A Terceira Margem – Parte DXXXIX

Descendo o Rio Branco

Cachoeira do Véu de Noiva (12.08.2019)

Boa Vista – ACAMPAMENTO – AC 01 (12.08.2019)

Um Sopro de Vida (Pulsações)
(Clarice Lispector)

Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir Como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços o meu pecado de pensar.

Adiei a partida, para causar menos transtorno aos meus apoiadores, e, em vez de partir no final de semana, resolvi iniciar a jornada na segunda-feira. Enviei esta mensagem para os amigos e familiares no dia 11 de agosto:

Parto segunda-feira (12 de agosto) para Manaus.
Ligarei o rastreador às 05h30 (06h30 de Brasília).
Que o Grande Arquiteto do Universo vos abençoe, ilumine e guarde são os votos deste humilde Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

Rio Branco (12.08.2019)

12.08.2019 (Ponte dos Macuxis / Ilha S. Vicente)

O caminhão e os militares de apoio chegaram, pontualmente, às 05h00, na Casa de Apoio do 6° BEC. Embarcamos o caiaque e a tralha toda e partimos, às 05h07, para a Cerâmica Kotinscki, à jusante da Ponte dos Macuxis. Parti, antes do alvorecer, às 05h40, quase uma hora antes do Sol nascer, mas como faltavam apenas três dias para a Lua Cheia, eu podia, portanto, contar com quase 90% da luminosidade plena dela. Era mais que o suficiente para eu poder me guiar pela corrente do Rio Branco sem perder de vista as margens que mantém uma média até Caracaraí de 2 km ampliando-se nas cachoeiras do Bem Querer para 3 km.

Considerando que as margens dilatam-se em sua plenitude apenas quando a torrente esbarra aqui e ali em algumas ilhas, multiplicando seu curso, a distância das margens, volta e meia, cai para poucas dezenas ou centenas de metros. Esta é a terceira vez que tenho, na Amazônia, como parceiros de jornada tão somente o Grande Arquiteto e meu valoroso “Argo I”. São jornadas mágicas em que minha alma imerge literalmente no seio da mãe natureza e extasiada se deixa embalar pelo sinfonia do amanhecer produzida por inúmeras gargantas.

Mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Pelo contrário, a água que eu lhe der se tornará nele
uma fonte de água a jorrar para a Vida Eterna. (João 4:14)

Navegava embalado por este mágico concerto e benzido por um chuvisqueiro constante que, embora prejudicasse a tomada de imagens, arrefecia meu corpo que procurava manter aquecido picando a voga inter­mitentemente.

Por volta das 07h50, passei pela bela Serra Grande, na margem esquerda à montante da Ilha Santarenzinho, avistando a cachoeira do Véu de Noiva. A Serra possui uma vegetação arbórea densa e diversificada, orquídeas, bromélias e uma fauna variada. Neste período, das chuvas, a região se transfigura gerando inúmeras cachoeiras e piscinas naturais.

Das 09h05 às 09h20, golpeou-nos uma chuva e vento forte na passagem pela margem Oriental da Ilha Santarenzinho. Busquei abrigo do vento acostando na margem esquerda da ilha. Foi uma borrasca forte e rápida e a única dificuldade gerada por ela foi a visibilidade que caiu para uns 200 metros.

A navegação continuava muito tranquila e, às 11h00, passei pela Foz do Rio Mucajaí debaixo de um refrescante e constante chuvisqueiro. Aportei para me alimentar no sítio Beijo do Sol, depois de remar 60 km, ao meio-dia, os encarregados chegaram, logo depois, e foram bastante gentis. Conversando com os mesmos indaguei à respeito da cachoeira do Véu da Noiva e ambos afirmaram desconhecer sua existência. Na minha primeira descida, em 2018, pelo Rio Solimões, verifiquei que os ribeirinhos só se afastavam de sua sede uns dez quilômetros à montante e à jusante e só se atreviam a alongar suas jornadas em casos emergenciais.

Depois do meio dia, comecei a focar minha aten­ção no entorno com o objetivo de achar um local ideal para acampamento. A distância entre Boa vista e Cara­caraí girava em torno dos 140 km e eu precisava encon­trar um acampamento a meio caminho.

Rumei, então para a Ilha S. Vicente, exatamente a meio caminho de Caracaraí. As diversas instalações de pescadores e turistas estavam vazias e não achei conveniente pernoitar, sem a devida autorização, na varanda de alguma delas. Continuava colado na mar­gem esquerda sondando os pesqueiros quando, já ul­trapassando a ponta Norte da Ilha S. Vicente, decidi voltar a proa para o extremo de Montante dela onde ti­nha avistado, de longe, algo que parecia ser um telhei­ro. Tive de picar a voga, pois estava na mesma Latitude da construção. Novamente não encontrando ninguém, resolvi acantonar assim mesmo. O céu estava carrega­do e eu precisava de um abrigo seco e protegido para montar a barraca. Concluí a operação às 14h30 e de­pois de um “simulacro” de banho, hidratação e alimen­tação deitei um pouco para descansar.

Acampamento na Ilha de S. Vicente (12.08.2019)

Sapal
(Fátima Vivas)

Eu sou margem.
Eu sou rio.
Eu sou espuma de oceano.
Não me cavalga o navio.
Não me doma, nem o Estio.
Não conheço qualquer amo.
Sou selvagem.
Sou salgado.
Sou quem sou, por meu direito.
Neste meu chão que é sagrado,
Há ninhos por todo o lado
E a nenhum deles enjeito.
Lanço meus braços ao vento
E as marés dançam comigo.
Sou santuário e sustento.
Sou paisagem.
Sou abrigo.

Por volta das 16h00, caiu forte pé d’água acom­panhado de um vendaval que durou até às 16h30. De­pois disso, a chuva amainou e continuou noite afora. O telheiro foi providencial, graças a ele, apesar da chuva e da dificuldade em achar locais secos para acampar neste inverno amazônico (período das chuvas no Hemisfério Norte), lembrei-me da poetisa lusa Fátima Vivas.

Dieta Espartana

O Coronel Ivan Carlos Gindri Angonese indagou-me à respeito da dieta e respondi-lhe:

Na alvorada como 5 bananas e, durante o percurso, castanhas do Pará. Tenho estoque de castanhas de caju, avelãs, frutas cristalizadas e uma mistura especial, que estou guardando para quando precisar de mais energia ‒ proteínas, vitaminas, granola especial, frutas cristalizadas, leite em pó e cacau 60%.

Total 1° Dia ‒ Ponte dos Macuxis / AC 01 =   69,0 km

Por Hiram Reis e Silva (*), Bagé, 25.01.2023 – um Canoeiro eternamente em busca da Terceira Margem.

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;   

  • Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)
  • Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);
  • Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);
  • Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);
  • Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)
  • Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);
  • Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);
  • Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);
  • Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)
  • Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);
  • Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)
  • Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).
  • Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).
  • E-mail: hiramrsilva@gmail.com

NOTA – A equipe do EcoAmazônia esclarece que o conteúdo e as opiniões expressas nas postagens são de responsabilidade do (s) autor (es) e não refletem, necessariamente, a opinião deste ‘site”, são postados em respeito a pluralidade de ideias. 

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