A Terceira Margem – Parte CCLXVI

Expedição Centenária Roosevelt-Rondon  2ª Parte – VII 

Rio Sepotuba, MT

Cáceres – Ilha da Amizade IV  

Relatos Pretéritos – Rio Tenente Lyra ou Sepotuba 

Pereira da Cunha (Continuação) 

CUNHA: Desde alguns dias, Kermit sofria de acessos palustres, velha infecção que adquirira no México e que o havia aborrecido e acompanhado em África, e agora, reentrando em regiões em que a palustre é endêmica, reaparecia-lhe essa maldita companheira. Esse terrível mal, sério bastante em qualquer outro, era ainda mais preocupante em Kermit, pois que o medicamento indicado e indispensável em tal caso, o quinino, não podia ser ministrado ao nosso Kermit, visto que outra moléstia isso provocaria, como já lhe tinha sucedido; e foi pensando no perigo a que estava exposto seu filho, perigo que só poderia aumentar com o internamento pelo Sertão, que, seriamente preocupado, Roosevelt revelou-me nessa noite as suas apreensões.

Há de ter notado, que falo muito de Kermit, mas ele merece, sei o que ele vale e a sua dedicação por mim, e, se tentasse qualquer esforço para fazê-lo retroceder, conheço bem quanto seria isso inútil, pois não me abandonaria, entretanto, além de ser ele meu filho muito querido, está na flor da idade, é noivo, já estaria casado se não fosse esta viagem, e seria uma calamidade transbordante de injustiça se viesse a morrer numa travessia que vamos empreender.

Pela primeira vez eu via Roosevelt ter apreensões sobre a arriscada empresa, mas eram elas todas pela sorte de seu filho e não pela sua, e, continuando, a respeito disso se pronunciava: “Tendo dedicado as minhas energias à exploração científica que encetamos, nela perderia a vida com glória, como certamente gostaria o meu amigo de perder a sua em um combate naval; acresce ainda que, mesmo tendo em conta a minha boa saúde, não posso esperar viver senão mais uns quinze anos, a minha preocupação, portanto, é toda por Kermit”.

Assim terminava a nossa conversa daquela noite, enquanto, no acampamento, eram dadas as providências para a primeira caçada de anta, a realizar-se na manhã seguinte.

Nessa manhã de 8 de janeiro, depois de sermos fotografados, das sentidas despedidas, e de ter Roosevelt, com alguns companheiros embarcado para a caçada, despedi-me dos que não tomavam parte em tal caçada, embarquei por meu turno noNyoac”, e, com um prolongado adeus aos que ficavam em terra, e, depois, aos que ainda vimos nas canoas, deixamos, cheios de saudades, Porto do Campo e os bons companheiros, sentindo, com amargor e tristeza, não poder compartilhar-lhes a sorte na bela e arriscada exploração através do Brasil. (CUNHA)

Infelizmente um país sem memória que não valoriza a sua história nem reverencia seus heróis prefere chamar de Sepotuba ou Cipozal o Rio Tenente Lyra. O Tenente João Salustiano Lyra, foi encarregado, pelo então Coronel Rondon, de realizar o levantamento topográfico desta região para a futura instalação das linhas telegráficas que ligariam Cuiabá a Santo Antônio do Madeira.

Recorreremos a um capítulo do livro “Impressões da Comissão Rondon”, do Coronel Amílcar Armando Botelho de MAGALHÃES, para reportar o acidente fatal que vitimou o valoroso Tenente Lyra e prestar uma justa homenagem a este herói anônimo de fibra inquebrantável que depois de tombar nos “ermos sem fim” do Sertão inóspito cumprindo seu dever emprestou seu nome ao Rio.

Anjo da Ventura

Amílcar Armando Botelho de MAGALHÃES (1942) 

UMA PÁGINA DE SAUDADE 

1° Tenente João Salustiano Lyra 

Quis um destino caprichoso, imprevisto como todos os destinos, que fosse perder a vida num pequeno Rio [Sepotuba, afluente da margem direita do Alto Paraguai] aos 03.04.1917, quando dirigia uma turma independente de Serviço Geográfico, em trabalhos de levantamento da Carta de Mato Grosso. […]

No cenário apenas quatro protagonistas, dois que pereceram e dois que se salvaram; uma corredeira impetuosa onde as águas borbulham e burburinham, espadanando sobre rochedos; em torno a floresta despovoada, silenciosa e indiferente como toda massa inerte da natureza… Nesse desvão sem glória, a mão do destino apaga facilmente uma existência gloriosa e uma juventude viril também preciosa ‒ Lyra e Botelho.

Tem muita força a fatalidade: como conceber de outra forma que dois grandes nadadores, de fortes músculos, acostumados a esforços mais violentos, fossem vencidos nessa luta?! Ainda mais quando a calma revelada pelos náufragos levouos a atirar para terra as cadernetas de levantamento, para que não se perdessem na corrente e com elas desaparecesse o resultado do trabalho até aí executado; quando espontaneamente atiram-se na água, na convicção de que tal iniciativa evitaria, como evitou, a submersão da pequena canoa [montaria] em que navegavam!

Esta, flutuou realmente, depois de colher em seu bojo boa porção de líquido, e, arrastada pela correnteza só pôde ser atracada à margem 200 metros a jusante, apesar do esforço neste sentido empregado pelo piloto.

Fora lançado na água, ao primeiro desequilíbrio da canoa, o proeiro, que nadou para a margem e nada mais viu, porque tratara apenas de se salvar. O piloto, no último olhar que lançou para a retaguarda, viu ainda os dois oficiais à tona da água; quando saltou em terra e correu margem acima ao local do sinistro, nenhum vestígio mais deles encontrou: haviam desaparecido. Aos gritos do piloto, na esperança de que os oficiais, arrastados pela velocidade das águas, pudessem ter saído mais abaixo, apenas o eco respondeu… Por terra, trilhando caminhos diferentes, a tropa diariamente vinha à beira do Rio, ao encontro da turma de levantamento, em pontos previamente determinados pelo Chefe da Expedição ‒ Tenente Lyra.E era essa justamente a última etapa a vencer, para amarrar o serviço a Tapirapuã, porto da margem esquerda do Sepotuba [hoje Rio Tenente Lyra] até onde, desde a foz, a Comissão havia já executado o levantamento desse curso de água. A última etapa correspondeu, assim, o último dia de vida dos dois distintos oficiais. (MAGALHÃES, 1942)

Mais uma vez Esther de Viveiros se equivoca afirmando, desta feita, que os expedicionários trocaram de embarcação em Cáceres. Relata Viveiros:

Deixando Cáceres, deixamos também oNyoac” ‒ não poderia ele ir além. Começamos a subir o Sepotuba [Tapir], que eu explorara cientificamente em 1908. Rio claro, descendo do planalto para as florestas das terras baixas, só era navegável no tempo das águas. Subimos até Porto Campo, onde pousamos a 7 de janeiro de 1914. (VIVEIROS)

Rondon, nas suas “Conferências Realizadas nos dias 5, 7 e 9 de outubro de 1915 pelo Sr. Coronel Cândido Mariano da Silva Rondon no Teatro Fênix do Rio de Janeiro sobre Trabalhos da Expedição Roosevelt e da Comissão Telegráfica no Teatro Fênix”, afirma:

Daí saímos na manhã seguinte, continuando a subir o Paraguai, em demanda do Porto do Campo, no Rio Sepotuba, onde chegamos depois das 3 horas da tarde de 7 de janeiro. O “Nyoac” não podia ir além; desembarcamos e pela primeira vez armamos as barracas […]. Permanecemos nesse acampamento até o dia 13 não só afim de dar tempo à lancha “Anjo da Ventura”, propriedade da Casa Dulce, de Cáceres, para fazer o transporte de toda a carga e de parte do contingente de Porto do Campo para Tapirapuã, como também para completar a coleção de grandes mamíferos que o Sr. Roosevelt estava fazendo. (RONDON)

Ratifica essa afirmativa o Capitão Magalhães:

As 15 horas do dia 6 partiu oNyoac”, Rio Paraguai acima, penetrando em seguida pelo curso do Sepotuba […] Nesse 1° acampamento permanecemos até o dia 13, data em que às 11 horas partimos na lancha “Anjo da Ventura” e em uma chata a reboque, afim de prosseguir o acesso do Sepotuba, em demanda de Tapirapuã, onde desembarcamos às 11 horas e 30 minutos de 16 e acampamos pela segunda vez. (MAGALHÃES, 1916)

Concluímos nossa tese com o relato bastante contundente do Comandante Heitor Xavier Pereira da Cunha nas suas “Viagens e Caçadas em Mato Grosso”:

De fato, não estando no porto a lancha para conduzir a Expedição, resolveu-se que o “Nyoac” subisse mais o Paraguai e penetrasse no Sepotuba, até Porto do Campo, onde Roosevelt aguardaria a lancha, caçando antas e porcos […]. Entramos pelo Sepotuba, e logo foi a nossa primeira observação a limpidez de suas águas, e a sua forte correnteza que a custo era vencida pelo pequeno “Nyoac”, […] (CUNHA)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 23.07.2021 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Filmete :  https://www.youtube.com/watch?v=-ek3beISFFA&t=456s

Bibliografia 

CUNHA, Comandante Heitor Xavier Pereira da. Viagens e Caçadas em Mato Grosso: Três Semanas em Companhia de Th. Roosevelt – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Livraria Francisco Alves, 1922.

MAGALHÃES, Amílcar A. Botelho de. Anexo n° 5 – Relatório Apresentado ao Sr. Coronel Cândido Mariano da Silva Rondon – Chefe da Comissão Brasileira – Brasil – Rio de Janeiro, RJ, 1916

MAGALHÃES, Amílcar A. Botelho de. Impressões da Comissão Rondon – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Companhia Editora Nacional, 1942.

RONDON, Cândido Mariano da Silva. Conferências Realizadas nos dias 5, 7 e 9 de Outubro de 1915 pelo Sr. Coronel Cândido Mariano da Silva Rondon no Teatro Phœnix do Rio de Janeiro Sobre os Trabalhos da Expedição Roosevelt-Rondon e da Comissão Telegráfica ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ – Tipografia do Jornal do Comércio, de Rodrigues & C., 1916.

VIVEIROS, Esther de. Rondon Conta Sua Vida ‒ Brasil ‒ Rio de Janeiro, RJ ‒ Livraria São José, 1958.  

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

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