quem sejam seus adversários”, conclui Stefanoni. Por enquanto, segundo as pesquisas, 63% dos bolivianos se opõem a que Evo Morales seja reeleito para um terceiro mandato no mais que distante ano de 2015.

(*) Jornalista, correspondente na Espanha do jornal Página/12, da Argentina, do Il Manifesto, da Itália, e de El Observador Global, portal de informação internacional latinoamericano. Colaborador do suplemento dominical do jornal Milênio, do México; da revista Arcadia, Colômbia e da revista Gatopardo, México.

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