A Terceira Margem – Parte CCCXLIII

Expedição Centenária Roosevelt-Rondon 3ª Parte – XLXI

Explorador George Miller Dyott.

George Miller Dyott – I

O escritor, fotógrafo, piloto e explorador George Miller Dyott filho de pai britânico (Freeford Hall) e mãe americana nasceu em Nova Iorque (EUA), no dia 06 de fevereiro de 1883, e faleceu na sua cidade natal, em 02 de agosto de 1972, com 89 anos. Estudou na Faculdade de Engenharia Elétrica Faraday House, em Londres, e após retornar aos EUA, aprendeu a pilotar no “Curtiss Field” recebendo seu brevê de piloto em 17.08.1911. Dyott foi o primeiro piloto a voar no Aeródromo de Nassau (Campo de Mitchell), em Long Island, à noite, em outubro de 1911.

Nesta mesma época, em parceria com o Dr. Henry W. Walden projetou monoplanos e começou a realizar voos de apresentação. Retornando ao Reino Unido, projetou o Monoplano Dyott, fabricado pela Hewlett & Blondeau. Em 1914, foi comandante de esquadrão do “Royal Naval Air Service (RNAS)” ([1]) onde, durante a Primeira Guerra Mundial, planejou uma aeronave biplano bimotor cujo projeto, após várias adaptações para uso militar e testes nos céus franceses, foi definitivamente abandonado. Finda a Primeira Grande Guerra, tornou-se um explorador e ingressou na “Royal Geographical Society”.

A Expedição Dyott-Roosevelt  

Em 1926, logo após seu retorno de uma Expedição à selva equatoriana, planejou sua próxima jornada aproveitando-se dos estreitos laços de amizade que mantinha com os Roosevelt foi, então, contratado pela “Roosevelt Memorial Association” para excursionar pelo “Rio da Dúvida”, oficialmente chamado de Rio Roosevelt. Sua Missão era refazer os passos da Expedição Científica Roosevelt-Rondon (1913/1914), com o intuito de confirmar a descoberta do Rio da Dúvida e complementar os estudos realizados pela Expedição pioneira cujo enorme acervo cinematográfico, da fauna e da flora tinham sido extraviados nas caudalosas e traiçoeiras águas do Rio Roosevelt. Entre 1914 e 1926, uma Expedição brasileira e uma norte-americana tinham tentado, sem sucesso, refazer a jornada pelo “Rio Roosevelt”. Uma delas interrompeu a jornada depois de ter sido atacada por índios hostis e a outra desapareceu logo depois de iniciar a jornada, não se tendo notícia de seus integrantes desde então. O planejamento inicial da Missão Dyott, logo de início, sofreu alguns revezes. Depois de viajar 6.000 milhas até o Rio de Janeiro, um dos membros da equipe, Arthur Perkins, adoeceu e teve de retornar a Nova Iorque, incorporando, mais tarde, à Expedição. Mais tarde, ao chegar ao acampamento base (São Luiz de Cáceres), verificaram que o gerador de alta frequência que seria usado na operação do transmissor de 500 W era inoperante e prosseguiram apenas com o equipamento portátil de 24 W. Os expedicionários, agora, só dependiam da boa sorte que era a de através dos radioamadores brasileiros suas mensagens pudessem se retransmitidas para Nova Iorque. Façamos uma retrospectiva histórica baseada nos periódicos da época:

Gazetas de Notícias n° 117
Rio de janeiro, RJ – Quarta-feira, 19.05.1926
Exploradores dos Sertões Brasileiros
Organiza-se em Nova Iorque uma Grande Expedição para Visitar e Estudar a Região do Rio da Dúvida 

Nova Iorque – [Correspondência epistolar da United Press para, a “Gazeta, de Notícias” – O jornal “New York Times”, desta cidade, publica um artigo em que se refere a uma Expedição Norte-americana que pretende vir muito em breve aos sertões brasileiros, a fim de explorar as regiões visitadas por Theodore Roosevelt]. O artigo em questão diz, em suma, o seguinte:

Conforme fomos informados, há dias, está sendo organizada uma Expedição destinada a visitar e estudar a região do Rio da Dúvida, acompanhando o caminho seguido pelo falecido Presidente Roosevelt. Essa Expedição será chefiada pelo explorador dos sertões sul-americanos, Sr. George Miller Dyott que tem a sanção da “Roosevelt Memorial Association”.

Uma história pitoresca completa da viagem do Cel Roosevelt através das florestas do Brasil constituirá um rolo de filmes colocado nos arquivos da associa­ção. Presentemente filmes cinematográficos da Jorna­da ao Rio da Dúvida são a única coisa cuja falta é de se notar nos arquivos da associação segundo R. W. Wail bibliotecário e diretor assistente da associação. A data da partida da Expedição Dyott ainda não foi determinada. Nem o Cel Roosevelt ([2]) nem Kermitt Roosevelt tomarão parte na sua Expedição.

Disse Mr. Wail:

Dyott pretende seguir o mesmo caminho, pisado pelo falecido Presidente Roosevelt. É uma jornada excessivamente perigosa e ele tenciona percorrer territórios onde anteriormente nenhum homem branco havia percorrido. O Sr. Dyott é um amigo dos Roosevelts e eles demonstram um entusiasmo incontido por sua Expedição. A Associação participará, na Expedição das possibilidades que ofereça o Mercado de Nova Iorque para os nossos filmes descrevendo as viagens. A única coisa nesse sentido que possuímos neste momento é um certo número de filmes tirados no começo da viagem de Roosevelt. O restante desapareceu quando naufragou uma canoa que os conduzia através do Rio. (GAZETAS DE NOTÍCIAS N° 117)

Gazeta de Notícias, n° 177, 19.05,1926

Gazetas de Notícias n° 122
Rio de janeiro, RJ – Terça-feira, 25.05.1926
Exploradores dos Sertões Brasileiros
A Partida para o Rio da Expedição que irá às Regiões do Rio da Dúvida  

Nova Iorque, 24 – [U.P] – O Sr. G. Dyott partirá para o Rio de Janeiro, a 3 de julho […] Espera ele poder manter-se em comunicação diária com o resto do mundo por meio do rádio, para o que leva uma esta­ção permanente de 500 W, que será estabelecida no interior. A sua comitiva compõe-se de mais de 40 pes­soas, inclusive guias e outros auxiliares. A Expedição é custeada pela família Roosevelt, deseja obter filmes dos lugares por onde o ex-Presidente passou, em 1914. (GAZETAS DE NOTÍCIAS N° 122)

Revista do Automóvel-Club n° 15
Rio de janeiro, RJ – Junho, 1926
O “Hinterland” Brasileiro –
Recordando a Peregrinação Histórica de Roosevelt Pelo Rio da Dúvida  

[…] Nem o Coronel Roosevelt, nem Kermitt Roosevelt tomarão parte na Expedição. […]. É uma jornada excessivamente perigosa, e ele tenciona percorrer territórios que anteriormente nenhum homem branco haja percorrido. (RAC N° 15)

Jornal do Brasil n° 155
Rio de janeiro, RJ – Quinta-feira, 01.07.1926
Viagem da Expedição Dyott para o Rio da Dúvida
Os Índios da Serra do Norte  

Plus que toute autre science, l’anthropologie est susceptible pourtant d’exercer un jour une influence sur notre organisation sociale. Son objet n’est-il pas de nous montrer l’homme dans toute sa nudité, de nous livrer le secret de ses actes, de ses passions et de ses besoins, dans le passé et peut-être dans l’avenir?(Dr. Paul Topinard – L’anthropologie, 1877 [3])  

Relendo o livro do ex-Presidente dos Estados Unidos, Roosevelt, sobre a Expedição de 1914, realizada junto com o General Rondon, do Mato Grosso para Amazo­nas, é impossível não concordar com a opinião emitida pelo Major Dyott em sua entrevista concedida ao “New York Times” reproduzida há pouco tempo em nossa folha. O ilustre explorador, que brevemente deve chegar nesta capital, pretendia, com razão, que o trabalho do ex-Presidente deixasse muitas questões não esclarecidas e não respondidas.

As faltas existentes no relatório Roosevelt são muito compreensíveis. Com efeito, a duração relativamente curta da Expedição não permitiu um exame detalhado das questões incluídas no programa do empreen­dimento e com maior razão foram deixados sem estudo problemas que não visaram diretamente o objetivo da exploração. Em consequência, pouca atenção foi dada pelo eminente autor à etnografia indígena, o que justifica que Roosevelt não procurasse entrar em contato imediato com a tribo índia, a qual marcou sua presença pela fechada que fez vítimas os cães do presidente.

Falando da história da formação da Expedição, Roosevelt menciona que o livro representasse só um resultado de uma exploração de 300 milhas geográficas. Primeiramente, antes da saída do Presidente de Nova Iorque, o programa foi limitado a um estudo referente à mamologia ([4]) e ornitologia. Para poder utilmente realizar esse objetivo da Expedição, por um acordo com a direção do Museu da História Natural de Nova Iorque, Roosevelt, convidou para participarem na exploração dois cientistas americanos, os Srs. G. H. Cherrie, especialista em ornitologia, e Leo Miller, em mamologia.

Estes executaram um trabalho científico muito interessante, conseguindo reunir espécimes raros para o museu nova-iorquino mencionado. Depois da chegada dos eminentes exploradores americanos ao Rio de Janeiro, graças à iniciativa do Senador Lauro Muller, nesse tempo Ministro aos Negócios Exteriores, o programa sujeitou-se a uma modificação, transformando-se a Expedição em uma Comissão Americano-brasileira, sob a direção do Presidente e do ilustre General brasileiro Rondon. A Comissão, denominada Comissão Roosevelt-Rondon, ampliou o programa primitivo, incluindo, além das questões zoológicas as de geografia.

Tratava-se de explorar uma região inteiramente desconhecida e especialmente um Rio de que a importância e o rumo pertenciam ao domínio de adivinhar. Daí a primeira denominação do Rio da Dúvida, batizado depois Roosevelt, em honra do falecido Presidente. As questões de antropologia e etnografia não sendo expressamente compreendidas no programa da Comissão, é muito natural encontrar pouca coisa sobre os índios no livro mencionado. A obra tão magnificamente realizada pela Comissão abriu uma porta até esse momento fechada, o que permite ao Major Dyott repetir a Expedição Roosevelt-Rondon com o intuito de completar os estudos tão brilhantemente iniciados em 1914.

O Major, julgando o teor da entrevista, pretende dar a atenção especial à etnografia indígena. Pode esperar-se que o corajoso explorador terá a possibilidade de descobrir as novas tribos índias e de reunir uma nova documentação sobre as famílias já conhecidas. Até agora relativamente, pouca gente se consagrou ao estudo dos índios da Serra do Norte sob o Ponto de vista puramente científico.

Além dos numerosos trabalhos remarcáveis ([5]) da autoridade em tudo que é índio do General Rondon, da obra monumental do professor Edgard Roquette Pinto, dos livros interessantes do professor Von Stein e do Dr. Max Schmidt, encontramos pouca documentação à respeito deles […] Os estudos referentes à língua, hábitos e costumes, religião, arte, assim como regime legal que rege as relações das tribos entre os seus membros e com as outras tribos, representam um valor não menos importante dos resultados que podem ser obtidos em matéria de antropologia pura. Infelizmente, com respeito ao direito primitivo índio, e às suas fontes, até agora a documentação é muito pobre e particularmente no que se refere às tribos da Serra do Norte.

No livro do Dr. Max Schmidt o assunto na questão à respeito das tribos Guató e Uulischei (?) foi até certa extensão examinado, deixando, porém, muitas questões sem resposta e às estudadas, faltam o método jurídico, devendo nessa ocasião ser aplicado. O próprio autor reconheceu que nessas informações por ele reunidas são incompletas, explicando a insuficiência por falta do tempo para proceder ao trabalho com toda a atenção desejada. O cientista alemão não dispondo de fundos necessários, foi obrigado, num prazo relativamente curto, a reunir apressadamente os materiais que faltavam forçosamente a uma precisão necessária. Devia ele limitar-se a dar a ideia geral sobre vários assuntos, cada um dos quais merece uma análise detalhada. As pesquisas referentes ao regime legal das tribos, vigente até o momento da aplicação da legislação geral brasileira devem fornecer materiais muito preciosos não só do ponto de vista histórico brasileiro, mas servir de fonte da história do direito mundial.

Especialmente quando, atualmente, o direito europeu, felizmente ou, infelizmente, domina o espírito das legislações nos países americanos, não deve deixar-se, sem estudo minucioso, o regime legal dos indígenas, que para o Brasil são os índios. Observando a situação atual do Velho Mundo, encontramos diariamente novos problemas sociais que ocasionam a procura de organizar a vida da sociedade nas novas bases. Os princípios do direito que, durante, muitos séculos eram reconhecidos encontram-se, senão abolidos, em todo o caso ameaçados na sua aplicação. Não estamos, no presente, por exemplo, na Rússia, da destruição do princípio essencial do direito, que é o respeito da propriedade individual?

A organização da família não foi sujeita, em muitos países, a um assalto por parte dos espíritos reformadores? Com efeito, o desenvolvimento intenso da vida nos países, chamados civilizados, sob a influência das novas invenções e aperfeiçoamentos teóricos influiu, senão sobre o abandono, em todo o caso sobre a deformação dos princípios essenciais do direito. Nessa situação, do esquecimento completo das fontes do direito subsistente em cada ente humano desde o seu nascimento no instinto de equidade, a análise do direito dos primitivos deve prestar grandes serviços ao progresso da ciência jurídica.

Possivelmente, entre os índios encontraremos ainda princípios sãos, os quais não na sua forma, mas adaptados às exigências da vida moderna, permitirão resolver muitos problemas referentes à organização da vida da sociedade. Queremos esperem que o Major Dyott, interessando-se pela etnografia indígena, não deixará de dar atenção especial às questões do direito índio, até agora quase desconhecido. Ramon da Paz. (JORNAL DO BRASIL N° 155)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 11.11.2021 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.  

Bibliografia  

GAZETAS DE NOTÍCIAS N° 117. Exploradores dos Sertões Brasileiros – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Gazetas de Notícias n° 117, 19.05.1926.

GAZETAS DE NOTÍCIAS N° 122. Exploradores dos Sertões Brasileiros – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Gazetas de Notícias n° 122, 25.05.1926.

JORNAL DO BRASIL N° 155. Os Índios da Serra do Norte – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Jornal do Brasil n° 155, 01.07.1926.

RAC N° 15. O “Hinterland” Brasileiro – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Revista do Automóvel-Club n° 15, Junho, 1926.   

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]    RNAS: componente aéreo da Real Marinha Britânica (01.07.1914), coordenado pelo Departamento Aéreo do Almirantado. No dia 01.04.1918 foi vinculado ao Real Corpo Aéreo do Exército Britânico para formar a Real Força Aérea.

[2]    Roosevelt faleceu no dia 06 de janeiro de 1919.

[3]    Mais do que as outras ciências, a antropologia será capaz, portanto, de exercer, um dia, uma influência sobre nossa organização social. Seu objetivo não é apresentar o homem em toda sua naturalidade, de nos mostrar o mistério de suas ações, de suas paixões e necessidades no passado e, quem sabe, no futuro? [TOPINARD, Paul. L’anthropologie – França – Paris – Editora: C. Reinwald et cie, 1877] (Hiram Reis)

[4]    A mamalogia é a área da zoologia que estuda os mamíferos.

[5]    Notáveis.

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