Contrarrevolução de 64 – Parte XVI

Contrarrevolução de 64 – Parte XVI

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Manchete n° 625, Rio de Janeiro, RJ
Sábado, 11.04.1964
Jango – Sete Dias em Março
(Escreve Murilo Melo Filho)

Os últimos sete dias de março reativaram o processo da crise político-militar. O grupo de marinheiros, reunido no Sindicato dos Metalúrgicos, venceu a luta contra o Ministro Sílvio Mota, derrubado de seu posto, enquanto o Almirante Cândido Aragão retornava ao comando dos Fuzileiros e um Almirante nacionalista assumia a pasta da Marinha. A vitória da área esquerdista era a mais completa possível e o marujos a traduziram nas avenidas do Rio através de manifestações públicas de regozijo. Mas já no sábado de Aleluia, a reação começou a esboçar-se no Clube Naval, com a participação de dezenas de Almirantes e centenas de Oficiais superiores. Conside­ram-se eles diminuídos e feridos em sua autoridade pelo fato de não terem sido punidos os cabos e marinheiros. Declararam, então, a impossibilidade de se manterem em seus postos e comandos, sem que o princípio da hierarquia e da disciplina fosse restabelecido.

A esta altura, o Sr. João Goulart interrompera seu descanso no Sul e voltara a fim de debelar os aspectos mais urgentes da crise. Do Rio, supondo tê-la resolvido, dirigira-se a Brasília, tentando recuperar seu descanso pascal. Mas foi novamente interrompido pelas notícias chegadas do Rio, informando-o de que o Clube Militar, através do Marechal Augusto Magessi, acabava de solidarizar-se com os seus colegas da Marinha na dupla evidência: punição dos marinheiros e afastamento do Almirante Aragão.

O presidente, apanhado de surpresa pelo alastramento da crise a setores do Exército, justamente no instante em que a considerava debelada e restrita à Marinha, declarou que seus adversários certamente o teriam acusado se não tivesse agido com rapidez, firmeza e serenidade. Mas agira prontamente, evitando que a crise se alastrasse, através de conflitos sangrentos, que chegaram mesmo a esboçar-se. Depois de elogiar a atitude do Exército e da Aeronáutica, a cuja unidade e alto patriotismo declarou dever o País a rápida suspensão da crise – que, se prolongada, poderia nos conduzir a caminhos mais perigosos – o Sr. João Goulart garantiu que a ordem e a disciplina seriam restabelecidas em sua plenitude pelo novo titular da Marinha.

Enquanto Oficiais do Exército e da Marinha se Reuniam nos Clubes Naval e Militar, o Presidente, Acompanhado de Ministros de Estado, Recebia Ruidosa Homenagem de Sargentos de Todas as Armas

Justamente então a Câmara e o Senado se preparavam para reabrir seus trabalhos, após o hiato da semana santa. Na ordem do dia da primeira sessão figurava exatamente o processo de anistia aos sargentos rebelados de Brasília. Parecia pacífica a aprovação desse projeto. Todas as bancadas estavam unidas em torno da tese de que era necessário desanuviar as tensões e perdoar os insurretos.

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Mas o episódio dos marinheiros criou ambiente inteiramente diverso: já ninguém poderia garantir a aprovação do projeto. Foi nessa atmosfera que se reiniciaram os trabalhos legislativos. Na Câmara, isso ocorreu sob um tenso bombardeio dos mais alarmantes boatos o rumores. Um fato contribuiu para o agravamento das preocupações: seu Presidente, deputado Ranieri Mazzilli, que passara toda a manhã em contato com os líderes parlamentares e não ocultava suas apreensões estava presidindo os trabalhos quando, após ouvir uma comunicação que lhe foi feita ao ouvido levantou-se de forma abrupta da cadeira, foi ao gabinete atender a um telefonema e retirou-se apressadamente do edifício do Congresso.

Tornou depois rumo ignorado, logo começando a circular as mais desencontradas versões sabre a sua ausência. Dizia-se ora que fora chamado ao Rio com urgência para conferenciar com o presidente da República; ora que se dirigira à Granja do Torto para ali falar com Jango; ora que se encaminhara ao seu apartamento em Brasília onde, após comunicar-se com São Paulo, resolvera tomar um avião para ir ao encontro do Governador Ademar do Barros.

Enquanto isso, sucediam-se as mais absurdas especulações: Estado de Sítio, intervenção na Guanabara, São Paulo e Minas, convocação de Constituinte e até renúncia de Jango. Só uma coisa era cena: o Sr. Ranieri Mazzilli voara para São Paulo, indo diretamente para os Campos Elísios, a fim de avistar-se com o Governador paulista. Desmentiu, porém, que sua viagem se destinasse a providenciar a transferência do Congresso para São Paulo.

Tampouco o Sr. João Goulart se ausentara do Rio. Ao contrário, estava naquele mesmo instante se preparando para dirigir-se ao Automóvel Clube, onde iria receber as homenagens do milhares de sargentos e pronunciar importante discurso.

O líder do PSD, deputado Martins Rodrigues, homem habitualmente cauteloso e comedido, não escondia seus temores. Acabara de falar com o senhor Ranieri Mazzilli e dizia que talvez estivesse o País vivendo os últimos momentos do regime. Foi nesse clima que chegou ao Congresso a notícia da proclamação feita pelo Governador Magalhães Pinto, de solidariedade aos Almirantes, em meio a uma reforma de seu secretariado, para dar posse ao deputado José Maria Alkmin na Secretaria de Finanças

A atitude do Governador mineiro passou togo a ser interpretada como indício de união, em Minas, com PSD e UDN ligados ao Governo Estadual, que por sua vez estaria muito bem guarnecido pelo apoio das Unidades do Exército ali sediadas. Informava-se que o Sr. Magalhães Pinto havia tomado a precaução de ouvir os Generais Carlos Luís Guedes e Olímpio Mourão, comandantes das Guarnições Militares de Minas. A Força Pública Mineira teria sido igualmente mobilizada, para enfrentar qualquer eventualidade. Simultaneamente, circulavam notícias de que o Governador Ademar de Barros estava bem garantido pelos principais Comandos sediados em São Paulo, sobretudo por parte do General Amauri Kruel, Comandante do II Exército. Dizia-se, então, que o presidente da República, diante da reação contra ali desencadeada, teria caído em si e verificado que realmente a falta de punição para os marinheiros constituíra a gota d’água que fizera a taça transbordar.

O General Assis Brasil teria traçado o quadro realista da situação, para revelar-lhe que até mesmo os oficiais janguistas se encontravam sem argumentos para rebater a ofensiva dos seus colegas. Todos, de uma forma ou de outra, se consideravam atingidos pela impunidade dos marinheiros.

Em razão disso, foi adotada a providência de instaurar três inquéritos policial-militares na Marinha: um para apurar a rebeldia dos Almirantes e Oficiais Superiores em seus manifestos: outro para investigar a atitude dos Oficiais que haviam atirado contra os marinheiros no Arsenal de Marinha ou se haviam opostos à posse do novo Ministro; e, ainda, o inquérito para apurar a responsabilidade dos líderes das manifestações verificadas no Sindicato dos Metalúrgicos. (Continua…)

Por: Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 17.06.2024 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;  

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Ex-Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Ex-Vice-Presidente da Federação de Canoagem de Mato Grosso do Sul;
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós (IHGTAP);
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com

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