A Terceira Margem – Parte CLXXVI

Foz do Breu, AC/ Manaus, AM ‒ Parte LII 

Juruá, AM – Tefé, AM II 

Tefé, AM

Estada Memorável em Tefé, AM 

Amigos de Tefé  

Tefé, AM

O reconhecimento e o carinho que foi dispensado à Expedição na bela Cidade de Tefé ficará gravado indelevelmente em nossas memórias. Desde minha chegada até a partida, os militares da 16ª Brigada de Infantaria de Selva, comandada pelo ilustre General Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, foram de uma atenção e fidalguia inigualáveis.

O sorriso franco do Cel Mercês, do TCel Rojo, do Maj Bergamaschi e do Cap Pinheiro, ao nos receberem às margens do Lago Tefé, já prenunciavam isso. Meu velho honorável pai já dizia “que o diabo não é sábio porque é diabo, mas porque é muito, muito velho”. Os mesmos anos que encanecem nossos cabelos, enfraquecem nossos músculos e memória, aprimoram nossa capacidade de conhecer a alma das pessoas através dos mais simples sinais. E naquele memorável dia 20.02.2013, que jamais me sairá da lembrança, eu senti em cada sorriso, em cada gesto uma honesta e espontânea demonstração de reconhecimento pelo que fizéramos. Como seria bom que todos os irmãos brasileiros e, em especial, da Força Terrestre reconhecessem que não é o indivíduo que conta, mas sim o que ele representa.

Não é o Cel Hiram, o Cb Mário ou o Sd Marçal que cumpriram abnegada e espartanamente a missão de reconhecer o Juruá, mas sim três militares da Força Terrestre que realizaram um feito inédito que deveria ser reconhecido e comemorado por todos os patriotas que envergam a mesma farda e deveriam cultuar os mesmos ideais.

Fiquei extremamente feliz quando os três expedicionários, sem exceção, foram convidados pelo General Paulo Sérgio para jantar no melhor restaurante da Cidade. Tenho certeza que o Cb Mário e o Sd Marçal jamais esquecerão desse evento em que tiveram a honra de sentarem-se à mesa com um Oficial General e a grata oportunidade de contar suas experiências aos oficiais ali presentes.

Mídia 

Além da presença ostensiva da mídia na nossa chegada, o E/5 da Brigada, Cap Diógenes Pinheiro Pimentel, havia agendado uma entrevista com o locutor Marcílio Beltrão, da Rádio Alternativa FM, com o entrevistador José Meireles da Rádio Educação Rural e com o diretor e repórter de “O Solimões”, Rainfran Brandão Araújo.

Nossos fiéis amigos da AmazonSat, que nos entrevistaram em todas as cidades pelas quais passamos, desde o Acre, novamente nos brindaram com sua atenção. Esperamos que na nossa chegada às 15h00 do dia 10 de março, no Centro de Embarcações do Comando Militar da Amazônia, as equipes de reportagens da Cidade de Manaus estejam presentes.

Tefé, AM – Coari, AM 

Rio Solimões

Adeus Caros Amigos de Tefé   

Alto-horário – Rio Solimões.

Em Tefé, tivemos a oportunidade de eliminar algumas contraturas musculares que nos afligiam, graças às mãos hábeis do Sargento Miro, da sessão de saúde da 16ª Brigada. Por estas amazônicas coincidências, o Miro é filho do Professor e Historiador Humberto Ferreira Lisboa, autor do livro “Fonte Boa – chão de heróis e fanáticos”, a quem tivemos a oportunidade de entrevistar, às dez horas do dia 21.12.2008, em Fonte Boa, AM, na nossa descida pelo Rio Solimões. O Mestre Lisboa, nascido e criado em Fonte Boa, é Professor de História e um estudioso de sua Cidade.

Acordamos às 04h40. Nossa próxima jornada de mais de 100 km determinava que partíssemos antes dos primeiros raios do astro rei. Quando a viatura, dirigida pelo Cabo Viana, passou, às 05h00, na frente da residência do TCel Marcelo Rojo, Comandante da 16ª Base Logística de Selva, este já estava a postos para nos acompanhar até o porto da 16ª Ba Log. Levamos as embarcações até a água e iniciamos os preparativos para a nova jornada. Estávamos envolvidos nessa rotina quando chegou o Chefe do EM da 16ª Bda Inf Sl, Coronel Dougmar Nascimento das Mercês. Despedimo-nos dos caros amigos e da Guarnição que estava de serviço guardando nas nossas lembranças a amabilidade e a nobreza dos caros irmãos de farda de Tefé. Partimos alegres não apenas por termos cumprido com total dedicação e estoicismo a Expedição pelo Rio Juruá, mas, sobretudo, por este fato ser devidamente reconhecido e aplaudido por todos os membros da 16ª Bda Inf Sl, a guardiã oficial da Bacia do Juruá. Eu me sentia muito mais leve com a temporária sensação de dever cumprido. Temporária, na verdade, pois as informações e dados coletados iam merecer ainda meses de trabalho antes de serem apresentados ao Gen Ex Villas Bôas, Cmt CMA, e ao Gen Div Fraxe, Diretor Geral do DNIT.

Rio Solimões.

Desde o início da Expedição General Bellarmino Mendonça, eu tinha assumido o compromisso de concluir, a qualquer preço, minha missão. Nunca em minha vida deixei de levar a bom termo qualquer missão engendrada por meus superiores hierárquicos e não ia ser agora, do alto de meus 62 anos de vida, dos quais mais de quatro décadas, na ativa ou na reserva, dedicadas ao meu exército e à minha Pátria, que eu iria fracassar ou, pior ainda, desistir. Tínhamos chegado a remar até 13 horas em um único dia, suportado tempestades inclementes, banzeiros impetuosos, Sol causticante, assédio de insetos, dores musculares lancinantes, mas, em compensação fomos sempre recompensados pela hospitalidade ribeirinha, pelo apoio das autoridades e empresários, pela oportunidade de fazer parte de uma pequena equipe de guerreiros formidáveis que encararam cada desafio com um sorriso nos lábios, gratos pelo ensejo de poder testar seus limites e, sobretudo, de chegar a cada meta diária com a agradável sensação de dever cumprido.

26.02.2013 – Partida para Comunidade Iracema 

Olha esta água, que é negra como tinta.
Posta nas mãos, é alva que faz gosto;
Dá por visto o nanquim com que se pinta,
Nos olhos, a paisagem de um desgosto.
(Quintino Cunha)  

Guiando-nos pelas luzes da Cidade e da Lua, rumamos lentamente, no início, para aquecer os músculos. Despedimo-nos das “águas negras” do Lago Tefé e adentramos no leitoso e barrento Solimões.

Rio Solimões.

Uma hora mais tarde, os primeiros raios do dorminhoco Sol estendiam preguiçosamente seus raios matizando com maestria o horizonte à nossa proa. A área já era minha conhecida, apesar das mudanças aqui e ali provocadas pela feroz torrente do tumultuário Rio. Passamos, por volta das 09h30, ao largo de Caiambé onde eu aportara, no dia 03.01.2009, e contatara a senhora Valdécia dos Santos Silva, mais conhecida como Beti, secretária da Escola Estadual Amélia Lima, que nos alojou na sala de aula número 01, e franqueou-nos, na época, o acesso às instalações sanitárias e cozinha da escola.

Mais tarde, por volta das 12h00, acostei em Jutica onde, em 04.01.2009, eu conhecera o escritor e latifundiário, Patrão daquelas terras, Jones Cunha, que havia nos oferecido um café com sucos, tapioca e pupunha, além de me presentear com seu livro “Jutica, o Brilho da Terra”.

Um morador informou-nos que o Jones estava em Manaus e que tomássemos muito cuidado no percurso até Coari, não especificando a razão de sua recomendação.

Pelas 15h00, passamos pela Comunidade Santa Sofia, onde eu havia parado, em janeiro de 2009, no flutuante do Sr. Plínio, mais conhecido como Bom Fim, um filho de paraibanos que migrou com sua família do Juruá por pressão de seringalistas. Aposentado, com os filhos criados e morando em Manaus, resolveu procurar sossego no pequeno vilarejo às margens do Lago Catuá, junto com sua amável esposa Dona Conceição que era, na época, a Presidente da Comunidade de Santa Sofia. A Sr.ª Rita, irmã da Dona Conceição, informou que ambos estavam em Coari fazendo compras e que só retornariam depois das 17h00.

Aproamos, então, para Iracema e depois de remarmos 107 km, durante onze horas entre paradas e remadas (9,7 km/h), chegamos à Comunidade onde fomos acolhidos gentilmente na residência da Sr.ª Nilzete Ferreira Lopes. Enquanto o Mário montava nosso acantonamento na grande sala da residência, o Marçal preparava a enorme dourada ([1]) comprada pelo Mário. O nosso cozinheiro conseguiu na Comunidade os condimentos necessários e proporcionou um belo jantar que foi compartilhado por nossa anfitriã e seus dois filhos Élson e Bruno. O capricho e a limpeza da residência e do seu entorno são de causar inveja aos mais exigentes. As panelas e demais utensílios de cozinha estavam imaculadamente limpos, a casa pintada, com cores vivas, possuía instalações amplas e extremamente asseadas. Pedi ao Mário que tirasse algumas fotografias da escolinha localizada no alto do barranco e cujo acesso, segundo informações que eu colhera em 2009 e confirmaria agora, se dava por intermédio de 162 degraus de madeira.

Comunidade Iracema

O Mário aproveitou a subida até o topo do morro, de onde fez algumas belas tomadas, e contou 102 degraus. Curiosamente a bela povoação é conhecida como a Comunidade dos 162 degraus.

Comunidade Iracema

27.02.2013 – Partida para Coari 

Samaumeira 

(Almino Álvares Affonso) 

Samaumeira! Liana e flores, em festa, 

Descem da copa imensa que a amplidão fareja… 

E o Sol, em sangue e ouro, portentoso beija

A soberana – graça e força – da floresta.

Mas quando, em transe, o vento sopra as tempestades,

E lhe fere, zimbrando, a colossal umbela,

Luta, esbraveja, cai… grandiosamente bela, 

Porém jamais se curva como os vis covardes! …  

Rio Solimões

Partimos, por volta das 05h20, para uma jornada de 122 km, fazendo votos para que o tempo colaborasse pois, do contrário, seria difícil atingir nosso objetivo antes do pôr do Sol. Estava muito escuro e somente depois de mais de 90 min de remo é que começaram a despontar, na nossa proa, os primeiros e dolentes raios solares. O amanhecer era magnífico e as raras e diáfanas nuvens, que adornavam o firmamento, prenunciavam um tórrido dia.

Rio Solimões

Procuramos navegar bem afastados das margens, o Mário deixara o motor de popa de 40 Hp em condições de ser utilizado imediatamente, tendo em vista a notícia de piratas que estariam agindo indiscriminadamente abordando e assaltando navegantes por estas bandas. Só nos faltava mais essa; por ironia do destino, no Baixo Juruá, os ribeirinhos nos tomaram por traficantes ou bandoleiros e agora, no Solimões, nós é que poderíamos ser vítimas deles.

Rio Solimões

Felizmente nada aconteceu e vencemos os 90 km sem grandes surpresas ou cansaço. Parece, porém, que São Pedro, mais uma vez queria nos colocar em cheque. A 32 km de Coari, um vendaval seguido de chuva torrencial, obrigou-nos a procurar abrigo em uma Ilha a Boreste.

Rio Solimões

Como sempre, depois da ventania que precede as amazônicas tempestades, desta feita com ventos de mais de 50 km/h seguidos de rajadas que beiravam os 70 km/h, e da chuva torrencial, que durou uns vinte minutos, sobrevieram banzeiros com ondas de mais de metro que vinham de todos os quadrantes, chacoalhando as embarcações ao seu bel prazer. Mais uma vez o fleumático “Cabo Horn”, fabricado pela Opium Fiberglass, de meu caro amigo Fábio Paiva, cortava a água como se estivesse navegando em águas serenas fazendo pouco do tumultuário e nervoso movimento aquático que o cercava e golpeava freneticamente seu casco.

Rio Solimões

Mais uma vez rendo homenagens a esta magnífica embarcação que já enfrentou mais de 9.000 km na Amazônia e que jamais deixou de corresponder às minhas expectativas enfrentando ventos e banzeiros consideráveis com uma estabilidade invejável.

Rio Solimões

Os recreios (embarcações de passageiros) tinham buscado refúgio em pequenas enseadas nas margens tal a ferocidade da tormenta. Continuamos nossa navegação e, ao contornarmos uma grande “angustura” a montante de Coari, avistamos a Cidade a uns vinte quilômetros de distância. O Mário contatou, por telefone, nossa equipe gaúcha para tranquilizá-los e o Major PM Norte que nos garantiria apoio em Coari. Logo que chegamos às escadarias próximas ao Porto naufragado de Coari, que foi ao fundo três meses depois de uma reforma mal feita, avistamos a tropa do Maj PM Norte nos aguardando. Seguindo orientação dos Policiais Militares, deixamos a nossa lancha aportada junto a um flutuante denominado Mercadinho do Paulão, de propriedade do Sr. Paulo Lopes de Oliveira, e guardamos nossas bagagens e combustível em local seguro no mesmo flutuante.

Rio Solimões

Os caiaques foram acomodados em outra embarcação, também de propriedade do Paulão, chamada Kaillon de Paula. Graças a gestões do Cmt Norte junto à Prefeitura de Coari, ficamos muito bem acomodados no Hotel LH.

Coari, AM

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 19.03.2021 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.   

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;  

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA) (2000 a 2012);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]    Dourada: Brachyplathystoma flavicans.

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