A Terceira Margem – Parte XX

Momentos Transcendentais no Rio Amazonas I
Manaus, AM/ Santarém, PA ‒ Parte IV

Parintins – Emoção Sexagenária

Graças ao Coronel Aguinaldo, meu ex-Cadete, comandante do 8° B E Cnst, continuo desfrutando do apoio da zelosa tripulação do B/M Piquiatuba. Para quem, como eu, já desceu o Rio Solimões de caiaque, sem qualquer tipo de apoio, é fácil perceber a importância desses verdadeiros escudeiros que não me perdem de vista por um segundo sequer.

Graças ao equipamento rádio doado ao projeto pelo Tenente Wanrley dos Anjos Perazzo, o contato tem sido feito sem a necessidade de aportar ou de me aproximar da embarcação de apoio. A par da competência de cada um dos tripulantes, cabe ressaltar o respeito e o carinho deles para comigo e acredito que mais que uma missão de apoio eles assumiram o papel de meus verdadeiros anjos da guarda.

O Comandante do Batalhão da Polícia Militar de Parintins, Major Túlio Sávio Pinto Freitas veio me visitar a bordo e colocar-se à disposição. O Túlio é uma criatura alegre, comunicativa e extremamente prestativa, cujo sotaque e o comportamento lembram um típico gaúcho da campanha. Graças a ele fomos acomodados, gratuitamente, no Hotel Avenida de propriedade do senhor Mário Flávio Andrade de Souza.

Depois de passearmos pela Cidade, o Túlio foi à missa e eu fui buscar os apetrechos necessários no Piquiatuba para o pernoite no Hotel. Ao subir a bordo fui pego de surpresa com uma comemoração ao meu natalício, recebi de presente o belo livreto “Entoada” que traz no seu bojo as letras e músicas de Tadeu Garcia. Bastante comovido tentei regressar ao meu refúgio emocional, mas a tripulação e passageiros haviam preparado mais um evento e quando desci para o convés inferior, a mesa de aniversário estava posta com velinhas e tudo. Depois dos parabéns, mais uma surpresa que eu, absolutamente, não esperava: a tripulação presenteou-me com uma miniatura personalizada do Piquiatuba. Guardarei com muito carinho esta recordação que representa não apenas mais uma Fase do Projeto Rio-Mar mas, sobretudo, materializa a conduta irrepreensível desta “Tropa de Elite” do 8° Batalhão de Engenharia de Construção.

O Comandante Túlio colocou à nossa disposição uma viatura da PM, conduzida pelo Sgt Klinger, permitindo-nos conhecer os pontos turísticos mais importantes da bela Cidade. Visitamos a Catedral Nossa Senhora do Carmo, projetada na Itália e fundada em 31.05.1962. A Catedral possui uma monumental torre de base quadrangular com 40 m de altura, que é, como a Igreja, revestida de tijolos aparentes. A Igreja de São Benedito, primeira Igreja de Parintins, fundada em 1795, pelo Frei José das Chagas, foi demolida em 1905 e, no seu lugar, foi erguida, em 1945, a capela de São Benedito. A Igreja do Sagrado Coração de Jesus, fundada, também, em 1945, chamava-se Igreja Nossa Senhora do Carmo, e teve seu nome alterado depois da construção da nova catedral, em 1962.

Depois de nosso tour religioso, fomos conhecer o Bumbódromo onde se realiza o Festival Folclórico de Parintins e que abriga durante o restante do ano uma escola municipal com 18 salas de aula. Concedi uma entrevista à Rádio-TV Alvorada e Rádio Clube de Parintins onde fomos entrevistados pelo repórter Tadeu de Souza.

Sr. Manuel Joaquim Coelho Lima

O amigo Joaquim é um homem fantástico, educado, de fala mansa e de uma experiência de vida que serve de exemplo para todos nós. Sua fé, determinação e amor aos estudos transformaram aquele meninote que vendia picolés para sobreviver em um dos pilares da sociedade parintinense. Foi realmente um privilégio conhecê-lo e à sua esposa Ester ainda que por breves momentos na nossa passagem pela Ilha Tupinambarana. Na nossa próxima descida pelo Madeira e Amazonas pretendemos, novamente, encontrar os queridos amigos de Parintins. Reproduzo, abaixo, a entrevista que o Joaquim nos concedeu no seu agradável escritório de contabilidade.

Nasci em 1958, sou o primogênito de uma família de 14 irmãos, minha mãe era professora rural e o meu pai era um simples carpinteiro. Passávamos dificuldades, tínhamos poucos recursos, a família crescia, todo ano nascia um irmão e aos 8 anos de idade tive que trabalhar na Cidade, naquele tempo não tinha Conselho Tutelar nem nada, eu vendia picolé e pão doce. Duas irmãs foram trabalhar como empregadas domésticas. Era uma situação difícil que aconteceu no início dos anos 60. Comecei a estudar e meu pai teve que ir para o garimpo, no garimpo ele fumava e bebia, eu acho que no garimpo ele era obrigado a fumar alguma coisa muito forte, ele era mergulhador, mergulhava para buscar ouro lá no fundo. Muitas vezes as pessoas eram obrigadas a beber e fumar, um dos critérios para ir para lá era ser maluco assim. Então o meu pai praticamente desapareceu por lá, na época eu estava no Exército, tive a sorte de ir para o Exército com 17 anos, por um erro na data de nascimento, quando cheguei em São Gabriel eu estava com 17 anos e eu achava que tinha 18. Quando fiz meus exames para o Exército, aqui em Parintins, a Fundação Estadual de Saúde Pública disse que não tinha a minha ficha, e minha mãe me disse:

tu nunca adoeceste, meu filho, tu só pegaste uma cataporazinha, um sarampo, nunca tomou vacina, nunca adoeceu, nada, nada.

Mamãe não tinha tempo com 14 filhos, e eu era o mais velho e o mais velho precisava ajudar. Morreu um casal de gêmeos e depois outro irmão com problemas simples, sobreviveram 11 filhos. Eu estava no Exército e estava pronto para engajar, quando meu pai desapareceu e minha mãe ficou apavorada, tive de largar tudo e voltar para ajudar mamãe. Mas a família se reuniu e decidiu que nós tínhamos que estudar. Todos os meus irmãos estudaram, cursaram nível médio, hoje uma de minhas irmãs está fazendo doutorado na Austrália, eu fiz minha graduação, minha esposa também, um de meus irmãos é engenheiro, outro sociólogo, um deles está cursando psicologia, uma irmã está estudando e outra concluindo o curso de direito, para nós é uma vitória. Quando minha irmã passou no vestibular de Manaus, ela se mudou para lá porque aqui não tinha emprego e levou os meus irmãos, só fiquei eu e outra irmã que é protética e a família toda foi morar em Manaus, faz mais de 20 anos que moram lá, possuem casa própria, e uma situação econômica muito boa, graças a minha mãe, ela é uma guerreira mesmo.

Eu fiquei em Parintins, terminei meus estudos. Quando concluí meus estudos em 80, fiz três concursos públicos no Município e passei em todos. Você vê que eu trabalhei de picolezeiro, trabalhei numa loja de vendedor e quando concluí os estudos eu passei no concurso do CESP e depois no concurso do Banco do Estado. Meu sonho era ser bancário, passei no concurso da Caixa Econômica, naquele tempo, década de 80 era um glamour na Cidade e com os estudos que eu tive no próprio Município, estudando em escola pública e sem aulas de reforço, eu não tinha aula particular para estudar, eu era o mais velho, eu tinha uma responsabilidade muito grande, não podia beber, não podia fumar; o irmão mais velho, quando a família não tem um pai, passa a ser o modelo para os outros irmãos e isso eu aprendi no Exército, a ter as coisas organizadas, ter disciplina, isso eu aprendi lá.

A Caixa me chamou para trabalhar em Maués, Cidade que fica a mais ou menos 18 horas de barco daqui, e ser caixa executivo para comprar ouro. Quando cheguei lá, precisava vestir terno e gravata, afinal eu era funcionário da caixa. Eu 1980, me formei e, em 1981, fiz concurso para Professor do Estado, passei e fui contratado para lecionar Contabilidade. Em 1982, fiz concurso e ganhei mais uma cadeira para ministrar aula no Estado, dava aula de Contabilidade Geral até para ex-colegas meus que não tinham sido aprovados. Eu já trabalhava na Contabilidade desde 1974, era auxiliar de Escritório Contábil, quando fui estudar na faculdade já entendia um pouco e meu Professor percebeu minha facilidade, eu tinha notas excelentes e passei nesses concursos de que já falei. Eu consegui me superar pelo estudo e olha que foi sofrido, não ter pai e tal. Quando eu estava na Caixa em Maués, usando a tecnologia do banco, naquele tempo já tinha computador, eu trabalhava com telex, com informações.

Liguei para uma moça de Porto Velho e disse que nessa área de garimpo tinha um senhor com as características do meu pai. Depois de aproximadamente quinze anos, quando eu achava que meu pai já tinha morrido, uma colega me disse: que o nome do homem era José Cláudio de Lima e o nome de meu pai é Cláudio de Lima. A colega procurou e encontrou meu pai, e ele contou que era de Parintins, ela deu meu nome e telefone e, enfim, encontrei meu pai. Só que meu pai já era viciado, era alcoólatra mesmo, e ele me disse que, em um dos mergulhos, ele perdeu a noção de tudo, passou muito tempo em um Hospital de Belém e não lembrava de mais nada, só de que já estava em Porto Velho e precisava fazer os documentos. Fez com outro nome porque não lembrava mais o nome dele, eu o trouxe para cá, então foi uma felicidade muito breve, uma das conquistas que eu tive dentro da Caixa foi essa. Em Maués eu trabalhava, de dia, na Caixa e, à noite, como Professor. Foi quando conheci e namorei a minha esposa e casamos, em junho, lá em Maués. Depois veio o plano Funaro e extinguiu os postos, o Governo teve que fazer uma contenção e acabou com a compra do ouro, fechando a agência em agosto. Depois que a Caixa fechou, eu voltei para Parintins. (Manuel Joaquim Coelho Lima)

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 12.08.2020 um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;     

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com

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