A Terceira Margem – Parte DCLXV

Colônia do Santíssimo Sacramento
Parte I

Planisfério de Cantino, 1502

Como vimos nos artigos anteriores, Barbosa Lessa e Jaime Cortesão, ressaltam a importância eco­nômica da Colônia do Sacramento de onde partiam os navios, carregados com couro e outros produtos, com destino às cidades de São Vicente e Santos.

Os portugueses tinham manipulado o Mapa das Cortes arrastando as fronteiras meridionais brasileiras para Leste aumentando consideravelmente o domínio português sobre áreas reconhecidamente espanholas pelo Tratado de Tordesilhas apossando-se ilegalmente da Colônia.

A Colônia do Sacramento, cidade mais antiga do Uruguai, além de guardar um importante acervo arquitetônico do século XVII, já reconhecido como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, é, sem sombra de dúvida, o mais importante destino turístico cultural uruguaio. A Capital do Departamento de Colônia, edificada na margem esquerda do Rio da Prata, fica a 177 km de Montevidéu e a apenas 45 km de Buenos Aires, localizada na margem oposta do mesmo Rio.

Os educados irmãos uruguaios cultuam as suas tradições, sua história, respeitam seus heróis, recebem os estrangeiros com muita atenção e carinho e, acima de tudo, amam com devoção extrema seu País.

Por mais de uma vez, “los hermanos”, vendo-me fotografar seus casarões centenários, monumentos ou prédios históricos, acercavam-se de mim procurando orgulhosamente informar-me a respeito dos mesmos.

Breve Histórico

João Capistrano Honório de Abreu, às páginas 57 a 87, na obra “Ensaios e Estudos (Crítica e História)” ‒ 3ª Série, editado na Livraria Briguiet, em 1938, pela Sociedade Capistrano de Abreu, dedica-lhe um capítulo especial denominado “Sobre a Colônia do Sacramento”. Capistrano de Abreu faz uma retrospectiva histórica desde Colombo para contextualizar o tema.

Sobre a Colônia do Sacramento

Quando Cristóvão Colombo, em 09.03.1493, anun­ciou a El-Rei de Portugal o descobrimento de novas terras Ocidentais, respondeu-lhe D. João II que todas pertenciam à sua coroa. Na opinião do tempo era idêntico o Mar que banhava a Europa e a África por Oeste ao que banhava a Ásia a Este: a Ásia Oriental e Meridional com seus milhares de ilhas, toda a África Oriental desde a Abissínia até o Cabo da Boa Esperança, julgavam-se Índia; as terras situadas a meio caminho da Índia, a própria Índia, foram doadas à Coroa de Portugal por diversos Pontífices a partir de Nicolau II; os Reis de Espanha reconheceram os direitos portugueses em Tratados solenes. Como podiam os novos descobertos demo­rar ([1]) fora de limites serem definidos com tanta precisão? No mês de abril, terminadas as festivi­dades da Páscoa, D. João chamou a Conselho seus Ministros e resolveu mandar uma Armada às regiões novamente achadas por Colombo.

Por intermédio do Duque de Medina Sidonia sou­beram os Reis de Espanha da grave resolução toma­da: a 23 de abril expediram, de Barcelona, Lopes de Haro, pedindo a D. João II fizesse apregoar por seus reinos que ninguém fosse às ilhas descobertas e nomeasse embaixadores conhecedores do caso para discuti-lo calmamente e levá-lo a decisão honrosa. O pregão ([2]) foi desde logo lançado e obedecido mais ou menos: em todo o caso, as aparências salvaram-se.

Os embaixadores nomeados, Doutor Pero Dias e Ruy de Pina, seguiram por Mar até Barcelona, onde estava a Corte, e lá chegaram a 15 de agosto. A embaixada deu resultado nulo nas aparências por ignorarem os embaixadores o assunto de que se tratava. Entretanto, os reis de Espanha não se absorviam inteiramente nestas conferências. Seus representantes em Roma trabalhavam ativamente e obtinham de Alexandre VI, o Papa, as maiores concessões. Por duas Bulas de 3 de maio eram doadas àquele reino todas as terras descobertas e por descobrir sob a bandeira de Espanha; por outra de 4 de maio fixavam-se os limites entre possessões espanholas e portuguesas a cem léguas de qualquer das ilhas dos Açores e do Cabo Verde; por outra de 25 de setembro atribuíam-se à Espanha todas e quaisquer ilhas e terras firmes achadas e por achar, descobertas e por descobrir e as que, navegando ou caminhando para o Ocidente ou Meio-dia ([3]), são ou forem aparecendo, ou estejam nas partes Ocidentais ou Meridionais e Orientais e da Índia.

Assim, nem os reis de Espanha nem a Cúria romana estavam pelas consequências que a Coroa Portu­guesa tirava de Bulas e Tratados antigos: urgia, pois, achar nova base de negociações. Foi mandado, de Barcelona para a Corte Portuguesa, Garcia de Herrera a dar notícia da próxima partida de outra embaixada incumbida de tratar a questão, para a qual se pedia benigno acolhimento. Composta de Garcia Lopez do Carbajal e D. Pedro d’Ayala, partiu de fato a 2 de novembro e foi recebida friamente: “não tem pé nem cabeça”, disse desdenhoso D. João II, aludindo a um que era coxo e outro de fraco espírito. Por sua vez, a 08.03.1494, El-Rei mandou Ruy de Sousa, senhor de Usagres e Berengel, João de Sousa, seu filho, almotacé-mor ([4]), e Árias de Almadana, corregedor dos feitos cíveis na Corte de Lisboa e do desembargo do Paço, os quais conferi­ram e negociaram em Medina do Campo e levaram a negociação a bom resultado, assinando com Henri­que Henriques, mordomo-mor, Gutierres de Carde­nas, comissário-mor de Leon e contador-mor, e Dr. Rodrigo Maldonado de Talaveras, todos do Conselho Real, a 7 de junho, o Tratado de Tordesilhas, primeiro capítulo da história diplomática da América.

Pelo Tratado fixavam-se os limites entre as altas potências contratantes não mais a 100 léguas, mas a 370; não mais a Oeste de qualquer das ilhas dos Açores e do Cabo-Verde, como na Bula de 4 de maio do ano anterior, mas a Oeste do arquipélago do Cabo Verde. De que ilha não se especificou, o que, aliás, não significava muito, pois a distância entre a mais Oriental e a mais Ocidental é apenas de 2°45’ ([5]). Mais sério foi não especificar-se como se devia entender a légua ([6]), pois nas teorias contempo­râneas havia-as de 141/6, de 15, de 162/3, de 171/2 e até de 217/8 em um grau do Equador ([7]).

Mais sério foi, enfim, esquecer-se de que os astrônomos não possuíam ainda nem instrumentos nem saber bastante para achar longitudes no Mar, se acaso o alcançasse o linde ([8]). Estes inconvenientes não apareceram quando, no ano de 1500, o Brasil foi ao mesmo tempo descoberto pelos espanhóis Vicente Yáñez Pinzón e Diego de Lepe, pelo português Pedro Álvares Cabral. El-Rei de Espanha, em 05.09.1500, fez Pinzón “capitán é gobernador de las dichas tierras de sus o nombradas desde la dicha punta de Santa María de la Consolación siguiendo la costa hasta Rostro Hermoso, é de allí toda la costa que se corre al Noroeste hasta el dicho Río que vos posistes nombre Santa María de la Mar Dulce”; mas o antigo companheiro de Colombo não se aproveitou da concessão, ou logo desenganou-se dela com o aspecto “safio do lito”, o canibalismo dos indígenas e a força de ventos e correntes.

Neste trecho não se encontram depois mais vestígios de Espanhóis pelo correr do século XVI. D. Manuel, sucessor de D. João II, mandou desde logo tomar conta do país encontrado por Cabral e melhor explorá-lo.

Uma expedição de três navios saiu de Lisboa em maio de 1501, surgiu a 16 de agosto no Cabo de S. Roque, e acompanhando a costa foi reconhecendo-a dando nome aos pontos mais notáveis. No mapa de Alberto Cantino, preparado em 1502, apenas voltou a Armada, o ponto mais Meridional que aparece é o Cabo de Santa Marta, no atual Estado de Santa Catarina. Em 1503, veio nova expedição particular, composta de seis navios pertencentes a alguns cristãos novos, que desde logo arrendaram a terra, para explorar o pau-brasil e fazer escravos.

Na ilha de Fernão de Noronha, que também achamos nomeada São Lourenço, por ter sido avistada no dia 10 de agosto, perdeu-se a Capitania; dois navios separaram-se da Armada, reduzindo-a assim à metade. Os restantes não é verossímil que se metessem a descobrir; provavelmente tornaram para o reino, apenas completaram a carga.

Passam alguns anos, durante os quais habitualmente os portugueses se contentaram em navegar pelas proximidades do Cabo de Santo Agostinho, onde facilmente achavam os poucos gêneros de seu escambo: pau-brasil, papagaios, macacos, cascavéis, algodão, escravos, resgatados por anzóis, espelhos, ferramentas, avelórios. Em 1513, uma esquadrilha de dois navios, armados por Cristovam de Haro, D. Nuno Manuel e outros, obteve licença para continuar o descobrimento e adiantou-se a lugares até então desconhecidos.

Seus resultados, segundo se pôde concluir, de uma carta ou gazeta escrita da Madeira em 12.10.1514, quando chegou um dos navios, obrigado a voltar por falta de mantimentos, são formulados por Konrad Haebler:

Se João de Lisboa foi o famoso Piloto de que fala a gazeta, é muito incerto, embora não impossível. Os navios passaram os limites do até então explorado, que não devia demorar muito ao Sul do Cabo de Laguna ou Santa Catarina. Nesta viagem descobriram o Cabo de Santa Maria, que deles recebeu certamente o nome, internaram-se num espaço considerável pelo Golfo do Prata, até reconhecê-lo a pequena distância de ambas as margens; provavelmente viram também claro que se tratava da embocadura de um Rio. Em consequência disto e acossados por tempos desfavoráveis, voltaram para o alto Mar e seguiram a costa até altas latitudes Meridionais, onde encontraram indígenas vestidos de pele e ouviram falar em montes nevados.

De nem um modo descobriram o Estreito de Maga­lhães; foram, porém, os primeiros europeus que alcançaram a profunda chanfradura da Baía do Prata, que a Coroa Portuguesa, de fato, mais tarde, reclamou como sua. (ABREU) (Continua…)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 20.11.2023 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Bibliografia: 

ABREU, João Capistrano Honório de. Ensaios e Estudos (Crítica e História) – Brasil – Rio de Janeiro, RJ – Edição da Sociedade Capistrano de Abreu – Livraria Briguiet, 1938.  

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;  

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

[1]    Demorar: situados. (Hiram Reis)

[2]    O pregão: a proclamação, o bando. (Hiram Reis)

[3]    Meio-dia: Sul. (Hiram Reis)

[4]    Almotacé-mor: provedor da casa real. (Hiram Reis)

[5]    2°45’: 305,58 km. (Hiram Reis)

[6]    Légua: outrora 6.349,2 m, hoje 5.556,0 m. (Hiram Reis)

[7]    Um grau do Equador: hoje 20 léguas ou 111,12 km. (Hiram Reis)

[8]    Linde: limite. (Hiram Reis)

Nota – A equipe do Ecoamazônia esclarece que o conteúdo e as opiniões expressas nas postagens são de responsabilidade do (s) autor (es) e não refletem, necessariamente, a opinião deste ‘site”, são postados em respeito a pluralidade de ideias 

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