Expedição descobre sítios arqueológicos inéditos em terras indígenas do Mato Grosso

A existência de um povo em seu território pode ser atestada de formas muito mais variadas do que sua mera presença física.

Seu Canísio e Dona Neli, dos povos Kayabi e Rikbaktsa, respectivamente, são parte da memória viva da presença indígena na Bacia do Juruena. Foto: Caio Mota/Proteja Amazônia

Narrativas, vestígios, caminhos, são aspectos que influenciam fortemente a relação de populações com as regiões que habitam. Com a finalidade de subsidiar a criação de critérios próprios aos povos indígenas e mensurar parâmetros argumentativos dessa presença na região da Bacia do Juruena, a Funai realizou em outubro de 2018 uma expedição nos rios Arinos e dos Peixes, localizados no Mato Grosso. A ação foi elaborada em parceria com a ONG Operação Amazônia Nativa – OPAN, juntamente aos povos Kayabi, Apiaká, Munduruku e Rikbaktsa.

 

Território utilizado por vários povos, a região constitui-se como uma paisagem cultural de grande diversidade. Essa pluralidade pôde ser atestada através da descoberta de novos sítios arqueológicos, sequer registrados pelo órgão oficial do Estado brasileiro, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. “Durante a expedição, para além da vistoria nos sítios arqueológicos já identificados – 10 no total -, registramos mais oito espaços dessa natureza. Foram encontrados vestígios cerâmicos e líticos – especialmente machados polidos. Essa área é praticamente desconhecida do ponto de vista arqueológico, são poucos os estudos que foram realizados. Dentre estes, aponta-se uma correlação dos achados arqueológicos com grupos da tradição Itaparica, que remontam a uma ocupação de pelo menos 25 mil anos”, afirmou a arqueóloga Gabriele Garcia, que participou da expedição.

 

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Machado era utilizado para cortar fluxo de seiva das árvores; derrubada tinha como finalidade a abertura de roçados e a construção de habitações. Foto: Caio Mota/Proteja Amazônia

“Um sítio arqueológico é um local onde é possível encontrar evidências de atividades humanas, tais como a concentração de vários vestígios ou mesmo marcas deixadas através de pinturas ou gravuras. Trabalhando em contextos de territórios tradicionais ocupados no passado, os lugares de memória também são importantes. O IPHAN, em setembro de 2018, através da Portaria nº 375, ressaltou a importância desses “Lugares de Memória” e ainda tem como meta publicar uma portaria específica que estabelecerá os critérios para a homologação dessas localidades”, completou a especialista.

 

Como afirma a arqueóloga, a materialidade da relação ancestral dos povos com a região não se reduz a vestígios. Nesse sentido, a expedição teve como desdobramento a redescoberta de narrativas que descrevem a relação dos povos ali presentes com o território. À medida que os indígenas percorriam os cursos dos rios, relatos marcantes foram documentados. “Aqui que andávamos, né? Caçávamos, pescávamos, tirávamos mel… E hoje a gente vê as coisas bastante diferentes. Pessoas que estão desmatando cada vez mais as beiras do rio”, afirmou Canísio Kayabi, ancião e liderança local.

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Utilização dos minerais para a produção de cerâmicas e artefatos era fruto de minucioso processo de pesquisa. Foto: Caio Mota/Proteja Amazônia

Indígena do povo Apiaká, o Coordenador Técnico Local de Juara, Nicolau Morima Neto, que há quase 20 anos atua pela Funai na TI Apiaká/Kayabi, se emociona ao relembrar suas vivências. “Me marcou lembrar das antigas aldeias, inclusive a aldeia Apiaká na entrada do Rio Juruena, com cerca de 16 mil indígenas. Também relembrei de uma expedição, em 1973, junto com meu pai e meus irmãos, que saímos do Rio dos Peixes até o Rio Juruena. Difícil não lembrar dos massacres que foram realizados nessa região também… Apesar de triste, é necessário lembrar tudo que foi passado por nosso povo, para que essas coisas não venham se repetir”, reforçou.

A participação dos quatro povos locais foi decorrente de um empenhado trabalho de estruturação logística. Ricardo da Costa Carvalho, indigenista da OPAN que coordenou a expedição, esclareceu como se deu esse processo. “As articulações iniciaram-se cerca de dois meses antes da expedição. Fizemos duas viagens, visitando as aldeias da Terra Indígena Apiaká/Kayabi. Além disso, foram realizadas conversas para apresentar a atividade e planejamento conjunto sobre quais seriam os participantes, o trajeto que seria percorrido e as possíveis utilizações dos resultados da expedição”, afirmou.

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Conchas e caracóis encontrados em região do Arinos eram utilizadas como matéria-prima para elaboração de ornamentos que selavam acordos entre povos. Foto: Pablo Albarenga/Proteja Amazônia

Indigenista da Funai, Victor Amaral enalteceu o caráter de autoafirmação das populações locais. “Este conjunto de expedições tem nos ensinado que os indígenas frequentemente amplificam em qualidade e quantidade critérios e percepções de estudos de impacto na região. Como nos disse o Sr. Tamana, ancião local, “é muito importante que a gente continue a renovar o rastro dos nossos antepassados aqui” e ao relembrar a presença de suas histórias naquela paisagem, cria-se outra dimensão do que tem sido o impacto das mudanças ao longo dos últimos 30 anos. Essa troca tem contribuído para ampliar o domínio dos povos indígenas sobre uma territorialidade mais ampla do que a circunscrita à terra indígena demarcada e tem trazido resultados positivos para a boa vizinhança com os proprietários rurais do entorno”, finalizou o também antropólogo.

Vagner Campos

Assessoria de Comunicação/Funai

 

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