Grupo de Estudos Amazônicos debate agricultura familiar e sistemas Agroflorestais

Agricultura Familiar e Sistemas Agroflorestais na Amazônia. Este foi o tema da 59ª Reunião do Grupo de Estudos Estratégicos Amazônicos (GEEA), com palestra proferida pelo pesquisador do Inpa Johannes van Leeuwen, formado na Universidade Agrária de Wageningen, Holanda, com graduação em Silvicultura Tropical e um mestrado amplo e ‘pesado’ com dissertações em Silvicultura Tropical, Melhoramento de Plantas e Sociologia Rural da Zona Tropical, e uma especialização em Biometria.

Confira o RESUMO da palestra ocorrida na última quinta-feira (04), seguida de debate com os participantes, feito pelo próprio pesquisador Johannes van Leeuwen. Na oportunidade, Johannes recebeu um certificado de participação entregue pelo secretário-executivo do GEEA, o pesquisador do Inpa Geraldo Mendes.

Na palestra, argumentou-se que os agricultores familiares sabem cuidar das árvores, mas falta acesso a mudas no momento certo, e uma possível forma de remediar isso foi apresentada. O assunto é de suma importância, uma vez que a Amazônia tem grande potencial para o cultivo de árvores, enquanto as culturas anuais costumam ser problemáticas.

Com os pesquisadores João Batista Moreira Gomes e José Maria Thomaz Menezes, o palestrante criou em 1992 o Núcleo Agroflorestal do INPA. Outro participante de longa data é o Dr. Raimundo Cajueiro Leandro, que desde a aposentaria de José Maria coordena o Núcleo em Rondônia.

Árvores são fundamentais para o ecossistema terra: fixam carbono, mitigando o efeito estufa; regulam a ciclagem d’água, reduzindo eventos climáticos extremos; mantêm e melhoram a fertilidade do solo; e permitem alta biodiversidade, agilizando a adaptação do ecossistema a mudanças.

A Amazônia conhece diversos Sistemas AgroFlorestais (SAF’s), entre os quais o pomar caseiro atrás da casa de todo agricultor; a produção de guaraná nos densos plantios arbóreos dos índios Sateré Mawé; o consórcio cacau x seringa na várzea alta, datando do primeiro ciclo da borracha; e de data mais recente cacau e café com espécies madeireiras em Rondônia e pasto com tucumã em Amazonas.

O Núcleo optou para uma forma radical de pesquisa participativa, acompanhando e avaliando, em áreas de pequenos produtores, plantios agroflorestais piloto, delineados por pesquisadores e produtores juntos. Nessa metodologia, o Núcleo se limita a fornecer assessoria técnica e parte das mudas, enquanto as decisões finais e sua execução estão completamente com o agricultor. Isso ocorreu para forçar adaptações à realidade do campo e mostrar as possibilidades e dificuldades da promoção agroflorestal.

O Núcleo desenvolveu o “Diagnóstico e Delineamento Agroflorestal” que, de forma participativa, identifica no estabelecimento agrícola os locais, onde as mudas possam ser instaladas com grande chance de ter bom desenvolvimento. Resultaram as opções para promover o plantio de árvores, a maior parte descrita a seguir.

Em áreas de terra firme, recém-desmatadas para instalar mandioca ou abacaxi, foram instaladas SAF’s para a produção de frutas. Num hectare, um plantio combinou castanha com laranja, guaraná, cupuaçu e quantidades menores de outras espécies. Depois de 25 anos, é o exemplo de um SAF bem-sucedido: um castanhal com um estrato inferior de guaraná, cupuaçu e açaí-do-amazonas.

Diversos agricultores têm igarapés com áreas que inundam durante a enchente anual. Nestes casos, mudas de espécies de várzea e igapó permitiram a recuperação da vegetação ciliar e a melhoria da pesca. Outros produtores pediram este tipo de mudas para plantar ao redor de viveiros de piscicultura.

Os agricultores da várzea têm dificuldade de acesso à madeira, tanto para construção quanto para lenha. Neste caso, o Núcleo forneceu mudas de sete espécies madeireiras, que enriqueceram com sucesso culturas perenes, como cupuaçu e goiaba.

Em Rondônia, um agricultor recebeu mudas para plantar em seu cafezal recém-recepado. Quatro anos depois, o cafezal foi transformado em pasto arborizado. Uma forma baratíssima de instalar árvores no pasto.

Com a chegada da Internet, este tipo de apoio pode ser dado de forma mais eficiente. Na África, apesar das condições bem diferentes, um movimento bem-sucedido de revegetação trabalhou com Clubes de (agricultores) interessados. Um tal Clube: (1) levanta a necessidade em material de plantio e informação; (2) acompanha o uso do material recebido; (3) estimula o cuidado com árvores com competições e prêmios. Trabalhando assim, os custosos deslocamentos serão substituídos em grande parte por troca de mensagens e envio de material.

O palestrante enfatizou a necessidade de maior entrosamento entre pesquisa e produção. Infelizmente, se priorizam publicações em vez da resolução de problemas, para ter maior ‘produção’ acadêmica no sistema Lattes. Problema também constatado por Cláudio de Moura Castro (antigo Diretor Geral da CAPES) em suas colunas na Veja e seu livro “Crônicas de uma educação vacilante”.

Interessados podem pedir cópia dos slides acompanhando a palestra (johannes.leeuwen@gmail.com).

FONTE: INPA   –   

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