Agricultura camponesa se debate em um mar de soja

Guarantã, fundada na década de 1980 por imigrantes do sul, ainda não foi invadida pela soja, mas já o foi pela pecuária, o maior fator de desmatamento e de violência nos conflitos agrários brasileiros. Porém, a região sofre os efeitos das monoculturas, por ficar próxima a uma rota agroexportadora, a rodovia BR 163, conhecida como Cuiabá-Santarém, que liga a capital do Mato Grosso ao porto fluvial de Santarém, que é saída para o Oceano Atlântico Norte pelo Rio Amazonas.

Ao longo de centenas de quilômetros dessa estrada, o domínio da soja encurrala a pequena produção agrícola, ou agricultura familiar, definida por lei de 2006 e que, se estima, forneça dois terços dos alimentos consumidos no país. Lucas do Rio Verde, 380 quilômetros ao sul de Guarantã, é o centro de um mar de soja, plantada entre setembro e outubro, e em janeiro e fevereiro é substituída por milho ou algodão. Aqui “não há espaço para a agricultura familiar”, admite Nilfo Wandscheer, que presidiu o Sindicato de Trabalhadores Rurais (STR) local até o começo de julho.

Dos alimentos hortícolas consumidos na cidade, 80% procedem de outros lugares, acrescentou Wandscheer. E os agricultores filiados ao Sindicato também são assentados fora do Município. No Brasil, os STR agrupam tanto assalariados rurais – que em Lucas somam mais de dois mil – como as famílias que vivem de sua produção agrícola, seja em terra própria ou arrendada. Nos arredores da cidade há apenas cerca de 120 chácaras, muitas já condenadas por ficarem dentro de uma área próxima de ser urbanizada.

O município, que pelo Censo de 2010 tem 45.556 habitantes, terá 300 mil dentro de 20 anos, prevê Edu Pascoski, secretário municipal de Agricultura e Meio Ambiente. Isto porque Lucas do Rio Verde se converteu também em um importante centro agroindustrial, com a instalação de muitas processadoras de grãos. Há três anos, foi inaugurada uma unidade do grupo Sadia, que emprega cerca de cinco mil trabalhadores na elaboração de carnes de frango e porco, e em alimento animal, aproveitando a grande produção local de soja e milho.

Além disso, em alguns anos se converterá em um polo logístico, com a chegada de uma ferrovia, prioridade do governo, que permitirá o transporte das crescentes colheitas estaduais, atualmente levadas por caminhões que percorrem milhares de quilômetros rumo aos portos do Atlântico. A ferrovia e a pavimentação da BR-163, que terminará no ano que vem, fortalecerão a competitividade agrícola do Mato Grosso, reduzindo os custos logísticos impostos por sua localização no centro geográfico da América do Sul, afirma Pascoski, outro agricultor do sul que se urbanizou como contador e depois político local.

No entanto, esses longos eixos de transporte servirão apenas ao agronegócio de grande escala, “não a nós, que poucos benefícios poderemos desfrutar com a ferrovia”, afirma João Paulo Félix, presidente do STR do Município de Nova Mutum que, como o vizinho Lucas do Rio Verde, está repleto de soja, milho, algodão e grandes armazéns de empresas multinacionais, como Cargill, Bunge e ADM. O que os “pequenos” necessitam são estradas vicinais e transporte local.

Os assentamentos de Nova Mutum concedidos a 358 famílias agricultoras em virtude da reforma agrária estão distantes de 75 a 150 quilômetros da cidade. Um programa oficial lhes garante cota de 30% nas compras para merenda escolar, mas são obrigados a abrir mão desse mercado “porque o custo do transporte torna inviável entregar os alimentos que produzem”, lamentou Félix.

Além disso, as grandes vias de exportação encarecerão as terras produtivas do Mato Grosso. “Valerão ouro” e serão mais inacessíveis para os camponeses, prevê Jarlene Pires, líder de uma centena de famílias que desde 2001 ocupam uma área em Marcelândia, perto de Guarantã, e agora enfrentam incêndios provocados e ameaças de sua suposta proprietária para que deixem as terras.

A agricultura familiar também enfrenta obstáculos impostos pelas autoridades sanitárias locais, queixou-se Félix. Em Nova Mutum é exigido que os embutidos de porco sejam elaborados a uma distância de mil metros da pocilga. “Mas a minha propriedade tem apenas 400 metros de comprimento”, citou como exemplo. Dos que produzem mel e queijo também são exigidos equipamentos especiais que requerem investimento inicial fora do alcance dos camponeses pobres, acrescentou Félix.

O “contexto adverso” se completa com o fim do crédito especial para a agricultura familiar, porque o Instituto de Reforma Agrária não cumpriu normas ambientais ao promover assentamentos no Norte do Mato Grosso, disse Wandscheer, outro agricultor do sul que emigrou “em busca de terras e vida nova”. Ele chegou em 1998 com alguma experiência sindical, tendo participado da ocupação de uma área em Nova Mutum, que resultou no assentamento de 69 famílias. Em seguida, assumiu a liderança do Sindicato de Lucas do Rio Verde, onde realizou uma ação que ultrapassou o nível local e o sindicalismo, e lhe custou várias ameaças de morte.

Hoje é uma referência do ativismo a favor da reforma agrária, da agroecologia e do cooperativismo, e condena o abuso de agroquímicos nas monoculturas. Converteu seu Sindicato em um centro de ensino e, em 2006, denunciou a “chuva de agrotóxicos” lançada por aviões e que causou danos e doenças em Lucas do Rio Verde. Wandscheer deixou a presidência do STR para coordenar uma rede de cooperativas agrícolas do norte do Mato Grosso, onde “todos os prefeitos são do agronegócio e só há políticas públicas para esse setor”, afirmou. A sobrevivência e o progresso da agricultura familiar necessitam de melhores condições de comercialização, assistência técnica e capacitação para administração.

 

Fonte: Instituto Carbono Brasil

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